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Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo

 

“Ainda tenho muito a mostrar”

Muito à vontade, Dominguinhos fala sobre suas inúmeras parcerias musicais, seu medo de voar e até do que pensa sobre a política

Eram três horas da tarde de domingo quando Dominguinhos, um dos maiores ícones da sanfona brasileira, desceu as escadas do Hotel Turi em Barra Bonita, bem à vontade. Usava chinelos, uma calça bem folgada e camisa de linho listrada. Não usou o seu tradicional chapéu nem na coletiva de imprensa e nem na hora do show. Quando um grupo de pessoas percebeu que o sanfoneiro pernambucano subira ao palco sem o habitual elmo, gritaram: “Dominguinhos, o chapéu! Põe o chapéu!”. “Ô, minha gente”, ele respondeu antes de começar a dedilhar seu instrumento, “esqueci o chapéu lá em Lins” (cidade onde tinha se apresentado na noite anterior).

Meu encontro de quase uma hora com o músico de 69 anos de idade foi muito proveitosa. Acompanhado por outros jornalistas, a entrevista deu uma geral na carreira, falamos de suas inúmeras parcerias com outros artistas renomados, de sua infância e lembrou de Luiz Gonzaga, mestre do baião e seu mento no início da carreira. Comentou o seu medo de viajar de avião e, quando perguntado sobre política, revelou que pretende votar no governador José Serra este ano, a quem se referiu como “o careca de São Paulo”. Mesmo sendo pernambucano, deixa claro que não é um fã do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu conterrâneo.

Dominguinhos é pai de três filhos e tem mais de 60 anos de carreira, visto que começou tocar ainda criança. Seu primeiro álbum, Fim de Festa, foi gravado em 1964. Já o último, Dominguinhos Iluminado, é instrumental e está cheio de participações, como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Yamandu Costa, Arthur Maia, e outros. Mas o cantor diz que não deve parar por aí. “Tenho muito material guardado, mas não tenho para quem mostrar, não tenho quem gravar”.

Dava uma fita K7 para o Chico Buarque e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos!

O senhor lembra-se de já ter tocado com um grupo da cidade, chamado Tribo Terra, e participou com eles até num festival da Rede Globo?

Foram dois acontecimentos em Barra Bonita, tocar com esse grupo e o projeto Asa Branca. Toquei em Lins ontem e percebi que eles são muito carentes de música do Norte. Notei que lá tem muitos “cabeças-chatas”, muitos conterrâneos meus. Na Barra o fluxo de turistas é maior e é uma cidade mais próxima de São Paulo. Fico triste por não ter trazido meu netinho de um ano e cinco meses para andar de barco e passear nos parques daqui.

Reside onde atualmente?

Em São Paulo. De lá vou para qualquer lugar.

E o pique de tocar ao vivo? Você tem datas agendadas até o meio do ano.

Para mim é mais difícil cumprir a agenda porque eu ando de carro. Ele é  muito lento e cansativo para vencer determinadas distâncias e datas. Pelo menos no estado de São Paulo andamos muito bem, porque as estradas são boas. Dá pra varar 250, 300 quilômetros sem problemas. Já no Nordeste, fazer essas distâncias é muito sofrido. Andei de avião por mais de 30 anos, mas há 25 que não voo mais. Deu medo e parei, mas estou pensando em voltar.

Teve algum problema em voo para desistir de voar?

Não, nada me aconteceu. O medo foi chegando, chegando.

Depois de tocar no interior de São Paulo, vai para onde?

Bom, por enquanto estamos nesse projeto com a Casa de Cultura e Cidadania até o dia 1º. Depois vou para o Nordeste participar de uma homenagem à Ciburca com a Orquestra Sinfônica da Paraíba em João Pessoa. Chico César atualmente é o secretário de Cultura de lá. Depois, vem a época junina, e aí aparece bastante trabalho na Bahia, Paraíba, em Sergipe e Pernambuco.

O senhor já fez parcerias com muitos músicos renomados, tanto em shows como em composições. Uma das últimas parcerias foi com Yamandu Costa no álbum Yamandu + Dominguinhos. Como essas parcerias acontecem?

Acho que é  por causa da simpatia com o trabalho de cada um, não tem outro motivo. O Yamandu, por exemplo, conheci em um ensaio no Rio Grande do Sul, junto de Renato Borghetti e de outro bamba do acordeom, Luiz Carlos Borges. O Yamandu tinha 15 anos na época e apareceu por lá com o violão debaixo do braço. Disse que gostava muito do que eu fazia, tocou algumas músicas minhas e resolvemos tocar juntos. Foram participações pequenas aqui e ali, até que ele apareceu com a proposta de fazermos um disco solado juntos. E fizemos, lançado pela Biscoito Fino. Depois fizemos o DVD, gravado pela TV Cultura. E fiz mais discos de solos, com o Iluminado, com várias participações, um de frente pro outro, bem à vontade para solar.

As bandas novas colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo!

O senhor também é da célebre época do Riocentro. Pode nos contar um pouco sobre esses anos e os amigos que fez por lá?

Nessa época encontrei o Gilberto Gil, a Gal, o Caetano, o Chico Buarque, e vários outros. Éramos amigos, todos novinhos e tocávamos juntos, andávamos juntos. As reuniões que fazíamos no Riocentro eram constantes. Lá eu tocava sempre com Paulinho da Viola, Moraes Moreira, Jorge… Ninguém tinha grupo direito, cada um levava um instrumento e tocávamos. Era um movimento da turma daquele tempo.

Foi dessa época que saíram várias de suas célebres parcerias. Demora para que elas saiam do papel?

Essas amizades e parcerias vêm de muito tempo. Uma vez, perguntei ao Chico: “Chico, tem como fazermos uma melodia juntos?”. Aí eu dava uma fita K7 para ele e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos! (risos) O Gil também demora. Agora ele está colocando letra numa música minha para um disco junino. Não sei se vai terminar a tempo. Dei uma fita uma vez para o Djavan e ele mostrou para o Orlando Moraes, marido da Glória Pires. E o Orlando fez a letra antes que o Djavan. Aí, não sei se ele ficou com vergonha ou o que, mas resolveu gravar a música. E o Orlando gravou também. Mas sempre foi assim, sem afobação e sempre por amizade.

Como sua música é vista no estado de São Paulo?

É difícil responder. Neste estado trabalha-se mais com cantores sertanejos, os chamados “caipiras de luxo”, que fazem grandes produções. Tem muitos rodeios e vaquejadas, mas nós, cantores nordestinos, não entramos na programação dessas festas.

Os prêmios Grammys que o senhor concorreu consideraram sua música como regional, mas o baião, o forró e o xote são considerados estilos musicais brasileiros nacionalmente reconhecidos. O que acha dessa rotulação de “regional”?

Pois é, acho que deveriam acabar com essas divisões de sertanejo, MPB, etc. Deveriam acabar com os rótulos.

Em 60 anos de carreira, 50 só de profissional, sabe quantos álbuns vendeu?

Nunca soube ao certo. O Roberto Carlos, que está comemorando seus 50 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos. Eu não sei como conseguiram esses dados, é algo bem difícil [de contabilizar]. Geralmente as contas de gravadoras são fechadas.

O público mudou muito nesses 50 anos?

Hoje acho que o público é mais informado, a garotada parece mais interessada, ela vê mais coisas pela televisão, os pais falam de determinados artistas ou são nordestinos. A informação começa dentro de casa, na escola, com os avós.

O que acha dos novos grupos de forró  que estão aparecendo?

Gosto muito. Mesmo as bandas do Ceará, da Paraíba e Pernambuco, que sabemos que não fazem um forró verdadeiro, nos ajudam muito falando do que fazem. No entanto, o grande acontecimento da música nordestina são os trios. Como o Falamansa, Trio Virgulino, Chamego, Sabiá, e por aí vai. A fórmula é a mesma: zabumba, sanfona, triângulo, pandeiro.

E o forró  atual, o forró universitário, o tecno-brega?

Não houve uma transição de ritmos, continua a mesma coisa. A mudança foi com as bandas. As novas bandas de forró fizeram com que toda a [atenção] da música nordestina convergisse para elas, de uma forma que quem quiser se estabelecer tem que ter as características delas. Eu uso baixo e guitarra na minha banda, mas não abandonei o triângulo e a zabumba, que não me deixam fugir [do padrão]. E as bandas novas ainda colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. (risos) Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo! (gargalhadas) São bandas que se produzem e fazem grandes produções, como Calcinha Preta e Aviões do Forró, mas que de forró não tem nada.

Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos.

Tem algum artista que apareceu da década de 1990 pra cá  que o senhor admira?

De 90 pra cá? Tem o Djavan, mas esse já tem um grande tempo de carreira. Eu estava no Rio quando ele apareceu, fazendo aquele samba bem balançado do começo da carreira dele. Um novo de que gosto muito é o Jorge Vercilo. Cantoras não, elas vêm de penca. São muitas que apareceram pra gente escolher. Desde Ana Carolina até Mariana Aydar e minha própria filha, Lívia Moraes. Hoje, quando um artista estoura, ele já tem 10, 15 anos de carreira.

Um mestre do senhor foi Luiz Gonzaga. Desde seu primeiro disco, Fim de Festa (1964) até o seu mais recente registro ao vivo, em 2009, muitos artistas apareceram dizendo que o senhor é uma referência para eles. Além do mais, o senhor mudou o jeito de se fazer baião e forró.

Luiz Gonzaga mudou o jeito de se cantar e de se acompanhar o canto. Ele foi único nisso, nunca vi outro que cantasse e tocasse sanfona como ele na música nordestina. E eu estava ali ao lado dele! Mas vários músicos me ajudaram: Chiquinho do Acordeom, Orlando Silveira, os [violões de] sete cordas Dino, Rafael Rabelo e agora o Yamandu. Dei sorte com os sete cordas. Passado o tempo, fui mudando a estrutura do baião e do forró. O baião era “liso”, e comecei a tocar um baião chorado. Pegava alguns sambas e choros, mudava algumas coisas e os transformava em baião. O forró surgiu quando Gonzaga mudou a batida da zabumba. Quem comanda verdadeiramente o forró é o zabumbeiro, é ele quem conhece as batidas e encaminha o resto da banda. Toquei na noite, fui músico de boate por muito tempo, toquei muita música americana. Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos. (risos)

O compositor erudito Maurice Ravel, pouco antes de morrer, chorou em uma apresentação de uma de suas obras em Paris e lamentou por ter tantas ideias ainda para mostrar e não poder por causa de seu estado de saúde grave. Depois de 50 anos de carreira profissional, o senhor sente que ainda tem muito a mostrar como compositor?

Acho que não tenho a quem mostrar, porque muita coisa armazenada eu tenho. O Hermeto Paschoal também tem muita coisa guardada. Ele levou um bom material de música clássica para a Alemanha. E sua música fez o maestro da orquestra chorar. Ele quis saber o porquê do choro e o intérprete disse que o motivo era a beleza da música do Hermeto, porque o maestro nunca tinha ouvido nada como aquilo. Ou seja, a gente tem muita coisa armazenada que não tem como e com quem gravar. Hoje em dia, os artistas estão fazendo trabalhos inteirinhos autorais porque as editoras estão criando muitas dificuldades para se gravar. É muito caro por um disco na praça! Levou mais de um ano para que minhas próprias músicas fossem liberadas para gravar o meu DVD. Então, os artistas começam a gravar apenas material próprio, para não encontrarem barreiras.

Vamos falar agora do seu lado político. Como foi seu relacionamento com o ex-governador Mário Covas?

Ele me chamava no Palácio dos Bandeirantes para tomarmos café, era uma pessoa muito aberta. Mas meu relacionamento com ele, e com todos os outros [políticos], era esporádico. Políticos vivem em outro mundo, é outra coisa. Eu não faço música para eles, é uma agência que faz e me chama para cantar. E agora nós não podemos mais fazer shows em campanhas de políticos.

E o que acha de não poder mais fazer shows em comícios políticos?

Acho muito ruim. Se eu vou participar de campanhas pelo nordeste, fica um monte de gente numa praça para ver o show. Ninguém fica ali esperando um candidato falar. As pessoas já sabem que ele vai mentir o tempo todinho, vai falar sobre o que nunca fez e o que “pretende” fazer. Então precisa ter uns conjuntinhos tocando para entreter o povo. Agora que isso acabou, não sei o que vão arrumar para substituir os shows.

O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado

O senhor acompanha a política atualmente?

Se tiver que falar de algum lugar, falo de São Paulo. Gosto do careca que está lá, um cara que conheço há muitos anos e está na luta. Meu voto não é mais secreto e sem dúvida nenhuma vou votar nele [José Serra], e não em quem o Lula determinar, porque ele está muito folgado! Ela está desconhecendo muito das coisas que devemos respeitar, está se achando o dono da cocada preta. Isso é muito ruim. E ele vem de uma era em que a humildade foi a maior arma que usou para vencer. Ou não, porque o Lula sempre foi muito sagaz.

Acha que o eleitor brasileiro está bem preparado para votar?

Acho que as pessoas estão mais informadas, porque a mídia está martelando dia e noite nos erros e acertos do governo, fazendo com que quem está  no poder tenha até raiva dela. O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado. As autoridades têm que tomar cuidado com o rabo. (risos) A mídia está informando e está dando oportunidade para as pessoas falarem também. Isso é muito bonito. Sabemos que tem muita gente querendo calar a liberdade de expressão, como acontece na terra do Hugo Chávez e na ilha do “charuto”, o Fidel Castro. Contudo, o Brasil está mudando muito e acho que teremos melhores políticos no futuro. Isso se as famílias deixarem, porque as dinastias são muito grandes! (gargalhadas)

O senhor começou a tocar ainda menino.

Meu pai e meu irmão mais velho eram tocadores de sanfona. Meu pai nunca me deu conselhos, cresci numa família de 16 irmãos. Eu comecei a ajudar em casa aos oito anos, tocando pandeiro na feira com meus irmãos Moraes e Waldomiro, que tocavam uma sanfoninha e um instrumento de sopro chamado mele. Esse mele meu pai fazia com borrachas de câmara de ar. A gente tocava para ganhar uns trocados. Quando viemos para o Rio, em 1954, fui tocar numa churrascaria gaúcha com meu pai. Tocava nas mesas com um garoto repentista do Rio Grande do Sul chamado Garoto de Ouro. Ganhávamos muita gorjeta e entregava toda a minha parte para o meu pai. Até que ele juntou dinheiro suficiente para buscar o resto dos filhos em Garanhuns [cidade natal de Dominguinhos].

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado. Afinal, as pessoas que nos levam para o mau caminho têm um poder incrível de persuasão. Mas eu nunca me envolvi com essas coisas. Continuei tocando. As coisas começaram a acontecer em 1964, quando lancei meu primeiro disco.

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado

Faz planos para o futuro? Trabalha com metas?

Em minha vida toda, nunca fiz planos para o futuro. Mesmo depois de 69 anos de vida, se me perguntam o que vou fazer daqui pra frente, não tenho resposta. Não faço planos e acho que a vida é isso. Você acorda todo dia e pensa no que tem pra fazer. Se não acordar no dia seguinte, já foi! (risos)

O senhor é muito humilde, não tem o estrelismo de alguns artistas.

O artista canta, dança, toca seu instrumento, pinta uns canecos… Mas quando sai do palco está sujeito a muitas coisas, igual a qualquer pessoa. Ele tem que pagar suas contas, pegar dinheiro emprestado e viver a labuta do dia a dia. E eu sou o que? Também fico aperreado! (risos) Ainda trabalho, minha família depende de mim. Em 2006, operei meu pulmão, mesmo nunca tendo fumado. Estou me tratando sempre e vivo como se não tivesse nada. Sigo cantando e tocando.

Financeiramente, a carreira do senhor valeu a pena?

Honestamente, não. Se eu estivesse na Europa ou nos Estados Unidos com todas as músicas que tenho gravadas e recebendo os direitos autorais, não precisaria mais tocar por aí. Acho que ia tocar só no terreiro de casa com os amigos. Chega um momento em que você não acha mais que é legal ficar fazendo graça com um instrumento que pesa 13 quilos no peito – e ter que mostrar serviço sempre que toca. Isso dá uma certa agonia. É melhor fazer como o Ronaldo. Parar aos 33 anos, quando está bem de vida. Pra que ficar ouvindo ser chamado de gorducho, não é? Deixa ele tomar sua cerveja a vontade! Eu, felizmente até, preciso continuar trabalhando, porque a música dá esse ensejo. Veja a Inezita Barroso. Ela está com mais de 80 anos, tem uma voz forte e é respeitadíssima. Acho que ela é a coisa mais importante que existe na música caipira do Brasil. E ninguém fez ainda esse reconhecimento para ela. Ela deveria ter sido convidada para o show do Roberto Carlos. Ainda bem que levaram o Tinoco, que fez um discurso arretado que foi ao ar pela metade, mas esqueceram da Inezita. Na idade dela – e tomando conta de um programa de televisão como dela – não conheço outra pessoa.

Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

Scarlett também canta

Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek
Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Logo, logo a atriz Scarlett Johansson lançará um álbum musical ao lado do músico Pete Yorn. Até um video clipe da dupla já foi liberado na internet. No entanto essa não será a primeira vez de Scarlett como cantora. Em 2008 a moça gravou Anywhere I Lay My Head interpretando 10 canções de Tom Waits e uma inédita que não é de autoria dele.

Hesitei muito em ouvir o álbum de Scarlett, já imaginando a bomba que vinha pela frente. Seriam músicas pop teen melosas? Será que ela acabaria com Tom Waits? Aliás, ela canta bem? Logo de cara o disco mostra que não veio brincando e não demorou muito até eu perceber que ali havia alguém que sabia o que estava fazendo.

Ela não tenta mostrar potência vocal, nem inventa firulas. Faz o básico e acerta, não se expõe em momento algum ao constrangedor. A banda que a acompanha é excelente e recriou todo o clima das músicas de Waits com esmero, apostando em climas viajantes. Scarlett e seu produtor David Sitek, da banda TV On The Radio, não regravaram tudo exatamente como eram os registros originais. Eles incorporaram novos elementos com propriedade e conseguiram fazer o álbum soar coeso.

O disco também conta com a participação de Nick Zinner, guitarrista da banda Yeah Yeah Yeahs e o guitarrista da Celebration, Sean Antanaitis. O cantor britânico David Bowie, 61, empresta sua voz a duas faixas do disco, “Falling Down” e “Fannin Street”. Você pode ouvir a íntegra do álbum aqui ou aqui.

Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn
Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn

Resenha faixa a faixa

Fawn – uma linda abertura que deve ter deixado o próprio Tom Waits feliz. Não teve medo de arriscar combinações agudas.

Town With No Cheer – No comeo quase não parece a Scarlett, clima soturno, onírico. Teclados, sintetizadores presentes.

Falling Down – É como se ela cantasse na segurança de uma redoma de vidro enquanto em volta um tornado rodopiasse. Destaque para a guitarra e o jogo dos vocais dobrados cantando o refrão.

Anywhere I Lay My Head – Reinventa sem medo. Imprime força e faz sua voz, que não é adocicada, ganhar força e destaque.

Fannin Street – Lenta, a percussão dá o tom. Belos arranjos vocais. Nada de pressa aqui, e ela acerta novamente.

Song For Jo – A música inédita do álbum. Não decepciona também e mantém-se, estilisticamente falando, em sintonia com o resto do disco.

Green Grass – Voz grave, não tenta subverter a canção, mas também não deixa de deixar impressa sua marca pessoal. Tudo em seu devido lugar e com bom gosto.

I Wish I Was In New Orleans – Quase uma canção de ninar. É o mais doce que ela chegou neste álbum.

I Don’t Wanna Grow Up – Dançante do começo ao fim. Podia cair na mãe de algum DJ e virar um hit em pistas de dança. Bem animada.

No One Knows I’m Gone – O que acontece quando você mistura os climas de Pink Floyd com Beirut e um vocal feminino que não tenta soar nem diva do soul, nem ídolo teen? Você tem uma bela canção.

Who Are You – Belo dueto e serve como síntese do álbum. Scarlett não tenta fazer mais do que sua voz permite, não cai em impressionismo tolos.

As cores da Björk ao vivo

Texto de Lucas Scaliza

Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)
Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)

Depois de lançar com enorme alarde seu último álbum de estúdio, Volta, Björk retorna com um registro ao vivo da turnê. Voltaic foi lançado em julho e contém dois sets de shows. O maior deles registra a apresentação da cantora islandesa em Paris quase no fim da turnê. O segundo, bem enxuto, foi gravado em Reykjavík e nos brinda com canções soturnas novas e antigas.

Depois da introdução com uma marcha nórdica, Björk logo faz o show em Paris explodir com a percussão étnica de “Earth Intruders”. Daí para frente segue-se uma seleção de grandes músicas de Volta e de álbuns anteriores, principalmente Homogenic, Vespertine e Medulla. Estão lá “Hunter”, “Hyperballad”, “Pluto”, “Army of Me”, “Bacherolette”, “Who Is It” e “Jóga”, como destaques entre as antigas. E “Declare Independence”, “Vertebrae by Vertebrae” e “Wanderlust”, entre as criações da última safra.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções

A cada turnê, Björk muda a composição de seu palco, isto é, as cores do show, os instrumentos que serão usados por sua “banda” e por seu coral. Muda também a sua atitude. Uma das belezas de ouvir – e de ver, pois Voltaic é um DVD duplo também – a islandesa de 43 anos ao vivo é reparar em como ela rearranja e quase recria suas músicas para novas configurações de instrumentos.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções. Desde os raios laser verdes até a roupa bufante rosada da artista central, e do macacão amarelo com riscas coloridas dos músicos do coral até as bandeiras com símbolos antigos no alto do palco, tudo tem sua força na produção. Em contraste com tudo isso está o clima às vezes depressivo das canções executadas.

Entretanto, a versão ao vivo do DVD é diferente da versão ao vivo do CD. Embora belo, o DVD com o show de Paris e Reykjavík não tem as superconhecidas (e exigidas pelo público, em certa medida) “Pagan Poetry” e “All is Full of Love”, o que o deixa com um certo vazio. Já o CD, gravado no Olympic Studios, traz uma apresentação menor, mas que contém essas duas faixas. Não tem jeito, para se satisfazer com o novo lançamento de Björk o consumidor terá que possuir tanto CD quanto DVD.

Veja abaixo um vídeo de Voltaic das músicas “Hyperballad” e “Pluto” e observe como o show vira uma balada pessoal de Björk.

Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m
Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m

 

55 anos de rock – parte 3

Texto de Lucas Scaliza

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Polifonias roqueiras – final

O rock já foi estudado e retratado de todas as formas imagináveis. Está no cinema, nas artes plásticas, na televisão, na literatura, inspira e embala peças teatrais, fala de si mesmo e faz paródia de si em diversas músicas, num exercício de metalinguagem. Também invadiu o ambiente acadêmico e não é difícil encontrar teses de pós-graduação que abordam o tema.

O poeta, músico e escritor José Miguel Wisnik, que tem várias composições musicais próprias e outras feitas em parceria com grandes nomes da MPB (como Caetano Veloso), também falou sobre o rock em seu livro O som e o sentido: Uma outra história das músicas. Wisnik, que há vários anos é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), analisou a música contemporânea e concluiu que o cenário é dos mais confusos. Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, diz ele, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”.

Segundo ele, a repetição e a alternância entre ruído e silêncio e as experiências de sincronia e simultaneidade tanto podem atestar o fim do social como podem criar um tempo musical singular para outros, de extrema complexidade e sutileza. “O rock encontra-se no meio desse fogo cruzado, uma hibridização típica da cultura pós-moderna”.

Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”, diz Wisnik

O rock, escreve Wisnik, é a superfície de um tempo que se torno polirrítmico. “Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens”. Complicado entender? Um pouco, mas a discussão serve para contextualizar o rock – e a música em geral – dentro do mundo de hoje, em que várias modas e tendências, posicionamentos políticos e mudanças econômicas e culturais acontecem ao mesmo tempo.

Atualmente o rock está em uma fase de múltiplas confluências. Você quer ouvir heavy metal? Pois existem várias bandas deste estilo em atividade. Quer folk rock à la Bob Dylan? Você também encontra. Rock com música eletrônica? Rock com hip hop? Rock comercial? Rock do século 21 com pinta de década de 1970? Tudo isso acontece agora. Pelo jeito, o rock é um senhor de 55 anos que pretende viver por pelo menos mais 50 e continuar influenciando todas as áreas do conhecimento humano, quer você goste da música ou não.