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Já estamos na ilha

O público da série, reflexo da sociedade pós-moderna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas

Por Francisco Trento (twitter: @_xico)

"Modernidade Líquida" (Imagem disponibilizada sob licença Creative Commons em http://www.flickr.com/photos/centralasian)

Na maioria das vezes a crítica associa o sucesso de Lost às técnicas narrativas inovadoras, à torrente de mistérios, surgidos com maior velocidade do que suas soluções, ou às inúmeras referências intertextuais presentes no pro­grama. Sim, todos esses fatores transformam-no em um produto de qualidade invejável. Mas talvez seu grande trunfo esteja na forma como os personagens são construídos: redondos e de personalidade indefinível; diferente da dualidade tradicional dos seriados de televisão, ou dos comuns núcleos família/hospital/departamento de polícia norte-americanos, que descrevem um mundo dualista e plano que não existe mais.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. Pro­va disso é o próprio cartaz de divulgação de Lost, que conta com imagens de mais de 20 per­sonagens. Por mais absurda que possa parecer a frase que vem a seguir, nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté­rios.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. […] Nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté rios

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro Amor Líquido, nossa era vive uma série crise de iden­tidade e de quebra constante de conceitos consolidados por séculos. Vivemos a “Modernidade Líquida”. Isso se reflete no modo como desenvolvemos nossas relações pessoais e afetivas. “O palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações.”, afirma o estudioso, em uma de suas obras mais conhecidas.

A figura que tão bem representa essa sociedade líquida é um território fictício fora de nosso espaço-tempo, tamanha a complexidade da dinâmica de nossas relações no século XXI. Os habitantes (ou passageiros) desse mundo-ilha são as figuras do nosso planeta – um confronto de estereótipos, de incertezas, de identidades que mudam a todo momento. Ninguém é bom ou ruim: o caráter e os laços afetivos formados no paraíso insular são leves e fracos: se desfazem com a mesma facilidade com que são criados e conforme os interesses deixam de existir. Os valores, antes fixos e imutáveis, agora deixam apenas vestígios do que já foram. O casal coreano, antes preso às rígidas tradições asiáticas, se acos­tuma com a proximidade de “estrangeiros”. Jack Shepard, o médico cético, tem um salto de fé, enquanto John Locke, o “homem da fé”, desacredita em todas as suas convicções e tenta o suicídio. Sayid, o torturador iraquiano, se apaixona por uma bon viván, tudo aquilo que estava costumado a combater. Benjamin Linus é o mais difícil de de­cifrar: sua personalidade na mesma frequência das reviravoltas de seus interesses.

O público da série, reflexo da sociedade pós-mo­derna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas, e se identifica com os personagens e suas decisões, geralmente equivocadas.

Todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva

Desmond é o personagem que busca o retorno da solidez perdida no último século, evaporada ao mesmo tempo em que os modelos da modernidade ruíam. É aquele que, apesar de ter no inconsciente a noção de que entrou em um ciclo de incertezas e absurdos, ainda insiste em buscar ter de volta um porto seguro: seu amor sólido, combatido a todo instante pelas casualidades. Não é surpresa que, apesar de não estar presente em sequer metade dos episódios do seriado, seja o preferido da maioria dos fãs: todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva: seja nas relações afetivas, na segurança, nas epidemias, no emprego, nos confron­tos culturais, ou em nossa própria identidade. Não sabemos se estamos no fim de nossa jornada, ou se haverá solução para esse vai-e-vem constante de novidades e medos, que de tão complexos beiram a abstração total.

Contato do autor: francisco.trento@gmail.com

55 anos de rock – parte 3

Texto de Lucas Scaliza

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Polifonias roqueiras – final

O rock já foi estudado e retratado de todas as formas imagináveis. Está no cinema, nas artes plásticas, na televisão, na literatura, inspira e embala peças teatrais, fala de si mesmo e faz paródia de si em diversas músicas, num exercício de metalinguagem. Também invadiu o ambiente acadêmico e não é difícil encontrar teses de pós-graduação que abordam o tema.

O poeta, músico e escritor José Miguel Wisnik, que tem várias composições musicais próprias e outras feitas em parceria com grandes nomes da MPB (como Caetano Veloso), também falou sobre o rock em seu livro O som e o sentido: Uma outra história das músicas. Wisnik, que há vários anos é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), analisou a música contemporânea e concluiu que o cenário é dos mais confusos. Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, diz ele, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”.

Segundo ele, a repetição e a alternância entre ruído e silêncio e as experiências de sincronia e simultaneidade tanto podem atestar o fim do social como podem criar um tempo musical singular para outros, de extrema complexidade e sutileza. “O rock encontra-se no meio desse fogo cruzado, uma hibridização típica da cultura pós-moderna”.

Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”, diz Wisnik

O rock, escreve Wisnik, é a superfície de um tempo que se torno polirrítmico. “Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens”. Complicado entender? Um pouco, mas a discussão serve para contextualizar o rock – e a música em geral – dentro do mundo de hoje, em que várias modas e tendências, posicionamentos políticos e mudanças econômicas e culturais acontecem ao mesmo tempo.

Atualmente o rock está em uma fase de múltiplas confluências. Você quer ouvir heavy metal? Pois existem várias bandas deste estilo em atividade. Quer folk rock à la Bob Dylan? Você também encontra. Rock com música eletrônica? Rock com hip hop? Rock comercial? Rock do século 21 com pinta de década de 1970? Tudo isso acontece agora. Pelo jeito, o rock é um senhor de 55 anos que pretende viver por pelo menos mais 50 e continuar influenciando todas as áreas do conhecimento humano, quer você goste da música ou não.