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Road Salt One

A primeira parte do álbum duplo de Pain of Salvation mostra som anos 70 e as mesmas angústias humanas de álbuns passados

Em Road Salt One (2010) a banda amplia suas fronteiras musicais

Ao encarar uma crise econômica, a banda sueca Pain of Salvation viu seus planos de lançar um novo álbum serem adiados. Então ela aproveitou para lançar em 2009 o duplo Ending Themes – The Second Death Of, registro ao vivo em CD e DVD da banda durante a turnê de Scarsick, álbum de 2007. E no final do ano passado mostrou ao público um pouco do que já haviam gravado lançando o EP Linoleum com quatro novas faixas e um cover do Scorpions.

Este mês sai Road Salt One, primeira parte de um álbum duplo que dará continuidade a uma história iniciada em The Perfect Element, disco de 2000, e retomada em Scarsick. O vocalista e principal mente criativa por trás da banda, Daniel Gildenlöw, avisou pelo site oficial do grupo que o novo disco teria influências setentistas. Porém, ao escutarmos as suas 12 faixas, temos certeza de que a palavra influência pode ser um eufemismo. Road Salt One tem muito do som anos 70 e explora raízes de blues, jazz e rock daquela época que até então não tinham sido incorporados de forma tão evidente em trabalhos passados.

A ótima produção das músicas não as maquiou demais, conservando a sonoridade real de cada instrumento dentro do estúdio. Isso contribui para que cada faixa soe o mais orgânica possível, até mesmo cruas em alguns momentos. Embora seja um álbum que claramente prioriza o papel das guitarras de Daniel e Johan Hallgren, o trabalho com os pianos de Fredrik Hermansson está muito mais marcante do que estava em Scarsick e em álbuns mais antigos. Aliás, o piano é responsável por vários dos temas mais significativos da obra.

Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra) com novo visual e Johan Hallgren (guitarra) com seu habitual estilo

Dessa vez não há flertes com a disco music e nem com o rap/hip hop. O Pain of Salvation manteve-se mais ligado ao rock, como em “No Way”, “Curiosity”, “Darkness of Mine” e “Linoleum” (a única faixa do álbum que estava no EP de 2009). As canções alternam a reverberação do overdrive com breaks e passagens mais leves, abrindo espaço para algumas estilizações e criação de texturas com a guitarra e o teclado.

“She Likes to Hide”, “Of Dust” e “Tell Me You Don’t Know” dão a cara mais raiz e bluseira do disco. E a tristeza que transborda de “Road Salt” e “Where It Hurts” servem como anticlímax (e isso se refere a estética apresentada pelo Pain of Salvation, o que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, o anticlímax é muito bem executado dentro da proposta da banda). E como já é costume com esses suecos, temas densos são tratados de forma densa, mas com ironia também.

“Sleeping Under The Stars” e “Innocence” são os momentos mais experimentais dessa viagem. A primeira é uma valsa um tanto excêntrica e inesperada no álbum. A segunda é um rock atmosférico cheio de altos e baixos, coros, suspiros, distorção, ritmos arrastados e agressividade. “Sisters”, uma das mais belas de Road Salt One, tem a melhor letra do álbum. O ouvinte passeia com ela por vales tristes até chegar a um acesso de raiva (ou seria angústia?).

O novo baterista Leo Margarit com Fredrik Hermansson, Hallgren e Gildenlöw

Depois de trocar de baixista duas vezes desde 2006, quem assume o posto  é Per Schelander, como contratado por enquanto. Com a saída de Johan Langell para se dedicar mais à família, Leo Margarit foi escalado para a bateria e até já aparece ao lado de Gildenlöw, Hallgren e Hermansson em fotos de divulgação. Margarit mostra neste disco que tem pegada para diversos estilos musicais e sabe soltar a mão nas horas certas.

No final, é um álbum diferente dos demais na discografia dos suecos. Triste e nebuloso, como há de ser a história de She e He, os personagens principais dessa conturbada estrada que não parece levá-los a lugares bonitos. Amor corroído, sexo doído e encontros cheios de lágrimas são novamente abordados nas letras. É Daniel Gildenlöw cantando mais uma vez sobre o comportamento e as emoções humanas.

Road Salt One nos faz esperar com mais ansiedade pela sua segunda parte. Os anos 70 continuarão a soar? E quanto às letras? Essa história terá chegado ao fim? As respostas devem aparecer em outubro deste ano.

Clipe oficial de “Linoleum” (de longe, o melhor da banda até agora)