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Novas séries que podem dar o que falar

O thriller policial The Killing, que estreou domingo aposta mais no drama que na ação

Começaram a ser exibidas nos Estados Unidos três novas séries para a televisão que podem dar o que falar. Camelot, The Borgias (ambas com ambientação medieval, mas seguindo rumos um pouco diferentes) e The Killing (um thriller policial que não segue a cartilha do gênero) tiveram seus dois primeiros episódios exibidos no último final de semana. A seguir, discorro sobre cada uma.

 

The Borgias – Sangue e sexo no Vaticano

Jeremy Irons interpreta o corrupto Rodrigo Borgia, o papa Alexandre VI

Criada por Neil Jordan (diretor de Entrevista com o Vampiro e Fim de Caso), a série The Borgias narra a história verídica da corrupta e inescrupulosa família Borgia. Rodrigo Borgia (Jeremy Irons), o patriarca, é um cardeal que somente espera a morte do papa Inocêncio VIII, mostrada assim que o primeiro episódio começa, para fazer tudo o que pode para ser eleito o novo chefe da igreja católica em 1492. Contando com a ajuda de seu filho, o bispo Cesare Borgia (François Arnaud), suborna, corrompe e faz conchavos políticos com outros cardeais, obtendo na marra a maioria dos votos, tornando-se o papa Alexandre VI.

Como se baseia em fatos reais, dá para notar o cuidado da produção com cada detalhe da trama: a recriação de Roma e dos palácios do Vaticano, a fidelidade aos figurinos eclesiásticos, as referências precisas a cardeais, reis e mulheres que realmente existiram e até a pesquisa sobre direito canônico.

Neil Jordan – que produz a série e dirigiu e escreveu os dois primeiros capítulos da série – deixou claro que poupar a igreja ou o público nessa empreitada não está nos seus planos. Ele mostra os Borgias e de mais cardeais conspirando uns contra os outros e traz as relações políticas para o centro da trama. Afinal, tanto hoje quanto na Renascença, utilizar (arbitrariamente) a legalidade para garantir interesses e afastar opositores é uma medida amplamente usada no jogo político, entre políticos.

Aos poucos a série vai construindo a personalidade de seus personagens. Sabemos de antemão que Rodrigo Borgia é um vilão na história do catolicismo, mas o olhar que a série nos obriga a ter sobre os fatos daquela época revela que ninguém era santo e tomar algum partido seria maniqueísmo do próprio telespectador.

Nenhum assassinato é cometido gratuitamente, todos estão ancorados em uma função narrativa. Mesmo assim, espalham bastante sangue sobre lençóis brancos, mesas de jantar, prisões e salões do Vaticano. Sexo também está presente e deverá intensificar sua recorrência para mostrar uma das principais formas de corrupção da família Borgia. Não só Rodrigo e Cesare cometem o pecado aos olhos da igreja, mas também a jovem Lucrécia Borgia e vários outros personagens.

Apostando na força de seu roteiro e na qualidade de seus atores, The Borgias mostra dramaturgia de qualidade. Uma das melhores estréias da temporada.

 

Camelot – Uma versão para rei Arthur

Arhtur e Merlin na série que dá nova versão aos fatos da lenda britânica

Camelot, como seu nome denuncia, é a história do lendário Arthur Pendragon, rei bretão que, segundo a lenda, terá o poder de unir a Grã-Bretanha e defendê-la dos saxões invasores. Ao seu redor gravitam personagens famosos, como o mago Merlin, sua meio-irmã bruxa Morgana e os cavaleiros da Távola Redonda. No entanto, para quem já leu os escritos da saga arthuriana ou a tetralogia As Brumas de Avalon (a história de Arthur contada do ponto de vista das mulheres), essa série tem um começo um pouco estranho. Mas como não existe uma versão definitiva sobre essa história nem entre historiadores e nem entre os ficcionistas, parece que qualquer liberdade criativa vale, desde que alguns elementos sejam mantidos.

No início de Camelot, Morgana assassina seu pai, o rei Uther Pendragon, e se alia ao rei Lot. Entretanto, Merlin (Joseph Fiennes) vai em busca do filho perdido de Uther, Arthur (Jamie Campbell Bower), que precisa aprender a ser rei e aceitar seu destino. Mas é claro que tal pretensão vai incomodar poderosos e vingativos senhores feudais da ilha britânica.

A julgar pelos dois episódios exibidos até agora, não dá para saber exatamente quais são as intenções de Morgana (Eva Green) e nem se o amadurecimento do Arthur será forçado, para caber dentro do cronograma de filmagens, ou natural, dando tempo para que ele se acostume com a ideia de ser rei (coisa que o garoto nunca achou que seria até Merlin bater a sua porta).

As poucas batalhas já exibidas foram anêmicas. Nunca uma luta de espadas do século VI mostrou tão pouco vigor. Os atores, com algumas exceções, também não mostraram uma interpretação convincente. Em comparação com The Borgias, Camelot também perde em fotografia, com menos acuidade na hora de elaborar sua criação visual.

A série pega alguns atalhos. Por exemplo: Arthur é coroado rei no castelo de Camelot. Pelo menos em As Brumas de Avalon, a sede do governo arthuriano só passa a ser Camelot na segunda metade de sua história. É nesse ambiente, aliás, que a Távola Redonda é formada. E levaria muito mais tempo até que Morgana virasse, de fato, uma opositora de Arthur do que a série nos faz crer. Só mesmo acompanhando o resto dos episódios saberemos se Camelot vai justificar os atalhos que pegou e nos entregar uma história convincente.

 

The Killing – Drama policial não forense

O ponto de partido da série é o assassinato de uma adolescente

The Killing começa com uma mulher e uma garota correndo por um bosque. A primeira, Sarah Linden (Mireille Enos), acha que este será seu último dia como detetive da divisão de homicídios da úmida Seattle e não vê a hora de partir para a aconchegante Califórnia de noite. A outra é Rosie Larsen (Katie Findlay), menina de 17 anos que se arrasta aos gritos pela noite entre as árvores tentando fugir de alguém.

Não é difícil imaginar o que acontece a seguir: Rosie é dada como desaparecida e, algumas horas depois, é encontrada morta no porta-malas de um carro. A detetive Linden, diante do caso, se vê obrigada a abrir mão do sol de San Diego para cuidar do caso. Paralelamente ao misterioso assassinato, Seattle está prestes a eleger seu novo prefeito. Imagino que intrincadas armações políticas serão somadas ao enredo investigativo da série.

The Killing, remake de um seriado dinamarquês, é um thriller policial, mas segue seu próprio caminho narrativo e estético. Diferente de CSI, Bones ou Criminal Minds, medalhões do gênero, a nova série não está interessada em mostrar closes de corpos dilacerados, casos surreais e escabrosos, nem tão pouco as maravilhas das técnicas forenses. The Killing concentra-se no drama, em como a morte de uma simples garota (quantas outras não devem morrer assassinadas por dia em Seattle?) afeta uma família, uma eleição e até mesmo o destino profissional de uma detetive.

De certo modo, lembra um pouco a premissa de Twin Peaks, clássica série dos anos 90 que revelou o diretor David Lynch. No entanto, as tramas e subtramas de The Killing não devem sofrer nenhuma interferência sobrenatural. Como é típico do gênero, a série tem uma forma de filmar pessoas e ambientes e de registrar seus dramas ressaltando o que há de mais humano e material na cena, evocando uma realidade dura e crua.