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Kelly Guimarães

O jogador de Barra Bonita que mais espaço conquistou no mundo do futebol dá uma geral em sua carreira nacional e internacional, fala da fama, do dinheiro, da aposentadoria e de todas as dificuldades que enfrentou

O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram”, diz o ex-jogador Clesly “Kelly” Guimarães

Ainda criança, a disposição de Kelly para o futebol era enorme. Se precisasse, jogava três ou quatro partidas num mesmo dia, fosse na rua, no clube ou na escola. Assistia também quantos jogos fossem possíveis ou interessantes, especialmente os do São Paulo, seu time do coração. Aos 15 anos, um talento em ascensão, foi para Bragança Paulista fazer parte das categorias de base do Bragantino e, assim, iniciar sua carreira no esporte brasileiro. A partir daí, o menino Clesly Evandro Guimarães, hoje com 35 anos de idade, sempre voltaria para Barra Bonita, mas fixaria residência em diferentes estados brasileiros e diferentes países do globo.

Do Bragantino (1991-96), foi para a Espanha, jogar no Los Groñes (96). Jogou um tempo no Flamengo carioca (97) e chegou ao Atlético-PR (97-2001), onde tornou-se um jogador de expressão. Foi vendido para o F.C. Tokyo e lá foi o Kelly jogar no Japão de2001 a2005 e viver o auge de sua carreira. Voltou ao Brasil e, no Sul, atuou no Cruzeiro (2005). Foi mandado para o time Al Ain Club, nos Emirados Árabes Unidos (2006-2007). Voltou definitivamente para seu país de origem, defendeu o Grêmio do Rio Grande do Sul (2007-2008) e terminou a carreira de volta ao Atlético-PR. Ainda tentou acertar um contrato com a Ponte Preta, de Campinas, mas não deu certo.

Voltou então a Barra Bonita no começo de 2009 acompanhado da família que o acompanhou em todas as suas fases. Kelly está casado há 16 anos com Rosangela Maria Salvi Guimarães, com quem tem os filhos Matheus, 16 anos, e Sara, 9. Eles eram colegas de classe do Sesi de Barra Bonita (e foi o futebol que fez Kelly trocar a escola Gutemberg pelo Sesi) e quis o destino que um descobrisse o amor com o outro. Casaram-se aos 19 anos. Sentado em uma bonita poltrona num quarto especialmente reservado para sua coleção de camisas de futebol, vídeos e fotografias, Kelly falou de sua carreira e detalhes de sua vida. Contando os pontos marcados em sua trajetória, sempre tendo sua fé como guia, o placar da vida ainda está a favor de Kelly.

Quando você percebeu que tinha talento para o futebol?

Desde criança eu jogo futebol, sempre disputando campeonatos escolares e na rua de casa. E as pessoas comentavam meu destaque nos jogos, o que começou a aumentar meu interesse por me tornar um jogador de futebol. A dimensão dos campeonatos que eu participava foi aumentando e meus pais viram o potencial que eu tinha. Aí tive a oportunidade de fazer testes em várias equipes: XV de Jaú, Palmeiras e Santo André, mas não deu certoem nenhuma. Em1991, através de um amigo meu pai conseguiu agendar um teste no Bragantino. Eu tinha 15 anos e, para a minha felicidade, passei no teste. Foi nesse momento que comecei a ter noção de onde eu poderia chegar.

Foi nas categorias de base do Bragantino que o futebol ficou sério na sua vida.

Sim, porque antes o esporte era mais como um hobby. Se eu tivesse dois jogos pela manhã, um a tarde na escola e mais um depois da aula, eu jogava todos. [risos] Foi quando cheguei no Bragantino que comecei a formar uma disciplina de profissional, prestando atenção na alimentação, horário de descanso, treinos, etc. Então naturalmente fui ficando consciente das responsabilidades que tinha para alcançar alguma coisa.

A Barra teve alguns redutos do futebol: a AABB, o C.A. Botafogo e a Ponte Preta. Chegou a acompanhar algum desses clubes locais?

Quando eu era criança, acompanhei um pouco da ascensão da AABB – e eu entrava em campo de mãos dadas com alguns dos jogadores do clube. Veneno, Sabá e Dinei foram alguns dos jogadores que acabaram virando amigos meus. Um pouco mais pra frente, acompanhei o Botafogo, que chegou a ter um certo destaque na cidade. Eu via alguns treinos e conheci alguns jogadores, como o Taio Molina, o Daguia, o Jairo e o Luciano. Eu joguei no Botafogo e disputei campeonatos regionais pela Barra.

Antes de ser profissional, você teve algum mentor futebolístico na Barra?

Por todos os lugares que passei, sejam em clubes, escolas ou times de rua mesmo, sempre havia alguém para nos orientar, mas naquele momento apenas. Na verdade, em dimensão profissional, não havia ninguém que pudesse nos orientar. A experiência deles na época não era tão grande. Hoje eles têm mais acessos e condições de orientar algum garoto. O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram.

Sua mãe, a Geni Guimarães, é uma poetisa e escritora muito conhecida. Ela te apoiou quando você decidiu seguir a carreira esportiva?

Tanto ela quanto meu pai sempre foram pessoas de referência dentro de casa. Acompanhei a luta da minha mãe para estudar, se formar e chegar aonde chegou, recebendo o Jabuti. Meu pai também, que nunca deixou faltar nadaem casa. Forampessoas que me deram estrutura para poder lutar também e ter perseverança. Devo muito a eles.

“Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença”

Logo depois de jogar no Bragantino, você foi para a Espanha, país em que muitos sonham em jogar. O que sentiu quando isso aconteceu?

Na época eu não tinha maturidade para pensar no caso como penso hoje. Naquela época, com a Lei do Passe em vigor, tanto o jogador quanto o clube e seus diretores sabiam que a minha mudança de time geraria um retorno para todo mundo. Quando as coisas são assim, não se pensa muito no jogador e empurra-se o atleta logo para o mercado. Então acabei sendo emprestado por seis ou sete meses para o time espanhol, com apenas 21 anos de idade, um filho pequeno para cuidar e acabei nem jogando muito. Hoje posso dizer que eu não estava preparado para aquela realidade. Se eu fosse um pouco mais experiente, talvez pudesse ter aproveitado melhor.

Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Essa foi a grande dificuldade. Depois, quando voltei para o Brasil e joguei dois campeonatos maravilhosos e disputei a Taça Libertadores, vários times grandes começaram a me procurar. Cheguei a acertar verbalmente minha ida para o São Paulo quando o treinador era o Vadão, que tinha sido meu técnico no Atlético-PR. Mas o Atlético não queria me emprestar, queria me vender para o Japão, já que a Lei do Passe estava quase acabando. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença.

A Espanha é um país ocidental, mais fácil de assimilar a cultura. Mas Japão e Emirados Árabes são muito diferentes. Foi difícil viver nesses países?

O Japão é realmente muito diferente do Brasil. No meu primeiro ano lá, eu nem rendi o que podia como jogador, pois estava preocupado com outras coisas: minha esposa estava grávida da Sara, meu filho estava em idade de alfabetização e não achamos nenhuma escola brasileira, etc. Mesmo assim o clube acabou comprando meu passe e as coisas foram se encaixando: minha filha nasceu no Japão mesmo, colocamos o Matheus numa escola norte-americana e ele acabou sendo alfabetizadoem inglês. Nosegundo ano eu e minha família estávamos melhor adaptados e eu já entendia como as coisas funcionavam no Japão. Não foi nada fácil sair com a esposa e duas crianças do Brasil para um país em que você não conhecia nada.

Quando você chegava em casa e dizia para a sua esposa que precisavam mudar para o Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha, Japão o que ela dizia?

Nós sempre conversávamos sobre essas mudanças, nunca decidi baseado apenas em minha vontade. Quando surgiu a oportunidade de ir para o Japão ficamos até animados com a ideia, porque sabíamos os benefícios que teríamos e não pensamos muitos nas dificuldades. Depois você começa a pensar em alguns problemas que vai encontrar e se assusta um pouco. Mas seguimos alguns princípios cristãos e cremos que Deus preparou tudo pra gente e sempre tivemos fé. A fé é isso: dar um passo sem ver onde está pisando. E Deus sempre honrou a nossa fé. [risos]

Quando seu pai faleceu, você morava no Japão. Como foi esse momento para você?

Quando tirei férias do time japonês em dezembro de 2001, voltei ao Brasil já com um contrato assinada para mais três anos do clube. Nessa mesma época os problemas de saúde do meu pai agravaram e eu pensei sim em não voltar para o Japão. Creio que eu não podia fazer nada para solucionar o problema dele, mas fiquei por perto o quanto pude para ajudá-lo. Conversei com minha mãe e meu irmão, o Kiko, e eles disseram que era melhor eu voltar para o Japão. Nas férias, fiquei 30 dias no Brasil e meu pai estava nas últimas. No dia 22 de dezembro eu ia sair da Barra ao meio-dia para pegar um avião em Guarulhos às 19 horas. Às 10h, 10h30 meu pai faleceu. Sinceramente, sem hipocrisia, isso foi um alívio para mim. Nas condições em que ele estava eu tinha certeza de que chegaria no Japão e receberia a notícia de sua morte. No meu coração eu tinha segurança de que o Céu esperava por ele, o que serviu de consolo.

Você faz parte da igreja Batista Filadélfia. Como é o seu envolvimento com ela?

Eu me converti quando ainda morava em Bragança Paulista, com cerca de 19 anos. Desde então, sempre procurei fazer parte da igreja onde quer que eu vivesse. Em Barra Bonita, faço parte da igreja Batista há 10 anos. A Bíblia fala que em primeiro lugar devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça, e então as outras coisas nos serão acrescentadas. Sendo assim, quando buscamos em Deus nossa fortaleza e nossa fonte de alegria e direção, tudo o que precisamos nos é dado. Eu precisava de saúde, paz e ânimo pra jogar um bom futebol, então eu procurava tudo isso primeiramente em Deus.

“Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. A porta da perdição é larga”

Não é raro vermos jogadores que se perdem no sexo, nas drogas e em outros problemas durante a carreira. É realmente fácil achar todos esses perigos no futebol?

Esses perigos existem e sempre corremos o risco de nos desviarmos de nossos objetivos. O futebol é uma profissão que mexe muito com o ego das pessoas, porque muitos são famosos e dá-se a impressão de que tudo é mais fácil para os jogadores. Na década de 70, os jogadores de futebol eram considerados vagabundos. Hoje, se uma menina diz para o pai que está namorando um jogador, o pai incentiva, prevendo que financeiramente a vida pode compensar. Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. No futebol você tem dinheiro fácil, reconhecimento fácil e rápido, fama e muita gente que quer te sugar. Vi muita gente se envolver com coisas erradas e perder o casamento e a carreira. A porta da perdição é larga.

Em qual time você mais gostou de jogar e qual foi o período de sua vida que achou que estava no auge da forma?

Tirando o Flamengo (em que tive problemas contratuais) e o clube dos Emirados Árabes (em que estava com o joelho machucado), em todos os outros eu tive bons momentos. Agora, os clubes que me marcaram mesmo foram Atlético-PR, onde tive o início do auge, e o F.C. Tokyo, onde eu de fato estava no auge físico, psicológico e espiritual. Quando voltei para o Brasil, joguei apenas por um ano no Cruzeiro, mas joguei muito bem e estava voando, [risos] embora já fosse um velhinho de 30 anos. Depois dessa fase meu rendimento começou a cair, o que é natural para qualquer atleta.

Existe algum lance de jogo que é inesquecível para você?

Cara, existem vários! Às vezes vejo as fitas dos meus jogos e em certos momentos lembro até no que estava pensando na hora. Mas um dos lances mais marcantes aconteceu num clássico entre o Atlético-PR e o Paraná num gol de placa que não foi eu quem marcou, foi o Lucas, mas a jogada foi minha. Cara, foi uma jogada que ainda hoje penso em como fui capaz de realizá-la. Saí pela direita e fui até a linha de fundo, toquei de calcanhar na bola e ela passou por baixo das pernas do jogador. Entrei na área com a bola, dei um toque e ela caiu na minha perna esquerda. Acontece que minha esquerda só serve para a embreagem do carro – ou nem pra isso mais, já que meu carro é automático agora [risos] – e, na hora, dei uma letra que foi na medida e direta para o Lucas, que fez o gol. O estádio estava lotado e foi abaixo com esse gol, nós éramos aplaudidosem pé. Ainda hoje, se você for ao estádio, verá uma placa com meu nome lembrando desse passe.

Como você conheceu sua esposa?

Eu estudava na escola Gutemberg de Campos, na Vila Operária, mas quis mudar para o Sesi, porque ficava mais perto de casa e porque os times dessa escola disputavam umas olimpíadas em Bauru e todos os meus amigos do bairro participavam, menos eu. Pressionei meus pais até que eu e o Kiko conseguimos mudar, basicamente para jogar futebol, mas consegui coisa melhor: a minha esposa. Foi no Sesi que a gente se conheceu, com 13 anos de idade. Quando estávamos na 8ª série começamos a namorar.

Quem chegou em quem?

Na verdade eu paquerava uma amiga dela e ela ajudava na comunicação entre mim e a garota. Era uma coisa bem de criança mesmo, quando não tínhamos coragem de chegar na menina. Mas isso foi despertando uma amizade grande entre a gente até que um dia ela confessou que gostava de mim. Como eu também já estava gostando dela, começamos a namorar de um jeito bem simples, e bem diferente do que vemos hoje. Foi a minha primeira namorada e eu fui o primeiro namorado dela também.

O que você sentiu quando seu primeiro filho nasceu?

[Risos] Para um homem que vive no meio do futebol, imagina a alegria de ter um filho homem! O Matheus veio para alegrar um momento difícil que eu vivia, quando precisava me afirmar na profissão e tinha algumas inseguranças financeiras. No dia em que ele veio ao mundo eu estava jogando e quando cheguei ao hospital ele já tinha nascido. Lembro de pegar aquela coisa pequenininha no colo e pensar: “Meu Deus, é meu filho. Acho que agora sou homem de verdade!” [risos] Meus pensamentos mudaram totalmente depois disso. Acredito que não exista herança maior que um casal possa deixar do que seus filhos.

Hoje, depois de passar quase 20 anos lidando com o futebol profissional, você ainda se entusiasma com os jogos? Ainda tem a emoção da juventude?

Não, acho que perdi esse pique. Quando era adolescente e estava nas categorias de base eu assistia a muitos jogos pela televisão, mas depois que ingressei no profissional me distanciei um pouco. Não só para fugir um pouco do trabalho, mas por causa das críticas que poderiam ser feitas – às vezes desnecessariamente – e que poderiam pesar sobre mim. Também evitava os programas sobre esporte. Quando queria, pedia para o meu clube a gravação da partida e assistia sozinho, tirando conclusões do que tinha feito de bom e de errado. Hoje não sou muito vidrado no futebol, não consigo ficar 90 minutos vendo qualquer que seja o jogo, a não ser Copa do Mundo e jogos muito importantes.

Você teve vontade de jogar em algum clube e não pôde por algum motivo?

Queria jogar no São Paulo, que é o meu time do coração. Tive duas oportunidades, mas não dá para ser apenas emocional, você precisa ser racional também na hora de fazer as escolhas. Na primeira oportunidade o São Paulo me queria emprestado, mas o Atlético-PR queria me vender. E é aquela coisa: se você é emprestado e não vai bem, volta queimado para o clube. Quando voltei dos Emirados Árabes, operei meu joelho. Eu estava sem clube e fui fazer recuperação no CT do São Paulo. O fisioterapeuta disse que a direção do time gostava de mim e que eu tinha grandes chances de jogar no São Paulo. Mas duas semanas depois o Grêmio apareceu querendo me contratar, mesmo com a cirurgia. Como a direção do São Paulo não pôde garantir que eu jogaria no time antes da recuperação, aceitei a oferta do Grêmio.

Enquanto você ainda era jogador, a população de Barra Bonita reconhecia o seu sucesso?

Todas as vezes que voltava para a Barra sempre era muito bem recebido. Tanto no Bragantino, que é um time pequeno, quanto nos grandes clubes cujos jogos eram transmitidos pela televisão, sempre fui bem visto e querido por aqui. Lembro que crianças pediam meu autógrafo e tiravam fotos ao meu lado. Hoje eu me encontro com elas na rua e já são jovens com o dobro do meu tamanho. É claro que algumas pessoas que por frustração, mágoa ou inveja tentavam atrapalhar, mas isso eu tirei de letra!

Então chegaram a te criticar por aqui?

Isso aconteceu em alguns jogos festivos de confraternização. Algumas pessoas faziam brincadeirinhas ou jogadas maldosas, querendo discutir no meio da partida. Tentei levar essas coisas numa boa, porque entendo que há pessoas que têm dificuldade em aceitar [o sucesso dos outros], mas isso existe em qualquer lugar.

“Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer!”

Por quê você resolveu se aposentar no final de 2008?

Em 2001eu passei por uma cirurgia no joelho que não me deu problemas por muitos anos. Em 2007, no Grêmio, tive problemas novamente, o que é normal nessa profissão. Quando fui para o Atlético-PR pela última vez, tive que operar de novo. Percebi que a situação estava desgastante para o meu físico e isso abalou o meu psicológico, afinal eu não rendia tudo o que podia. Isso foi me desanimando, já não ia aos treinos com a mesma alegria, já não almejava muitas coisas e me sentia limitado. Comecei a preparar minha aposentadoria, embora nunca quisesse parar de jogar. Nunca contei para ninguém, mas depois de sair do Atlético-PR ainda tentei jogar no Ponte Preta [em Campinas], mas não passei nos testes físicos. Minha força na perna direita estava bem abaixo da média dos atletas e, pelos quatro meses que jogaria, não dava tempo de fazer um trabalho para recuperar a musculatura. Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer! [risos]

Atualmente, longe dos gramados, quais são as suas ocupações diárias?

Tenho algumas obrigações com meus filhos, preencho meu tempo com aulas de canto, pois eu e meu filho participamos da banda da igreja. Bato um futebolzinho, faço natação e estou cursando o segundo ano de licenciaturaem Educação Físicana FAEFI. Vou me formar no ano que vem, mas talvez eu estude mais um pouco para ser bacharel também. No entanto eu tenho o CREF provisório para dar aulasem escolinhas. Fiqueidois anos descansando e agora penso em que área atuar. Atualmente gostaria de continuar trabalhando com o futebol, mas vamos ver o que a vida me reserva.

Financeiramente, sua carreira compensou? Foi mais ou menos do que você esperava?

Foi muito além do que eu esperava. Quando saí de Barra Bonita para fazer um teste em um clube, não tinha dimensão de onde poderia chegar. Sei que faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da minha vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa que me permite matricular meus filhos em escolas boas, vestir o que quisermos, nos alimentar bem e ir a lugares que gostaríamos de conhecer. Entretanto, sei que preciso de outra profissão agora, por isso entrei na faculdade.

Ser jogador de futebol profissional, além de alguma fama e dinheiro, atrai também puxa-sacos. Como lidou com eles?

É uma coisa engraçada, é uma faca de dois gumes. Existem muitas pessoas que se aproximam de você por que é jogador, porque é famoso, porque tem status e uma boa condição financeira. Elas acham que enganam, mas a gente sempre percebe quando a situação é essa. Por outro lado, pessoas boas com quem a gente gostaria de ter uma amizade sólida podem acabar não se aproximando da gente com medo de que pensemos que são bajuladoras também. Tive dificuldades com isso, porque morei em muitos lugares diferentes e não conhecia ninguém nas cidades. Quando tentávamos ter uma amizade mais profunda com alguém nem sempre conseguíamos, porque achavam que iam parecer puxa-sacos. Mas mesmo assim consegui fazer amigos em muitas partes do Brasil e, quando nos falamos por telefone ou MSN, quase nunca falamos de futebol, e isso é bom.

“Faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa”

Quem é o grande talento do futebol que você admira?

No passado, durante a minha juventude, vi o Zico jogar e ele virou um referencial para mim dentro de campo. O último referencial que tive dentro de campo foi o francês Zinedine Zidane. Tive o prazer de jogar contra ele enquanto defendia o F.C. Tokyo contra o Real Madrid num amistoso. Foi um cara cheio de classe e talentoem jogo. Agora, eu respeito muito o Ronaldo Fenômeno como jogador. Fora do futebol ele tem condutas que talvez não sejam tão boas, mas não o conheço e não vou julgar o seu caráter. Lembro que quando eu estava na Espanha ele jogava no Barcelona e conseguiu um respeito e uma admiração enorme do público. Por muito tempo ele foi um craque, e hoje o que me entristece são as piadinhas que fazem com ele (se bem que até eu às vezes faço) e os meios de comunicação jogando fora tudo o que ele fez no passado. Vai demorar 10 anos para aparecer outro Ronaldo.

Você ainda quer realizar algum sonho?

Rapaz, agora você me pegou! Tenho vários sonhos, como ver meus filhos formados, realizar algumas coisas com minha família, outros são segredos. Tem um sonho da minha esposa que quero realizar: conhecer Paris. Rodamos o mundo e ainda não fomos a Paris. A gente começa a analisar nossa trajetória e lembra que muita gente não acreditava na minha carreira e nem no nosso casamento, mas hoje tenho condições de ir a Paris com ela. Acho que vai ser uma grande alegria para nós dois fazer essa viagem.

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Novas séries que podem dar o que falar

O thriller policial The Killing, que estreou domingo aposta mais no drama que na ação

Começaram a ser exibidas nos Estados Unidos três novas séries para a televisão que podem dar o que falar. Camelot, The Borgias (ambas com ambientação medieval, mas seguindo rumos um pouco diferentes) e The Killing (um thriller policial que não segue a cartilha do gênero) tiveram seus dois primeiros episódios exibidos no último final de semana. A seguir, discorro sobre cada uma.

 

The Borgias – Sangue e sexo no Vaticano

Jeremy Irons interpreta o corrupto Rodrigo Borgia, o papa Alexandre VI

Criada por Neil Jordan (diretor de Entrevista com o Vampiro e Fim de Caso), a série The Borgias narra a história verídica da corrupta e inescrupulosa família Borgia. Rodrigo Borgia (Jeremy Irons), o patriarca, é um cardeal que somente espera a morte do papa Inocêncio VIII, mostrada assim que o primeiro episódio começa, para fazer tudo o que pode para ser eleito o novo chefe da igreja católica em 1492. Contando com a ajuda de seu filho, o bispo Cesare Borgia (François Arnaud), suborna, corrompe e faz conchavos políticos com outros cardeais, obtendo na marra a maioria dos votos, tornando-se o papa Alexandre VI.

Como se baseia em fatos reais, dá para notar o cuidado da produção com cada detalhe da trama: a recriação de Roma e dos palácios do Vaticano, a fidelidade aos figurinos eclesiásticos, as referências precisas a cardeais, reis e mulheres que realmente existiram e até a pesquisa sobre direito canônico.

Neil Jordan – que produz a série e dirigiu e escreveu os dois primeiros capítulos da série – deixou claro que poupar a igreja ou o público nessa empreitada não está nos seus planos. Ele mostra os Borgias e de mais cardeais conspirando uns contra os outros e traz as relações políticas para o centro da trama. Afinal, tanto hoje quanto na Renascença, utilizar (arbitrariamente) a legalidade para garantir interesses e afastar opositores é uma medida amplamente usada no jogo político, entre políticos.

Aos poucos a série vai construindo a personalidade de seus personagens. Sabemos de antemão que Rodrigo Borgia é um vilão na história do catolicismo, mas o olhar que a série nos obriga a ter sobre os fatos daquela época revela que ninguém era santo e tomar algum partido seria maniqueísmo do próprio telespectador.

Nenhum assassinato é cometido gratuitamente, todos estão ancorados em uma função narrativa. Mesmo assim, espalham bastante sangue sobre lençóis brancos, mesas de jantar, prisões e salões do Vaticano. Sexo também está presente e deverá intensificar sua recorrência para mostrar uma das principais formas de corrupção da família Borgia. Não só Rodrigo e Cesare cometem o pecado aos olhos da igreja, mas também a jovem Lucrécia Borgia e vários outros personagens.

Apostando na força de seu roteiro e na qualidade de seus atores, The Borgias mostra dramaturgia de qualidade. Uma das melhores estréias da temporada.

 

Camelot – Uma versão para rei Arthur

Arhtur e Merlin na série que dá nova versão aos fatos da lenda britânica

Camelot, como seu nome denuncia, é a história do lendário Arthur Pendragon, rei bretão que, segundo a lenda, terá o poder de unir a Grã-Bretanha e defendê-la dos saxões invasores. Ao seu redor gravitam personagens famosos, como o mago Merlin, sua meio-irmã bruxa Morgana e os cavaleiros da Távola Redonda. No entanto, para quem já leu os escritos da saga arthuriana ou a tetralogia As Brumas de Avalon (a história de Arthur contada do ponto de vista das mulheres), essa série tem um começo um pouco estranho. Mas como não existe uma versão definitiva sobre essa história nem entre historiadores e nem entre os ficcionistas, parece que qualquer liberdade criativa vale, desde que alguns elementos sejam mantidos.

No início de Camelot, Morgana assassina seu pai, o rei Uther Pendragon, e se alia ao rei Lot. Entretanto, Merlin (Joseph Fiennes) vai em busca do filho perdido de Uther, Arthur (Jamie Campbell Bower), que precisa aprender a ser rei e aceitar seu destino. Mas é claro que tal pretensão vai incomodar poderosos e vingativos senhores feudais da ilha britânica.

A julgar pelos dois episódios exibidos até agora, não dá para saber exatamente quais são as intenções de Morgana (Eva Green) e nem se o amadurecimento do Arthur será forçado, para caber dentro do cronograma de filmagens, ou natural, dando tempo para que ele se acostume com a ideia de ser rei (coisa que o garoto nunca achou que seria até Merlin bater a sua porta).

As poucas batalhas já exibidas foram anêmicas. Nunca uma luta de espadas do século VI mostrou tão pouco vigor. Os atores, com algumas exceções, também não mostraram uma interpretação convincente. Em comparação com The Borgias, Camelot também perde em fotografia, com menos acuidade na hora de elaborar sua criação visual.

A série pega alguns atalhos. Por exemplo: Arthur é coroado rei no castelo de Camelot. Pelo menos em As Brumas de Avalon, a sede do governo arthuriano só passa a ser Camelot na segunda metade de sua história. É nesse ambiente, aliás, que a Távola Redonda é formada. E levaria muito mais tempo até que Morgana virasse, de fato, uma opositora de Arthur do que a série nos faz crer. Só mesmo acompanhando o resto dos episódios saberemos se Camelot vai justificar os atalhos que pegou e nos entregar uma história convincente.

 

The Killing – Drama policial não forense

O ponto de partido da série é o assassinato de uma adolescente

The Killing começa com uma mulher e uma garota correndo por um bosque. A primeira, Sarah Linden (Mireille Enos), acha que este será seu último dia como detetive da divisão de homicídios da úmida Seattle e não vê a hora de partir para a aconchegante Califórnia de noite. A outra é Rosie Larsen (Katie Findlay), menina de 17 anos que se arrasta aos gritos pela noite entre as árvores tentando fugir de alguém.

Não é difícil imaginar o que acontece a seguir: Rosie é dada como desaparecida e, algumas horas depois, é encontrada morta no porta-malas de um carro. A detetive Linden, diante do caso, se vê obrigada a abrir mão do sol de San Diego para cuidar do caso. Paralelamente ao misterioso assassinato, Seattle está prestes a eleger seu novo prefeito. Imagino que intrincadas armações políticas serão somadas ao enredo investigativo da série.

The Killing, remake de um seriado dinamarquês, é um thriller policial, mas segue seu próprio caminho narrativo e estético. Diferente de CSI, Bones ou Criminal Minds, medalhões do gênero, a nova série não está interessada em mostrar closes de corpos dilacerados, casos surreais e escabrosos, nem tão pouco as maravilhas das técnicas forenses. The Killing concentra-se no drama, em como a morte de uma simples garota (quantas outras não devem morrer assassinadas por dia em Seattle?) afeta uma família, uma eleição e até mesmo o destino profissional de uma detetive.

De certo modo, lembra um pouco a premissa de Twin Peaks, clássica série dos anos 90 que revelou o diretor David Lynch. No entanto, as tramas e subtramas de The Killing não devem sofrer nenhuma interferência sobrenatural. Como é típico do gênero, a série tem uma forma de filmar pessoas e ambientes e de registrar seus dramas ressaltando o que há de mais humano e material na cena, evocando uma realidade dura e crua.

 

O Discurso do Rei

A força do filme está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens

Colin Firth vive o gago príncipe Albert na produção inglesa

A produção inglesa O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010) vai concorrer ao Oscar em 12 categorias, mas já ganhou vários prêmios: melhor direção no BAFTA, melhor ator no Globo de Ouro para Colin Firth e melhor filme no PGA, a premiação dos produtores de cinema de Hollywood, só para citar alguns. O filme tem grandes chances de levar ainda mais prêmios no Oscar, pois entre os indicados para a categoria de Melhor Filme, O Discurso do Rei é seguramente o mais maduro. Agora, se vai ganhar, é outra história.

O enredo começa em 1925, quando o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) não consegue fazer um discurso por causa de sua gagueira. Sua alteza tenta diversos métodos – alguns nada ortodoxos – para se desvencilhar de sua fala vacilante, afinal seu pai, o rei George V (interpretado por Michael Gambon, o Dumbledore de Harry Potter), é um ótimo orador. Albert chega até mesmo a desistir de procurar tratamento, mas por insistência de sua esposa Elisabeth (Helena Bonham Carter) começa um tratamento com o terapeuta Lionel Logue (Geoffrey Rush), que quer tratar o monarca em seu próprio consultório e insiste em chamá-lo pelo apelido “Bertie”, uma concessão a que membros da realeza não estão acostumados a fazer.

É claro que o príncipe a princípio não concorda com os métodos e excentricidades de Lionel, mas a relação dos dois acaba indo além da relação terapeuta-paciente e eles tornam-se amigos e confidentes. Grande parte da força do filme está na atuação de seus personagens. As longas cenas levadas a cabo apenas pelas presenças magnéticas de Lionel e príncipe Albert são construídas com esmero pela câmera do diretor Tom Hooper. Colin Firth e Geoffrey Rush estão tão imersos em seus papéis quanto Frank Langella interpretando Richard Nixon e Michael Sheen encarnando David Frost em Frost/Nixon.

Firth expressa com naturalidade as inúmeras inseguranças de Albert e Rush interpreta como ninguém a franqueza e as caretas típicas dos ingleses. Hooper conhecia muito bem a história que tinha em mãos e o calibre dos atores, e soube extrair o melhor de cada um.

Mas a história de O Discurso do Rei não para por aí. Da metade para a frente, quando os atores já solidificaram bem a ideia central do filme, o enredo envereda por questões internas e externas da realeza e toca em um dos assuntos mais interessantes e polêmicos criados nos século XX: a Segunda Guerra Mundial. Albert não é o primogênito, portanto, não deve se tornar rei, o que de certa forma o alivia. Mas seu irmão, logo após ser empossado rei Edward VIII, resolve casar-se com uma mulher divorciada, o que é totalmente contra os preceitos da igreja Anglicana. Com a renúncia, Albert assume o posto como George VI, exatamente no momento em que governos europeus começam a olhar para a Alemanha e veem com enorme desconfiança e assombro a figura de Hitler.

Geoffrey Rush interpreta o terapeuta Lionel Logue

A cena em que George VI assiste a um trecho do poderoso discurso de Hitler ao lado da família é memorável. É, talvez, o momento em que Hooper e o roteirista David Seidler melhor conseguiram sintetizar as questões de ordem política e sentimental de todo o filme. Ali está uma amálgama do que aquele momento significava para o mundo e para a vida íntima do rei da Inglaterra.

A princípio, pode parecer que a história real de um rei gago não soa interessante, mas a força de O Discurso do Rei está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens. Não deixa de ser uma história de superação, é verdade, mas é bonito ver como diretor, atores e produção se superaram para fazer um dos melhores filmes do ano.

Let Me In

Let Me In não abusa de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa, mantendo a estética do filme sueco original

Todos os elogios e prêmios que o filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original, resenhado aqui) recebeu a partir de 2008 atraiu o olhar da indústria cinematográfica americana. Não demorou muito para que os executivos da terra do Tio Sam anunciassem um remake da história, Let Me In, dirigido por Matt Reeves, que havia trabalhado em Cloverfield. Reeves faz o que já era esperado: americaniza a geografia do filme, aumenta a sangueira na tela, mantém as principais discussões levantadas e praticamente não muda a estética da obra (mas carrega um pouquinho na tinta nas cenas de maior impacto).

Let Me In conta exatamente a mesma história que o filme original e mantém o aspecto de filme “pequeno”, não abusando de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa. Mas faz algumas adaptações. Sai a pequena cidade do interior da Suécia e entra Los Alamos, Novo México, tão cheia de neve quanto o cenário urbano de Deixe Ela Entrar. O protagonista agora é Owen (Kodi Smit-McPhee), menino de doze anos que sofre de bullying na escola, não consegue revidar as agressões e adora espiar a vizinhança com sua luneta. Seus pais são problemáticos também: a mãe é uma religiosa depressiva que não faz a mínima ideia dos problemas enfrentados pelo filho; o pai está fora há alguns meses; eles estão se divorciando.

Sem amigos, Owen se refugia durante as noites num playground do quintal de seu prédio. Certo dia, conhece a misteriosa Abby (Chloe Moretz, a Hit Girl de Kick-Ass), menina que tem doze anos já “faz muito tempo” e que vive migrando de cidade em cidade. Ela diz a Owen que eles não podem ser amigos, mas a presença do livro Romeu e Julieta na cena evidencia que essa regra não será quebrada e provavelmente a relação dos dois irá além da amizade.

Chloe Moretz, a insana Hit Girl de "Kick-Ass" interpreta a vampira Abby

Não demora até que saibamos que Abby na verdade é uma vampira. E ela usa um homem mais velho (Richard Jenkins) para se faz passar por pai e consegue sangue fresco para saciar a fome da garota. Ao que parece, faz muitos anos que este homem a segue. Abby é, assim, uma sanguessuga. Mas se ela consegue ser tão mortal quanto se espera que um vampiro seja, mostra ser clemente e doce na presença de Owen. O que encantou no filme sueco e encanta neste remake americano é justamente esse contraste entre o terror e ternura.

Conforme as vidas de Owen e Abby vão se entrelaçando, ambos vão mudando. Ele se torna mais confiante, ela tem a oportunidade de se esconder menos e mostrar mais sua humanidade. Essa transformação é mais evidente e sensível no filme sueco, mas a versão americana consegue deixar mais que talvez o suposto amor de Abby por Owen seja mediado por uma necessidade e por um interesse bem específico (e não me atrevo a contar mais para não estragar o filme de ninguém).

A cena final na piscina da escola é mais impactante na obra cinematográfica original. A crueza é mais dilacerante, pois conseguia ir ao encontro do desejo secreto dos espectadores, que passaram o filme inteiro esperando uma punição para os garotos que batiam em Owen. Let Me In executa exatamente a mesma ideia com praticamente a mesma morbidade do filme sueco, mas uma quantia considerável de sangue já havia jorrado em cenas anteriores, não causando mais uma palpitação tão grande.

Como é praxe nesse tipo de filme, é claro que a perda da inocência está embutida no argumento da produção. Ao ficar tão próximo de Abby, Owen começa a despertar para o amor. Mas ele vê do que sua “namorada” é capaz e acaba sendo forçado a despertar para a violência e os horrores do mundo. E o mais espetacular é ver a anuência do garoto para com esta última situação. Mérito máximo da obra – sueca ou americana, tanto faz – é não julgar a moral de seus dois protagonistas. Cabe ao público dar-se conta da natureza de ternura e terror de Abby ou da pureza que Owen ostenta mesmo quando decide acompanhar uma criatura assassina. E o melhor a fazer talvez seja não julgá-los.

Na sarjeta com Mateus, o provocador

Ele é artista, funcionário público e pensador. Seja no poder Judiciário ou na rua, Mateus Grava emana tensão. “Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso”, ele diz sobre si próprio

Na sarjeta, Mateus dos Santos Grava encara as situações tragicômicas de sua vida. "O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos", diz

Entrevista por Lucas Scaliza

Há uma tensão latente em Mateus dos Santos Grava, 28 anos. Dele, você nunca sabe o que esperar – e o que ele pode te oferecer também depende muito de seu estado de espírito. Talvez você tente falar com o Mateus e encontre Raioé, seu efusivo alter ego (e não tem nada a ver com dupla personalidade) que manifesta-se principalmente no campo musical, mas pode aparecer também numa noite intranquila de bebedeira. Assim como Raioé, Mateus (o “original”) também tem veia artística. Recentemente recuperou músicas antigas e compôs novas baladas com o propósito de registrá-las em disco. Em 2008, ele escreveu uma série de textos que virariam um livro, mas acabou não sendo publicado, vitimado pela autocrítica imperdoável do autor. “Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo”, ele diz. Seja na literatura ou na música, ou mesmo em uma conversa informal no balcão de um bar, a forma de se expressar de Mateus é sempre provocadora, fazendo seu interlocutor confrontar paradigmas estabelecidos e seus próprios pensamentos.

A característica mais marcante de Mateus Grava é o seu estilo de vida. Funcionário público do poder Judiciário durante o dia desde 2002, ele abandona o mundo dos processos e das liminares na 2ª Vara Cível para tornar-se um boêmio veterano durante a noite. E já aprontou tantas na rua, entre coisas cômicas e trágicas, que é considerado um junkie. Não o junkie viciado em alguma droga, como denominava o termo original da palavra, mas o junkie que é um pouco anárquico e tem uma vida tresloucada. Mateus aprecia as obras de Woody Allen, Virginia Woolf e Clarice Lispector, mas imagino que se ele próprio fosse um personagem da literatura, seria Dean Moriarty, o jovem igualmente tresloucado que atravessa os Estados Unidos nas páginas de On The Road (livro símbolo da geração beat escrito por Jack Kerouac) em busca de novas experiências. Ao mesmo tempo junkie e filosófico, Mateus é uma espécie de Thomas Pynchon com barba descuidada e cabelos muito compridos.

Para preservar o seu estilo de vida, a entrevista com Mateus Grava foi gravada ao anoitecer, na mesa de um bar da orla turística de Barra Bonita, ambiente onde ele se sente bastante à vontade. Conforme a conversa de quase duas horas seguia, acompanhada de perto por seu amigo Wander Bêh e por quatro ou cinco garrafas de cervejas, deu para sentir a tensão de sua vida. Histórias tristes e engraçadas, sentimentos de inadequação, crises de consciência e reflexões profundas, tudo de uma vez só, sem pausas. Mateus respondeu a tudo com uma sinceridade cortante, e quanto mais honesto era consigo mesmo e com esta entrevista, mais o medo sobre o que seria publicado crescia dentro dele. Definitivamente Mateus não é um cara comum, mas seus sentimentos e medos são humanos, demasiadamente humanos.

Entrevistado e entrevistador. Foto: Wander Bêh

Você é uma pessoa bastante fragmentada, tem vários lados, age de diversas formas. Você consegue entender o seu eu mais substancial? E as outras pessoas, elas conseguem enxergar o seu eu também?

As pessoas não conseguem e eu também não. Sinto a energia e o jeito que as pessoas me olham, às vezes de forma legal e carinhosa e outras vezes de uma forma ruim, mas quando é assim a pessoa não chega pra falar com a gente. Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso. É uma coisa intensa tanto o meu jeito de demonstrar carinho quanto às cacas que eu faço – que não são poucas. Este ano tive realizações maravilhosas na minha vida, tudo para que 2011 seja para mim, talvez, um ano em que poderei mostrar muitas coisas boas. Contudo, meus erros continuam sendo tombos enormes.

Você sempre tem consciência das coisas que está fazendo, sejam elas boas ou ruins?

Totalmente consciente. Acontece que às vezes vivo umas fases pesadíssimas e dou de cara com a parede em todos os campos, afetivo, profissional, pessoal e artístico. Depois eu sofro no dia seguinte e desse sofrimento saia uma letra [de música] linda de chorar – bom, pelo menos eu choro. E fico com um enorme frio na barriga que só algo muito legal para me fazer abandonar aquela dor. Mas atualmente tenho vivido muito mais momentos bons.

Que tipo de coisas boas estão acontecendo agora?

Música, principalmente. Em 2008 eu fiz vários textos legais, mas depois veio a autocrítica que passou do ponto e não consegui levar o projeto do meu livro adiante. Mas este ano consegui compor uma música com a Marta Nascimento e pude pela primeira vez tocar uma música minha no palco do Teatro Municipal Profª Zita De Marchi, no recital do Américo Ereno. Foi de marejar os olhos ver o vídeo que fizeram da minha apresentação! Peguei muito material que tinha guardado e gostei do que ouvi, bem diferente do que houve com meu livro. No ano que vem devo entrar em estúdio para gravar minhas músicas.

“Muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro”

Na música você tem um alter ego chamado Raioé. O Mateus e o Raioé são muito diferentes na forma de agir e pensar?

As músicas do Mateus são, na maioria das vezes, baladas de amor com influência da música brasileira. O Raioé é algo que surgiu em 1989, quando eu tinha uns oito anos de idade. Ele usa a boca e o mamilo para fazer alguns instrumentos, tem letras sem muito sentido e foi tomando forma com o passar dos anos. E a relação entre os dois está principalmente fundamentada na desconstrução, que é feita pelo Raioé, do ser humano Mateus, do Mathers, possibilitando assim algo próximo de um maior entendimento dessa figura. Inclusive, o nome do projeto de Raioé é justamente “Desconstruindo Mathers”, idéia essa que tirei de um de meus filmes preferidos de Woody Allen, “Desconstruindo Harry”.  Como ser humano Raioé é mais nervoso que o Mateus, muito mais ansioso e agressivo. Mas o Mateus às vezes é paciente até demais. Acho que os dois se equilibram.

As pessoas agem de jeitos diferentes quando você é o Mateus e quando é o Raioé? Ou quando você está mais tranquilo ou quando está sob o efeito do álcool?

É importante dizer que o Raioé não surge da bebedeira. Ele até surge bastante na bebedeira porque isso faz com que o Mateus deixe o Raioé aparecer… Mas qual era mesmo a pergunta?

Como as pessoas agem com o Raioé e com o Mateus?

É muito doido. Se vão apresentar uma música do Mateus, dizem: “olha que bonito que ficou isso”. Se for do Raioé, é assim: “olha como essa porra aqui ficou do caralho!” Os dois são lindos e verdadeiros da mesma forma, mas o Raioé já chega dando soco na cara e dizendo “Canta, filho da puta!”

Eles já fizeram alguma parceria?

“Donde estás Maria” é parceria dos dois. A canção é interpretada pelo Raioé e é a mais conhecida dele. Foi feita num ensaio de carnaval da banda Gritos & Sussurros em 2004. Era um ambiente de energia carnavalesca impulsionado pela disciplina, porque logo mais naquela tarde tinha matinê! É a única parceria deles, pois a coisa sai muito forte. Um até palpita no trabalho do outro, mas eles puxam o freio de mão.

Mateus durante a apresentação de "Onde tudo é mais bonito", música de sua autoria, no Teatro Municipal Profª Zita De Marchi

Você escreveu um livro e não o publicou. Por quê?

Escrevi uns 30 textos ou menos que formaram uma coisa bem bonita. Todos sinceros e feitos com carinho. Ia lançar o livro no ano passado, mas não fiquei feliz com o resultado. Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo. Pretendo escrever mais coisas ou tentar melhorar o que já tenho, mas sem toda a autocrítica de um ano atrás. Tenho lido bastante Clarice Lispector ultimamente e ela quando terminava uma obra não queria nem saber de ler o que tinha escrito.

Um dos textos que você produziu contava a relação que uma pessoa viu entre suas fezes durante o ato de defecar e a sociedade. De onde veio isso?

Esse texto era o meu carro chefe e o livro levaria o nome dele, Meus restos. Ele surgiu de uma experiência verdadeira, após um fim de semana dolorido que foi intenso até demais. Eu estava sofrendo com um relacionamento e com amigos, coisas complicadas. Eu estava dando uma cagada no banheiro e, quando me limpei, ficou uma mancha na minha mão. Aí fiz uma relação entre aquele cheiro, que nunca é bom, e o que as pessoas são. O cheiro é pior na medida em que a pessoa é pior também. Aí pensei nas damas perfumadas da noite – e eu estava apaixonado por todas elas ao mesmo tempo – mas elas têm uma cara de merda, que é muito mais fedida que a merda biológica. A relação entre o mal cheiro de nossos excrementos e o perfume francês tão agradável às nossas narinas. E termino dizendo: “Fiquei verdadeiramente fascinado com aquele aroma revelador”. Sem modéstia nenhuma, acho que coloquei essas ideias no papel de forma muito feliz.

E quando você briga com um amigo, como o Wander Bêh, como você fica?

Ah, o Wander já chutou a minha fimose, cara! Ele tinha alugado uma fita de videogame e deixou na minha casa para que eu a devolvesse no dia seguinte. Acontece que no dia seguinte eu fui operar a minha fimose. Quando voltei para casa, estava naquela situação complicada do pós-operatório. E três dias depois fiquei jogando no meu quarto aquele jogo com o meu primo, até que o Wander apareceu na janela de casa alucinado. “Então, então. Cadê a fita?”, ele dizia. “Ah, estou jogando, não está vendo?”, respondi. “Você não devolveu ou alugou de novo?”. “Ah, nem devolvi, estou operado da fimose, né?” O Wander entrou em casa e deu um bicudo na minha fimose operada que eu não sei como o meu órgão funciona até hoje. [gargalhadas] Ejetou a fita do Super Nintendo sem desligar o videogame primeiro e me deixou lá daquele jeito.

E como você resolve os problemas que eventualmente tem com as pessoas?

Como eu resolvo? Só deixo passar. O que faço é dar a cara para alguma pessoa que eu tenha prejudicado e ouvir para ver se é pesado o que fiz para eu não ficar me martirizando. Principalmente vou ouvir para entender direito o que eu fiz, porque a minha amnésia alcoólica é a maior do mundo. Mas a maioria das minhas furadas é em relação a mim mesmo. Nesses casos sento com frio na barriga e fico refletindo como é possível trilhar um caminho que não me cause tanto sofrimento. Porque cada sofrimento que você causa a si próprio é irreparável, já está marcado no filme da sua vida. Aí é ficar trancado com esse desespero até ele passar, até a conquista seguinte.

Mateus Grava. Foto: Wander Bêh

Como você reage quando acorda no dia seguinte e percebe que fez algo, mas sofreu uma “amnésia alcoólica”?

O maior desespero de não lembrar é que, no início, você não sabe que fez algo. Mas você sempre fica sabendo que fez algo porque existem outras pessoas que contam o que você fez. Acordar sem lembrar o que aconteceu e com frio na barriga já indicam que não fiz coisa leve. E às vezes nem é coisa pesada, mas como não estou sabendo ainda o que é, logo julgo que foi pesado. Aí passo uma semana esperando alguém vir me contar ou vou perguntar o que houve com uma baita cara de pastel. O desesperador é me conhecer e saber que a amnésia alcoólica vem geralmente quando fiz alguma caca mesmo.

Arrepende-se de ter feito alguma coisa nessas horas?

Não sei se a palavra é arrependimento. Tudo o que a gente faz tem um motivo de ser e, mesmo bêbado ou sóbrio, partiu de uma provocação de alguém. Eu me arrependo, então, de me expor a essa situação, de atravessar a rua e chegar a um círculo de pessoas que são complicadas para mim e que sei com certeza que quando a coisa ficar tensa o Mateus que segura a onda vai soltar de forma absurda as palavras. Aí ele se prejudica fisicamente e emocionalmente, é praticamente um Mike Tyson. É uma coisa assustadora essa explosão, mas muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro. O cara que mergulha na calçada ou que ficou pelado na avenida em 2003 vira o “louco”, mas não estava feliz.

É verdade que você recebeu um processo por ter ficado pelado?

Sim, quando a polícia me pegou pelado na Avenida Pedro Ometto em 9 de novembro de 2003. Era a minha fase mais pesada, mesmo tendo cara de criança, cabelo curto e sem barba. Naquela fase eu passava por situações ruins e realmente negras. Foi um capítulo tristíssimo da minha vida, mas ajudou a formar a minha personalidade.

Muita gente considera você aquele cara “louco” da turma, por falta de outro adjetivo que se encaixe melhor. Você se acha “louco”?

Muito, mas não é esse louco que as pessoas falam. Eu conquistei esse “louco” e recebo com muito carinho, mesmo sem ser assim. O louco mesmo é o Mateus vendo o Mateus, um cara que gosta do trabalho no Fórum, que gosta das pessoas que encontra na rua, que sofre na sarjeta e ama a sarjeta ao mesmo tempo – fora as coisas difíceis de se colocar em palavras.

Lucas Scaliza. Foto: Wander Bêh

Você tem um lado intelectual muito forte, capaz de discutir assuntos complicados com ótimos pensamentos e argumentos. Acha que as pessoas que te veem na rua conhecem essa sua faceta?

A maioria não. Só conhece quem faz parte do meu círculo diário de amigos, o pessoal da minha banda e minha mãe, que acompanha mais ou menos as músicas que ouço em casa e os livros que leio. Mas também não toco muito no assunto, pois tenho medo de parecer pretensioso e ligado à intelectualidade – coisa que não existe. Gosto do [cineasta] Woody Allen porque o acho parecido comigo, seus filmes são à flor da pele como é a vida e como são meus textos, irônicos, românticos e filhos da puta. O mesmo Mateus que bate a cabeça na guia é aquele que adora Belchior, chora ouvindo Maria Bethânia e gosta de rock. É que eu também não ajudo as pessoas a terem essa imagem de mim. Eu não chego para conversar falando sobre os livros que leio da Virgínia Woolf e da Clarice Lispector. Gosto dos assuntos que fluem naturalmente. Gostaria de mostrar mais esse meu lado e acho que vou conseguir fazer isso com as minhas músicas.

Então você tem vontade, desejo e/ou necessidade de mostrar esse Mateus às pessoas?

Tenho muita vontade. Recentemente conversei com uma amiga de 18 anos do Fórum e nosso papo foi parar nos livros. Disse que tinha lido um certo livro e o pessoal que ouviu assustou. “O Mateus lendo? Como assim?” Na hora a gente ri, mas a vontade era dizer que eu sempre li pra caramba.

Você era tímido quando adolescente?

Era muito tímido, não abria a boca. Quando falava um “a”, ele saía roço, com medo de estar falando. Não conseguia chegar nas meninas – coisa que é difícil eu fazer até hoje. Eu nem bebia e falava para os meus amigos do colegial que eles não sabiam se divertir.

Mateus ainda bebê, já evidenciando seu gosto pela música em sua camiseta

E como você mudou? Houve um episódio que simbolizou isso?

Tem gente que diz que eu e o Wander, que também era tímido, combinamos nossa mudança de comportamento, que ficávamos confabulando na escola. Mas houve um episódio, em 1999 durante um churrasco de despedida de nossa classe do terceiro ano do ensino médio. Eu usava lentes de contato, cabelo arrepiadinho com gel e não bebia nunca até então. Aí… (Nossa, estou bêbado!) [risos] Bom, foi a primeira vez que tomei duas cervejas para me enturmar e fiquei bem alucinado. E resolvi mergulhar na piscina com lentes e tudo. Ainda falei para um amigo meu que também usava lentes para mergulhar também que não tinha problema. “Eu estou enxergando tudo embaçado, mas é porque estou bêbado”, disse pra ele, pois não sabia como era ficar naquele estado. Naquela noite, em casa, fui tentar tirar a lente do olho. Tentei de todas as formas e nada, puxava até quase tirar o olho e nada. Minha mãe foi me ajudar e perguntou se eu tinha bebido. Eu disse que não. Perguntou se eu não tinha perdido as lentes na piscina. Também disse que não. Fomos na farmácia e o farmacêutico também não conseguiu tirá-la. Por último, fui parar na maca do oftamologista. Ele abria meu olho, usou uma pinça por cinco minutos, quase furando meu olho, e perguntando: “Tem certeza que vocês está de lente, companheiro?” “Tenho, estou sentindo ela”, eu respondia. Depois o médico parou por 30 segundos, olhou para mim e falou: “Companheiro, não tem lente nenhuma aí!” Aí eu pensei: “Jesus, perdi minhas lentes por causa de uma droga de bebedeira e fiz minha mãe sofrer”. Então prometi que nunca mais ia beber. E hoje estou aqui, dando essa entrevista e bebendo! [gargalhadas] E as lentes devem estar até hoje no fundo da piscina da edícula do Cunhé.

E depois desse episódio sua vida ficou mais social, é isso?

É, a partir de 2000 eu e o Wander começamos a abrir mais a boca, mas não era tanto assim. Deu até pra eu beijar! Beije duas mulheres em dois anos que foi uma coisa linda. Lembro que eu dizia que estava sendo a minha fase de maior sucesso. Não, foram três mulheres em dois anos, porque beijei uma que estava bêbada no carnaval da avenida. E beijei mesmo. Na boca. Depois disso só conseguia sair com alguém a cada nove meses, parecia até que era de propósito.

“Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é necessariamente você ser casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar”

 

Um dos seus amigos diz que tudo o que você faz pela primeira vez é muito engraçado. Sua primeira experiência sexual foi engraçada também?

Foi engraçada, mas vou torcer para a minha mãe não ler isso. Não gostei da minha primeira vez, porque… porque….

Espera. A menina dessa experiência está na cidade? Ainda é sua amiga?

Não tem nada de menina, cara. [gargalhadas] Não era menina e nem da minha cidade, errou nas duas vezes. Também não era a pessoa da minha vida. Agora minha primeira vez com mulher foi no ponto de táxi da praça do Museu, e aí eu gostei bastante.

E essa menina? É da cidade?

Poxa, não era menina de novo! Era uma mulher linda, uma pessoa de que gosto muito. E foi legal, porque essa experiência aconteceu depois do primeiro show que o Gritos e Sussuros fez no bar do Maurélio.

Mas as suas escolhas de fazer sexo com homem ou com mulher foram conscientes?

Totalmente, a cerveja não influenciou em nada. A gente bebe para relaxar, mas a decisão já tinha sido tomada. E as pessoas dessas relações que contei eram lindas e gente boa. Não me arrependo de nada, nada, nada. Com homem o problema é que eu não gostei, não tenho vontade nenhuma também. Gosto mesmo é de mulher, é bem melhor em todos os sentidos.

Mateus (no centro) com o primo Marcos e o amigo Wander Bêh em 1993

Algumas pessoas defendem que sexo deve ser feito quando há amor entre duas pessoas. Outros acham que sexo pode ser bom mesmo sem amor, por puro desejo. Como você encara a questão?

Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é você ser, necessariamente, casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar. Nesse momento pode ter existido amor. Assim como às vezes você transa com raiva, sem querer realmente estar ali com seu parceiro ou parceira. Então concordo que sexo deve ser feito com amor, senão é ridículo e superficial. Mas não concordo com a concepção que muita gente faz do amor.

Há também quem defenda o poliamorismo. Ou seja, que amor de verdade não é ou não precisa acontecer apenas entre duas pessoas, muitas outras podem estar envolvidas. Isso mexe com a monogamia e com os conceitos de fidelidade que vivenciamos atualmente.

Acontece mesmo de a gente amar mais de uma pessoa, mas não faço questão de vivenciar isso. A gente sofre por causa disso, mesmo entendendo a situação. E apesar da parceira ou parceiro entender que podemos amar mais de uma pessoa, isso não impede o sofrimento deles, e isso acaba nos fazendo sofrer. Na minha música “Onde tudo é mais bonito” há um verso que diz assim: “Onde tudo é mais bonito/ Na transa a dois, a três”. Não estou falando de uma orgia, falo de uma transa emocional. Até pensei em tirar o verso da canção, mas poderia ser o verso mais marcante dela.

Atualmente você é funcionário do Fórum. Antes disso, com o que você trabalhou?

Trabalhei para a prefeitura, no departamento de Limpeza Pública. Minha desenvoltura para cortar galhos e grama era tanta que, no meu primeiro dia de trabalho no setor, passei pelo menos uns dez minutos tentando cortar uns galhos com um facão. Eu pensava “O trabalho dignifica o homem” e batia o facão nos galhos, limpava o meu suor e continuava. Então percebi que os veteranos da Limpeza Pública começaram a olhar para mim segurando o riso. Aí um deles disse: “Então, seu nome é Mateus, não é? Tenta bater com o lado da lâmina agora”. [risos] Fiquei dois meses nesse departamento e fiz lindas amizades por lá. Saí por causa da minha grande habilidade com o trabalho.

E como você chegou ao Fórum?

Minha chefe na Limpeza Pública me chamou numa sexta-feira e disse que eu iria para o Fórum, porque estavam precisando de alguém por causa da falta de servidores no poder Judiciário. Antes de passar no concurso público da prefeitura, eu era legionário mirim e desempenhava, na Prefeitura, uma função bastante semelhante com a qual estavam precisando no fórum. Entrei no Judiciário barra-bonitense dia 1º de abril, mas sou uma grande verdade lá dentro. Não pretendo passar o resto da minha vida trabalhando com isso, porque pretendo fazer com que meus projetos musicais se desenvolvam. Mas a forma como olho para o Mateus no Fórum hoje é bem diferente de como o enxergava anos atrás.

“Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa”

Por quê? Como você encarava o trabalho no Judiciário?

Ah, eu encarava a sociedade “dos engravatados” com algum desprezo, com uma postura rock and roll. Mas com o tempo percebi que os engravatados também estavam na rua, só não usavam gravata. Vi também que mesmo o funcionário público que usa gravata era bem despojado e sossegadão com a vida, enquanto outro é aristocrata. E na rua tem o cara que diz que é “o alternativo”, e por aí vai. Comecei a enxergar a energia das pessoas, independente de ela estar engravatada ou de vestido longo, vendo o lado bonito e o lado insuportável de cada ser humano em todas as suas embalagens.

É verdade que o volume de trabalho no Judiciário da Comarca de Barra Bonita, que engloba também Igaraçu do Tietê, é anormal para uma região de apenas 60 mil habitantes?

Barra Bonita é uma cidade absurdamente exótica. Um dia desses levei cinco liminares até a mesa do juiz, e ele disse: “Cinco liminares em um único dia? Isso não existe! Essa cidade é…” “Essa cidade é exótica, né?”, completei. “Exótica? Isso aqui é uma curva de rio! Não existe!” Ele disse que em uma cidade como Araraquara não acontece tanta coisa como aqui. Vejo casos de desavenças, brigas por dinheiro, coisas pequenas e grandes, internações e interdições de pessoas, e mais uma série de problemas, tudo em grande quantidade. Trabalhando no Fórum passei a enxergar Barra Bonita de uma maneira bem diferente.

Você já teve problemas com as drogas? Ou só com a polícia?

Tive com a polícia mais de uma vez por conta de algumas desventuras. Já aconteceu de eu estar muito alto e fazer brincadeiras idiotas com os policiais. Nunca tive problemas com drogas, meu único problema é o conhaque. Esse eu preciso diminuir muito!

Em 2003, quando era baixista da banda Gritos & Sussurros

Como seus pais criaram você? Sempre com liberdade?

Pai eu não tive. Ele faleceu quando eu tinha 10 anos e mesmo antes disso já não morava comigo. A única imagem que tenho dele é uma vez que ele tentou ser o pai exemplar para mim e minha mãe acabou dando uma frigideirada na cabeça dele. Com a minha mãe e irmã sempre fui solto, sem problemas. Quando eu pisava fora de casa e era obrigado a lidar com gente é que dava o frio na barriga. Era o tal do bullying tão comentado atualmente, como o qual eu sofria bastante. Era muito ofendido por causa do meu jeito tímido, desengonçado, magrinho, etc. Nunca falei sobre isso com a minha mãe, apenas conversei algumas vezes com a minha irmã. Não tenho relacionamento com tios, tias e primos. Gosto delas, mas não participo do almoço daquele tio que mora fora e nem das confraternizações de Natal. Tem só um primo meu, o Marcos, que é um irmão pra mim!

Em suas músicas e textos, e mesmo em bate-papos informais, você sempre faz com deixa ideias provocativas, seja explicitamente ou implicitamente. Você se considera um provocador?

Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… E não é uma provocação gratuita, não. Porém, também não provoco para aparecer gratuitamente. Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa. Não sou o cara conselheiro, quero apenas fazer parte da vida da pessoa e que ela faça parte da minha.

E as pessoas geralmente estão dispostas a sentar e conversar com você ou a maior parte delas fica com o pé atrás?

A maioria fica com o pé atrás, mas tem muita gente bonita que vem. E a coisa boa disso é que alguns vêm com um olhar diferente, vêm com verdade. Não com medo, mas com interesse, sem saber nem ela e nem eu como nos aproximarmos. E aí a pessoa proporciona uma ocasião em que seremos obrigados a nos comunicar e a coisa acontece.

Você conta muitas experiências difíceis com bastante franqueza. Você poderia minimizar todas as situações, mas zela por falar diretamente.

É uma briga, na verdade. Ao mesmo tempo em que quero ser franco com os outros, preciso ser franco comigo mesmo para admitir que é muito perigoso expor tudo isso. Não minto pra mim mesmo e tenho muito medo, sinceramente, de tudo isso, desta entrevista. Não existe ninguém que não tenha medo e eu estou sofrendo agora, pensando como vai ser quando a entrevista sair. O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos.

 

 

Cisne Negro

O diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie

Cisne Negro (Black Swan, 2010) é um drama, um suspense, um terror psicológico, uma história de descoberta, uma tragédia e é quase um musical. De sua abertura – em que Natalie Portman dança com total entrega à escuridão, quebrada apenas por um único grande foco de luz – até seu final arrebatador, a música cheia de contrastes de Tchaikovsky nos acompanha. E o diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie.

Em Cisne Negro, Natalie Portman interpreta a frágil e disciplinada bailarina Nina Sayers, que quer muito protagonizar a encenação de O Lago dos Cisnes, que sua companhia de balé pretende apresentar na temporada. Nina é perfeita para o papel da Rainha Cisne, virginal, doce e de movimentos mais graciosos. No entanto, Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da companhia, não tem tanta certeza se ela conseguirá interpretar também a Cisne Negra, a contraparte da Rainha, que exige movimentos mais viscerais, sensualidade e mais intensidade do que há na comportada vida cotidiana de Nina.

Nina consegue o papel e tenta chegar a sua perfeição, tentando equiparar-se a Beth (Winona Ryder), a antiga Rainha Cisne do espetáculo, celebrada por público e crítica, mas que está prestes a se aposentar. Mas a perfeição para conseguir interpretar a Cisne Negra tem seu preço e a bailarina é compelida a uma extrema autocobrança e a explorar sua sexualidade. E ainda há Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina da companhia, que parece ser a exata contraparte de Nina. Lily tem a rebeldia e o desprendimento necessários para encarnar a Cisne Negra e Thomas sabe disso, o que deixa Nina insegura.

E assim somos convidados a acompanhar uma história que pode realmente ter algo de sobrenatural ou ser mero devaneio mental da protagonista. Assim como a Rainha tem se vê refletida na Cisne Negra, Nina também parece encarar Lily como seu duplo. E o diretor espalha espelhos por todos os cenários da produção, fazendo com que Nina encare a si mesma o tempo todo.

Mesmo tendo grandes méritos, Fonte da Vida (The Fountain), que Aronofsky dirigiu, acabou sendo um fiasco. Mas o diretor se reergueu com O Lutador (The Wrestler), trazendo Mickey Rourke de volta ao estrelato contando a história de um ídolo decadente da luta-livre de forma bastante realista, nos apresentando os bastidores deste mundo inclusive. E Cisne Negro é muito mais parecido com O Lutador do que com qualquer outro filme do diretor.

A forma como a câmera segue colada às costas de Nina pelos corredores da academia, pelas ruas da cidade e por sua casa é a mesma como a câmera seguia Randy The Ram. Além disso, os bastidores do balé também ocupam boa parte do filme, entremeando os dramas de Nina. A principal diferença entre os dois, portanto, estão nas escolhas de gênero. Aronofsky deixou o realismo cru de O Lutador para, desta vez, se dedicar a um terror ou suspense psicológico. Quando Randy sofria, sabíamos exatamente porque ele estava sofrendo e por quem. Quando o corpo de Nina aparece machucado ou quando Lily faz sexo com ela, não sabemos bem o que aconteceu ou quem estava lá.

Clint Mansell, que já colaborou em outros filmes com Aronofsky, assina a trilha sonora original de Cisne Negro e beneficiou-se enormemente da sinfonia composta por Tchaikovsky. Mansell deixa a música do compositor romântico soar, preenchendo as cenas de lirismo com seu doce piano e as de maior tensão com ataques rápidos e estridentes nas cordas (como é típico de Tchaikovsky). E a emoção da música, e o que ela significa em cada cena, transparece no rosto dos atores, principalmente quando Nina ensaia, dança pra valer ou vê coisas que podem não existir.

O filme tem bons momentos de susto e nenhum deles é gratuito. Prova disso é que o sobrenatural (ou a disfunção psicológica da personagem) nunca ocupa tempo demais em cada cena. O roteiro preferiu sempre dar sequência e ritmo à história rapidamente, antes que Nina deixasse de ser uma bailarina obcecada pela perfeição e se tornasse vítima de um artifício cinematográfico (que seria a inserção de fenômenos misteriosos para captar a atenção do público).

O trabalho físico de Natalie Portman para dançar a difícil coreografia de O lago dos Cisnes impressiona sobretudo no terceiro ato do filme, quando o espetáculo está de fato sendo apresentado. Portman interpreta a Cisne Negra com intensidade, distanciando-se da figura frágil de Nina. Deixar o tripé de lado e registrar quase que o filme inteiro com a câmera na mão foi uma opção estética de Aronofsky e do diretor de fotografia Matthew Libatique. Nas cenas de dança, é possível sentir o cameraman dançando também para acompanhar a os braços e as pernas dos bailarinos.

Assim como The Ram em O Lutador termina sua trajetória sendo ovacionado e se autossacrificando em nome de um espetáculo de luta, Nina termina Cisne Negro da mesma forma – mas em nome de sua perfeição. Embora as dualidades entre Rainha e Cisne Negra, Nina e Lily, o lado doce e o lado mais escuro da alma da bailarina estejam presentes o filme inteiro, são os espelhos onipresentes que revelam o que realmente está acontecendo: refletir Nina significa que ela, e somente ela, é a chave de seu próprio mistério e o motivo de suas próprias limitações.

A Rede Social – em busca de aprovação

Muito mais do que um filme sobre o Facebook, o site de relacionamentos mais popular do mundo, A Rede Social mostra a busca do bilionário Mark Zuckerberg por aprovação

Jesse Eisenberg vive o solitário Mark Zuckerberg, criador do Facebook. O negócio ascende, mas suas relações pessoais naufragam

A cena que abre A Rede Social (The Social Network, 2010) mostra o jovem Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, sentado numa mesa de lanchonete com sua namorada Erica Albright. Mark, então estudante em Harvard, acaba sendo arrogante com a garota e o namoro termina. Como ela deixa bem claro, a relação não terminou por ele ser nerd, mas por ser um babaca.

A cena que fecha A Rede Social mostra um ainda jovem Mark Zuckerberg, dois anos depois, sentado na mesa de um escritório de advocacia. Uma audiência acaba de ocorrer entre ele e o advogado do Facebook contra um de seus desafetos. A estagiária que acompanha o caso (SPOILER) lhe diz: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser”. E então ele entra em seu perfil do Facebook e adiciona Erica, sua ex-namorada, como amiga. Até os créditos finais, ele clica F5 sistematicamente, esperando para ver a aprovação de amizade da menina.

Revelar a elipse que se estabelece entra a cena inicial e final do filme não vai arruinar toda a sua experiência do filme. Há muito mais para ser visto, pode ter certeza. Mas é importante evidenciar como a história desse jovem bilionário foi contada pelo roteirista Aaron Sorkin (baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich), fazendo jus à frase de divulgação no cartaz do filme: “você não chega a 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”.

Logo após romper com sua namorada, Mark (interpretado por Jesse Eisenberg) fica bêbado na frente do computador, bloga insultos contra a ex e arma uma espécie de jogo social aberto aos estudantes de Harvard, usando seu vasto conhecimento em programação. Com a notoriedade lhe batendo a porta, logo é contratado pelos gêmeos Winklevoss e Divya Narendra, que esperam que ele programe a rede social Harvard Connection. Mark Zuckerberg enrola os três por mais de um mês e quando finalmente resolve abandonar o projeto, já tem pronto o protótipo do The Facebook. Ele acaba de ganhar três inimigos. Para ajudá-lo em seu projeto pessoal, chama o brasileiro Eduardo Saverin (interpretado por Andrew Garfield), uma espécie de consciência em fazer negócios mais alerta e precavido do que Zuckerberg. Quando Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, entra para o Facebook depois de deslumbrar Zuckerberg com a trinca dinheiro-sexo-glamour da Califórnia, a relação entre ele e Eduardo começa a se desgastar até chegar ao limite: os tribunais.

A história de criação do Facebook é contada de forma linear. Entrecortando todo o filme, de forma não linear, estão as diversas cenas de audiência. Mark contra os Winklevoss e Mark contra Eduardo. Muito mais do que um filme sobre o site de relacionamentos mais popular do mundo, é um filme sobre as pessoas que fizeram parte dele e sobre alguns dos notáveis incidentes que são parte de seus bastidores.

Deslumbrado com o mundo de possibilidades do Vale do Silício, Zuckerberg vai a reuniões de negócio de pijama

A direção do longa é de David Fincher (Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button), mas há pouca inventividade ou virtuosismo na forma de contar a história e operar a câmera de A Rede Social. O único momento em que podemos sentir que a mão do diretor esteve mais livre é na curta cena da competição de remos na Inglaterra. De resto, é Fincher sendo muito eficiente, mas optando por formas menos desafiadoras do que as usadas em Clube da Luta e Seven, por exemplo. Harvard parece mais sombria do que em outros filmes e boa parte dos ambientes tem pouca luz.

Conforme o Facebook cresce em popularidade e se alastra pelo mundo, a imagem que o filme faz de Zuckerberg só piora. De programador nerd de Harvard (chamado até de “o novo Bill Gates”), vai descendo no nosso conceito como ser humano até se tornar aquele babaca de que falavam a ex-namorada e a estagiária de direito. Nesse caso, identificar-se com o mais jovem bilionário do mundo vira uma tarefa difícil. Muito mais fácil é tomarmos as dores de Eduardo Saverin, retratado como um rapaz de negócios muito mais cauteloso (embora menos arrojado do que Sean Parker) que acaba traído. Também pesa o fato de que Andrew Garfields rouba praticamente todas as cenas em que aparece ao lado de Jesse Eisenberg, interpretando um Mark com cara de bobo e sempre apagado.

A Rede Social é um filme sobre ambição, as ciladas e o mundo dos negócios encontrados por Zuckerberg, sobre os atores de um sucesso na internet e sobre um site que pretende formar uma comunidade mesmo que seu criador seja um solitário de diálogos diretos e de pouca expressividade que busca a aprovação de alguém. Ele não é aprovado pela namorada, não é aprovado pelo melhor amigo Eduardo e nem pela estagiária. Existem 500 milhões de perfis no Facebook e Mark destruiu sua relação com a meia dúzia que importava.