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Scott Pilgrim e a doçura nerd

Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21

Scott Pilgrim vs The World não foi nada bem nas bilheterias norte-americanas e repetiu o fracasso em outras partes do mundo. Não entendi a falta de interesse do público, mas também ainda não tinha visto o filme. Depois de assisti-lo essa semana, não sei mesmo o que foi que aconteceu. Digo com certeza que a falta de interesse não foi motivada pelo filme, que cumpre o que promete e o resultado é pra lá de satisfatório.

No início, a história de Scott Pilgrim (interpretado por Michael Cera) é como a de qualquer outro jovem: rapaz de 22 anos que vive em Toronto, baixista de uma banda em início de carreira, não muito seguro de si mesmo e arranjou uma estudante colegial para suprir o vazio emocional deixado pela ex-namorada (que tornara-se a vocalista de uma banda famosa). Então ele conhece literalmente (literalmente mesmo) a garota de seus sonhos: Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead).

Então a coisa fica insólita. Se quiser namorar Ramona, Scott terá que derrotar seus sete ex-namorados malignos, gente que não teve um bom desfecho de relacionamento com a garota. Acontece que a medida que os confrontos vão ocorrendo, Scott vai se dando conta do quanto é difícil manter esse (ou qualquer outro) relacionamento afetivo. Além disso, sua namorada colegial continua a espreita, acompanhando seus passos, mas Scott não quer quebrar o coração dela.

Os sete ex-namorados malignos de Ramona

O filme á uma adaptação da história e quadrinhos de mesmo nome escrita e desenhada pelo canadense Brian Lee O’Malley. Quando O’Malley começou a publicar Scott Pilgrim, não era nada mais que mais um quadrinista de pouca expressão tentando ganhar a vida. Quando ele levava seus trabalhos a San Diego Comic-Com, praticamente passava desapercebido. Mas Scott Pilgrim, que só terminou de ser publicado no hemisfério norte este ano, acabou virando um peça cultuada e as filas para se conseguir um autógrafo de O’Malley na Comic-Com foram imensas. O autor, como seu personagem, realmente dá a volta por cima.

O filme foi dirigido por Edgar Wright, que já havia feito um bom trabalho na paródia zumbi Shaun Of The Dead. Ele se mostrou um diretor não só versátil, pois Scott Pilgrim vs The World é diferente em todos os aspectos de sua outra produção, mas também apaixonado e fiel a HQ que originou o filme. Desde os primeiros frames até os créditos finais da obra, as principais referências de O’Malley foram preservadas. São piadas nerds com videogames, outras HQs, filmes, seriados e até com a cidade de Toronto (“Eu não sabia que eles rodavam filmes aqui”, diz Scott), sem se esquecer de preservar todos os elementos jovens e agridoces que uma história desse tipo pede.

Michael Cera é Scott Pilgrim e Mary Elizabeth Winstead é Ramona Flowers

Os atores encarnam muito bem seus papéis, com destaque óbvio para o casal Scott Pilgrim e Ramona. Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21. Sua doçura natural e seus desejos mesclam-se perfeitamente com suas frustrações, fazendo a história transcorrer bem levemente. Ramona é aquela garota que está tão perdida quanto qualquer outro garoto ao seu redor, mas faz pose de mulher segura, decidida e difícil. Seus olhares e sua interpretação corporal são seus principais charmes o filme, e o diretor os evidencia sempre que pode.

Entretanto, é o visual de Scott Pilgrim que o faz valer a pena realmente. Se A Origem (Inception) é o filme mais engenhoso do ano, Scott Pilgrim é o mais estiloso. A todo momento grandes onomatopéias para socos, chutes, pancadas e toques de telefone invadem a tela de maneira tão natural quanto se estivéssemos lendo um gibi. As lutas contra os sete ex-namorados malignos também impressionam, sempre criando arroubos visuais de tirar o fôlego. Dada a quantidade de “objetos” que são atirados na direção da tela – sejam apenas onomatopéias, notas musicais ou dragões holográficos –, me peguei pensando em como seria a experiência de assistir ao filme numa projeção 3D bem feita.

O visual estiloso do filme é um de seus maiores trunfos

Edgar Wright se preocupou muito com o ritmo de Scott Pilgrim. Ele é veloz, primeiro porque a juventude que deve (ou deveria) compor a audiência do filme tem pensamentos igualmente rápidos, e segundo porque adaptar e condensar seis edições de uma HQ em 112 minutos não é tarefa fácil. Sendo assim, não há grandes planos sequência nem imagens que duram muito tempo em tela. Como muita música é tocada durante o filme todo – desde Sex Bob-Omb (a banda de Scott) até Rolling Stones e T. Rex – a edição de cenas o ritmo e os compassos das canções.

Talvez apenas o final do filme não seja tão criativo quanto o resto da história apresentada, mas não é nada que vá estragar a experiência do filme. Há diversão e inteligência em Scott Pilgrim vs The World. Há doçura nerd e esmero estético invejáveis. E o principal: Scott Pilgrim (tanto o personagem quanto o filme) comunicam-se muito bem com o público que pretendem atingir. Portanto, ainda não consigo entender quais foram os motivos que tornaram a obra um fracasso de bilheteria. Vai ver, faltou o público dar uma chance ao jovem peregrino canadense.

Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo

 

A visita de Lula

Lula e funcionários da Barra Bioenergia, na Cosan. Foto: Lucas Scaliza

O presidente Lula visitou Barra Bonita – ou, mais precisamente, a usina do Grupo Cosan S/A que fica no município – no dia 27 de setembro. Acompanhado do senador Eduardo Suplicy, do presidente da Unica (sindicato patronal das usinas) Marcos Jank e do presidente do conselho administrativo da Cosan Rubens Ometto Silveira Mello, entre outras autoridades políticas e empresariais. Na pauta do dia estava a inauguração simultânea de oito usinas termoelétricas de biomassa que utilizam o bagaço da cana-de-açúcar para gerar energia limpa e renovável.

É claro que uma presença dessas atraiu a imprensa da região e até da capital paulista. Nas fotos que fiz durante a visita, retrato o presidente Lula conhecendo a Barra Bioenergia (termoelétrica de biomassa da Cosan) e o trabalho de fotógrafos, jornalistas e cinegrafistas, sempre mantidos à uma “distância segura” da comitiva presidencial.

Neste dia, antes de eu ir até a Cosan cobrir um evento, uma colega de trabalho me entregou duas cartinhas coloridas (lacradas com adesivos em forma de coração) escritas por suas filhas para o presidente. Fiquei, assim, encarregado de entregar a delicada correspondência. Achei que as cartas teriam que ser entregues para algum assessor de Lula, já que era quase impossível chegar muito perto dele. Mas, durante sua sessão de fotos e abraços com a população no final do evento, Lula me ouviu gritar “Presidente, duas cartinhas de duas crianças da cidade!” e pude entregá-las pessoalmente na mão dele. De quebra, ganhei um aperto de mão do presidente.

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Lula, Marcos Jank e Rubens Ometto. Foto: Lucas Scaliza

Para ser fotografados por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula. Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

A imprensa. Foto: Lucas Scaliza

Gilmar, assessor do presidente, coordena os jornalistas. Foto: Lucas Scaliza

Stuckert dirige a cena. Foto: Lucas Scaliza
Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

No meio do povo. Foto: Lucas Scaliza
Os fotojornalistas e cinegrafistas. Foto: Gilmar

Eu, durante o trabalho. Foto: Angela Rodrigues

O Resto é Ruído

E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena

A capa da edição brasileira venceu o Prêmio Jabuti 2010. Seu designer foi Retina_78 (www.retina78.com.br)

Faz apenas algumas horas que terminei de ler O Resto é Ruído – Escutando o Século XX. Escrito pelo crítico de música Alex Ross (New Yorker) e editado no Brasil pela Companhia das Letras (@cialetras), o livro-reportagem é um colosso de 680 páginas que viajou comigo por várias cidades, conheceu muitos cômodos de várias residências e dormiu ao meu lado praticamente todas as noites dos últimos meses, fazendo vigília.

Seguindo a narrativa de Alex Ross – às vezes descritiva, às vezes técnica, às vezes literária – percorri todo o mundo da música clássica e seus desdobramentos nos últimos 100 anos. São histórias fascinantes sobre Richard Strauss, Gustav Mahler, Igor Stravínsk, Arnold Schoenberg, Jean Sibelius, Benjamin Britten, John Cage, Duke Ellington, Dmítri Chostakóvitch, Karlheinz Stockhausen entre muitos outros que foram importantes de uma maneira ou de outra no século XX. Ross não apenas nos traz longas e significativas histórias biográficos de cada um desses homens (rondados por opulência, amores, morte, brigas pessoais, medos e incertezas), como mostra porque são nomes importantes na história da música até hoje.

Não raro, o autor passa várias páginas apenas contando a história de certas óperas e obras sinfônicas (como Salome, A Sagração da Primavera, Peter Grimes) e ressaltando detalhadamente como cada instrumento da orquestra se comporta, nos dizendo onde prestar atenção para atestar a modernidade, a vanguarda ou o romantismo da peça em questão. E como o século passado foi rico em eventos políticos, Ross usa a música para nos guiar através do cenário político das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, Guerra Fria, New Deal norte-americano e as revoluções sociais que tomaram corpo na década de 1960.

Alex Ross, crítico de música da New Yorker, passou 15 anos pesquisando até concluir seu livro. Foto de Lisa Carpenter

Se você gosta de música clássica, vale a pena entrar em contato com a obra. Se for um pianista ou violinista clássico, o livro torna-se obrigatório. Se você não ouve os compositores clássicos mas quer conhecer a fundo a música, vale a pena ler. Se for um guitarrista de uma banda de rock preocupado em fazer arte, a leitura é obrigatória.

O Resto é Ruído é o resultado de 15 anos de pesquisa em bibliotecas, centros acadêmicos, biografias e conversas com músicos ainda vivos. Suas várias páginas de agradecimentos, índices remissivos e notações bibliográficas justificam a enorme quantidade de páginas. Publicado originalmente em 2007, seus autores podem usufruir das facilidades que a internet e a banda larga proporcionam para a “compreensão auditiva” do livro. É provável que muitos leitores nunca tenham ouvido as sinfonias de Mahler e Chostakóvitch, as óperas de Strauss e Wagner e peças de Debussy, Bartók, Boulez e John Adams, mas basta procurá-las no YouTube para ter uma ideia de como aquilo soa. Depois é só acompanhar as análises de Ross.

Alguns compositores participaram tantas vezes e por tanto tempo da história do século que a narrativa sempre volta a falar de suas peripécias musicais. Isso faz com que gente como Strauss, Stravínsk, Schoenberg e Mahler tornem-se verdadeiros personagens da obra. E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena.

O Resto é Ruído não é apenas a história da música. É a história social e política do mundo. A história de homens e dos homens. Histórias que merecem ser conhecidas.

 

PS. Minha próxima empreitada literária – e põe literária nisso – já está fazendo vigília ao lado da minha cama. É 2666, do chileno Roberto Bolaño. Daqui há alguns meses relatarei o que vou viver em sua companhia.

 

Um “machete” e várias cabeças voando

Fundo político é superficial e acaba prejudicando a história do novo filme de Robert Rodriguez

Danny Trejo é Machete, um mexicano que mata com facões e lâminas

A cena de introdutória de Machete, o novo filme de Robert Rodriguez, dá uma ideia do que será todo o resto dessa sangrenta obra: Machete, o personagem de Danny Trejo, invade o covil do grande vilão do filme, o traficante Torrez, interpretado por Steven Seagal. Armado de um “machete” (um facão), ele mata brutalmente cada um dos bandidos que atravessam seu caminho, seja atravessando-os com a lâmina ou decepando-os. Ele está no México, sua terra natal, atrás de uma menina que ele acredita ser uma refém. Depois de encontrá-la, ficamos sabendo que tudo era uma armação: a garota não era refém e o chefe de Machete na divisão policial em que ele trabalhava é um parceiro de Torrez. A mulher do protagonista é decapitada na frente dele e, ao que parece, ele é o próximo a morrer.

Mas a cena corta e somos lançados no tempo, três anos após esses eventos. Machete está nos Estados Unidos, onde vive como um imigrante ilegal. Sartana Rivera (Jessica Alba) é uma policial encarregada de mandar os imigrantes ilegais de volta para o México, mas está mais interessada em adentrar no mundo da “rede”, uma organização informal de imigrantes que ajudam outros imigrantes no filme. Luz (Michelle Rodriguez) interpreta uma espécie de líder da “rede”.

É época de eleição nos EUA do filme e o senador John McLaughlin (Robert De Niro) tenta se eleger propondo uma legislação mais dura com imigrantes mexicanos e a construção de uma cerca elétrica na fronteira dos dois países. É claro que sua audiência está baixa entre os eleitores. Para consertar isso, seu assessor Booth (Jeff Fahey) manipula Machete para que ele faça um atentado contra o senador durante um de seus discursos no Texas, alegando que as medidas do parlamentar podem arruinar a ordem econômica natural daquele estado. É claro que é uma armação e Machete, um “nacho” ou “pancho”, acaba sendo incriminado. E assim, num passe de mágica, as intenções de voto de McLaughlin disparam.

Em sua busca por proteção e vingança, Machete deixa um rastro de sangue. Usa muito seu facão, mas também tesouras e motosserras de jardinagem, lâminas cirúrgicas, revólveres e o que mais puder empunhar. Para escapar de um hospital, usa até mesmo o intestino de um dos capangas de Booth. É um banho de sangue e os diretores Robert Rodriguez e Ethan Maniquis não fizeram muita coisa para amenizar ou transformar a brutalidade dos personagens em algo cool, como acontece nos filmes de Quentin Tarantino. Machete é, do começo ao fim, uma obra com cara de filme B. Ou ele não tem estética alguma ou sua estratégia é justamente essa: parecer um filme tão árido quando o solo texano.

O fundo político criado por Rodriguez, que também escreveu o roteiro, é tão superficial que fica difícil levar a sério sua faceta política. O senador e seu assessor estão lá, bancando os caras maus com a retórica conservadora de como os “chicanos” atrapalham os EUA. Os imigrantes também estão em cena, embora sejam mostrados mais como sobreviventes do que como “cidadãos” que lutam por seus direitos com argumentos plausíveis. E até os guarda-costas dos poderosos discutem o assunto, de forma risível, segundos antes de serem atacados por Machete e suas lâminas.

Ainda temos o policial linha dura Von, um caçador de imigrantes na fronteira, pau mandado do senador. E, por fim, Torrez, o traficante latino que financia a campanha de McLaughlin para que sua droga chegue mais cara aos EUA. É triste dizer, mas Steven Seagal está deprimente no papel. Para um vilão, parece mais como um dos leões de chácara que Machete assassina.

Steven Seagal é o traficante Torrez, um papel que deixa muito a desejar

Na verdade, o verdadeiro vilão de Machete é seu roteiro. Bandidos dando explicações sobre coisas que o público já descobriu sozinho e retóricas mal elaboradas sobre política. Fora isso, há cenas que desafiam nosso conhecimento de mundo. Quando o senador é acusado de todos os crimes cometidos com seu consentimento na frente das câmera de TV, ele simplesmente sai andando pela lateral sem que um único repórter lhe faça perguntas ou o persiga colocando o microfone em sua boca. No final, em outro momento pretensamente político, a personagem de Jessica Alba faz do capô de um carro o seu palanque e, como se também estivesse em campanha, convoca todos os imigrantes mexicanos a ajudarem Machete. E aquele bando de homens durões, que não pareciam interessados na mulher, segundos depois parece comprar o discurso.

Diferente de outros filmes do próprio Rodriguez e de Tarantino, Machete parece se levar a sério demais, como se o que tem a dizer sobre a fronteira mexicana realmente levantasse novas formas de pensar a questão. Mas em alguns momentos ele parece se achar meio palhaço, como na cena em que um imigrante invade o quartel general de Von com uma espingarda e um carrinho de sorvetes, enquanto todos os outros aparecem de moto ou carros tunados. Que da próxima vez que quiser aproximar violência extrema e política, Robert Rodriguez possa se perguntar antes de ligar as câmeras: “O que eu realmente quero dizer com esse filme?”

Homem fibra

Eduardo Mazzoni apresenta o Predador, sua escultura feita em fibra de vidro. “Gosto de desafios", ele diz

Eduardo Mazzoni trabalha com fibra de vidro há 40 anos e é um dos poucos profissionais brasileiros que já se aventura sozinho com a fibra de carbono. Já morou na Argentina e rodou o Brasil todo com um carro que ele mesmo projetou

Por uma semana, a garagem (que também é oficina e ateliê) de Antonio Eduardo Mazzon serviu de abrigo para o Predador, aquele guerreiro espacial que vem à Terra caçar seres humanos e que ficou famoso ao contracenar com Arnold Schwarzenegger no filme de 1987. Na última quinta-feira, Eduardo conseguiu um manequim de roupas e, sobre ele, começou a usar a manipulação de fibras de vidro – habilidade a qual se dedica há 40 anos – para compor seu personagem.

Eduardo nasceu na rua Frei Caneca, na gema de São Paulo. Já morou em Buenos Aires, rodou o Brasil todo – boa parte dele a bordo de um carro que ele mesmo projetou –, construiu embarcações em Ubatuba e veio parar em Barra Bonita há 4 anos e meio. Quando morava na Zona Norte de Sampa, era vizinho de Ayrton Senna, um moço que estava começando a correr de kart. Tem 58 anos, foi casado seis vezes e tem 16 filhos, dos quais cinco moram com ele.

Sua especialidade e sua fonte de renda são trabalhos de criação e reparo em materiais de fibra de vidro (fiber glass). Há um ano e meio começou a se aventurar também pelo terreno da fibra de carbono, tecnologia utilizada nos carros de Fórmula 1 que poucos dominam. Já fez trabalhos com fibras numa grande sala para plantas de um triplex de Hebe Camargo e em um aquário de Roberto Carlos.

Nunca teve chefe e nunca teve medo de mudar o curso de sua vida quando quis. Faz trabalhos mais práticos para garantir seu sustento, mas sua paixão mesmo são as produções que demandam grandes doses de criatividade. Sempre que aparece uma brecha entre um projeto e outro, usa a imaginação para criar coisas como o Predador que ilustra essa matéria.

Você pode contatar Eduardo Mazzon ou conhecer seu trabalho através do site www.edufibras.com.br

Eduardo trabalha no corpo de seu Predador em sua oficina/ateliê. Sempre foi autônomo e só aceitaria ter um chefe se ele fosse tão criativo quanto ele próprio

Quem te ensinou a mexer com fibra?

Não sei, fui aprendendo praticamente sozinho. Até hoje não existem cursos no Brasil para trabalhar com fibras. Eu mexia com funilaria, aí pulei pra fibra e estou com ela e vivo disso até hoje. Se bem que o que eu gostaria de fazer mesmo era entalhar em madeira. Até tentei fazer isso uma vez, mas por causa das encomendas que faço para viver fiquei sem tempo. Aprendi com um grande entalhador em Ubatuba conhecido como Bigode. Gosto dessa coisa de criar!

A fibra é considerada um dos materiais do futuro. Você sente que ela é valorizada?

Sim. Hoje não falamos nem mais na fiber glass, a fibra de vidro. A bola da vez é a fibra de carbono ou o aramida (Kevlar), que é superior ao carbono, inclusive. O carbono é do futuro mesmo. Ele tem tudo: resistência, durabilidade, leveza e beleza. Daqui a dois ou três anos a fibra de carbono terá um peso enorme no mercado. Tem um ano e meio que comecei a trabalhar com carbono. Meu irmão que mora na Inglaterra me mandou uma apostila sobre o assunto. É um material caríssimo.

A fibra de carbono é muito mais cara que a fibra de vidro?

Fica uns 300% mais caro. Acho que sai uns R$ 450 ou 500 o metro quadrado da fibra de carbono, incluindo a mão de obra. Ela aguenta temperaturas altíssimas de 400 graus. O que geralmente não aguenta tanto assim é a resina, que deve ser misturada com um produto chamado NPG, que poucos conhecem. Com a mistura você aumenta em 40% a resistência dela ao calor. E tem resina para todo tipo de finalidade.

Você faz carenagens para motos. Já projetou quantas peças dessas?

Até agora tenho 88 modelos diferentes para triciclos e motos de 150, 250, 300, 500 cilindradas, para vários modelos e tamanhos. Até o fim do ano espero criar mais 25 que estão na minha cabeça. Crio tudo, desde a matriz até o molde para fazer tantas carenagens quanto forem necessárias. Além das peças para motos faço barcos, pedalinhos, pranchas de surf, revestimentos para madeira e concreto. No momento, o carro chefe do meu trabalho estão sendo os banheiros químicos para ônibus.

“Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta”

O senhor é autônomo atualmente?

Sempre fui, nunca tive patrão. Se fosse um patrão bom e criativo, até aceitaria trabalhar com ele, mas ainda não encontrei um assim. A questão financeira logo aparece e aí a coisa não acontece. Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta. (risos)

O que lhe dá mais prazer produzir?

Criações como essa do Predador. Ele é praticamente uma estátua, criado quase que do nada. Só depende da criatividade e da imaginação de quem faz. Para algumas coisas que faço o certo seria existir um curso para ensinar o pessoal a fazer também, mas para outras não tem escola que ensine. É coisa que vem de dentro de quem faz, é como um dom!

Eduardo e o carro que construiu há 23 anos sobre o chassis e o motor de uma Brasília. Andou mais de 10,5 mil quilômetros com ele e não precisou fazer nenhum reparo

Qual é o maior desafio que enfrenta fazendo esse Predador?

A cabeça e a expressão dos olhos são as partes mais difíceis de fazer. A posição de braços e pernas para deixá-lo agressivo também são detalhes que merecem atenção. Afinal, ele tem que parecer ameaçador, tem que mostrar que veio caçar mesmo. Num carro, por exemplo, a parte mais difícil de fazer é a porta. São muitos detalhezinhos para que ela fique bem ajustada ao carro.

Antes dessa estátua, você já havia feito um capacete com o rosto do Predador. Como surgiu essa idéia?

Um amigo ia a uma festa a fantasia e queria uma máscara do Predador. Fiz um modelo para ele, mas gostei da coisa. Resolvi aperfeiçoar o projeto e transformá-lo num capacete mesmo. Um grupo de motociclistas da Paraíba, chamados Carcarás dos Sertões, encomendou 12 capacetes desses, sem pintura, para eles personalizarem como quisessem. Também vendi alguns para Manaus, quatro em São Paulo e mais um em Bauru. É uma atração legal para os encontros de motos, o que preciso é anunciar tudo isso.

Além do Predador, está trabalhando em algum outro projeto criativo?

Estou criando um capacete com a forma da cabeça de um Pit Bull agora. Além desse já comecei a preparar outro em forma de tubarão e ainda outro com o rosto do Cebolinha, da Turma da Mônica. É só eu ter um tempinho livre que começo a criar alguma coisa. O tubarão é mais fácil de fazer que o Pit Bull, pois tenho que ficar esperto com a expressão do cachorro, a relação do focinho com os olhos do animal, as distâncias, etc. Quem olhar, tem que ver um Pit Bull mesmo!

Quanto tempo o senhor perde olhando as fotos do Pit Bull, do Predador e do tubarão para conseguir reproduzir as sutilezas das imagens nos capacetes?

Levo uns dois dias para estudar as imagens. Olho, saio para dar uma voltinha, olho de novo e assim vou fazendo até minha mente “fotografar” a imagem. Aí começo a fazer um lado do capacete, depois me preocupo em fazer o outro lado idêntico ao primeiro. O capacete tem que ser simétrico.

Já trabalhei para a Rosa de Ouro fazendo cavalos alados, fiz trabalhos para a Barroca da Zona Sul, escola de samba de São Paulo. Se me chamam para fazer algo assim, fico o dia inteiro, vou criando, não saio mais de lá. Gosto dos trabalhos com criatividade, mas meu ganha pão está sendo outros tipos de serviços, como os banheiros rurais, reparos e carenagens.

Mas se você ficasse em São Paulo trabalhando com as escolas de samba, não daria para tirar uma boa renda?

Se eu me dedicasse a isso, certamente tiraria uma boa grana. É que agora estou longe da capital. Se eu mandasse um e-mail para alguma escola de samba falando do meu trabalho não teria problemas em encontrar serviço. Quando estava em Araçatuba, queriam me pagar R$ 5 mil só para fazer escapamentos de competição em fibra de carbono para o Alexandre de Barros. Não me interessei. Queria ficar mais livre, acho. Não estou mais na idade de virar funcionário de alguém.

Entre os pioneiros da fibra que Eduardo conheceu estão Sid Mosca, designer de capacetes da Fórmula 1, e Homero Naldinho, influente criador de pranchas de surf

Por que resolveu investir na produção de banheiros químicos para ônibus?

Quando cheguei a Barra Bonita abri a janela do meu quarto um dia, vi a cidade e pensei: “Eu mexo com fibras. O que vou fazer aqui no interior, onde nada estraga ou corrói?”. Então olhei para o canavial e pensei de novo. “Espera, vou ter que fazer algo relacionado a isso”. Foi assim que surgiram os banheiros rurais.

Estes banheiros são os produtos que mais contribuem com sua renda?

Atualmente eles me dão maior e mais rápido retorno financeiro. Se bem que vendo muitas peças de motos por aí.

Como eles começaram a dar resultado?

Um senhor de Jaú pediu a alguns profissionais que fizessem banheiros para ônibus rurais para ele, mas nenhum conseguiu. Então mostrei a ele o meu trabalho e ele me passou o projeto de como queria o banheiro. Em uma semana fiz o produto. Esse senhor, inclusive, sentou no banheiro para testar! (risos) No ano passado, ele comprou muitos destes, mas eram do modelo que ele tinha me passado. Como eu já tinha feito muita coisa por aí, pensei em fazer um design de banheiro que fosse meu. Fiz um menor, mais arrojado e bonito que serviria para ônibus, barcos, trailers, rodoviárias, entre outros lugares. Cabem 34 litros de dejetos nele. O único problema desses banheiros químicos é o odor, mas tenho um projeto para um banheiro que não sofrerá desse mal.

“Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira”

É difícil aprender a mexer com fibras?

Não é difícil, mas quem quiser precisa se preparar para enfrentar a coceira. Quem não está acostumado a mexer com os materiais que uso aqui vai ficar se coçando pelos primeiros dois ou três meses. Depois para. É bom que alguém aprenda a mexer com fibras, porque é uma ocupação que dá futuro, quase tudo usa esse material hoje em dia.

Muita gente trabalha com fibras de carbono no Brasil hoje em dia?

Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. São pouquíssimas pessoas mesmo. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira. Nas três empresas onde compro meu material ninguém conhece quem são as pessoas que mexem com fibras de carbono.

Eduardo e um pedaço de fibra de carbono, material do futuro, utilizada em carros de Fórmula 1

Em 1971 o senhor foi para Buenos Aires. O que foi fazer por lá?

Naquela época eu mexia com rádio amadorismo, lembro até que meu prefixo era TX-20832, e aprendi a falar castelhano conversando com argentinos. Acabei conhecendo uma argentina que foi até São Paulo me ver, depois voltei com ela para Buenos Aires. Quase me casei por lá. (risos) O pai dela tinha uma indústria de curtume muito grande chamada El Cuero e até achei bacana todo o processo, mas não quis trabalhar com aquilo. Como já mexia com fibras na época, fui convidado para trabalhar num hotel muito chique de lá. Então fiz o formato das camas arredondadas, molduras de quadros, entre outras coisas. Viajei pela Argentina toda nessa época e me aperfeiçoei muito. Os argentinos eram muito caprichosos e técnicos quando trabalhavam com a fiber glass.

E depois que voltou ao Brasil, o que fez?

Montei uma empresa própria de fibra no Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Minha vida por um tempo foi consertar carros Puma. A empresa que fazia o carro me mandava casos que precisavam de consertos e reparos que ela própria não fazia. Fiz muitas réplicas que me pediam também, como Ford 29 e jipes.

Há um carro que você fabricou sozinho. Como ele foi feito?

Levou um ano e meio pra terminar de fabricá-lo e já o tenho há 23 anos. Como ainda não existia fluoretano para facilitar, a matriz dele foi toda feita em eucatex e gesso. Fiz tudo: para-choque, grades, portas, capô, etc. O chassi, a suspensão e o motor dele são de uma Brasília e a transmissão eu tirei de um SP2. É levinho, só a carroceria pesa menos de 200 quilos. Com ele rodei o Brasil todo até Manaus e Acre. Da última vez que viajei com ele andei 10,5 mil quilômetros e não usei uma única ferramenta! Tive que projetá-lo a partir do zero praticamente, foi uma das criações que mais me deu trabalho até hoje.

Você morou um tempo na praia. Conheceu muita gente que sabia trabalhar com fibras por lá?

Resolvi mudar para a praia e me instalei em Ubatuba. Lá eu fazia muitos modelos de pranchas de surf. Trabalhei com o Hamilton Prado por seis anos, ele é dono de uma das maiores fabricantes de skate do Brasil. Ele era muito criativo, fizemos muitas coisas com fibra e nos tornamos grandes amigos. O Homero Naldinho, precursor e maior fabricante de pranchas do Brasil, era um mestre em mexer com fibras de vidro, injeções de fluoretano e dar forma a pranchas. O outro que conheci foi Sid Mosca, pioneiro em produção de capacetes para Fórmula 1. Ele está um pouco adoentado agora, é um grande amigo meu… (se emociona) Todos os capacetes do Schumacher, todos do Barrichelo e do Massa foram feitos por ele. Foi o primeiro cara com quem conversei sobre fibras de carbono na vida, e isso há 16 anos. Acredito que uma pintura de capacete dele deva custar uns R$ 15 mil. Seus capacetes de carbono têm seis malhas (camadas) de fibras, da mais fina para a mais grossa. Foi esse pessoal aí que brincava de professor pardal comigo anos atrás. (risos)

Já fez algum trabalho com o Sid Mosca?

O primeiro que fizemos juntos foi uma pista de boate, muitos anos atrás. Era uma pista de 40 metros quadrados, com oito milímetros de espessura e transparente, porque as luzes vinham de baixo do piso. E o piso tinha que aguentar o pessoal, era uma discoteca de verdade. Capacete com o Sid eu fiz apenas um, mas meu forte na época eram fibras para carros. Depois passou para motos e agora vamos ver o que acontece daqui para frente.

“Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai”

Você já construiu barcos e escunas com madeira. Foi algo que planejou fazer?

Quando cheguei em Ubatuba, perguntei: “Onde é que vou usar meus serviços com fibra aqui?”. Então comecei a fazer tanques especiais para barcos de pesca. Depois fiz botes salva-vidas. Até que conheci um senhor que fabricava embarcações e tinha 50 anos de experiência nisso. Comecei a aprender com ele e trabalhamos juntos por quase quatro anos. Logo depois comecei a fazer barcos no quintal de casa, que era muito grande. Comecei a entender que tipos de madeira usar para fazer o fundo da embarcação, a lateral, as partes internas, etc. Fiz seis escunas para grã-finos e a maior delas tinha 30 metros. Ao todo, devo ter feito uns 20 barcos de pesca de até 14 metros de comprimento.

Com tudo isso no currículo, o que veio fazer em Barra Bonita?

Uma firma de Recife estava com problemas em uma embarcação aqui em Barra Bonita e não encontrava ninguém que resolvesse o problema. Então me dispus a vir para cá fazer o serviço. Não sabia nem onde ficava esta cidade, vim com a ajuda de um amigo. Em uma semana fiz o que tinha que fazer, mas logo emendei em outro serviço, depois em mais um barquinho, fui bem recebido aqui, fiz amizades, achei a Barra bonita e acabei decidindo ficar. Saí do certo e vim para o duvidoso.

“A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!”

Mas não foi uma decisão duvidosa até demais?

Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. É como um médico, que arruma o que fazer em qualquer lugar. Se eu não arrumasse trabalho aqui, arrumaria em Jaú, ou Bauru, em cidades maiores talvez. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai. Para trabalho, essa cidade me traz muito pouco retorno. Mas ela é linda, o povo é hospitaleiro e é muito mais arrumada do que muitos lugares que visito pelo país.

Parece que o senhor não tem medo de mudar sua vida de direção.

Não mesmo, não tenho medo do mundo! Não fiz faculdade, mas estudei muito e viajei para fora do Brasil. A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!

Seu espírito criativo vem dessa disposição e da falta de medo que diz ter?

Acredito que sim. Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna. Meu pai tem 84 anos e se alguém quiser assaltá-lo terá de ser com injeção, porque ele nunca precisou de uma. Ele não tem uma única dor na unha, porque ele é alegre o dia todo. Esse é o maior remédio que pode existir! Às vezes vejo na padaria logo cedo umas caras verdes, amuadas, tristes, problemáticos… sei que todos têm problemas, mas com cara feia o conflito aumenta.

Depois que terminar a escultura do Predador, o que gostaria de fazer?

Gostaria de ter condições de criar mais coisas, gosto dos desafios, só preciso de tempo. Sempre acredito que as coisas vão dar certo no final, então já acordo com o pensamento positivo. Dificilmente alguém me vê triste. Assim, a coisa fica mais fácil.

"Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna", diz Eduardo

A Origem: Nem tudo foi um sonho

O filme mais engenhoso do ano funciona, mas peca ao apostar em vários planos narrativos e não apresentar uma profundidade dramática a altura. [Atualizado] Contém spoilers sobre o final

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, uma espécie de espião que entra nos sonhos para obter informações

Da primeira cena de A Origem (Inception, 2010) até o seu final, o espectador tem pouquíssimos momentos de descanso. Simplesmente não dá para sentar na poltrona do cinema ou no sofá de casa com o cérebro desligado para assisti-lo. É um filme que precisa da mente para ser apreciado – e entendido. Não que ele seja muito complexo ou “cabeça” demais, mas é longo e com vários níveis narrativos, por isso carece de atenção.

Em sua nova empreitada, o diretor Christopher Nolan (responsável por Batman – O Cavaleiro das Trevas) teve um orçamento de 160 milhões de dólares e um ótimo elenco disponível para contar a história de Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), um tipo muito particular de espião. Com a ajuda da tecnologia, ele e seu grupo consegue adentrar o subconsciente das pessoas, enganá-las durante os sonhos e roubar ou obter informações preciosas. No início do filme, Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) estão dentro dos sonhos de Saito (Ken Watanabe), um poderoso empresário do ramo energético, tentando conseguir informações para uma empresa rival. O plano falha e eles são obrigados a fugir, mas Saito faz uma proposta: se conseguirem não roubar, mas inserir uma ideia na mente de um jovem empresário que logo herdará o império do pai moribundo, Cobb deixará de ser um procurado em solo americano. E isso é tudo que Cobb quer.

Desde o início, há uma avalanche de informações. Afinal, estamos falando do complexo mundo do subconsciente humano, cheio de armadilhas e incertezas. Conforme personagens novos são introduzidos (como o próprio Saito ou a arquiteta Ariadne, interpretada por Ellen Page) novas explicações vão sendo dadas, servindo ao espectador como uma introdução à arte e à engenharia da invasão de sonhos.

Não demora nada para percebemos que demônios do passado assombram Cobb e estão seriamente comprometendo seus planos. Sua falecida esposa Mal (Marion Cotillard), continua aparecendo em seus sonhos e cobra que o protagonista vá ficar junto dela. Falar mais do que isso estragaria boa parte da trama.

 

Marion Cotillard é Mal, esposa de Cobb, que ainda atormenta o seu subconsciente

A Origem pode ser considerado o filme mais engenhoso do ano. Sua construção cheia de flashbacks da relação de Cobb com Mal e a inserção de imagens do passado no presente já seriam suficientes para manter o cérebro de quem assiste funcionando e tentando entender o que realmente está acontecendo. Mas Nolan vai mais fundo e abusa das possibilidades dos sonhos, dividindo a ação do filme em vários níveis narrativos, chegando ao cúmulo de criar, além do plano real de existência dos personagens, mais cinco camadas de sonhos (e em todas elas alguma coisa está acontecendo). Se você não entendeu muito bem como funciona a engenharia dos sonhos, explicada quase exaustivamente na primeira metade da película, torna-se uma tarefa difícil compreender e se localizar com precisão em sua metade final.

A trama, então, deixa de ser só uma história e vira um exercício virtuoso de roteiro – coisa a que Christopher Nolan está bem acostumado, visto outros filmes seus como Amnésia ou Insônia. Com a tecnologia em seu favor, o roteiro serve como ponte para uma direção virtuosa, mas só em alguns momentos (como nas cenas em que a gravidade é suspensa dentro do hotel). Os efeitos especiais não são meros artifícios estéticos dentro de A Origem e não tiram em momento algum a atenção do enredo. Quando são usados, geralmente mantêm o aspecto real dos ambientes e dos personagens.

 

Ellen Page é Ariadne, a habilidosa arquiteta

A trilha sonora composta por Hans Zimmer tem uma participação interessante na obra. Ela tem clima, mas não é totalmente etérea, como se esperaria de uma trilha para sonhos. A forma vigorosa que assume em momentos de maior tenção – como em diálogos decisivos, perseguições e lutas – ajudam a expressar a materialidade dos sonhos. As tensas notas graves sustentadas por oito compassos – executadas em várias partes do filme – reforçam essa impressão. Fora isso, a escolha da clássica “Non, Je Ne Regrett Rien”, de Edith Piaf, não é nada inocente. Usada como um aviso de que “os sonhos estão chegando ao fim”, sua letra é uma melancólica projeção da condição de Dom Cobb na história.

Embora o projeto de A Origem tenha sido concebido para não ser um filme assim tão fácil, ele peca justamente por pretender ser cerebral demais. Suas 2 horas e meia repletas de tramas que se chocam e sonhos dentro de sonhos cansam a mente. São situações demais sendo processadas ao mesmo tempo em planos diferentes que acabam não tendo a força dramática necessária. E isso compromete todo o tempo “gasto” tentando entender o filme.

A cena final de sonho, quando Cobb resolve acabar de vez com seus problemas e encontra Saito numa espécie de limbo, fica a impressão de que tudo está pacífico demais, correto demais, pré-agendado. Faltou, quem sabe, alguma reviravolta (se é que nosso cérebro, já bastante fatigado até aqui, conseguiria suportar mais essa). No final, nem tudo foi um sonho e mesmo o que se sonhou, foi real. A história, em resumo, é a de um pai que queria voltar pra casa.

SPOILERS SOBRE O FINAL

Após assistir ao filme, muita gente ficou em dúvida na cena final. Afinal, Dom Cobb volta para a sua casa no mundo “real” ou continua sonhando? O filme termina antes que possamos ter certeza se o peão continuará girando eternamente ou cairá. Mas há uma revelação que nos dá a resposta. Na cena final está o pai de Cobb, interpretado por Michael Caine, que afirmou em uma entrevista para a BBC 1 que a cena final se passa no mundo real. “Se meu personagem está em cena é o mundo real… eu nunca estou nos sonhos”, explicou.