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O Discurso do Rei

A força do filme está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens

Colin Firth vive o gago príncipe Albert na produção inglesa

A produção inglesa O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010) vai concorrer ao Oscar em 12 categorias, mas já ganhou vários prêmios: melhor direção no BAFTA, melhor ator no Globo de Ouro para Colin Firth e melhor filme no PGA, a premiação dos produtores de cinema de Hollywood, só para citar alguns. O filme tem grandes chances de levar ainda mais prêmios no Oscar, pois entre os indicados para a categoria de Melhor Filme, O Discurso do Rei é seguramente o mais maduro. Agora, se vai ganhar, é outra história.

O enredo começa em 1925, quando o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) não consegue fazer um discurso por causa de sua gagueira. Sua alteza tenta diversos métodos – alguns nada ortodoxos – para se desvencilhar de sua fala vacilante, afinal seu pai, o rei George V (interpretado por Michael Gambon, o Dumbledore de Harry Potter), é um ótimo orador. Albert chega até mesmo a desistir de procurar tratamento, mas por insistência de sua esposa Elisabeth (Helena Bonham Carter) começa um tratamento com o terapeuta Lionel Logue (Geoffrey Rush), que quer tratar o monarca em seu próprio consultório e insiste em chamá-lo pelo apelido “Bertie”, uma concessão a que membros da realeza não estão acostumados a fazer.

É claro que o príncipe a princípio não concorda com os métodos e excentricidades de Lionel, mas a relação dos dois acaba indo além da relação terapeuta-paciente e eles tornam-se amigos e confidentes. Grande parte da força do filme está na atuação de seus personagens. As longas cenas levadas a cabo apenas pelas presenças magnéticas de Lionel e príncipe Albert são construídas com esmero pela câmera do diretor Tom Hooper. Colin Firth e Geoffrey Rush estão tão imersos em seus papéis quanto Frank Langella interpretando Richard Nixon e Michael Sheen encarnando David Frost em Frost/Nixon.

Firth expressa com naturalidade as inúmeras inseguranças de Albert e Rush interpreta como ninguém a franqueza e as caretas típicas dos ingleses. Hooper conhecia muito bem a história que tinha em mãos e o calibre dos atores, e soube extrair o melhor de cada um.

Mas a história de O Discurso do Rei não para por aí. Da metade para a frente, quando os atores já solidificaram bem a ideia central do filme, o enredo envereda por questões internas e externas da realeza e toca em um dos assuntos mais interessantes e polêmicos criados nos século XX: a Segunda Guerra Mundial. Albert não é o primogênito, portanto, não deve se tornar rei, o que de certa forma o alivia. Mas seu irmão, logo após ser empossado rei Edward VIII, resolve casar-se com uma mulher divorciada, o que é totalmente contra os preceitos da igreja Anglicana. Com a renúncia, Albert assume o posto como George VI, exatamente no momento em que governos europeus começam a olhar para a Alemanha e veem com enorme desconfiança e assombro a figura de Hitler.

Geoffrey Rush interpreta o terapeuta Lionel Logue

A cena em que George VI assiste a um trecho do poderoso discurso de Hitler ao lado da família é memorável. É, talvez, o momento em que Hooper e o roteirista David Seidler melhor conseguiram sintetizar as questões de ordem política e sentimental de todo o filme. Ali está uma amálgama do que aquele momento significava para o mundo e para a vida íntima do rei da Inglaterra.

A princípio, pode parecer que a história real de um rei gago não soa interessante, mas a força de O Discurso do Rei está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens. Não deixa de ser uma história de superação, é verdade, mas é bonito ver como diretor, atores e produção se superaram para fazer um dos melhores filmes do ano.

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Let Me In

Let Me In não abusa de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa, mantendo a estética do filme sueco original

Todos os elogios e prêmios que o filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original, resenhado aqui) recebeu a partir de 2008 atraiu o olhar da indústria cinematográfica americana. Não demorou muito para que os executivos da terra do Tio Sam anunciassem um remake da história, Let Me In, dirigido por Matt Reeves, que havia trabalhado em Cloverfield. Reeves faz o que já era esperado: americaniza a geografia do filme, aumenta a sangueira na tela, mantém as principais discussões levantadas e praticamente não muda a estética da obra (mas carrega um pouquinho na tinta nas cenas de maior impacto).

Let Me In conta exatamente a mesma história que o filme original e mantém o aspecto de filme “pequeno”, não abusando de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa. Mas faz algumas adaptações. Sai a pequena cidade do interior da Suécia e entra Los Alamos, Novo México, tão cheia de neve quanto o cenário urbano de Deixe Ela Entrar. O protagonista agora é Owen (Kodi Smit-McPhee), menino de doze anos que sofre de bullying na escola, não consegue revidar as agressões e adora espiar a vizinhança com sua luneta. Seus pais são problemáticos também: a mãe é uma religiosa depressiva que não faz a mínima ideia dos problemas enfrentados pelo filho; o pai está fora há alguns meses; eles estão se divorciando.

Sem amigos, Owen se refugia durante as noites num playground do quintal de seu prédio. Certo dia, conhece a misteriosa Abby (Chloe Moretz, a Hit Girl de Kick-Ass), menina que tem doze anos já “faz muito tempo” e que vive migrando de cidade em cidade. Ela diz a Owen que eles não podem ser amigos, mas a presença do livro Romeu e Julieta na cena evidencia que essa regra não será quebrada e provavelmente a relação dos dois irá além da amizade.

Chloe Moretz, a insana Hit Girl de "Kick-Ass" interpreta a vampira Abby

Não demora até que saibamos que Abby na verdade é uma vampira. E ela usa um homem mais velho (Richard Jenkins) para se faz passar por pai e consegue sangue fresco para saciar a fome da garota. Ao que parece, faz muitos anos que este homem a segue. Abby é, assim, uma sanguessuga. Mas se ela consegue ser tão mortal quanto se espera que um vampiro seja, mostra ser clemente e doce na presença de Owen. O que encantou no filme sueco e encanta neste remake americano é justamente esse contraste entre o terror e ternura.

Conforme as vidas de Owen e Abby vão se entrelaçando, ambos vão mudando. Ele se torna mais confiante, ela tem a oportunidade de se esconder menos e mostrar mais sua humanidade. Essa transformação é mais evidente e sensível no filme sueco, mas a versão americana consegue deixar mais que talvez o suposto amor de Abby por Owen seja mediado por uma necessidade e por um interesse bem específico (e não me atrevo a contar mais para não estragar o filme de ninguém).

A cena final na piscina da escola é mais impactante na obra cinematográfica original. A crueza é mais dilacerante, pois conseguia ir ao encontro do desejo secreto dos espectadores, que passaram o filme inteiro esperando uma punição para os garotos que batiam em Owen. Let Me In executa exatamente a mesma ideia com praticamente a mesma morbidade do filme sueco, mas uma quantia considerável de sangue já havia jorrado em cenas anteriores, não causando mais uma palpitação tão grande.

Como é praxe nesse tipo de filme, é claro que a perda da inocência está embutida no argumento da produção. Ao ficar tão próximo de Abby, Owen começa a despertar para o amor. Mas ele vê do que sua “namorada” é capaz e acaba sendo forçado a despertar para a violência e os horrores do mundo. E o mais espetacular é ver a anuência do garoto para com esta última situação. Mérito máximo da obra – sueca ou americana, tanto faz – é não julgar a moral de seus dois protagonistas. Cabe ao público dar-se conta da natureza de ternura e terror de Abby ou da pureza que Owen ostenta mesmo quando decide acompanhar uma criatura assassina. E o melhor a fazer talvez seja não julgá-los.

Cisne Negro

O diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie

Cisne Negro (Black Swan, 2010) é um drama, um suspense, um terror psicológico, uma história de descoberta, uma tragédia e é quase um musical. De sua abertura – em que Natalie Portman dança com total entrega à escuridão, quebrada apenas por um único grande foco de luz – até seu final arrebatador, a música cheia de contrastes de Tchaikovsky nos acompanha. E o diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie.

Em Cisne Negro, Natalie Portman interpreta a frágil e disciplinada bailarina Nina Sayers, que quer muito protagonizar a encenação de O Lago dos Cisnes, que sua companhia de balé pretende apresentar na temporada. Nina é perfeita para o papel da Rainha Cisne, virginal, doce e de movimentos mais graciosos. No entanto, Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da companhia, não tem tanta certeza se ela conseguirá interpretar também a Cisne Negra, a contraparte da Rainha, que exige movimentos mais viscerais, sensualidade e mais intensidade do que há na comportada vida cotidiana de Nina.

Nina consegue o papel e tenta chegar a sua perfeição, tentando equiparar-se a Beth (Winona Ryder), a antiga Rainha Cisne do espetáculo, celebrada por público e crítica, mas que está prestes a se aposentar. Mas a perfeição para conseguir interpretar a Cisne Negra tem seu preço e a bailarina é compelida a uma extrema autocobrança e a explorar sua sexualidade. E ainda há Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina da companhia, que parece ser a exata contraparte de Nina. Lily tem a rebeldia e o desprendimento necessários para encarnar a Cisne Negra e Thomas sabe disso, o que deixa Nina insegura.

E assim somos convidados a acompanhar uma história que pode realmente ter algo de sobrenatural ou ser mero devaneio mental da protagonista. Assim como a Rainha tem se vê refletida na Cisne Negra, Nina também parece encarar Lily como seu duplo. E o diretor espalha espelhos por todos os cenários da produção, fazendo com que Nina encare a si mesma o tempo todo.

Mesmo tendo grandes méritos, Fonte da Vida (The Fountain), que Aronofsky dirigiu, acabou sendo um fiasco. Mas o diretor se reergueu com O Lutador (The Wrestler), trazendo Mickey Rourke de volta ao estrelato contando a história de um ídolo decadente da luta-livre de forma bastante realista, nos apresentando os bastidores deste mundo inclusive. E Cisne Negro é muito mais parecido com O Lutador do que com qualquer outro filme do diretor.

A forma como a câmera segue colada às costas de Nina pelos corredores da academia, pelas ruas da cidade e por sua casa é a mesma como a câmera seguia Randy The Ram. Além disso, os bastidores do balé também ocupam boa parte do filme, entremeando os dramas de Nina. A principal diferença entre os dois, portanto, estão nas escolhas de gênero. Aronofsky deixou o realismo cru de O Lutador para, desta vez, se dedicar a um terror ou suspense psicológico. Quando Randy sofria, sabíamos exatamente porque ele estava sofrendo e por quem. Quando o corpo de Nina aparece machucado ou quando Lily faz sexo com ela, não sabemos bem o que aconteceu ou quem estava lá.

Clint Mansell, que já colaborou em outros filmes com Aronofsky, assina a trilha sonora original de Cisne Negro e beneficiou-se enormemente da sinfonia composta por Tchaikovsky. Mansell deixa a música do compositor romântico soar, preenchendo as cenas de lirismo com seu doce piano e as de maior tensão com ataques rápidos e estridentes nas cordas (como é típico de Tchaikovsky). E a emoção da música, e o que ela significa em cada cena, transparece no rosto dos atores, principalmente quando Nina ensaia, dança pra valer ou vê coisas que podem não existir.

O filme tem bons momentos de susto e nenhum deles é gratuito. Prova disso é que o sobrenatural (ou a disfunção psicológica da personagem) nunca ocupa tempo demais em cada cena. O roteiro preferiu sempre dar sequência e ritmo à história rapidamente, antes que Nina deixasse de ser uma bailarina obcecada pela perfeição e se tornasse vítima de um artifício cinematográfico (que seria a inserção de fenômenos misteriosos para captar a atenção do público).

O trabalho físico de Natalie Portman para dançar a difícil coreografia de O lago dos Cisnes impressiona sobretudo no terceiro ato do filme, quando o espetáculo está de fato sendo apresentado. Portman interpreta a Cisne Negra com intensidade, distanciando-se da figura frágil de Nina. Deixar o tripé de lado e registrar quase que o filme inteiro com a câmera na mão foi uma opção estética de Aronofsky e do diretor de fotografia Matthew Libatique. Nas cenas de dança, é possível sentir o cameraman dançando também para acompanhar a os braços e as pernas dos bailarinos.

Assim como The Ram em O Lutador termina sua trajetória sendo ovacionado e se autossacrificando em nome de um espetáculo de luta, Nina termina Cisne Negro da mesma forma – mas em nome de sua perfeição. Embora as dualidades entre Rainha e Cisne Negra, Nina e Lily, o lado doce e o lado mais escuro da alma da bailarina estejam presentes o filme inteiro, são os espelhos onipresentes que revelam o que realmente está acontecendo: refletir Nina significa que ela, e somente ela, é a chave de seu próprio mistério e o motivo de suas próprias limitações.

A Rede Social – em busca de aprovação

Muito mais do que um filme sobre o Facebook, o site de relacionamentos mais popular do mundo, A Rede Social mostra a busca do bilionário Mark Zuckerberg por aprovação

Jesse Eisenberg vive o solitário Mark Zuckerberg, criador do Facebook. O negócio ascende, mas suas relações pessoais naufragam

A cena que abre A Rede Social (The Social Network, 2010) mostra o jovem Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, sentado numa mesa de lanchonete com sua namorada Erica Albright. Mark, então estudante em Harvard, acaba sendo arrogante com a garota e o namoro termina. Como ela deixa bem claro, a relação não terminou por ele ser nerd, mas por ser um babaca.

A cena que fecha A Rede Social mostra um ainda jovem Mark Zuckerberg, dois anos depois, sentado na mesa de um escritório de advocacia. Uma audiência acaba de ocorrer entre ele e o advogado do Facebook contra um de seus desafetos. A estagiária que acompanha o caso (SPOILER) lhe diz: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser”. E então ele entra em seu perfil do Facebook e adiciona Erica, sua ex-namorada, como amiga. Até os créditos finais, ele clica F5 sistematicamente, esperando para ver a aprovação de amizade da menina.

Revelar a elipse que se estabelece entra a cena inicial e final do filme não vai arruinar toda a sua experiência do filme. Há muito mais para ser visto, pode ter certeza. Mas é importante evidenciar como a história desse jovem bilionário foi contada pelo roteirista Aaron Sorkin (baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich), fazendo jus à frase de divulgação no cartaz do filme: “você não chega a 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”.

Logo após romper com sua namorada, Mark (interpretado por Jesse Eisenberg) fica bêbado na frente do computador, bloga insultos contra a ex e arma uma espécie de jogo social aberto aos estudantes de Harvard, usando seu vasto conhecimento em programação. Com a notoriedade lhe batendo a porta, logo é contratado pelos gêmeos Winklevoss e Divya Narendra, que esperam que ele programe a rede social Harvard Connection. Mark Zuckerberg enrola os três por mais de um mês e quando finalmente resolve abandonar o projeto, já tem pronto o protótipo do The Facebook. Ele acaba de ganhar três inimigos. Para ajudá-lo em seu projeto pessoal, chama o brasileiro Eduardo Saverin (interpretado por Andrew Garfield), uma espécie de consciência em fazer negócios mais alerta e precavido do que Zuckerberg. Quando Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, entra para o Facebook depois de deslumbrar Zuckerberg com a trinca dinheiro-sexo-glamour da Califórnia, a relação entre ele e Eduardo começa a se desgastar até chegar ao limite: os tribunais.

A história de criação do Facebook é contada de forma linear. Entrecortando todo o filme, de forma não linear, estão as diversas cenas de audiência. Mark contra os Winklevoss e Mark contra Eduardo. Muito mais do que um filme sobre o site de relacionamentos mais popular do mundo, é um filme sobre as pessoas que fizeram parte dele e sobre alguns dos notáveis incidentes que são parte de seus bastidores.

Deslumbrado com o mundo de possibilidades do Vale do Silício, Zuckerberg vai a reuniões de negócio de pijama

A direção do longa é de David Fincher (Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button), mas há pouca inventividade ou virtuosismo na forma de contar a história e operar a câmera de A Rede Social. O único momento em que podemos sentir que a mão do diretor esteve mais livre é na curta cena da competição de remos na Inglaterra. De resto, é Fincher sendo muito eficiente, mas optando por formas menos desafiadoras do que as usadas em Clube da Luta e Seven, por exemplo. Harvard parece mais sombria do que em outros filmes e boa parte dos ambientes tem pouca luz.

Conforme o Facebook cresce em popularidade e se alastra pelo mundo, a imagem que o filme faz de Zuckerberg só piora. De programador nerd de Harvard (chamado até de “o novo Bill Gates”), vai descendo no nosso conceito como ser humano até se tornar aquele babaca de que falavam a ex-namorada e a estagiária de direito. Nesse caso, identificar-se com o mais jovem bilionário do mundo vira uma tarefa difícil. Muito mais fácil é tomarmos as dores de Eduardo Saverin, retratado como um rapaz de negócios muito mais cauteloso (embora menos arrojado do que Sean Parker) que acaba traído. Também pesa o fato de que Andrew Garfields rouba praticamente todas as cenas em que aparece ao lado de Jesse Eisenberg, interpretando um Mark com cara de bobo e sempre apagado.

A Rede Social é um filme sobre ambição, as ciladas e o mundo dos negócios encontrados por Zuckerberg, sobre os atores de um sucesso na internet e sobre um site que pretende formar uma comunidade mesmo que seu criador seja um solitário de diálogos diretos e de pouca expressividade que busca a aprovação de alguém. Ele não é aprovado pela namorada, não é aprovado pelo melhor amigo Eduardo e nem pela estagiária. Existem 500 milhões de perfis no Facebook e Mark destruiu sua relação com a meia dúzia que importava.

Cópia Fiel

Filme de Abbas Kiarostami é um sopro de honestidade que dispensa a “moral da história”. Quando você menos espera, está andando junto com os protagonistas pelas vielas de Lucignano

"Cópia Fiel" (falado em italiano, francês e inglês) é o primeiro filme que o Iraniano Abbas Kiarostami roda fora de seu país.

Não tenho a pretensão de escrever melhor sobre Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010) do que Marcelo Hessel (@marcelohessel) já fez, mas é importante dizer que o filme te pega de surpresa. Quando você menos espera, está totalmente imerso em sua história, andando pelas ruas de Lucignano, na Itália, com os mesmos pensamentos que a dupla de protagonistas. A produção, dirigida pelo iraniano Abbas Kiarostami (que também dirigiu Gosto de Cereja e Dez), foi uma das boas atrações da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Na história, o inglês James Miller (interpretado por William Shimell) vai até a Itália para divulgar seu livro que versa sobre as cópias na arte e a relativização de seu valor (relativização que, aliás, chega aos extremos: seria o sorriso de Mona Lisa verdadeiro? Ou teria Da Vinci pedido que Gioconda o fizesse?). Logo após sua palestra, conhece Elle, vivida com notável entrega por Juliette Binoche, uma francesa dona de uma galeria italiana há muitos anos.

A princípio, o escritor precisa apenas passar um tempo na cidade antes de voar de volta para a Inglaterra. Elle acaba virando uma espécie de distração e guia turística para James, com suas conversas informais sobre a arte, sobre o conceito de cópia e autenticidade e de como tudo isso tem a ver com a vida cotidiana das pessoas. A vida pessoal de Elle e seus problemas em ser, aparentemente, uma mãe solteira com um filho pré-adolescente vão sendo aos poucos incorporados à conversa dos dois. Ela trata das questões com paixão desesperada por respostas, ele às trata com certo distanciamento, como se procurasse o máximo do discernimento.

William Shimell interpreta James Miller e Juliette Binoche vive Elle. São dois estranhos ou marido e mulher?

O filme todo gira em torno das andanças e conversas de Elle e James por Lucignano a medida que uma relação vai sendo construída. É o mesmo processo já visto em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol, mas os personagens ora retratados são mais maduros, na casa dos 40-45 anos. Então decidem tomar um café e a situação sofre uma virada interessantíssima. De dois quase estranhos, a francesa e o escritor tornam-se marido e mulher. A partir daí, o filme torna-se uma dilacerante discussão de casal e o relacionamento entre os dois começa a ser desconstruído. Ao que parece, cabe a cada um acreditar se o casal realmente já se conhecia desde o começo ou se apenas estão interpretando um papel proposto pela mulher que lhes serviu café na lanchonete.

Usando três línguas diferentes – francês, italiano e inglês – às vezes todas juntas num mesmo diálogo, Kiarostami vai tecendo uma história de casal em crise sem pressa, apresentando tanto os argumentos dela quanto os dela e os fazendo colidir, sem tomar partido por nenhum dos lados. Afinal, a vida é complexa. Como resultado, Kiarostami nos presenteia com uma discussão madura e honesta sobre os relacionamentos. Ele não deixa de nos mostrar o que seria uma atitude ideal, (como na cena em que um senhor diz a James que sua mulher talvez só queira que ele ande ao lado dela e apoie sua mão no ombro dela para mostrar sua presença). Mas nunca submete a complexidade psicológica do casal protagonista a saídas “corretas”, fazendo com que ambos tornem-se personagens ainda mais críveis.

Cópia Fiel é uma produção de baixo orçamento que não aposta na edição rápida de imagens e nem no apelo ao falso mundo eternamente jovem das platéias norte-americanas. Quando começa, parece um tanto técnico demais, com uma palestra sobre originalidade e cópia. Conforme avança, vai revelando a que realmente veio e termina extremamente emocional. Diferente da grande maioria das comédias românticas produzidas aos montes em Hollywood, sempre tentando nos fazer engolir alguma “moral da história” que já vem prontinha, Cópia Fiel deixa em aberto a conclusão da história e não propõe acordo entre as partes. Aceita a complexidade da vida e dos relacionamentos, aceita que nem sempre uma conclusão bem acabada pode ser dada. E é tão honesto em cada close que dá em Juliette Binoche e William Shimell que quase podemos ver a nós mesmo sendo estudados diante do espelho.

 

Scott Pilgrim e a doçura nerd

Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21

Scott Pilgrim vs The World não foi nada bem nas bilheterias norte-americanas e repetiu o fracasso em outras partes do mundo. Não entendi a falta de interesse do público, mas também ainda não tinha visto o filme. Depois de assisti-lo essa semana, não sei mesmo o que foi que aconteceu. Digo com certeza que a falta de interesse não foi motivada pelo filme, que cumpre o que promete e o resultado é pra lá de satisfatório.

No início, a história de Scott Pilgrim (interpretado por Michael Cera) é como a de qualquer outro jovem: rapaz de 22 anos que vive em Toronto, baixista de uma banda em início de carreira, não muito seguro de si mesmo e arranjou uma estudante colegial para suprir o vazio emocional deixado pela ex-namorada (que tornara-se a vocalista de uma banda famosa). Então ele conhece literalmente (literalmente mesmo) a garota de seus sonhos: Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead).

Então a coisa fica insólita. Se quiser namorar Ramona, Scott terá que derrotar seus sete ex-namorados malignos, gente que não teve um bom desfecho de relacionamento com a garota. Acontece que a medida que os confrontos vão ocorrendo, Scott vai se dando conta do quanto é difícil manter esse (ou qualquer outro) relacionamento afetivo. Além disso, sua namorada colegial continua a espreita, acompanhando seus passos, mas Scott não quer quebrar o coração dela.

Os sete ex-namorados malignos de Ramona

O filme á uma adaptação da história e quadrinhos de mesmo nome escrita e desenhada pelo canadense Brian Lee O’Malley. Quando O’Malley começou a publicar Scott Pilgrim, não era nada mais que mais um quadrinista de pouca expressão tentando ganhar a vida. Quando ele levava seus trabalhos a San Diego Comic-Com, praticamente passava desapercebido. Mas Scott Pilgrim, que só terminou de ser publicado no hemisfério norte este ano, acabou virando um peça cultuada e as filas para se conseguir um autógrafo de O’Malley na Comic-Com foram imensas. O autor, como seu personagem, realmente dá a volta por cima.

O filme foi dirigido por Edgar Wright, que já havia feito um bom trabalho na paródia zumbi Shaun Of The Dead. Ele se mostrou um diretor não só versátil, pois Scott Pilgrim vs The World é diferente em todos os aspectos de sua outra produção, mas também apaixonado e fiel a HQ que originou o filme. Desde os primeiros frames até os créditos finais da obra, as principais referências de O’Malley foram preservadas. São piadas nerds com videogames, outras HQs, filmes, seriados e até com a cidade de Toronto (“Eu não sabia que eles rodavam filmes aqui”, diz Scott), sem se esquecer de preservar todos os elementos jovens e agridoces que uma história desse tipo pede.

Michael Cera é Scott Pilgrim e Mary Elizabeth Winstead é Ramona Flowers

Os atores encarnam muito bem seus papéis, com destaque óbvio para o casal Scott Pilgrim e Ramona. Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21. Sua doçura natural e seus desejos mesclam-se perfeitamente com suas frustrações, fazendo a história transcorrer bem levemente. Ramona é aquela garota que está tão perdida quanto qualquer outro garoto ao seu redor, mas faz pose de mulher segura, decidida e difícil. Seus olhares e sua interpretação corporal são seus principais charmes o filme, e o diretor os evidencia sempre que pode.

Entretanto, é o visual de Scott Pilgrim que o faz valer a pena realmente. Se A Origem (Inception) é o filme mais engenhoso do ano, Scott Pilgrim é o mais estiloso. A todo momento grandes onomatopéias para socos, chutes, pancadas e toques de telefone invadem a tela de maneira tão natural quanto se estivéssemos lendo um gibi. As lutas contra os sete ex-namorados malignos também impressionam, sempre criando arroubos visuais de tirar o fôlego. Dada a quantidade de “objetos” que são atirados na direção da tela – sejam apenas onomatopéias, notas musicais ou dragões holográficos –, me peguei pensando em como seria a experiência de assistir ao filme numa projeção 3D bem feita.

O visual estiloso do filme é um de seus maiores trunfos

Edgar Wright se preocupou muito com o ritmo de Scott Pilgrim. Ele é veloz, primeiro porque a juventude que deve (ou deveria) compor a audiência do filme tem pensamentos igualmente rápidos, e segundo porque adaptar e condensar seis edições de uma HQ em 112 minutos não é tarefa fácil. Sendo assim, não há grandes planos sequência nem imagens que duram muito tempo em tela. Como muita música é tocada durante o filme todo – desde Sex Bob-Omb (a banda de Scott) até Rolling Stones e T. Rex – a edição de cenas o ritmo e os compassos das canções.

Talvez apenas o final do filme não seja tão criativo quanto o resto da história apresentada, mas não é nada que vá estragar a experiência do filme. Há diversão e inteligência em Scott Pilgrim vs The World. Há doçura nerd e esmero estético invejáveis. E o principal: Scott Pilgrim (tanto o personagem quanto o filme) comunicam-se muito bem com o público que pretendem atingir. Portanto, ainda não consigo entender quais foram os motivos que tornaram a obra um fracasso de bilheteria. Vai ver, faltou o público dar uma chance ao jovem peregrino canadense.

Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo