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Os sofrimentos e as alegrias de ET

O vendedor de bilhetes de loteria mais famoso de Barra Bonita conta como chegou na cidade, como ganhou seu apelido, o que pensa sobre as drogas e como lida com seus problemas familiares

“Não adianta pensar em colocar uma corda em volta do pescoço. Se todos nós resolvermos pensar assim, estaremos perdidos, não é?”, diz ET, o homem com um dos bordões mais conhecidos de Barra Bonita

Por Lucas Scaliza (entrevista originalmente veiculada em Jornal Expresso Tietê nº1002)

ET é um dos rostos mais conhecidos de Barra Bonita, embora pouquíssima gente saiba que seu nome verdadeiro é José Alves dos Santos. Quem circula pelas ruas do Centro da cidade identifica facilmente na multidão seu chapéu cata-ovo e seu bordão mais conhecido – “Ó o veado!” –, que era pronunciado sempre que ET vendia bilhetes da loteria Federal queria chamar a atenção de seus clientes. É claro que um bordão tão característico e com potencial ofensivo tão grande quase lhe meteu em grandes confusões. Por causa do Jogo do Bicho, porém, ele já levou uma dura das autoridades policiais e jura que não trabalha mais com esse jogo. Diz ele que agora só vende bilhetes de loteria federal permitidos por lei.

José Alves dos Santos, 55 anos, nasceu em Mirandópolis, interior de São Paulo, e mudou-se para Santo André logo após completar seu primeiro ano de vida. É filho de um pai pernambucana e de uma mãe alagoana, de quem herdou um jeito de falar bem rápido (característico de algumas regiões do Nordeste) e um par de olhos verdes claros que sempre foram bem elogiados pelas mulheres, ele diz. Aprendeu o ofício da marcenaria e trabalhou em grandes empresas automobilísticas, como Mercedes, Scania, Ford e General Motors.

Saiu da casa dos pais aos 26 anos, quando se casou com Sônia Ferreira da Veiga Santos. Com ela teve três filhos, Douglas (27 anos), Rafael (26) e Daiana (22). Por causa dos sérios problemas de saúde de sua esposa, ET precisou parar de trabalhar. Por quatro anos a família viveu no limite da necessidade, que culminou com a morte de Sônia aos 27 anos. Sem desistir da vida, ET criou os três filhos e arranjou um meio de sair da miséria em que estava.

Já trabalhando como bilheteiro – profissão que ET adora –, mudou-se para Barra Bonita em 1995 junto dos filhos. Seu espírito divide-se entre uma fé inabalável na vida, o que lhe garante muita felicidade, e os sofrimentos familiares, como a prisão de seus dois filhos mais velhos (atualmente retidos nas cadeias de Balbinos e Valparaíso). Embora o assunto não seja fácil, ET mostra que está bastante resolvido quanto a isso e fala como um pai que não deixa de acreditar na solução dos problemas.

Durante uma hora e meia de entrevista, ET falou de suas alegrias e tristezas, contou como se tornou um bilheteiro e como lidou com a morte da esposa. Também falou de música, cinema, televisão e sobre as drogas, um problema que ele conheceu bem de perto por causa dos filhos. No final das contas, ele está muito longe de ser um extraterrestre como diz seu apelido e parece-se mais com um cidadão que precisa vencer na vida todos os dias, sem pensar em desistir em nenhum momento.

José Alves dos Santos, o ET, aos 21 anos. Foto retirada de sua carteira de reservista do Exército brasileiro

Por que seu apelido é ET?

[Risos] Desde que cheguei em Barra Bonita, sempre tive vontade de ir pescar no Mato Grosso. E atenderam o meu pedido de tanto eu insistir. Chegando lá e encontrei muitos borrachudos e fiquei com o pessoal numa pousada. No meio do pessoal um colega meu chamado Amaury me chamou de ET. Esse apelido pegou e foi se espalhando bem rápido. Gosto dele, temos até um jornal na cidade chamado ET!

Mas por que seu amigo te chamou de ET?

Não sei bem. Acho que ele me achou feio demais, mas o que manda é o charme! [risos] Às vezes ligam pra mim e perguntam: “Onde você está, ET?” E eu respondo: “Estou em Marte, porque é só lá que um ET pode estar!”

Muita gente já fez alguma ligação entre o seu apelido e o Jornal ET?

Já sim. Sempre me perguntam se o Jornal ET é meu. Às vezes eu brinco dizendo: “Vai me ver hoje, hein? Está lendo o ET”. Todo mundo quer ver o ET, não é?

O senhor nasceu em Mirandópolis. Viveu muito tempo por lá?

Nasci em Mirandópolis, mas me mudei com apenas um ano de idade para Santo André. Só fui conhecer Mirandópolis depois de 33 anos. Já trabalhei como servente de pedreiro, cortador de cana e como marceneiro em várias indústrias automobilísticas, como Mercedes, Scania, Ford, todas em São Bernardo do Campo, e na General Motors de São Caetano do Sul. Naquela época esse ramo era bom de emprego, principalmente para quem já tinha alguma experiência em outras metalúrgicas.

“Eu fui candidato a vereador de Barra Bonita em 2004, mas pretendo concorrer a prefeitura qualquer dia. E já tenho até um vice. Quero subir até o galho mais alto de uma vez”

Foi difícil aprender o serviço nessas indústrias?

Não, pois desde moleque eu trabalhava em fábrica de móveis até conseguir um emprego na Villares, onde sempre mexi com madeira. Foi um cunhado meu que arranjou serviço pra mim na Mercedes, onde virei marceneiro de produção. A marcenaria era a minha profissão, mas agora sou bilheteiro, [risos] meu trabalho é vender papel. Arrumei meu primeiro emprego com 13 anos e acho que está errado permitir que a moçada só comece a trabalhar com 16.

O senhor queria ou precisava trabalhar aos 13 anos?

Eu queria e precisava, porque antigamente era muito difícil conseguir as coisas. Hoje está fácil demais e os jovens não dão valor para cada conquista. Posso falar francamente? Meus dois filhos que achei que estavam trabalhando entraram num caminho errado e estão presos agora. Não tenho problemas em falar nisso, muitos já sabem. Agora eles pagam pelo que fizeram.

Como era o seu relacionamento com seus pais?

Meu pai era pernambucano e minha mãe era alagoana, e eu tinha um bom relacionamento com os dois. Meu pai era analfabeto, mas homem igual a ele nunca existiu. Era muito educado, não ficava nervoso e era inteligente. Hoje está difícil para um pai criar os filhos. Não falo por todos, mas por boa parte dos pais. Essa coisa das drogas está por todo lado, a situação está complicadíssima.

O senhor conheceu o presidente Lula na época em que trabalhava nas metalúrgicas?

Conheci o Lula sim. Ele falava pra gente entrar em greve e depois dizia que era pra gente voltar a trabalhar. Mas em cada uma dessas os trabalhadores tomavam muito prejuízo. É por isso que muitos metalúrgicos da Grande São Paulo não votam nele.

Estamos chegando ao fim de oito anos de governo Lula. Acha que a situação da população melhorou?

Não sou fã do Lula, mas também não reclamo da vida. Dou meus pulos por aí, trabalho direitinho e está tudo certo. E nunca nenhum político vai conseguir agradar a todos. Hoje PT e Lula são a mesma coisa. Dizer que é PT é como dizer que é Lula.

O senhor já pensou em entrar para a política?

Eu fui candidato a vereador de Barra Bonita em 2004, mas pretendo concorrer a prefeitura qualquer dia. E já tenho até um vice, o Terra Branca. Quero subir até o galho mais alto de uma vez. Fui candidato pelo PV e fiz 30 votos, mais votos do que o padre Mário precisava para ganhar naquela eleição pra prefeito! [Na contagem de votos absolutos, padre Mário fez 25 votos a menos que Dimas de Sales Paiva em 2004]

O que faria pela cidade se fosse eleito prefeito?

Tentaria encontrar um terreno onde pudesse instalar uma escola e uma fábrica de sapatos, bolsas e o que mais couber nele, com isenção de impostos e tudo o mais. Seria um lugar onde tentaríamos ajudar todo mundo. Emprego é o mais importante agora, porque quem tem condições manda os filhos estudarem fora da cidade e eles acabam tendo que arrumar um trabalho fora daqui também. E aí a família começa a se separar.

“Sou bom em vender bilhetes e me considero um artista nesse ramo. Faço o que gosto e não quero outra ocupação. Só vou largar esse ofício quando não puder mais trabalhar. Quer coisa melhor do que vender papel?”

Faz 15 anos que o senhor mora aqui. O que essa cidade tem que o conquistou? Ou não gosta da cidade?

Gosto da cidade sim, senão já teria ido embora. Faço amigos facilmente em qualquer lugar e sempre dou um jeito de arrumar emprego, tanto faz a cidade. Mas gostei da Barra e me acostumei com ela. Quando me mudei pra cá o movimento na cidade era bem maior, o turismo era maior. Aqui é bem fácil de se fazer amizades e posso dizer que não tenho inimigos.

Como o senhor começou a vender bilhetes de loteria?

Comecei a exercer a profissão logo depois que minha mulher faleceu. Tinha três filhos pequenos para criar e morava em Mogi Guaçu, onde minha mãe me ajudava a cuidar deles. Mas ela estava cada vez mais doente. Então eu comprei umas raspadinhas para vender. Comecei a perceber que esses jogos interessavam às pessoas e que elas pagavam por isso. Das raspadinhas passei para os bilhetes de loteria e virei bilheteiro.

E vende bem em Barra Bonita?

Vendo fácil, acho que é por causa do meu jeito cara de pau. Eu sou bom em vender bilhetes e me considero um artista nesse ramo. Tem gente que me chama de carrapato, porque enquanto o peão não compra meu bilhete eu não desgrudo dele. Faço o que gosto e não quero outra ocupação. Só vou largar esse ofício quando não puder mais trabalhar. Quer coisa melhor do que vender papel? [risos]

O senhor vende quantos bilhetes por mês?

Ah, não sei se vale falar… Por semana, acho que vendo uns 100 bilhetes inteiros. Não, vendo uns 80 bilhetes por semana, vai. Isso varia muito. Trabalho com a Mega Sena e os sorteios da Loteria Federal atualmente. Saio vendendo gritando “Ó a cobra! Ó o veado!”

O senhor também já vendeu Jogo do Bicho, não é?

Vendi sim, mas parei. Um dia eu estava vendendo o Jogo do Bicho e uns policiais me abordaram, dizendo que aquela atividade era contraversão. Eu já sabia disso e, para não ter mais problemas com a polícia, resolvi parar de vender. Porém eu ganhava mais dinheiro no meu serviço permitido por lei do que no Bicho. Mas o pessoal que comprava o Bicho comigo acostumou e continuou me procurando para jogar, mesmo depois de eu ter parado.

Os jargões que o senhor usa para vender bilhetes, como “Ó o veado” ou “Ó o touro”, já lhe causaram alguma confusão?

Às vezes quem não me conhece acha que estou provocando quando grito “Ó o veado” ou “Ó a vaca”. Várias pessoas já me disseram que ficaram com vontade de me bater por causa disso, mas sempre brinco dizendo que estava falando da vaca da minha sogra. Às vezes grito “Ó o touro”, depois completo: “Porque o homem sem chifre fica indefeso” [risos] Uma vez passou uma mulher, o namorado e o cachorro perto de mim, aí mandei: “Ó o veado, o cachorro e a vaca”, mas eu estava mesmo com os bilhetes do veado, cachorro e vaca na mão. Até mesmo a molecada que passa perto de mim já mexe comigo, gritando “Ó o veado” também.

O senhor também aposta na loteria?

Aposto em um bocado de jogos da loteria. Inclusive várias pessoas já ganharam depois de comprar meus bilhetes. Quando isso acontece, alguns me dão um troquinho, outros não. Até eu já fui premiado!

Dá pra viver bem com essa profissão?

Não sei se dá para ter uma boa vida com todos os problemas que tenho. Não me falta nada, mas também não tenho luxos. Atualmente eu ajudo também minha filha e três netos, que estão morando comigo. Não sou aposentado e acho que só vou me aposentar na Avenida da Saudade [onde fica o Cemitério Municipal], porque lá é definitivo. Ano que vem eu penso em voltar a pagar minha aposentadoria particular e ver como é que fica.

“Às vezes quem não me conhece acha que estou provocando quando grito ‘Ó o veado’ ou ‘Ó a vaca’. Várias pessoas já me disseram que ficaram com vontade de me bater por causa disso”

Como o senhor conheceu a sua esposa?

Foi na época em que eu trabalhava na Mercedes, eu era mais novo e bonito. Trabalhava até às 15 horas, depois ia para casa, arrumava uns panos e ia para a Mooca em São Paulo. Bati o olho nela e gostei do que vi – e até que não foi difícil conquistá-la. Sabe, me aconteceu algo curioso nessa história. Antes de encontrar a minha esposa, eu estava com uma mulher chamada Francisca e não quis me casar com ela só por causa do nome. Agora veja como é o destino: depois que minha esposa faleceu, arrumei outra mulher. Qual o nome dela? Francisca! [risos] É destino. Nem eu sei o que tinha contra o nome Francisca.

O seu casamento durou 10 anos. Foi uma experiência boa?

Foi boa, mas sofremos bastante. Antes de nascer nosso primeiro filho, perdemos cinco crianças [de aborto espontâneo]. E era muito difícil ter um bom atendimento médico na época. Quem não tivesse cartão do INPS não era atendido em nenhum hospital. Hoje é diferente, pois todos os hospitais são obrigados a atender quem precisa. Enfim, minha mulher fez uma simples consulta em São Paulo, se tratou com um remédio barato e sarou do problema. Aí nasceram todos os nossos filhos normalmente. Mas a situação foi se complicando, porque minha mulher ficava cada vez mais doente e até tive que parar de trabalhar para cuidar dos filhos. O pouco que tinha eu perdi. Tive até mesmo que vender a minha casa própria. A situação crítica durou uns quatro anos.

Como vocês faziam para sobreviver?

Alguém sempre uma ajudava e eu tentava fazer uns bicos. Hoje estou na santa paz, graças a Deus. Mas nesses casos não adianta se desesperar, pois para todos os problemas sempre há uma solução. Não adianta pensar em colocar uma corda em volta do pescoço. Se todos nós resolvermos pensar assim, estaremos perdidos, não é?

Já precisou pedir ajuda para desconhecidos?

Pedi sim, e ter que fazer isso cortava meu coração. É duro você ter filhos e não ter nem um pedaço de pão. Não tem como você não se sentir mal numa situação dessas. Minha mulher fez duas cirurgias no coração. Ela levou oito meses para se recuperar da primeira e precisou fazer a segunda em menos de um ano após a primeira. A gente dependia dos remédios do Posto de Saúde e sempre nos davam os mais baratinhos. Cheguei a ver meu filho ficar doente por causa de um pastel e já precisei penhorar um liquidificador para comprar remédio. Mas a vida é isso aí. O importante é não se desesperar e sempre se levantar quando estiver no chão.

“É duro você ter filhos e não ter nem um pedaço de pão. Cheguei a ver meu filho ficar doente por causa de um pastel e já precisei penhorar um liquidificador para comprar remédio”

Depois de viver uma situação crítica por quatro anos, como foi encarar a morte da esposa?

Foi triste. Estávamos vivendo bem aquela época dos juros altos do governo Sarney e precisei vender todos os meus móveis para ter algum dinheiro. Depois que ela morreu nem as nossas fotos eu guardei, destruí todas. Perdi minha mulher muito nova, foi um choque, tínhamos três crianças que mal a conheceram, mas o que é que eu ia fazer?

O senhor disse que dois filhos seus estão presos e se envolveram com drogas. O senhor demorou a perceber o que estava acontecendo?

Não demorou muito, embora o pai seja sempre o último a saber das coisas. Eles começaram a sair e voltar pra casa muito tarde da noite, e quem faz muito isso é porque com boa coisa não deve estar envolvido. Depois que entram nesse mundo, é difícil voltar.

Mas não tentou aconselhá-los?

Mais conselhos do que eu já dei? Falei muito com eles. Por causa das drogas eles até chegaram a mexer nas coisas dos outros, mas que eu saiba nunca mexeram em coisas minhas.

E como o senhor se sente vivendo essa situação?

Sinto-me envergonhado. Não era para ser assim. Quando vou visitá-los na prisão eles dizem que querem sair de lá, trabalhar e me ajudar. Mas não sei, não. Acho que eles saem e entram de novo no problema. Um deles parece que realmente mudou, agora vamos ver no que vai dar. Já disse pra eles que desse jeito a vida só tem dois caminhos: a morte ou a cadeia para o resto da vida.

O senhor acha que é possível mudar?

Vou pedir pra Deus e Ele é que vai falar com os dois. Eu quero morrer em paz, quero vê-los fora dessa vida, trabalhando honestamente e cuidando de suas famílias. A vida não é um mar de rosas, sabia? E tem muitos filhinhos de papai por aí que tem tudo o que querem e também fazem seus pais passarem vergonha. A pessoa que quer ser decente tem que ser decente por ela mesma. E devemos perdoar sempre, fazer 10 vezes o bem que alguém faz pra gente.

O senhor é religioso?

Eu acredito em Deus, mas não frequento nenhuma igreja. Eu diria que sou católico, mas católico de verdade é aquele que vai a missa todos os domingos, não aqueles que como eu só entraram numa igreja para casar e batizar os filhos. [risos] Quando preciso pedir alguma coisa, procuro Deus. Peço muito para Ele me dar saúde para que eu possa continuar cuidando dos meus filhos, porque eles precisam muito de mim.

“É muito ruim para um pai ou para uma mãe ter de ver um filho seu atrás das grades. Eu nunca tinha visto uma cadeia de perto e, quando vi, descobri que viver numa cela é uma situação crítica, companheiro”

Qual é a sua maior preocupação hoje?

Eu queria que meus filhos saíssem da situação em que estão. É muito ruim para um pai ou para uma mãe ter de ver um filho seu atrás das grades. Eu nunca tinha visto uma cadeia de perto e quando vi descobri que viver numa cela é uma situação crítica, companheiro. Como é que 10 ou 12 homens conseguem viver juntos dentro de um espaço tão pequeno?

Mesmo com todos esses problemas o senhor sempre parece estar alegre.

Tento me manter feliz, preciso tocar minha vida. Se eu arriar, estou perdido. Às vezes acordo no meio da madrugada e não consigo mais fechar os olhos, fico pensando nos problemas. Mas graças a Deus me levanto no dia seguinte sabendo que preciso continuar a vida.

O senhor já experimentou alguma droga?

Não, nunca. Quando eu era jovem sempre saía com um ou dois colegas, mais do que isso não. E andava com quem não usava essas coisas. Antes tínhamos pouca droga disponível, e as mais acessíveis eram maconha e cocaína. Hoje tem muita droga e tem de tudo. As companhias que escolhemos ajudam a entrar nas drogas. Quando saio a noite vejo a molecada se enchendo de pinga com Coca-Cola, porque o álcool também é uma droga. As drogas que eu uso são cerveja e cigarro, de vez em quando peço uma caipirinha.

O senhor acha que a família está diferente agora? Acha que os filhos não ouvem mais os pais e os pais não servem mais de exemplo para eles?

Mudou demais. Antigamente a família toda se reunia para almoçar na casa de um pai, de um tio ou tia. Todos comiam juntos. Hoje cada um almoça num horário, um come na cozinha, outro no quarto e outro na sala. Ninguém mais pede a benção para os pais ou avós e nem pedem licença. Agora dois irmãos vivem brigando dentro de casa por qualquer motivo, mas com qualquer outra pessoa se dão bem. Acabou a união da família! Acho que antigamente existia mais respeito e mais amor entre as pessoas. É só ver como os casamentos não duram mais nada hoje.

O que o senhor gosta de ver na televisão?

Gosto de assistir aos telejornais principalmente. Não vejo novelas, tenho ódio delas. É tudo enrolação e fantasia! Filmes do Rambo eu também nunca vou assistir, porque eu sei que ele vai acabar matando todo mundo mesmo! Mas gosto de filmes de comédia!

Que filme o senhor viu recentemente e gostou?

Tem um chamado O Vingador da Noite que eu gostei muito. Não vou te contar o final porque acho isso chato, mas é um filme que você não faz ideia do que vai acontecer até ele terminar. É emocionante e eu quase chorei.

E de que tipo de música o senhor gosta?

Gosto de música sertaneja, aquela antiga de raiz mesmo. Ouço Chitãzinho e Xororó, Liu e Léu, Lourenço e Lourival, Teodoro e Sampaio, Belmonte e Amarai, Caminhoneiro e Rei da Estrada, esses artistas. Acho que os cantores atuais mudaram muito o sertanejo. Luan Santana e Guilherme e Santiago não são do meu feitio. Ligo direto nas rádios da cidade pedindo música.

Conseguiu estudar?

Estudei até a quarta série do primário [ensino fundamental], mas vou te contar o seguinte: sei mais do que muita gente que terminou o ginásio. Antigamente a gente só passava de ano se realmente soubesse. Pode me perguntar qualquer tabuada que eu te respondo na hora, não preciso nem de calculadora. Minha mente é boa! Hoje o pessoal é ruim pra isso, devem errar a conta até se usarem a calculadora. E minha caligrafia é boa, não erro no português. Se eu tivesse condições na época, teria estudado mais.

Mas gostava de estudar?

Pra falar a verdade eu não gostava. Até matava umas aulinhas para roubar goiabas das chácaras, caçar coelhos ou pardais. Coisas de moleque.

“Quando eu era jovem, além dos olhos verdes, eu tinha cabelo comprido até o ombro, era bonito. Também me perguntam como é que eu fico com tanta mulher mesmo sendo banguela, mas a resposta é simples: se mulher gostasse de dentes todo mundo saía com uma dentadura pendurada no pescoço!”

Se o senhor pudesse escolher uma profissão para exercer, qual seria?

Queria ser ferramenteiro. Conheci uma escola particular que formava pessoas nisso, mas era muito cara. Acabei trabalhando com marcenaria e em metalúrgicas mesmo.

Para que time o ET torce?

Torço para o Corinthians. Eu era fanático pelo time, não perdia um jogo. Dava gosto de ver! Conhecia o Morumbi inteirinho, numa época em que ele abrigou 140 mil pessoas. Hoje não cabem nem 90 mil dentro dele. Hoje torço pelo time, mas não sou fanático.

O senhor era namorador quando era mais jovem?

Quando era mais jovem? Até hoje sou conquistador! Eu chego e pergunto: “E aí? Vamos dar uma namoradinha?” Antes eu era meio tímido, mandava bilhetes ou mandava uma mensagem nos alto-falantes dos parques.

Era mais difícil sair com uma mulher antigamente?

Ah, hoje está uma moleza sair com a mulherada.

Os seus olhos são verdes claros. As mulheres elogiam?

Tem gente que fala pra mim: “Mas que olhos bonitos, hein ET?” E eu respondo: “Ah, mas não são só os olhos, o resto todo também é bonito!” [risos] Quando eu era jovem, além dos olhos verdes, eu tinha cabelo comprido até o ombro, era bonito. Agora nem penteio mais o cabelo, porque com esse chapéu cata-ovo que usou ele quase não aparece mais. Também me perguntam como é que eu fico com tanta mulher mesmo sendo banguela, mas a resposta é simples: se mulher gostasse de dentes todo mundo saía com uma dentadura pendurada no pescoço! [risos]

O que o senhor acha que é a maior perdição para o homem atualmente? Drogas, mulheres, dinheiro, futebol…

Acho que é um pouco de cada coisa. Começa com a mulher, porque tem cara por aí que é ciumento demais e se perde fácil por causa dela. Mas a maior perdição do homem hoje é o dinheiro, a ganância. Hoje tudo é dinheiro e todos os interesses giram em torno disso. E a situação vai ficar cada vez pior.

Que o sonho o senhor ainda quer realizar?

Queria ter condições de comprar uma casa para cada filho meu e depois eles que decidam o que fazer com elas. Seria isso, para que eles pelo menos saíssem do aluguel. Para mim não quero mais nada!

Nem se casar novamente?

Casar pra que se eu tenho um monte de namoradas? [risos]

ET começou a vender bilhetes da loteria federal após a morte de sua esposa, em 1991. Ele também joga e diz que já ganhou algumas vezes