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A vida real num comic book

Em Anti-herói Americano Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar e nem salvar o mundo. Na verdade, ele vive tentando salvar a si mesmo

Por Alice P. Wakai (lice_watashi@hotmail.com)

Paul Giamatti interpreta Harvey Pekar, americano que vai seguindo com a vida, sem grandes heroísmos

Harvey Pekar (Paul Giamatti) é um arquivador de documentos que trabalha num hospital em Clevand. Passa as horas livres ouvindo LP’s raros que compra nos brechós, lendo literatura ou escrevendo artigos sobre jazz. Entediado com a rotina medíocre do emprego, frustrado com os dois casamentos fracassados e sofrendo de problemas de garganta, ele conhece Robert Crumb* – um ilustrador de quadrinhos talentoso que visita os mesmos bazares baratos que Harvey. Com muito jazz e revistas em quadrinho em comum, os dois logo se tornam amigos e Crumb começa a frequentar a casa de Pekar. Entre um diálogo e outro, Harvey tem o insight que mudará sua vida: resolve se tornar um escritor de histórias em quadrinhos do seu próprio cotidiano.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia, cria personagens baseadas nas pessoas bizarras com quem convive no trabalho ou simplesmente ironiza situações que presencia dentro do ônibus. Crumb (interpretado por James Urbaniak) lê os textos e resolve criar uma revista em quadrinhos, a American Splendor, publicada pela primeira vez em 1976, e que vira um verdadeiro sucesso de crítica e público.

Harvey torna-se celebridade, participa de programas de auditório na TV, sessões de autógrafos na livraria, as pessoas o reconhecem na rua… No entanto continua absorto, mergulhado em seu mundo solitário. É nesse momento que conhece a mulher de sua vida, Joyce Brabner, também amante de quadrinhos, com quem logo se casa, depois de fazê-la vomitar com seu beijo.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia

Harvey Pekar é, de fato, o “anti-herói americano”: tem uma vida pouco luxuosa e bem diferente do “american way of life”. Ele representa a classe média baixa dos Estados Unidos: suporta um emprego mediano apenas pela comodidade e pelo plano de previdência, e acha-se um “estorvo social”.

Por se tratar de um personagem real (o próprio Harvey Pekar aparece no filme), o Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade, e além disso tem uma edição bacana que evoca sempre a página de um “comic book”, com margens, enquadramentos, letreiros chamativos e desenhos caricatos.

Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade

American Splendor se insere na década 70, período “underground” das revistas em quadrinhos, que eram vendidas em head shops e de mão em mão. Crumb, os Freak Brothers de Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, Victor Moscoso, Bill Griffin estão entre os mais conhecidos da época.

Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar, nem salvar o mundo. Na verdade ele vive tentando salvar a si mesmo. Representa a luta pela sobrevivência social, pela visibilidade (que  não necessariamente leva à felicidade). Como diz o próprio Harvey Pekar no começo do filme “Se você é o tipo de pessoa que procura por romance, escapismo ou fantasia pra salvar o dia, você pegou o filme errado”.

A ótima direção de Robert Pulcini e Shari Springer Berman aliada à brilhante interpretação de Paul Giamatti e excentricidade de Harvey Pekar garantem um bom filme.

*Robert Crumb é um famoso jornalista e quadrinista norte-americano que vive na França atualmente. Autor de várias histórias curtas e alguns livros, lançou a graphic novel Gênesis em 2009, publicado no Brasil pela Conrad. Vez ou outra, a revista Piauí publica algumas de suas histórias curtas. Crumb vem ao Brasil este ano para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

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