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Carregado por nossos sentimentos

Max e Carol: amizade, destrutividade e amadurecimento

Sobre monstros, infância e autoconhecimento

Logo na primeira cena de Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009) vemos uma perseguição: o protagonista Max, de 9 anos, vestido em uma roupa de lobo persegue seu próprio cachorro. Quando o título do filme aparece na tela, vemos um still (imagem congelada) de um Max selvagem numa furiosa briga com seu bichinho de estimação. Ali, o cão é menos selvagem que seu dono, mesmo que ele esteja apenas brincando.

Dirigido por Spike Jonze, o mesmo que dirigiu os ótimos Quero Ser John Malkovich e Adaptação, a partir do livro infantil homônimo de Maurice Sendak publicado em 1963, o resultado final é um filme que olha a infância a partir do caso específico de Max, mas é pesado demais para crianças. Como já era esperado – e como já virou praxe nesse tipo de produção – o filme mira mesmo é no público adulto.

Depois de ter atitudes bastante impulsivas e mesquinhas com sua mãe, Max acaba mordendo-a. Sabendo que aquilo foi um erro, e sentindo que havia criado uma situação realmente difícil de lidar, resolve fugir ao invés de encarar o problema. O garoto acaba indo parar numa ilha cheia de monstros grandes e peludos, com personalidades bastante diferentes: a impulsividade e ingenuidade de Carol, a avareza e a carência do bode Alexander, o companheirismo de Douglas, a agressividade e inveja de Judith, o bem intencionado Ira e a calma do Touro. Todas essas personalidades são um reflexo da própria identidade de Max. Apenas a monstra KW representa um sentimento externo a ele, a proteção e o discernimento maternos.

Quando Max os encontra, o grandalhão Carol está destruindo todas as casas (espécies de ocas feitas de gravetos) dos monstros. Max é aceito como o rei daquele grupo depois de falar sobre seus supostos poderes e consegue reunir o grupo de novo. Mas novos problemas virão e antigos conflitos mal solucionados continuarão assombrando todos eles. Max tentará ajudar como pode, mas nem sempre seus métodos são maduros o suficiente para encarar a personalidade de cada bicho felpudo que vive na ilha.

Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens

Onde Vivem os Monstros não é um road movie como Diários de Motocicleta, mas Max está numa pequena e singela jornada que vai terminar levando-o ao autoconhecimento a partir do enfrentamento de sua própria personalidade, fragmentada em cada monstro.

O monstro com quem Max mais se identifica é com Carol, não por acaso o monstro que mais guarda semelhanças com o garoto. A energia, a destrutividade, a facilidade para se decepcionar e se magoar com os outros e a impulsividade para lidar com isso sem antes tentar compreender são traços de (falta de) maturidade que vemos em ambos. Na cena em que Carol leva Max nas costas podemos facilmente dizer que o menino está sendo carregado por seus sentimentos.

Embora seja um filme de Spike Jonze, o roteiro não apresenta nenhuma maluquice habitual dos projetos do diretor (exceto, é claro, a própria estranheza da história sobre um menino que conhece alguns monstros numa ilha). Dessa vez ele optou por uma história linear, sem grandes relativizações do ponto de vista narrativo. Mas não se engane: ele não se preocupa em explicar tudo ao espectador. Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens.

Todos os monstros foram feitos com bonecos reais, interpretados por atores profissionais, mas suas vozes não correspondem aos atores que os interpretaram em cena. Aliás, as suas grandes bocas mexem-se com perfeição durante a fala, cortesia de um belo trabalho de efeitos visuais que quase passa desapercebido tamanha a naturalidade dos movimentos.

O filme é uma história bonita e um pouco triste, é verdade, sobre coisas tão complicadas quanto nosso convívio familiar, nossa personalidade, nossos sentimentos e a maturidade que não temos para certos tipos de situações. Mas Jonze acerta ao não tentar interpretar isso tudo para quem assiste ao filme, deixando para nós a situação no estado puro de sua arte, sem interferências da ciência – seja ela a psicologia de boteco ou a sociologia das universidades.

Cão come cão no Distrito 9

Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.

Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.

O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.

O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme

Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.

Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.

A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.

Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.

Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.

Deixe ela entrar

Texto de Lucas Scaliza

A vampira Eli e o frágil humano Oskar: uma relação de ternura e assombro
A vampira Eli e o frágil humano Oskar: uma relação de ternura e assombro

 

O filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original) está arrasando em festivais mundo a fora. Segundo o IMDB, a produção já ganhou 56 prêmios e foi nomeada para outras 11 categorias.

Mesmo sendo um filme de baixo orçamento, feito em um país do norte da Europa de onde poucas produções ganham fama mundial, Deixe ela Entrar conquista pela sensibilidade. Mesmo sendo um filme de vampiros, tema muito em voga atualmente, é na sensibilidade humana que o diretor Tomas Alfredson se concentra, dando soluções estéticas simples ao roteiro, mas conduzindo a narrativa sem apelar para clichês, nem sustos fáceis.

Na história, Oskar é um frágil menino de 12 anos constantemente atormentado por colegas da escola. Ele é incapaz de revidar às provocações, embora treine cotra-ataques e respostas em seu quarto. Um dia, Oskar conhece sua nova e estranha vizinha, Eli, uma menina que também tem 12 anos. Logo ficamos sabendo que ela é a vampira da história. Daí pra frente, Oskar vai deixá-la entrar em sua vida sem ficar assombrado pelo ser sobrenatural que ela é. E, da mesma forma, Eli aprenderá com Oskar que por trás de toda a sua sobrehumanidade está uma garota que pode amar, pode se importar ao mesmo tempo em que é, por natureza, uma assissna fria.

A crítica que fiz do filme, enfatizando mais aspectos artísticos e traçando comparações com outros filmes e diretores, pode ser vista aqui, na resenha publicada pela Revista Projeções, ou pode ser lida baixo.

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Ternura com assombro

 

Percebe-se, logo que começa a ser executado, que Deixe Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, no original) é um filme que aposta na – ou precisou prezar pela – economia. Não há grandes efeitos especiais, nem figurinos caros, locações famosas e até mesmo os créditos iniciais são sóbrios, limitando-se a exibir nomes em letras brancas sobre um fundo negro. É um pequeno filme sueco sobre vampiros, um tema da moda, feito com baixo orçamento, mas que não deixa a limitação financeira estragar seu brilho artístico e narrativo.

Na trama, o frágil Oskar (Kåre Hedebrant) é um garoto de 12 anos que sofre bullying de colegas de escola. Ele treina sozinho em casa, como quem fantasia uma cena, contra-ataques e respostas a seus algozes, mas nunca tem coragem para reagir. Paralelamente, a pequena cidade em que vive está preocupada com repentinos sumiços e mortes misteriosas na neve. Não demora muito para que ele conheça Eli (Lina Leandersson), garota que há muito tempo também tem 12 anos e acabara de se mudar para o apartamento ao lado do seu.

A partir daí, uma amizade e uma singela história de amor se inicia permeada de paradoxos: Oskar é frágil, Eli é uma vampira, com todas as habilidades que um ser desses possui; ele não revida, enquanto ela é capaz de matar sem demonstrar qualquer pesar; mas Oskar tem o coração aberto e Eli vai aprender a deixar que alguém invada o seu.

A direção de Tomas Alfredson não aposta em sustos fáceis e nem põe sua vampira para mostrar os caninos até o limite da banalização do ato, como já se cansou de ver em produções do gênero. Sempre acompanhada ou antecipada pela trilha sonora, Alfredson constrói cenas de suspense na mesma medida em que a ternura toma conta da tela.

Deixe Ela Entrar não é um desbunde visual. Não tem as cores de um Almodóvar, nem os enquadramentos espertos de um Wes Anderson e muito menos a produção de um blockbuster. Em compensação, usa muito bem os closes e os movimentos de câmera para criarem significados e darem intensidade ao texto. Chama à atenção as cenas em que Eli faz uma vítima e a câmera “corre” para focalizá-la bem de perto e nos fazer notar cada gota de sangue em seu rosto.

Nenhum dos atores no filme tem uma performance digna de nota. Embora os jovens que interpretem Oskar e Eli funcionem muito bem juntos, há uma economia de interpretação que poderia deixar a relação de seus personagens mais fria que a abundante neve da Suécia. Felizmente, o roteiro e a condução narrativa minimizam essa lacuna cênica.

O filme sueco acerta com simplicidade onde Crepúsculo patina. A franquia que teve origem nos livros de Stephenie Meyer teme ir longe demais e ameniza todas as atitudes de um vampiro, mesmo dos “malvados”. Deixe Ela Entrar já sai na frente por não tocar na moralidade de Eli. Se ela é boa ou má, não importa. O que interessa é que tipo de aproximação ela terá de Oskar e de outros humanos, cedendo ou não a sua natureza que se alimenta de sangue.

Crepúsculo também não consegue mostrar na tela a sexualidade juvenil de seus personagens com maturidade, fazendo a relação “morder e se tornar uma vampira” com a “perda da inocência” soar oca. Alfredson também conta uma história que possui esse teor, essa metáfora para a adolescência, mas está menos preocupado com a relação física e mais com o despertar do amor.

Sensibilidade é a palavra que define e diferencia Deixe Ela Entrar de outros “filmes de vampiro” recentes. Não há momentos de redenção e nem cenas de ação frenética. Tudo está em seu devido lugar e acontece em seu devido tempo, sem exageros. E, por mais complicado que possa parecer explicar, é com sensibilidade que a brutal cena final se desenha, causando não espanto no espectador, mas algum êxtase que esperávamos sentir desde o começo.

 

Deixe ela entrar 2

Trailer do filme.

Anticristo – psicanálise e sobrenatural

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Enquanto o casal faz sexo, o filho morre na sala ao lado
Enquanto o casal faz sexo, o filho morre na sala ao lado

Estreou ontem o novo filme do diretor dinamarquês Lars von Trier (mesmo diretor de Dogville e Manderlay) no Brasil. Anticristo (Antichrist, 2009), conta a história de um casal que perde o filho e passa a ter problemas. Na tentativa de enfrentrar os medos, inseguranças e a própria condição humana, o casal se refugia numa cabana em uma floresta chamada Éden.

O filme é todo dividido em capítulos e conforme eles avançam a relação do casal vai mudando, vai ficando mais sombria e mais dolorida. Embora o filme seja vendido como um terror, de terror mesmo há bem pouco. Não há sustos, nem bichos feios. Satã não dá as caras e a porção sobrenatural da história fica a critério de cada um decidir se existiu realmente ou foi tudo obra da mente do marido e sua mulher. Entretanto, há um clima de suspense e de que algo muito forte está acontecendo quase que durante o filme todo. A trilha sonora ajuda a pontuar esses momentos.

Psicanálise e sobrenatural se misturam neste filme de Lars von Trier, diretor de Dogville
Psicanálise e sobrenatural se misturam neste filme de Lars von Trier, diretor de Dogville

Algumas cenas são bem fortes. Há sexo explicíto, nudez, tortura com muito sangue entre outras atitudes bastante perversas de nossos protagonistas, Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Há uma vontade ali de chocar o espectador, de causar desconforto. Se você não gosta de sentir aflição, não assista.

Não é o melhor trabalho de Lars von Trier, como ele próprio disse que talvez fosse. Enfim, é um drama sobre relacionamento. Uma análise minha mais detalhada sobre o filme será publicada amanhã na Revista Projeções. Confiram.

Scarlett também canta

Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek
Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Logo, logo a atriz Scarlett Johansson lançará um álbum musical ao lado do músico Pete Yorn. Até um video clipe da dupla já foi liberado na internet. No entanto essa não será a primeira vez de Scarlett como cantora. Em 2008 a moça gravou Anywhere I Lay My Head interpretando 10 canções de Tom Waits e uma inédita que não é de autoria dele.

Hesitei muito em ouvir o álbum de Scarlett, já imaginando a bomba que vinha pela frente. Seriam músicas pop teen melosas? Será que ela acabaria com Tom Waits? Aliás, ela canta bem? Logo de cara o disco mostra que não veio brincando e não demorou muito até eu perceber que ali havia alguém que sabia o que estava fazendo.

Ela não tenta mostrar potência vocal, nem inventa firulas. Faz o básico e acerta, não se expõe em momento algum ao constrangedor. A banda que a acompanha é excelente e recriou todo o clima das músicas de Waits com esmero, apostando em climas viajantes. Scarlett e seu produtor David Sitek, da banda TV On The Radio, não regravaram tudo exatamente como eram os registros originais. Eles incorporaram novos elementos com propriedade e conseguiram fazer o álbum soar coeso.

O disco também conta com a participação de Nick Zinner, guitarrista da banda Yeah Yeah Yeahs e o guitarrista da Celebration, Sean Antanaitis. O cantor britânico David Bowie, 61, empresta sua voz a duas faixas do disco, “Falling Down” e “Fannin Street”. Você pode ouvir a íntegra do álbum aqui ou aqui.

Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn
Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn

Resenha faixa a faixa

Fawn – uma linda abertura que deve ter deixado o próprio Tom Waits feliz. Não teve medo de arriscar combinações agudas.

Town With No Cheer – No comeo quase não parece a Scarlett, clima soturno, onírico. Teclados, sintetizadores presentes.

Falling Down – É como se ela cantasse na segurança de uma redoma de vidro enquanto em volta um tornado rodopiasse. Destaque para a guitarra e o jogo dos vocais dobrados cantando o refrão.

Anywhere I Lay My Head – Reinventa sem medo. Imprime força e faz sua voz, que não é adocicada, ganhar força e destaque.

Fannin Street – Lenta, a percussão dá o tom. Belos arranjos vocais. Nada de pressa aqui, e ela acerta novamente.

Song For Jo – A música inédita do álbum. Não decepciona também e mantém-se, estilisticamente falando, em sintonia com o resto do disco.

Green Grass – Voz grave, não tenta subverter a canção, mas também não deixa de deixar impressa sua marca pessoal. Tudo em seu devido lugar e com bom gosto.

I Wish I Was In New Orleans – Quase uma canção de ninar. É o mais doce que ela chegou neste álbum.

I Don’t Wanna Grow Up – Dançante do começo ao fim. Podia cair na mãe de algum DJ e virar um hit em pistas de dança. Bem animada.

No One Knows I’m Gone – O que acontece quando você mistura os climas de Pink Floyd com Beirut e um vocal feminino que não tenta soar nem diva do soul, nem ídolo teen? Você tem uma bela canção.

Who Are You – Belo dueto e serve como síntese do álbum. Scarlett não tenta fazer mais do que sua voz permite, não cai em impressionismo tolos.

As cores da Björk ao vivo

Texto de Lucas Scaliza

Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)
Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)

Depois de lançar com enorme alarde seu último álbum de estúdio, Volta, Björk retorna com um registro ao vivo da turnê. Voltaic foi lançado em julho e contém dois sets de shows. O maior deles registra a apresentação da cantora islandesa em Paris quase no fim da turnê. O segundo, bem enxuto, foi gravado em Reykjavík e nos brinda com canções soturnas novas e antigas.

Depois da introdução com uma marcha nórdica, Björk logo faz o show em Paris explodir com a percussão étnica de “Earth Intruders”. Daí para frente segue-se uma seleção de grandes músicas de Volta e de álbuns anteriores, principalmente Homogenic, Vespertine e Medulla. Estão lá “Hunter”, “Hyperballad”, “Pluto”, “Army of Me”, “Bacherolette”, “Who Is It” e “Jóga”, como destaques entre as antigas. E “Declare Independence”, “Vertebrae by Vertebrae” e “Wanderlust”, entre as criações da última safra.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções

A cada turnê, Björk muda a composição de seu palco, isto é, as cores do show, os instrumentos que serão usados por sua “banda” e por seu coral. Muda também a sua atitude. Uma das belezas de ouvir – e de ver, pois Voltaic é um DVD duplo também – a islandesa de 43 anos ao vivo é reparar em como ela rearranja e quase recria suas músicas para novas configurações de instrumentos.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções. Desde os raios laser verdes até a roupa bufante rosada da artista central, e do macacão amarelo com riscas coloridas dos músicos do coral até as bandeiras com símbolos antigos no alto do palco, tudo tem sua força na produção. Em contraste com tudo isso está o clima às vezes depressivo das canções executadas.

Entretanto, a versão ao vivo do DVD é diferente da versão ao vivo do CD. Embora belo, o DVD com o show de Paris e Reykjavík não tem as superconhecidas (e exigidas pelo público, em certa medida) “Pagan Poetry” e “All is Full of Love”, o que o deixa com um certo vazio. Já o CD, gravado no Olympic Studios, traz uma apresentação menor, mas que contém essas duas faixas. Não tem jeito, para se satisfazer com o novo lançamento de Björk o consumidor terá que possuir tanto CD quanto DVD.

Veja abaixo um vídeo de Voltaic das músicas “Hyperballad” e “Pluto” e observe como o show vira uma balada pessoal de Björk.

Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m
Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m

 

Idosos e balões coloridos

Texto de Lucas Scaliza/Foto divulgação

Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo
Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo

Idosos e balões coloridos. Uma selva da América do Sul e um escoteiro determinado que quer uma relação paterna. Uma ave que come chocolate e cães falantes. Esses são alguns dos principais elementos que compõem UpAltas Aventuras, nova animação da Pixar em parceria com a Disney.

Depois do belo Wall-E, cujos 40 minutos iniciais ganharam facilmente o público e a crítica (e um Oscar), a expectativa com a próxima animação da Pixar tornou-se grande. O que eles iriam inventar agora? Que dilema humano mostrariam na tela? Conseguiriam superar Wall-E?

Quando os primeiros trailers chegaram à web o público ficou extasiado pelas cores e pela idéia de seus realizadores. Carl Fredricksen, um idoso de mais de 70 anos tem sua casa içada por milhares de balões. Faltavam o contexto em que isso aconteceria e qual seria o desenvolvimento dessa aventura.

Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir.

Desde criança, Carl era fascinado pelo aventureiro Charles Muntz e sonhava em ser como ele. Saindo do cinema e no caminho para casa encontra Ellie, uma garota ruiva que compartilha com nosso protagonista a admiração por Muntz e o sonho em viver uma aventura. O tempo passa, os dois se casam e envelhecem. É incrível como essa passagem de tempo e a relação entre os dois é passada ao público – infantil, em sua maioria – de forma tão singela e sutil, sem diálogos, aproveitando bem a trilha sonora e o poder narrativo das imagens, das situações, da ação e da reação dos personagens.

Quando a história chega ao tempo presente, Carl segue convivendo com a morte de sua esposa. A vizinhança já não é a mesma e sua casa está cercada de obras, mas ele teima em ficar. Teima até ser obrigado a se retirar. Aqui já temos todo o contexto que nos faz entender – sem que isso seja expresso em palavras por Carl – suas motivações em amarrar balões coloridos em sua casa para que saia voando em direção às florestas da América do Sul, onde espera encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e não pôde em vida.

Acidentalmente, junto com o velhinho vai o escoteiro Russel. Ele já tem várias insígnias em seu uniforme de explorador, menos uma: a insígnia por ajudar idosos. No meio de todos os problemas que a aventura apresenta, os roteiristas conseguiram incluir um dilema em Russel que acaba tornando o personagem mais real e mais empático com o público. Como não gostar de um gordinho simpático e valente que mora com a madrasta e sente falta do pai? O trunfo da produção é mostrar tudo isso de uma forma sutil e crível, sem em momento nenhum descambar para o melodrama.

Up não é uma animação japonesa e o diretor Pete Docter não é Hayao Miyazaki. Enquanto o mestre nipônico consegue fazer seus vilões tornarem-se apenas mais personagens complexos na história, e assim eliminando a rotulação dura de vilões que carregavam, Up faz o contrário. Charles Muntz assume o papel do vilão. Quando ele surge, já velho mas ainda obcecado em se reafirmar como aventureiro de credibilidade, temos a impressão que uma nova história seguirá dali. Mas Muntz acaba encarnando o vilão, e assim segue até o final do filme, como personagem raso e com o desfecho que cabe a um vilão.

Contudo, temos que dar crédito a Pixar. Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir. Além disso, Carl não busca superação nenhuma quando tenta encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e o filme não força um encontro entre pai e filho só para dizer que o dilema de Russel teve final feliz. Assim como tinha feito em Ratatouille (em menor escala) e em Wall-E (em maior dose), a Pixar conseguiu não deixar que soluções fáceis esmagassem uma história bonita e bem mais sofisticada que a maioria das animações americanas.