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O Resto é Ruído

E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena

A capa da edição brasileira venceu o Prêmio Jabuti 2010. Seu designer foi Retina_78 (www.retina78.com.br)

Faz apenas algumas horas que terminei de ler O Resto é Ruído – Escutando o Século XX. Escrito pelo crítico de música Alex Ross (New Yorker) e editado no Brasil pela Companhia das Letras (@cialetras), o livro-reportagem é um colosso de 680 páginas que viajou comigo por várias cidades, conheceu muitos cômodos de várias residências e dormiu ao meu lado praticamente todas as noites dos últimos meses, fazendo vigília.

Seguindo a narrativa de Alex Ross – às vezes descritiva, às vezes técnica, às vezes literária – percorri todo o mundo da música clássica e seus desdobramentos nos últimos 100 anos. São histórias fascinantes sobre Richard Strauss, Gustav Mahler, Igor Stravínsk, Arnold Schoenberg, Jean Sibelius, Benjamin Britten, John Cage, Duke Ellington, Dmítri Chostakóvitch, Karlheinz Stockhausen entre muitos outros que foram importantes de uma maneira ou de outra no século XX. Ross não apenas nos traz longas e significativas histórias biográficos de cada um desses homens (rondados por opulência, amores, morte, brigas pessoais, medos e incertezas), como mostra porque são nomes importantes na história da música até hoje.

Não raro, o autor passa várias páginas apenas contando a história de certas óperas e obras sinfônicas (como Salome, A Sagração da Primavera, Peter Grimes) e ressaltando detalhadamente como cada instrumento da orquestra se comporta, nos dizendo onde prestar atenção para atestar a modernidade, a vanguarda ou o romantismo da peça em questão. E como o século passado foi rico em eventos políticos, Ross usa a música para nos guiar através do cenário político das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, Guerra Fria, New Deal norte-americano e as revoluções sociais que tomaram corpo na década de 1960.

Alex Ross, crítico de música da New Yorker, passou 15 anos pesquisando até concluir seu livro. Foto de Lisa Carpenter

Se você gosta de música clássica, vale a pena entrar em contato com a obra. Se for um pianista ou violinista clássico, o livro torna-se obrigatório. Se você não ouve os compositores clássicos mas quer conhecer a fundo a música, vale a pena ler. Se for um guitarrista de uma banda de rock preocupado em fazer arte, a leitura é obrigatória.

O Resto é Ruído é o resultado de 15 anos de pesquisa em bibliotecas, centros acadêmicos, biografias e conversas com músicos ainda vivos. Suas várias páginas de agradecimentos, índices remissivos e notações bibliográficas justificam a enorme quantidade de páginas. Publicado originalmente em 2007, seus autores podem usufruir das facilidades que a internet e a banda larga proporcionam para a “compreensão auditiva” do livro. É provável que muitos leitores nunca tenham ouvido as sinfonias de Mahler e Chostakóvitch, as óperas de Strauss e Wagner e peças de Debussy, Bartók, Boulez e John Adams, mas basta procurá-las no YouTube para ter uma ideia de como aquilo soa. Depois é só acompanhar as análises de Ross.

Alguns compositores participaram tantas vezes e por tanto tempo da história do século que a narrativa sempre volta a falar de suas peripécias musicais. Isso faz com que gente como Strauss, Stravínsk, Schoenberg e Mahler tornem-se verdadeiros personagens da obra. E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena.

O Resto é Ruído não é apenas a história da música. É a história social e política do mundo. A história de homens e dos homens. Histórias que merecem ser conhecidas.

 

PS. Minha próxima empreitada literária – e põe literária nisso – já está fazendo vigília ao lado da minha cama. É 2666, do chileno Roberto Bolaño. Daqui há alguns meses relatarei o que vou viver em sua companhia.

 

Mulheres do Irã: Chá e sexo

Por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa

Capa de Bordados, editado no Brasil pela Quadrinhos na Cia., sele de quadrinhos da Companhia das Letras

Marjane Satrapi continua desvendando aos olhos ocidentais como é a vida em seu país natal, o Irã. Para isso, a artista usa a linguagem dos quadrinhos e consegue chegar onde almeja: contar bem uma história e documentar uma realidade a partir de suas próprias memórias e histórias de vida daqueles que a cerca.

Autora do premiado Persépolis (que inclusive ganhou uma versão animada para cinema em 2008) e de Frango com Ameixas, Satrapi tenta não se repetir na hora de fazer história em quadrinhos. Seu mais recente trabalho publicado no Brasil é Bordados (Broderies, 2003), que mantém as características básicas dos desenhos da autora: traços simples, olhos expressivos e uso de branco e preto, sem escalas de cinza.

A narrativa de Bordados é focada em uma tarde na casa da avó da autora (que também participar como personagem do livro). Durante o samovar, um ritual de chá iraniano servido de manhã, à tarde e a noite, um grupo de mulheres reunidas – mãe, tias, amigas, primas de Marjane Satrapi – começam a relatar suas histórias sexuais mais marcantes.

Páginas internas de Bordados. Tradução para o português de Paulo Werneck

Está na obra a mulher que perdeu a virgindade com o homem amado, mas que havia sido prometida a outro. A mulher que nunca viu um pênis na vida porque o marido a obrigava a transar sempre no escuro. Aquela que achou que se divorciar era o fim da vida amorosa no Irã, e as garotas que faziam de tudo para se casarem com iranianos ricos que moravam na Europa. A mulher que foi traída, a mulher que traiu, aquela que não queria ser a outra e aquela que preferia ser a outra. E no meio disso tudo, os lendários “bordados” que as mulheres faziam para proteger a dignidade.

A autora não nos poupa com as palavras. Se é preciso dizer “pau” ou “pinto” para contar determinada história, suas personagens dirão. Entretanto, nos poupa com os desenhos. Não há sequer uma cena de sexo descrita em imagens nas 130 páginas da obra. Satrapi aposta mesmo é nas insinuações e no significado dos olhares. Mesmo assim, os relatos não deixam de ser fortes o suficiente para que entendamos os dilemas daquelas mulheres. Contribuiu para isso a tradução de Paulo Werneck, que sabiamente não deve ter se preocupado em usar eufemismos para as cenas e descrições mais pesadas.

A autora Marjane Satrapi nasceu e cresceu no Irã. Hoje vive na França

De modo geral, Satrapi retrata histórias sexuais e aventuras amorosas (mas nem sempre movidas por amor realmente) da alta sociedade iraniana. Como acontece em Persépolis, é a liberdade que a autora discute. Mas se em sua história em quadrinhos mais conhecida Satrapi fala da liberdade política e individual, aqui ela concentra-se na libertação do sexo feminino – o que não deixa de ser um ato político também, sobretudo no Irã. Dessa forma, a imagem de pessoas castas e caladas ao extremo que temos das iranianas quando as vemos de burca é quebrada pela artista: por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa. Mas são mulheres que se decepcionam muito também, e acabam posicionando-se de forma bem mais cínica frente à sociedade, à masculinidade e à fidelidade.

Bordados não é tão épico quanto Persépolis e nem um conto tão poderoso quanto Frango com Ameixas. Contudo, continua revelando o Irã através de uma voz que nasceu e cresceu ali (lembrando que Marjane Satrapi é radicada na França, onde vive atualmente), um país de que muito se fala e pouco realmente se sabe sobre os pensamentos mais íntimos de seu povo.

Walter Salles em On The Road

Walter Salles vai dirigir elenco com Sam Riley, Kristen Stewart e Kirsten Dunst

Capa do livro editado pela Companhia das Letras

Agora está confirmado: a adaptação cinematográfica do clássico da beat generation On The Road vai sair do papel e as filmagens começam em agosto. Escrito por Jack Kerouac, o livro narra as viagens e desventuras de Sal Paradise e Dean Moriarty pelas estradas, bares e jazz dos Estados Unidos da década de 1950. Ao lado de Allen Ginsberg e outros escritores do movimento beat, Kerouac tornou-se um dos mais reverenciados escritores norte-americanos, capturando com vivacidade o espírito da juventude da época, no meio da ebulição da contracultura.

On The Road (o filme) estava nos planos da produtora Zoetrope, de Francis Ford Coppola, fazia 30 anos. Quando se falava publicamente do assunto, havia mais rumores do que decisões. Entretanto, as últimas semanas não só confirmaram a realização do projeto como já escolheu o diretor, o brasileiro Walter Salles, e o elenco principal: Sam Riley (Control), Garrett Hedlund (Tron – Legacy), Kristen Stewart (a Bela da saga Crepúsculo) e Kirsten Dunst (a Mary Jane de Homem-Aranha).

Wlater Salles rodou os EUA em busca dos lugares e pessoas citadas no livro. O registros dessa viagem é o documentário Em Busca de On The Road

Antes de assumir a direção do longa, Walter Salles rodou os Estados Unidos procurando os lugares e as pessoas (ou o que sobrou de vestígio delas) citadas no livro. Essa viagem foi registrada no documentário Em Busca de On The Road, ainda inédito e sem data de estreia. A contratação do cineasta é empolgante justamente porque ele conhece a obra de Kerouac e fez uma extensa pesquisa sobre o tema para seu documentário. Além disso, Salles já dirigiu um road movie (Diários de Motocicleta) e tem um modo de filmar muito próprio. Se ele tiver nos EUA tanta liberdade quanto tem em seus próprios projetos, podemos esperar cenas poéticas como aquelas presentes em Abril Despedaçado e Linha de Passe.

Em uma entrevista publicada hoje no O Globo, o diretor conta que o roteiro final do filme foi escrito a partir da edição original do livro, muito mais “livre, ousada e radical do que a versão que foi editada em 1957 e que sofreu os efeitos da era McCarthy”.

“Estamos falando de personagens que tiveram a coragem de se reinventar contra a sua época, contra tudo e contra todos. Em muitos casos, os anos que estamos vivemos são tão conservadores quanto os anos 50. É nisso que essa história é interessante: ela permite entende que mesmo quando tudo conspira contra, é possível inventar novas formas de se relacionar com o mundo”, disse o diretor na entrevista.

A atriz Kristen Stewart, ainda jovem no mercado cinematográfico, ficou conhecida ao interpretar a protagonista da série blockbuster Crepúsculo. Trabalhar com Walter Salles num road movie e em um projeto com peso simbólico tão grande quanto On The Road é uma ótima oportunidade para ela mostrar que tem talento e que é muito mais do que uma menina que sofre dividida entre um vampiro e um lobisomem.

Kristen Stewart ganhou uma oportunidade de mostrar mais e melhor os seus talentos como atriz