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A hora e a vez da liberdade feminina

Inês Levorato, 68


Quatro senhoras revelam histórias, desejos e realidades de como foi ser mulher no século 20 e surpreendem ao dizer: “Liberdade nós só temos agora”

Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / Orgulho e raça de Atenas. Esses versos da canção “Mulheres de Atenas” de Chico Buarque são o início de um poema que busca na cultura grega clássica uma postura feminina que pouco tem a ver com a mulher do século 21. Se a “mulher de Atenas” se sujeitava a tudo por seu marido, como consta na letra de Chico, e a sociedade assim também impunha que fosse sua conduta, a mulher de hoje é exatamente o contrário: quer trabalhar fora, quer usufruir da juventude, aproveita a liberdade que tem, não é submissa ao companheiro, e até quer um amor sim, mas se o homem não a faz feliz, ela não espera milagres acontecerem e trata de dar um jeito na situação. Porém, ainda é possível encontrar mulheres que durante a mocidade não tiveram liberdade suficiente – se é que alguma vez chegaram a ter um mínimo de liberdade – para se expressarem da forma como gostariam.

Para comentar e dar uma noção mais exata do que é e do que foi ser mulher nos últimos 70 anos, quatro mulheres experientes foram convocadas e entrevistadas ao mesmo tempo. Inês Levorato, 68 anos, é a única do grupo que não se casou virgem. Mercedes Puertas Frolini, 60 anos, é a única do time que nasceu e sempre morou na cidade, e não na zona rural. Geralda Naves, 69, é a única entre as quatro que não descende de espanhóis, mas de mineiros. E, por fim, Iolanda Garcia Baroni, 77, é a única que só pôde beijar o marido na boca no dia de seu casamento.

Elas revelaram uma experiência comum: a falta de liberdade quando jovens e a não realização do sonho de se “libertar” depois do casamento. Elas são unânimes ao afirmar que só atualmente, na chamada melhor idade, conseguiram se livrar de tudo que as atava a moralismos e frustrações. “Liberdade mesmo nós só temos agora”, afirmam.

Como foi a primeira vez que vocês tiveram consciência de que eram mulheres – e de todas as responsabilidades que isso traz?

Inês – Fui perceber que eu era mulher mesmo quando comecei a tomar conta da casa, cuidar dos filhos, do marido, lavar roupa e de todo o resto.

Mercedes – Sempre me senti uma mulher, mas me senti mais mulher ainda depois de me casar e de ter as minhas filhas. Aí tive a consciência de estar fazendo o papel de uma mãe, de uma mulher mesmo.

Geralda – Ah, já está gravando, é? Bom, fui me sentir mulher quando tinha 23 anos e nasceu minha primeira filha. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Iolanda – Sou a responsável pela minha casa desde os 15 anos. Minha mãe tinha que trabalhar e meu pai adoeceu, então eu mesmo cuidava dos irmãos mais novos. Depois que me casei, dobrou o trabalho. Aos 27 eu tinha três filhos.

Vocês já foram criadas para serem donas-de-casa?

Iolanda – Desde pequena eu ajudava a minha mãe com o trabalho doméstico, estava acostumada a isso desde os sete anos. Não trabalhava fora logo depois que me casei, mas a situação foi apertando e precisei trabalhar fora.

Geralda – Eu já tive que cuidar de todos os meus irmãos aos 14 anos. Minha mãe teve 16 filhos. Os cinco filhos mais velhos morreram em Minas Gerais. Eu fui a mais velha da geração seguinte, por assim dizer.

Mercedes – A vida começou a ficar dura e cheia de responsabilidades depois do casamento. Antes eu era paparicada, era filha caçula, não tinha muitas obrigações em casa. Mas não foi difícil me acostumar com a vida que veio depois, segui o exemplo da minha mãe.

Inês – Também segui o exemplo da minha mãe, que não deixava as filhas sem aprenderem a cuidar da casa e da família. Não era como agora que os filhos não querem nem saber. Na nossa época, tinha que fazer mesmo, senão os pais até nos batiam. Fiquei grávida aos 17 anos, precisei me casar, e aí me senti mulher mesmo, tendo que cuidar do marido, da casa e dos filhos. Aos 24, eu já tinha quatro filhos.

“Antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal” – Inês Levorato

São poucas as moças atualmente que querem se casar cedo. Era costume na juventude de vocês que as moças se casassem logo?

Geralda – Ah, era! Assim não tínhamos que trabalhar! (risos gerais)

Inês – Não é nem por causa do trabalho que se casava cedo, era para nos libertar. Nossos pais não nos deixava ir a festas e bailes, então a gente achava que casando se livrava das amarras dos pais. Hoje as moças não querem se casar novas porque elas têm liberdade!

Geralda – Casar para quê agora, não?

Os pais seguravam muito as filhas?

Inês – Seguravam demais! Minha mãe era uma espanhola daquelas que batia mesmo nos filhos se não fizessem direito o que mandavam. Não queria nem saber se era moça. Era a educação dela.

Vocês conseguiam ou podiam sair de casa?

Inês – A gente queria sair, mas não deixavam. E se desobedecêssemos, apanhávamos.

Geralda – Eu pulava a janela! (risos) Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova. A gente ficava um pouco nos bailes e depois voltávamos.

Seus pais descobriram essa estripulia alguma vez?

Geralda – Descobriram sim, e apanhamos muito! (risos) E como apanhamos… E continuamos indo aos bailes escondidas, não teve jeito.

Depois que se casou, a senhora teve liberdade?

Geralda – Não tive. Casei com 18 anos e não tive liberdade.

Desobedecer os pais não trazia problemas para vocês?

Mercedes – Se deixavam eu ir, eu ia, se não deixavam, eu concordava, não desobedecia. Eram pais espanhóis muito bravos também. Teve um Carnaval que queria ir, mas eles não quiseram deixar. Acabei indo acompanhada de um irmão mais velho. Todo mundo brincando e eu sem poder fazer nada, quieta num canto, só olhando. Arrependo-me até hoje de não ter brincado naquele Carnaval.

Quando foi que a senhora pôde, enfim, curtir essas festas?

Mercedes – Sabe quando foi? Depois que fiquei viúva. Aí pude aproveitar e fazer tudo o que tinha vontade: ir a bailes, carnavais, passear, etc.

Está mais livre, então?

Mercedes – Como um passarinho! (risos)

“Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!” – Mercedes Frolini

Mercedes Puertas Frolini, 60

E como foi com a senhora, dona Iolanda?

Iolanda – Meus pais davam serviços pra gente. Se conseguíssemos terminar, estávamos liberados para passear. Mas muitas vezes quis ir a bailes e eles não deixaram. E se eu pulasse a janela, a cinta comia! (risos) Tenho mais liberdade agora do que quando era mais jovem.

Nem no começo do casamento a senhora podia sair?

Iolanda – Quando era solteira não saía porque meus pais não deixavam. Aí me casei e a situação piorou. É de uns 12, 15 anos para cá que saio mais, entendeu?

Vocês chegaram a trabalhar fora?

Mercedes – Eu sempre trabalhei em farmácia, por uns 30 anos, e fui enfermeira também. Só comecei a trabalhar depois que me casei. Gostava e precisava do emprego.

Geralda – Trabalhei porque precisava mesmo. Fiz de tudo, trabalhei na roça, fui doméstica, lavei, passei… acho que só não catei laranja. (risos)

Iolanda – Eu lavava e passava roupa pra fora, fiz isso para uma mesma família por 42 anos e ainda aparecem roupas para eu cuidar de vez em quando.

Inês – Sempre trabalhei na roça, principalmente carpindo e cortando cana. Só parei quando fiz uma cirurgia e, desde então, não pude mais carregar peso maior que 5 kg. Senão fosse isso, estaria até hoje na roça.

As mulheres hoje em dia não pensam mais em ser apenas donas-de-casa e mães. Elas estudam e almejam uma carreira, além de também serem mães e de cuidar da casa. Se fossem moças hoje, pensariam da mesma forma?

Inês – Pensaria, sim. Talvez não gostasse muito de ficar por aí nas baladas noite

adentro, mas pensaria menos como antigamente se pensava. Hoje as coisas estão bem mais fáceis para as moças, elas sabem o que querem, se divertem e até estudam.

Mercedes – Eu faria o que elas fazem hoje. Sair pra me divertir, trabalhar…

Geralda – Aproveitaria tudo o que não tive – e sem precisar sair escondida pela janela! Estudaria, me casaria mais velha, paqueraria mais.

As moças paqueram abertamente hoje. Era complicado fazer isso na época de vocês?

Iolanda – Como meu pai era muito bravo, tínhamos medo até de parar para conversar com um moço. A gente ficava sabendo do fulano que gostava da gente, mas não tinha muita paquera.

Geralda – Nunca namorei. Quando aconteceu, foi rapidinho para casar logo. Quando gostávamos de algum moço, não podíamos namorá-lo.

Mercedes – Consegui namorar bastante, seja escondida ou no cinema, no tempo em que havia um cinema na rua Primeiro de Março. Dizia a meu pai que ia ao cinema e, chegando lá, meu namoradinho estava me esperando. Meu tempo de solteira foi muito bom.

Inês – Namorei só dois rapazes e um deles foi o meu marido. Era mais fácil arrumar um bom namorado na nossa época de moça do que hoje. Acontece que, antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal. Os rapazes eram bons, mas não podíamos fazer nada, tudo era errado. Assim, eu acabei ficando grávida, porque fui além do beijo. Hoje está complicado para as moças. Elas vão aos bailes e logo vem aqueles caras bêbados por cima delas, já querem beijar, já vão avançando o sinal…

“Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova” – Geralda Naves

Geralda Naves, 69

E era fácil encontrar um companheiro definitivo para se casar?

Mercedes – Ah, foi difícil achar. E depois de me casar vi que não era o que eu queria, mas o estrago já estava feito. Agora, que estou no segundo casamento, minha vida está um paraíso. Meu único erro do passado foi ter realizado meu primeiro casamento.

Vocês conseguiram estudar?

Mercedes – Deu para estudar tudo o que precisava até o ensino médio. Meus pais até me empurravam para a escola, eu é que não queria muito ir. (risos)

Iolanda – Eu estudei só até o primeiro ano. Depois fiquei doente e precisei parar os estudos. Quando pude voltar à escola, já estava mocinha. Aí nem fui mais.

Geralda – Até tentei estudar, mas eu entrava na escola e nascia um bebê em casa. Aí precisava parar para ajudar a criá-lo. Quando voltava pra escola, nascia outro. E assim foi indo, até que não deu mais para estudar. Como era a mais velha, tinha que tomar conta dos meus irmãos. Morria de inveja de quem ia pra escola na fazenda. Só fui poder estudar recentemente, quando apareceu a Escola para Jovens e Adultos.

E quanto ao romantismo da época? Existia isso?

Inês – Que mulher não gosta de um galanteio? Mas tem homens da época que não faziam isso, achavam até errado. Não tive isso em meu casamento.

Mercedes – Toda mulher sonha com esse romantismo. Neste meu segundo casamento tenho tudo isso. Se hoje eu perceber que o casamento não vai bem, eu me separo.

Geralda – Eu queria casar e ser feliz, mas não fui feliz no casamento. Tive uma decepção como mulher nesse ponto. Mas não podia me separar, senão a gente caía na boca do povo. Hoje não me caso mais, quero continuar solteira. Paquerar eu paquero, mas não me caso. Tenho um paquera, mas pra passear. Cada um mora em sua casa.

Sexo era um tabu. Quando é que vocês começaram a ouvir sobre isso?

Inês – Não se falava sobre isso, não se falava! Imagina se as mães tocavam no assunto? Nem quando ficamos mocinhas. A gente conversava com nossas colegas, porque as mães tinham vergonha de falar. Minha mãe ficou quase louca quando soube que eu estava grávida! Ela achou a coisa mais absurda do mundo. Mesmo com uma amiga a gente tinha vergonha de falar às vezes. Fui conhecendo o sexo conforme ia me relacionando com meu marido.

A senhora engravidou de sua primeira vez?

Inês – Não, não foi minha primeira vez. A gente dava as nossas disfarçadinhas… (risos)

“A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade” – Iolanda Baroni

Iolanda Garcia Baroni, 77

Quando chegava a hora do sexo, vocês tinham informação do que aconteceria, de como era?

Inês – Eu não sabia nada, fui ver como era na hora. A gente não sabia mesmo! Hoje em dia a coisa está melhor, porque se fala sobre isso. Eu falo sobre sexo normalmente com meus filhos.

Mercedes – Minha mãe me orientava muito. Ela não falava tão abertamente sobre o assunto, mas eu entendia o que ela queria dizer. Eu me casei virgem, sem saber de nada. Demorou até poder me expressar sobre isso. Tínhamos vergonha também. Falavam de um jeito sobre o assunto que até dava medo de chegar perto dos rapazes.

Inês – Hoje, meninas de 10 anos já sabem o que é sexo.

Mercedes – Demorou para eu me acostumar com a ideia, mas depois ficou tranquilo.

Geralda – Ninguém falava sobre isso. Só fui saber o que era na hora H mesmo. Nem me lembro mais (risos). E coisas de que a gente não gosta precisamos deletar da memória. Não gostei da minha primeira vez.

Iolanda – Só fui conhecer sexo depois que me casei e olha lá. Ninguém me falou sobre o que aconteceria, foi na surpresa mesmo. (risos) Quer que eu resuma? A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade. Sabe quando fui dar um beijo no meu marido? Só no dia do meu casamento!

Se vocês fossem mais jovens hoje e tivessem toda a liberdade e volume de informações disponíveis hoje, acham que aproveitariam mais a mocidade?

Inês – E como aproveitaríamos!

Iolanda – Ah, se eu tivesse 18 anos hoje, paqueraria bastante, viu?

Mercedes – Se tivesse 18 anos com a experiência de hoje, valeria a pena!

Acham que a liberdade que se tem hoje é grande até demais?

Mercedes – É um pouco de liberdade demais que se tem hoje, sim, mas você só passa dos limites se quiser.

Inês – Hoje em dia, é normal se falar de muita coisa que antes nem tocávamos no assunto. Eu não ignoro o mundo de hoje e falo com meus filhos e netos sobre tudo. Encaro tudo numa boa!

Iolanda – Vai ver, a gente é chata e quadrada perto da juventude de hoje…

Inês – Eu fui muito quadrada, mas hoje em dia estou pensando na frente, estou liberada. Só não faço o que não considero certo, mas cada um sabe de sua vida. Acho tudo normal.

Vocês disseram, no início da conversa, que casavam para tentar se libertar da mão pesada dos pais. No entanto, percebi que nenhuma de vocês depois do casamento conseguiu a liberdade que queria. Como fica a mulher nessa situação?

Geralda – Foi bem ruim nesse aspecto da liberdade. Meu marido não saía e não deixava eu sair. Só depois de viúva pude fazer o que queria, me sentir mulher de novo…

Iolanda – Quando meu marido me convidava pra passear ele me deixava na casa da mãe dele e ia para o bar…

Inês – Ah, mas era assim mesmo. A gente achava que melhoraria casando, mas às vezes piorava. Depois vieram os filhos e a coisa mudou um pouco.

Dá para se sentir mais mulher hoje?

Inês – Sinto-me muito mais mulher nesta minha atual fase da vida, com certeza.

Mercedes – Sou hoje uma mulher realizada e feliz, faço tudo que sempre quis.

Iolanda – E eu tenho apoio dos meus filhos. Eles gostam que eu seja assim e até me incentivam.

Mercedes – Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!

*Essa matéria foi originalmente publicada no jornal Expresso Tietêde 06/03/2010.

Segundo Geralda, uma de suas únicas fotos de arquivo

Mercedes aos 18 anos

Inês em sua identidade
Iolanda aos 23 anos com três de seus filhos


Moon – Eu e eu mesmo na Lua

Sam Rockwell é Sam Bell. E Sam Bell vai ter que encarar a si próprio na Lua

A 250 mil milhas de casa a coisa mais difícil de encarar é… você mesmo

Moon, que no Brasil deve se chamar Lunar, infelizmente não vai chegar às salas de cinema nacionais. Duncan Jones, filho do cantor David Bowie, dirigiu e escreveu todo o argumento do filme, que depois foi roteirizado por Nathan Parker. Até agora Moon ganhou resenhas elogiosas da crítica internacional e participou de oito festivais de cinema, arrecadando 10 prêmios. Mesmo assim não foi tão bem nas bilheterias e por aqui ele será lançado diretamente em DVD.

É uma pena. Em sua simplicidade e com modestíssimos US$ 5 milhões de orçamento, Moon é uma ficção científica espacial que te pega de surpresa. Existem apenas dois grandes cenários na produção: as instalações de uma base espacial situada na Lua e o próprio terreno lunar acinzentado, empoeirado, sempre contrastando o enorme breu do espaço com uma luz branca vinda do sol. E existem apenas dois personagens: o robô Gerty (voz de Kevin Spacey), que comanda toda a base, e Sam Bell, o astronauta interpretado por Sam Rockwell.

Na trama, a fusão nuclear é uma fonte limpa e barata de energia para o mundo todo. E Hélio-3, combustível usado na reação nuclear, pode ser encontrado em abundância na superfície da Lua, onde faz três anos que Sam Bell trabalha completamente isolado. Faltam duas semanas para ele se aposentar e a solidão aparentemente está causando danos a sua sanidade mental. Como a comunicação direta com o mundo exterior está com problemas, ele se conforma em assistir a mensagens em vídeo enviadas por sua esposa e sua filha. Quando precisa falar com alguém, conversa com Gerty, máquina dotada de inteligência artificial que é uma referência claríssima a HAL, o computador do célebre 2001 – Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. HAL é apenas uma luz vermelha misteriosa que tem digressões humanas. Já Gerty é um equipamento que se move pela base e mostra suas “emoções” (isso sim é um simulacro!) por meio de emoticons. Usando uma brecha em sua programação, da qual Gerty tem plena consciência, ele se permite cumprir a missão para a qual foi programado ao mesmo tempo em que ajuda o astronauta solitário.

Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.

Durante um trabalho numa escavação lunar, Sam Bell sofre um acidente. Ele acorda algum tempo depois na enfermaria da base quase totalmente recuperado e sem permissão para sair daquele complexo. Mas ele infringe as regras e volta a cena do acidente onde encontra ele mesmo quase morto.

Logo percebemos que o astronauta era uma peça mantida na completa ignorância do contexto em que estava inserido. Qual dos dois Sam Bells será o Sam Bell original? O outro é realmente um clone? Ou os dois são clones? As gravações recebidas da esposa são verdadeiras?

A partir deste ponto, Sam Rockwell interpreta os dois Sam Bell em busca de conformação e compreensão. Cada um lida com a confusão do seu jeito, e mesmo que isso não fique expresso em palavras, os dois guardam uma profunda dúvida existencial dentro deles. Afinal, não deve ser nada fácil descobrir que você é ou pode ser um clone de outra pessoa fabricado para ser uma peça descartável, com memórias implantadas e, portanto, falsas.

Toda essa porção cerebral do filme é acompanhada por uma trilha sonora caprichada composta por Clint Mansell. Ele encontrou a trilha perfeita para exprimir as principais características estéticas do que se vê: músicas que nos remetem ao futuro e, mais do que isso, ao futuro no espaço. Mas um futuro espacial de desolação, de isolação, de sentimentos guardados que quase nunca podem ser jogados para fora. Falta alguém para compartilhar todas essas emoções com nosso herói. E já que ele não vai fazer isso, a música faz questão de ser mais sombria ou mais sentimental a medida que percebemos o que os Sam Bell gostariam de exprimir.

Sam Rockwell é Sam Bell. E Sam Bell vai encarar a si próprio e a sua consciência na Lua

Até chegar a seu final, a história de Moon vai sofrer mais uma reviravolta. E tudo poderia facilmente confluir para um final megalomaníaco, com os dois Sam Bell tramando grandes planos de vingança e de sobrevivência para darem conta de seus destinos trágicos. Mas Duncan Jones manteve o “pé no chão” e resolveu tudo com engenhosidade e sensibilidade humana. Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.

Moon é uma boa ideia bem executada como produto cinematográfico e que não se perde na falta de gravidade do espaço. Só por isso já valeria a pena ser visto. Mas ele vai além, ele propõe a reflexão de nossa condição humana. Diverte, sensibiliza e humaniza.

Scarlett também canta

Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek
Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Logo, logo a atriz Scarlett Johansson lançará um álbum musical ao lado do músico Pete Yorn. Até um video clipe da dupla já foi liberado na internet. No entanto essa não será a primeira vez de Scarlett como cantora. Em 2008 a moça gravou Anywhere I Lay My Head interpretando 10 canções de Tom Waits e uma inédita que não é de autoria dele.

Hesitei muito em ouvir o álbum de Scarlett, já imaginando a bomba que vinha pela frente. Seriam músicas pop teen melosas? Será que ela acabaria com Tom Waits? Aliás, ela canta bem? Logo de cara o disco mostra que não veio brincando e não demorou muito até eu perceber que ali havia alguém que sabia o que estava fazendo.

Ela não tenta mostrar potência vocal, nem inventa firulas. Faz o básico e acerta, não se expõe em momento algum ao constrangedor. A banda que a acompanha é excelente e recriou todo o clima das músicas de Waits com esmero, apostando em climas viajantes. Scarlett e seu produtor David Sitek, da banda TV On The Radio, não regravaram tudo exatamente como eram os registros originais. Eles incorporaram novos elementos com propriedade e conseguiram fazer o álbum soar coeso.

O disco também conta com a participação de Nick Zinner, guitarrista da banda Yeah Yeah Yeahs e o guitarrista da Celebration, Sean Antanaitis. O cantor britânico David Bowie, 61, empresta sua voz a duas faixas do disco, “Falling Down” e “Fannin Street”. Você pode ouvir a íntegra do álbum aqui ou aqui.

Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn
Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn

Resenha faixa a faixa

Fawn – uma linda abertura que deve ter deixado o próprio Tom Waits feliz. Não teve medo de arriscar combinações agudas.

Town With No Cheer – No comeo quase não parece a Scarlett, clima soturno, onírico. Teclados, sintetizadores presentes.

Falling Down – É como se ela cantasse na segurança de uma redoma de vidro enquanto em volta um tornado rodopiasse. Destaque para a guitarra e o jogo dos vocais dobrados cantando o refrão.

Anywhere I Lay My Head – Reinventa sem medo. Imprime força e faz sua voz, que não é adocicada, ganhar força e destaque.

Fannin Street – Lenta, a percussão dá o tom. Belos arranjos vocais. Nada de pressa aqui, e ela acerta novamente.

Song For Jo – A música inédita do álbum. Não decepciona também e mantém-se, estilisticamente falando, em sintonia com o resto do disco.

Green Grass – Voz grave, não tenta subverter a canção, mas também não deixa de deixar impressa sua marca pessoal. Tudo em seu devido lugar e com bom gosto.

I Wish I Was In New Orleans – Quase uma canção de ninar. É o mais doce que ela chegou neste álbum.

I Don’t Wanna Grow Up – Dançante do começo ao fim. Podia cair na mãe de algum DJ e virar um hit em pistas de dança. Bem animada.

No One Knows I’m Gone – O que acontece quando você mistura os climas de Pink Floyd com Beirut e um vocal feminino que não tenta soar nem diva do soul, nem ídolo teen? Você tem uma bela canção.

Who Are You – Belo dueto e serve como síntese do álbum. Scarlett não tenta fazer mais do que sua voz permite, não cai em impressionismo tolos.

Um senhor esquecido

Texto e fotos de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Este senhor está morando em um barracão cheio de pneus e pombos
Este senhor está morando em um barracão cheio de pneus e pombos

Ontem fui dar uma olhada em um barracão abandonado na cidade de Igaraçu do Tietê. O barracão estava com o telhado todo esburacado, sem energia elétrica ou abastecimento de água. Havia entradas, mas não portas que pudessem ser fechadas, ou seja, qualquer um poderia entrar ali, incluindo animais.

O lugar, como já haviam denunciado na cidade, estava cheio de pneus velhos que borracharias da cidade e outros “departamentos” despejavam ali. Quando cheguei, uma multidão de pombos se aprumavam entre as armações de ferro no teto.

Estava fotografando o lugar e de repente, quando olho para o lado, vejo um senhor negro, aparentando ter entre 55 e 65 anos de idade, para ao meu lado com uma blusa azul do Patolino e segurando um pé de couve. Não sei o nome dele, mas ele me disse que mora nesse barracão há algum tempo. Embora tenha cara e jeito de brasileiro, e fale português, disse que está em Igaraçu há muito tempo e que “gostaria de voltar para meu país”. Conversei mais um pouco com ele, disse que veio de Minas Gerais e que “esta terra em que estamos é boa para plantar feijão”, mas não dizia coisa com coisa, as informações (e o sentido delas) se perdiam facilmente.

O senhor passou por uma pilha de pneus e õ segui com os olhos. Só então notei sua cama, um recepiente para marmita e talheres com ele. Ele realmente mora ali. Me despedi e fui embora.

Em fevereiro deste ano, a situação deste senhor e do barracão já havia sido denunciada pela revista Expresso Tietê. O jornalista Danilo Dias Gato inclusive entrou em contato com o Departamento de Assistência Social de Igaraçu e explicou a siuação do senhor. Ao que parece, nada foi feito.

Em fevereiro a prefeitura de Igaraçu do Tietê foi notificada sobre a situação dele, mas até agora nada foi resolvido
Em fevereiro a prefeitura de Igaraçu do Tietê foi notificada sobre a situação dele, mas até agora nada foi resolvido

Perto demais

Foto de Peter Gorges
Abelha de Peter Gorges

Segue abaixo uma série fotográfica em macro com vários autores. Macro é uma técnica fotográfica que faz com que a câmera fotografe objetos bem de perto. Geralmente, pensa-se que o macro serve para fotografar objetos pequenos, o que não deixa de ser verdade, mas em modo macro a câmera reconhe uma distância focal menor que o convencional. Quando bem usado, capta detalhes incríveis da cena e dos objetos. Existem lentes específicas para fotos em macro no mercado e há profissionais especializados nessa técnica.

Os fotógrafos expostos aqui são Peter Gorges, Barbara Kaos2, Aubrey Young, Steve Begin, Jeanette Svensson, Eric W., Lua de Papel, TierDrama, FBIV, Lindy, PixelCoast e Dave Hammond.

Foto de Dave Hammond
Libélula de Dave Hammond
Joaninha de Aubrey Young
Joaninha de Aubrey Young
Cigarra de Steve Begin
Cigarra de Steve Begin
Flor de Jeanette Svensson
Flor de Jeanette Svensson
Flores de FBIV
Flores de FBIV
Borboleta de TierDrama
Borboleta de TierDrama
Flor de Lindy
Flor de Lindy
Gota de PixelCoast
Gota de PixelCoast
Café de Eric W.
Café de Eric W.
Lírio de Barbara Kaos2
Lírio de Barbara Kaos2
Libélula de Lua_de_Papel
Libélula de Lua_de_Papel

Onde vivem os monstros

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

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Foi lançado o trailer de Where The Wild Things Are (que no Brasil ganhou o nome de Onde Vivem os Monstros), novo filme do diretor Spike Jonze. A produção é baseada no belo livro infantil homônimo de Maurice Sendak. Confira abaixo a prévia, uma das mais belas e instigantes do ano até agora.

A história, como o trailer deixa claro, acompanha as aventuras e “ilusões” de Max. Após uma desobediência, Max é mandado para cama sem jantar. Então ele cria seu próprio mundo: uma floresta habitada por monstros que reconhecem o garoto como seu rei.

A história é agridoce. Cenas cômicas e felizes se misturam a outras tristes, trágicas, feitas para nos levar a uma reflexão. O livro foi publicado em 1963 e foi alvo de algumas controvérsias. Seus personagens eram um pouco grotescos, bem diferentes dos da Disney, por exemplo, e mostrava uma aproximação aos pesadelos e fantasias das crianças.

Spike Jonze é diretor de Adaptação e Quero Ser John Malkovich. O filme estreia no Brasil em 16 de outubro.

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O Ronaldo e o Corinthians

Texto de Lucas Scaliza e design de Juliano Ruiz

Em abril deste ano o Brasil vibrava com os jogos do Corinthians. Os torcedores adoraram as novidades do time e os seus desafetos pagaram – e pagariam ainda mais uma vez – para ver do que os Gaviões da Fiel seriam capazes.

Entre as novidades estava a contratação de Ronaldo Luís Nazário de Lima, outrora conhecido como Ronaldinho, depois como Fenômeno, hoje ele é apenas Ronaldo. De dezembro até agora ele estampou a capa de diversas edições de jornais brasileiros, foi notícia no mundo todo e até a Rolling Stone Brasil dedicou a capa de julho a ele (embora eu tenha comprado a versão com capa tributo a Michael Jackson).

Pois foi em abril que produzi um infográfico sobre o craque em parceria com o designer Juliano Ruiz, da Agência Hexa. Escolhi a abordagem, separei dados e pensei em como dispor tudo isso em imagens. O Juliano – competentíssimo profissional – pesquisou imagens, usou todo o seu conhecimento e me devolveu algo muito melhor do que tinha imaginado. O resultado vocês conferem abaixo.

Clique para ver maior
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PS 1: Esse infográfico está aqui como ilustração e divulgação e é protegido por leis de direito autoral. A cópia sem autorização constitui crime.

PS 2: Não deixem de se logar no Orkut e conferir uma pitada do portfólio de Juliano Ruiz.