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O Discurso do Rei

A força do filme está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens

Colin Firth vive o gago príncipe Albert na produção inglesa

A produção inglesa O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010) vai concorrer ao Oscar em 12 categorias, mas já ganhou vários prêmios: melhor direção no BAFTA, melhor ator no Globo de Ouro para Colin Firth e melhor filme no PGA, a premiação dos produtores de cinema de Hollywood, só para citar alguns. O filme tem grandes chances de levar ainda mais prêmios no Oscar, pois entre os indicados para a categoria de Melhor Filme, O Discurso do Rei é seguramente o mais maduro. Agora, se vai ganhar, é outra história.

O enredo começa em 1925, quando o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) não consegue fazer um discurso por causa de sua gagueira. Sua alteza tenta diversos métodos – alguns nada ortodoxos – para se desvencilhar de sua fala vacilante, afinal seu pai, o rei George V (interpretado por Michael Gambon, o Dumbledore de Harry Potter), é um ótimo orador. Albert chega até mesmo a desistir de procurar tratamento, mas por insistência de sua esposa Elisabeth (Helena Bonham Carter) começa um tratamento com o terapeuta Lionel Logue (Geoffrey Rush), que quer tratar o monarca em seu próprio consultório e insiste em chamá-lo pelo apelido “Bertie”, uma concessão a que membros da realeza não estão acostumados a fazer.

É claro que o príncipe a princípio não concorda com os métodos e excentricidades de Lionel, mas a relação dos dois acaba indo além da relação terapeuta-paciente e eles tornam-se amigos e confidentes. Grande parte da força do filme está na atuação de seus personagens. As longas cenas levadas a cabo apenas pelas presenças magnéticas de Lionel e príncipe Albert são construídas com esmero pela câmera do diretor Tom Hooper. Colin Firth e Geoffrey Rush estão tão imersos em seus papéis quanto Frank Langella interpretando Richard Nixon e Michael Sheen encarnando David Frost em Frost/Nixon.

Firth expressa com naturalidade as inúmeras inseguranças de Albert e Rush interpreta como ninguém a franqueza e as caretas típicas dos ingleses. Hooper conhecia muito bem a história que tinha em mãos e o calibre dos atores, e soube extrair o melhor de cada um.

Mas a história de O Discurso do Rei não para por aí. Da metade para a frente, quando os atores já solidificaram bem a ideia central do filme, o enredo envereda por questões internas e externas da realeza e toca em um dos assuntos mais interessantes e polêmicos criados nos século XX: a Segunda Guerra Mundial. Albert não é o primogênito, portanto, não deve se tornar rei, o que de certa forma o alivia. Mas seu irmão, logo após ser empossado rei Edward VIII, resolve casar-se com uma mulher divorciada, o que é totalmente contra os preceitos da igreja Anglicana. Com a renúncia, Albert assume o posto como George VI, exatamente no momento em que governos europeus começam a olhar para a Alemanha e veem com enorme desconfiança e assombro a figura de Hitler.

Geoffrey Rush interpreta o terapeuta Lionel Logue

A cena em que George VI assiste a um trecho do poderoso discurso de Hitler ao lado da família é memorável. É, talvez, o momento em que Hooper e o roteirista David Seidler melhor conseguiram sintetizar as questões de ordem política e sentimental de todo o filme. Ali está uma amálgama do que aquele momento significava para o mundo e para a vida íntima do rei da Inglaterra.

A princípio, pode parecer que a história real de um rei gago não soa interessante, mas a força de O Discurso do Rei está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens. Não deixa de ser uma história de superação, é verdade, mas é bonito ver como diretor, atores e produção se superaram para fazer um dos melhores filmes do ano.

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