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Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

MPB pra alemão ver

Texto de Lucas Scaliza Fotos Divulgação

Katharina Ahlrichs (6)-2
Katharina Alrichs e sua banda, Sessão. Eles vêm ao Brasil para uma série de seis shows mostrando composições próprias e clássicos da MPB

A cantora alemã Katharina Ahlrichs é apaixonada pela MPB e volta com a banda Sessão da Noite para shows no Brasil

A banda alemã Sessão da Noite, comandada pela cantora Katharina Ahlrichs, está fazendo uma mini-turnê pelo Brasil. O grupo deixou a cidade de Dresden, no leste da Alemanha, e a turnê germânica que faziam atualmente para aterrissarem no Brasil para uma série de seis shows que começam em Salvador, na Bahia, e passam pelas cidades de São Paulo e Barra Bonita, seguem para Joinville, em Santa Catarina, e terminam com duas apresentações em Barbacena, Minas Gerais.

Katharina Ahlrichs tocará acompanhada pelos músicos Janco Bystron (bateria), Sina Fehre (baixo), Dirk Haefner (violão e guitarra) e Lars Maeurer (piano). A banda foi formada por Ahlrichs com o intuito de tocar os clássicos da música popular brasileira, além de compor músicas próprias. Essa paixão pela MPB só foi despertar na cantora (que canta e fala muito bem o português) depois de ver um show de música tupiniquim em sua cidade. Na hora de preencher uma ficha de intercâmbio da AFS informando para quais países gostaria de ir, preencheu todos os campos disponíveis com o nome “Brasil”.

No MySpace dela é possível ouvi-la cantar MPB em português, inglês e alemão. Nos shows, será possível comprar o novo CD do grupo, Telescópio.

Entrevistei Ahlrichs por e-mail. Ela fala sobre como era viver na Alemanha dividida em dois lados durante a Guerra Fria, sobre o “jeitinho brasileiro” e música, claro.

 

Katharina, quando começou a sua relação com o Brasil? Morou aqui por muito tempo?

Quando tinha 16 anos fiz intercâmbio no Brasil por meio da AFS. Quando fui escolhida por esta organização ainda não tinha a mínima ideia para onde queria ir. Mas uma semana antes da decisão final, ouvi por acaso um show de música brasileira na minha cidade. Fiquei tão encantada e impressionada que pus no papel da AFS 10 vezes “Brasil!!”, em vez de 10 alternativas de países para onde gostaria de ir. Tinha que ser Brasil mesmo!

Fiquei um ano com uma família no interior de São Paulo – primeiro em Mococa e depois em Jaú. Isso foi de 1991 a 1992. Nestes últimos 17 anos voltei várias vezes para o Brasil e, contando tudo, morei uns dois anos por aí.

O que você mais gosta no Brasil? Quando chegou aqui, qual foi a característica deste país que mais te surpreendeu?

Foi a música brasileira que chamou a minha atenção primeiro. Adoro bossa nova e MPB. Os meus heróis são Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Joice, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan, Caetano Veloso e João Bosco.

Mas a primeira coisa que aprendi ao chegar ao Brasil é o grande coração e a gentileza que as pessoas daí têm. Eu me senti bem recebida, todo mundo me ajudou a me virar nessa cultura, nessa língua. E o “jeitinho brasileiro” me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for.

A sua infância deve ter passado pela fase em que a Alemanha ficou dividida entre os lados Ocidental e Oriental. Em qual desses lados você morava? Como era a vida de uma criança num país dividido? Quais eram os sentimentos da população quanto a essa divisão?

Muitas famílias e amizades foram divididas pela fronteira. A geração dos meus pais sofreu muita saudade e desespero por causa disso. Eu tinha 14 anos quando o muro caiu. Na época, morava numa aldeia muito pequena na Alemanha Ocidental, mas muito perto da fronteira. Era um tempo muito emocionante para nós, porque nos sentíamos livres de uma grande pressão que existia sobre a Alemanha Oriental. Tínhamos amigos no outro lado da fronteira que sofreram por causa da ditadura e que não tinham a possibilidade de viver a própria vida como queriam, por causa do sistema (socialista implantado).

Ficamos superfelizes quando o muro caiu e fomos para várias aberturas da fronteira afim de cumprimentar o pessoal do lado oriental. Tínhamos a grande esperança de que as coisas boas dos dois lados pudessem se misturar com respeito e sabedoria. No fim, não aconteceu bem assim. Foi mais a sensação de que a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental… Mas mesmo assim estamos felizes demais por termos a liberdade da mente, da palavra e do corpo para todos os alemães!

“O ‘jeitinho brasileiro’ me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for”

A Alemanha, 20 anos depois da queda do muro de Berlim, ainda guarda resquícios de um país dividido?

Infelizmente, sim. Por causa da infraestrutura, das locações de indústria e economia, até hoje os salários variam entre os dois lados (no lado oriental se ganha menos). No lado oriental também existe mais desemprego e, por causa dessas coisas, há uma certa frustração ali. Mas há exemplos muito positivos também! A nossa banda, por exemplo, é uma mistura de alemães dos dois lados. O baterista e eu somos do lado ocidental, mas moramos – como o resto da banda – em Dresden: uma cidade linda na Alemanha Oriental. A nossa geração não tem muitos preconceitos e temos uma grande amizade entre nós.

Você sempre gostou e estudou música desde pequena ou a música só apareceu para você em um momento especial da sua vida?

Eu nasci numa família muito musical. Sempre cantamos juntos, cada um tocava pelo menos um instrumento. Sempre adorei fazer música e shows. Assim ficou bem claro para mim que escolheria um caminho nesta área (que independentemente de ser dura, é MARAVILHOSA 😉 e agradeço muito aos meus pais, que me ajudaram e me apoiaram ao invés de ficarem preocupados e rígidos.

“No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha”, diz a cantora alemã Katharina Ahlrichs

Você vive de música hoje ou tem outras ocupações?

Eu vivo de música. Tenho dois conjuntos de música inspirados pelo Brasil, o Luamar ( http://www.myspace.com/luamarduo) e a Sessao. E às vezes eu dou aula de coral e canto e faço shows como palhaço.

 
Que características da música brasileira você ressaltaria como únicas em comparação com a música europeia e norte-americana?

O fator percussivo em todos os instrumentos – não só na bateria – é típico da música tradicional brasileira. O jeito de tocar e cantar as frases é grudado ao ritmo e ao groove da música. Mesmo na bossa nova, em que o canto parece completamente livre do metrum, é assim: sem a percepção do ritmo por dentro, nunca seria possível cantar tão relaxadamente ao lado do ritmo!

No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha, o povo canta junto com artistas num show, conhece as letras. Muitos sabem tocar violão e percussão.

Além dos compositores brasileiros, quem são seus artistas preferidos no resto do mundo?

Adoro Sting, Peter Gabriel, Lenny Krawitz, Maria João, entre outros. Todos eles mexem com influências do mundo inteiro e tem groove!

Em seu MySpace, vejo músicas cantadas em português, alemão e inglês. É fácil transitar em três (ou mais) idiomas?

É uma questão de exercício, de training. Para mim é muito gostoso viajar entre os mundos dessa forma. O interessante é que a técnica de cantar é diferente e a minha voz tem um som diferente dependendo de qual idioma estou cantando. Essa variedade me atrai.

“O meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca, do de Portugal e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia”

O seu português nas músicas é perfeito. Ouvindo, ninguém diria que se trata de uma estrangeira.

Obrigada! 😉

 Foi difícil pegar fluência na língua? Levou muito tempo para aprender?

Lembro que demorou uns dois meses até eu começar a entender (quase) tudo. E mais dois meses para poder dizer (quase) tudo que queria. O resto do tempo eu tentei treinar a ‘elegância’ do meu jeito de falar.

Adoro viajar, conhecer outros lugares, pessoas, culturas e sou muito chegada a línguas. Mas é claro que até hoje sempre me deparo com palavras que faltam ao meu vocabulário e com erros. Imagino também que o meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca (que ouço em tantas músicas), o de Portugal (pior que é…) que peguei nas minhas viagens para lá e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia.

Existe música brasileira tocando nas rádios da Alemanha ou da Europa? Europeus têm acesso fácil ao que é produzido no Brasil ou esse é um mercado de nicho?

A música brasileira é bem conhecida numa certa cena da Alemanha. Pelo menos a bossa nova é conhecida, que é tão grudada ao jazz, e a MPB. Nas rádios de alto nível cultural toca-se muito Bebel Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Djavan, Marisa Monte, etc. Os alemães também gostam muito de batucada e capoeira e têm muitos e muitos grupos que tocam esta música.

Você cursou Ciências Culturais na faculdade e se especializou em palhaço. Como decidiu fazer este curso e por que se especializou em palhaço?

O curso de Ciências Culturais oferece uma grande variedade de matérias. Ao lado da música, estudei teatro, psicologia e management (gerência) de cultura. Achei importante, porque sabia que ia trabalhar com isso independentemente. Sabia também que todas essas disciplinas poderiam me ajudar na profissão.

Depois da universidade eu fiz o curso de palhaço, porque sou uma pessoa que quer ficar no palco e que é muito interessada em trabalhar com emoções e com “a verdade do momento”. O palhaço é tudo isso e o que aprendi naquele curso, que durou um ano e meio, ajuda na minha presença no palco.

A sua banda tocará em Salvador, São Paulo, Barra Bonita e Barbacena, segundo a agenda de seu MySpace. Que tipo de show você preparou para essas cidades?

É basicamente o mesmo show, mas com diferenças em relação ao tempo que temos e o lugar onde tocaremos. Em Salvador e Barbacena procuramos também convidar outros músicos para tocar no palco, pois tocamos em universidades de música, e – especialmente em Salvador – vai ser um show muito “jazz”.

Em todos os lugares será uma mistura de música original do Brasil e composições próprias da gente que gostaríamos de apresentar ao público. Estou superfeliz de ter a oportunidade de tocar música brasileira no próprio país em que ela nasceu. Como somos alemães, me parece algo bem exótico! J E mais ainda porque apresentamos nossas próprias composições também! Estamos muito ansiosos e esperamos que todos gostem! 🙂

Para terminar: a arte salva?

Salva sim! Cada vez que ouço uma música que gosto fico emotiva, começo a sorrir ou a chorar. A razão de eu ser uma pessoa positiva tem a ver com a força da música. E se eu conseguir chegar até as pessoas e tocá-las com o meu canto, recibo tanta energia boa que faz bem viver! Isso é o meu lado. Agora, quanto as pessoas que ouvem a música, minha experiência mostrou que algo da minha alegria e da minha paixão viaja até o público e toca as pessoas. Se é assim, é maravilhoso!

Katharina Ahlrichs (7)-2
O baterista Janco Bystron