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Mulheres do Irã: Chá e sexo

Por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa

Capa de Bordados, editado no Brasil pela Quadrinhos na Cia., sele de quadrinhos da Companhia das Letras

Marjane Satrapi continua desvendando aos olhos ocidentais como é a vida em seu país natal, o Irã. Para isso, a artista usa a linguagem dos quadrinhos e consegue chegar onde almeja: contar bem uma história e documentar uma realidade a partir de suas próprias memórias e histórias de vida daqueles que a cerca.

Autora do premiado Persépolis (que inclusive ganhou uma versão animada para cinema em 2008) e de Frango com Ameixas, Satrapi tenta não se repetir na hora de fazer história em quadrinhos. Seu mais recente trabalho publicado no Brasil é Bordados (Broderies, 2003), que mantém as características básicas dos desenhos da autora: traços simples, olhos expressivos e uso de branco e preto, sem escalas de cinza.

A narrativa de Bordados é focada em uma tarde na casa da avó da autora (que também participar como personagem do livro). Durante o samovar, um ritual de chá iraniano servido de manhã, à tarde e a noite, um grupo de mulheres reunidas – mãe, tias, amigas, primas de Marjane Satrapi – começam a relatar suas histórias sexuais mais marcantes.

Páginas internas de Bordados. Tradução para o português de Paulo Werneck

Está na obra a mulher que perdeu a virgindade com o homem amado, mas que havia sido prometida a outro. A mulher que nunca viu um pênis na vida porque o marido a obrigava a transar sempre no escuro. Aquela que achou que se divorciar era o fim da vida amorosa no Irã, e as garotas que faziam de tudo para se casarem com iranianos ricos que moravam na Europa. A mulher que foi traída, a mulher que traiu, aquela que não queria ser a outra e aquela que preferia ser a outra. E no meio disso tudo, os lendários “bordados” que as mulheres faziam para proteger a dignidade.

A autora não nos poupa com as palavras. Se é preciso dizer “pau” ou “pinto” para contar determinada história, suas personagens dirão. Entretanto, nos poupa com os desenhos. Não há sequer uma cena de sexo descrita em imagens nas 130 páginas da obra. Satrapi aposta mesmo é nas insinuações e no significado dos olhares. Mesmo assim, os relatos não deixam de ser fortes o suficiente para que entendamos os dilemas daquelas mulheres. Contribuiu para isso a tradução de Paulo Werneck, que sabiamente não deve ter se preocupado em usar eufemismos para as cenas e descrições mais pesadas.

A autora Marjane Satrapi nasceu e cresceu no Irã. Hoje vive na França

De modo geral, Satrapi retrata histórias sexuais e aventuras amorosas (mas nem sempre movidas por amor realmente) da alta sociedade iraniana. Como acontece em Persépolis, é a liberdade que a autora discute. Mas se em sua história em quadrinhos mais conhecida Satrapi fala da liberdade política e individual, aqui ela concentra-se na libertação do sexo feminino – o que não deixa de ser um ato político também, sobretudo no Irã. Dessa forma, a imagem de pessoas castas e caladas ao extremo que temos das iranianas quando as vemos de burca é quebrada pela artista: por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa. Mas são mulheres que se decepcionam muito também, e acabam posicionando-se de forma bem mais cínica frente à sociedade, à masculinidade e à fidelidade.

Bordados não é tão épico quanto Persépolis e nem um conto tão poderoso quanto Frango com Ameixas. Contudo, continua revelando o Irã através de uma voz que nasceu e cresceu ali (lembrando que Marjane Satrapi é radicada na França, onde vive atualmente), um país de que muito se fala e pouco realmente se sabe sobre os pensamentos mais íntimos de seu povo.

Carregado por nossos sentimentos

Max e Carol: amizade, destrutividade e amadurecimento

Sobre monstros, infância e autoconhecimento

Logo na primeira cena de Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009) vemos uma perseguição: o protagonista Max, de 9 anos, vestido em uma roupa de lobo persegue seu próprio cachorro. Quando o título do filme aparece na tela, vemos um still (imagem congelada) de um Max selvagem numa furiosa briga com seu bichinho de estimação. Ali, o cão é menos selvagem que seu dono, mesmo que ele esteja apenas brincando.

Dirigido por Spike Jonze, o mesmo que dirigiu os ótimos Quero Ser John Malkovich e Adaptação, a partir do livro infantil homônimo de Maurice Sendak publicado em 1963, o resultado final é um filme que olha a infância a partir do caso específico de Max, mas é pesado demais para crianças. Como já era esperado – e como já virou praxe nesse tipo de produção – o filme mira mesmo é no público adulto.

Depois de ter atitudes bastante impulsivas e mesquinhas com sua mãe, Max acaba mordendo-a. Sabendo que aquilo foi um erro, e sentindo que havia criado uma situação realmente difícil de lidar, resolve fugir ao invés de encarar o problema. O garoto acaba indo parar numa ilha cheia de monstros grandes e peludos, com personalidades bastante diferentes: a impulsividade e ingenuidade de Carol, a avareza e a carência do bode Alexander, o companheirismo de Douglas, a agressividade e inveja de Judith, o bem intencionado Ira e a calma do Touro. Todas essas personalidades são um reflexo da própria identidade de Max. Apenas a monstra KW representa um sentimento externo a ele, a proteção e o discernimento maternos.

Quando Max os encontra, o grandalhão Carol está destruindo todas as casas (espécies de ocas feitas de gravetos) dos monstros. Max é aceito como o rei daquele grupo depois de falar sobre seus supostos poderes e consegue reunir o grupo de novo. Mas novos problemas virão e antigos conflitos mal solucionados continuarão assombrando todos eles. Max tentará ajudar como pode, mas nem sempre seus métodos são maduros o suficiente para encarar a personalidade de cada bicho felpudo que vive na ilha.

Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens

Onde Vivem os Monstros não é um road movie como Diários de Motocicleta, mas Max está numa pequena e singela jornada que vai terminar levando-o ao autoconhecimento a partir do enfrentamento de sua própria personalidade, fragmentada em cada monstro.

O monstro com quem Max mais se identifica é com Carol, não por acaso o monstro que mais guarda semelhanças com o garoto. A energia, a destrutividade, a facilidade para se decepcionar e se magoar com os outros e a impulsividade para lidar com isso sem antes tentar compreender são traços de (falta de) maturidade que vemos em ambos. Na cena em que Carol leva Max nas costas podemos facilmente dizer que o menino está sendo carregado por seus sentimentos.

Embora seja um filme de Spike Jonze, o roteiro não apresenta nenhuma maluquice habitual dos projetos do diretor (exceto, é claro, a própria estranheza da história sobre um menino que conhece alguns monstros numa ilha). Dessa vez ele optou por uma história linear, sem grandes relativizações do ponto de vista narrativo. Mas não se engane: ele não se preocupa em explicar tudo ao espectador. Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens.

Todos os monstros foram feitos com bonecos reais, interpretados por atores profissionais, mas suas vozes não correspondem aos atores que os interpretaram em cena. Aliás, as suas grandes bocas mexem-se com perfeição durante a fala, cortesia de um belo trabalho de efeitos visuais que quase passa desapercebido tamanha a naturalidade dos movimentos.

O filme é uma história bonita e um pouco triste, é verdade, sobre coisas tão complicadas quanto nosso convívio familiar, nossa personalidade, nossos sentimentos e a maturidade que não temos para certos tipos de situações. Mas Jonze acerta ao não tentar interpretar isso tudo para quem assiste ao filme, deixando para nós a situação no estado puro de sua arte, sem interferências da ciência – seja ela a psicologia de boteco ou a sociologia das universidades.