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Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo

 

O Resto é Ruído

E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena

A capa da edição brasileira venceu o Prêmio Jabuti 2010. Seu designer foi Retina_78 (www.retina78.com.br)

Faz apenas algumas horas que terminei de ler O Resto é Ruído – Escutando o Século XX. Escrito pelo crítico de música Alex Ross (New Yorker) e editado no Brasil pela Companhia das Letras (@cialetras), o livro-reportagem é um colosso de 680 páginas que viajou comigo por várias cidades, conheceu muitos cômodos de várias residências e dormiu ao meu lado praticamente todas as noites dos últimos meses, fazendo vigília.

Seguindo a narrativa de Alex Ross – às vezes descritiva, às vezes técnica, às vezes literária – percorri todo o mundo da música clássica e seus desdobramentos nos últimos 100 anos. São histórias fascinantes sobre Richard Strauss, Gustav Mahler, Igor Stravínsk, Arnold Schoenberg, Jean Sibelius, Benjamin Britten, John Cage, Duke Ellington, Dmítri Chostakóvitch, Karlheinz Stockhausen entre muitos outros que foram importantes de uma maneira ou de outra no século XX. Ross não apenas nos traz longas e significativas histórias biográficos de cada um desses homens (rondados por opulência, amores, morte, brigas pessoais, medos e incertezas), como mostra porque são nomes importantes na história da música até hoje.

Não raro, o autor passa várias páginas apenas contando a história de certas óperas e obras sinfônicas (como Salome, A Sagração da Primavera, Peter Grimes) e ressaltando detalhadamente como cada instrumento da orquestra se comporta, nos dizendo onde prestar atenção para atestar a modernidade, a vanguarda ou o romantismo da peça em questão. E como o século passado foi rico em eventos políticos, Ross usa a música para nos guiar através do cenário político das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, Guerra Fria, New Deal norte-americano e as revoluções sociais que tomaram corpo na década de 1960.

Alex Ross, crítico de música da New Yorker, passou 15 anos pesquisando até concluir seu livro. Foto de Lisa Carpenter

Se você gosta de música clássica, vale a pena entrar em contato com a obra. Se for um pianista ou violinista clássico, o livro torna-se obrigatório. Se você não ouve os compositores clássicos mas quer conhecer a fundo a música, vale a pena ler. Se for um guitarrista de uma banda de rock preocupado em fazer arte, a leitura é obrigatória.

O Resto é Ruído é o resultado de 15 anos de pesquisa em bibliotecas, centros acadêmicos, biografias e conversas com músicos ainda vivos. Suas várias páginas de agradecimentos, índices remissivos e notações bibliográficas justificam a enorme quantidade de páginas. Publicado originalmente em 2007, seus autores podem usufruir das facilidades que a internet e a banda larga proporcionam para a “compreensão auditiva” do livro. É provável que muitos leitores nunca tenham ouvido as sinfonias de Mahler e Chostakóvitch, as óperas de Strauss e Wagner e peças de Debussy, Bartók, Boulez e John Adams, mas basta procurá-las no YouTube para ter uma ideia de como aquilo soa. Depois é só acompanhar as análises de Ross.

Alguns compositores participaram tantas vezes e por tanto tempo da história do século que a narrativa sempre volta a falar de suas peripécias musicais. Isso faz com que gente como Strauss, Stravínsk, Schoenberg e Mahler tornem-se verdadeiros personagens da obra. E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena.

O Resto é Ruído não é apenas a história da música. É a história social e política do mundo. A história de homens e dos homens. Histórias que merecem ser conhecidas.

 

PS. Minha próxima empreitada literária – e põe literária nisso – já está fazendo vigília ao lado da minha cama. É 2666, do chileno Roberto Bolaño. Daqui há alguns meses relatarei o que vou viver em sua companhia.

 

A Origem

Acaba de ser lançado na rede o novo trailer de A Origem (The Inception), novo filme de Christopher Nolan, o diretor de Batman – O Cavaleiro das Trevas. O projeto, que vinha tentando fazer com que pouquíssimas informações sobre sua trama fossem reveladas,  ganhou mais detalhes nas últimas semanas. O novo trailer, aliás, passa mais informações e dá uma maior ideia geral sobre como será o longa-metragem, cujo roteiro foi trabalhado por Nolan por quase 10 anos.

Na trama, Leonardo DiCaprio é Dom Cobb é o melhor ladrão que há na arte da extração, o roubo de segredos das profundezas do inconsciente durante o sono com sonhos. Sua notável habilidade o transformou em uma peça fundamental no traiçoeiro mundo da espionagem industrial, mas também um fugitivo internacional. Agora Cobb tem a chance de recuperar tudo o que perdeu e de redenção, caso consiga fazer o inverso da extração, a inserção. Ao invés de roubar uma ideia ele e sua equipe terão que plantar uma. Mas é claro que nem tudo vai correr como esperado e um habilidoso oponente vai aparecer, prevendo cada movimento da equipe. E Cobb será o único capaz de enfrentá-lo.

A maior parte do filme foi rodada em película 35mm. A Origem estreará em salas Imax também

Nolan comentou em uma recente entrevista para o Omelete que filmou A Origem com quatro tipos de película: 35mm, 65mm, Imax e VistaVision. “Filmamos a maior parte do filme, o grosso, com película 35mm anamórfico, que é a melhor qualidade e o formato mais prático de todos para filmar. Filmamos algumas sequências-chave em 65mm. Então temos um rolo de negativo que é da maior qualidade possível, abaixo do IMAX. Nós achamos que não poderíamos filmar em IMAX por causa do tamanho das câmeras. Uma vez que este filme lida com um aspecto surreal, que são os sonhos, eu queria que fosse o mais realista possível. […] Então temos a mais alta qualidade de imagem de qualquer filme que está sendo feito e que também nos permite reformatar o filme para o formato de qualquer distribuidor.”

Além de DiCaprio, o elenco tem vários outros nomes conhecidos, como os de Ken Watanabe (que filmou com Nolan Batman Begins), Ellen Page (a protagonista de Juno), a oscarizada Marion Cotillard e o veterano Michael Caine. A não ser Dom Cobb, nenhum outro personagem foi detalhado ainda. O filme estreia em 16 de julho.

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, ladrão especialista em extração durante o sono com sonhos
A julgar pela trama e pelos trailers, há uma mistura de dois mundos no filme. Por isso já o compararam com Matrix

A estreia está prevista para 16 de julho

A hora e a vez da liberdade feminina

Inês Levorato, 68


Quatro senhoras revelam histórias, desejos e realidades de como foi ser mulher no século 20 e surpreendem ao dizer: “Liberdade nós só temos agora”

Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / Orgulho e raça de Atenas. Esses versos da canção “Mulheres de Atenas” de Chico Buarque são o início de um poema que busca na cultura grega clássica uma postura feminina que pouco tem a ver com a mulher do século 21. Se a “mulher de Atenas” se sujeitava a tudo por seu marido, como consta na letra de Chico, e a sociedade assim também impunha que fosse sua conduta, a mulher de hoje é exatamente o contrário: quer trabalhar fora, quer usufruir da juventude, aproveita a liberdade que tem, não é submissa ao companheiro, e até quer um amor sim, mas se o homem não a faz feliz, ela não espera milagres acontecerem e trata de dar um jeito na situação. Porém, ainda é possível encontrar mulheres que durante a mocidade não tiveram liberdade suficiente – se é que alguma vez chegaram a ter um mínimo de liberdade – para se expressarem da forma como gostariam.

Para comentar e dar uma noção mais exata do que é e do que foi ser mulher nos últimos 70 anos, quatro mulheres experientes foram convocadas e entrevistadas ao mesmo tempo. Inês Levorato, 68 anos, é a única do grupo que não se casou virgem. Mercedes Puertas Frolini, 60 anos, é a única do time que nasceu e sempre morou na cidade, e não na zona rural. Geralda Naves, 69, é a única entre as quatro que não descende de espanhóis, mas de mineiros. E, por fim, Iolanda Garcia Baroni, 77, é a única que só pôde beijar o marido na boca no dia de seu casamento.

Elas revelaram uma experiência comum: a falta de liberdade quando jovens e a não realização do sonho de se “libertar” depois do casamento. Elas são unânimes ao afirmar que só atualmente, na chamada melhor idade, conseguiram se livrar de tudo que as atava a moralismos e frustrações. “Liberdade mesmo nós só temos agora”, afirmam.

Como foi a primeira vez que vocês tiveram consciência de que eram mulheres – e de todas as responsabilidades que isso traz?

Inês – Fui perceber que eu era mulher mesmo quando comecei a tomar conta da casa, cuidar dos filhos, do marido, lavar roupa e de todo o resto.

Mercedes – Sempre me senti uma mulher, mas me senti mais mulher ainda depois de me casar e de ter as minhas filhas. Aí tive a consciência de estar fazendo o papel de uma mãe, de uma mulher mesmo.

Geralda – Ah, já está gravando, é? Bom, fui me sentir mulher quando tinha 23 anos e nasceu minha primeira filha. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Iolanda – Sou a responsável pela minha casa desde os 15 anos. Minha mãe tinha que trabalhar e meu pai adoeceu, então eu mesmo cuidava dos irmãos mais novos. Depois que me casei, dobrou o trabalho. Aos 27 eu tinha três filhos.

Vocês já foram criadas para serem donas-de-casa?

Iolanda – Desde pequena eu ajudava a minha mãe com o trabalho doméstico, estava acostumada a isso desde os sete anos. Não trabalhava fora logo depois que me casei, mas a situação foi apertando e precisei trabalhar fora.

Geralda – Eu já tive que cuidar de todos os meus irmãos aos 14 anos. Minha mãe teve 16 filhos. Os cinco filhos mais velhos morreram em Minas Gerais. Eu fui a mais velha da geração seguinte, por assim dizer.

Mercedes – A vida começou a ficar dura e cheia de responsabilidades depois do casamento. Antes eu era paparicada, era filha caçula, não tinha muitas obrigações em casa. Mas não foi difícil me acostumar com a vida que veio depois, segui o exemplo da minha mãe.

Inês – Também segui o exemplo da minha mãe, que não deixava as filhas sem aprenderem a cuidar da casa e da família. Não era como agora que os filhos não querem nem saber. Na nossa época, tinha que fazer mesmo, senão os pais até nos batiam. Fiquei grávida aos 17 anos, precisei me casar, e aí me senti mulher mesmo, tendo que cuidar do marido, da casa e dos filhos. Aos 24, eu já tinha quatro filhos.

“Antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal” – Inês Levorato

São poucas as moças atualmente que querem se casar cedo. Era costume na juventude de vocês que as moças se casassem logo?

Geralda – Ah, era! Assim não tínhamos que trabalhar! (risos gerais)

Inês – Não é nem por causa do trabalho que se casava cedo, era para nos libertar. Nossos pais não nos deixava ir a festas e bailes, então a gente achava que casando se livrava das amarras dos pais. Hoje as moças não querem se casar novas porque elas têm liberdade!

Geralda – Casar para quê agora, não?

Os pais seguravam muito as filhas?

Inês – Seguravam demais! Minha mãe era uma espanhola daquelas que batia mesmo nos filhos se não fizessem direito o que mandavam. Não queria nem saber se era moça. Era a educação dela.

Vocês conseguiam ou podiam sair de casa?

Inês – A gente queria sair, mas não deixavam. E se desobedecêssemos, apanhávamos.

Geralda – Eu pulava a janela! (risos) Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova. A gente ficava um pouco nos bailes e depois voltávamos.

Seus pais descobriram essa estripulia alguma vez?

Geralda – Descobriram sim, e apanhamos muito! (risos) E como apanhamos… E continuamos indo aos bailes escondidas, não teve jeito.

Depois que se casou, a senhora teve liberdade?

Geralda – Não tive. Casei com 18 anos e não tive liberdade.

Desobedecer os pais não trazia problemas para vocês?

Mercedes – Se deixavam eu ir, eu ia, se não deixavam, eu concordava, não desobedecia. Eram pais espanhóis muito bravos também. Teve um Carnaval que queria ir, mas eles não quiseram deixar. Acabei indo acompanhada de um irmão mais velho. Todo mundo brincando e eu sem poder fazer nada, quieta num canto, só olhando. Arrependo-me até hoje de não ter brincado naquele Carnaval.

Quando foi que a senhora pôde, enfim, curtir essas festas?

Mercedes – Sabe quando foi? Depois que fiquei viúva. Aí pude aproveitar e fazer tudo o que tinha vontade: ir a bailes, carnavais, passear, etc.

Está mais livre, então?

Mercedes – Como um passarinho! (risos)

“Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!” – Mercedes Frolini

Mercedes Puertas Frolini, 60

E como foi com a senhora, dona Iolanda?

Iolanda – Meus pais davam serviços pra gente. Se conseguíssemos terminar, estávamos liberados para passear. Mas muitas vezes quis ir a bailes e eles não deixaram. E se eu pulasse a janela, a cinta comia! (risos) Tenho mais liberdade agora do que quando era mais jovem.

Nem no começo do casamento a senhora podia sair?

Iolanda – Quando era solteira não saía porque meus pais não deixavam. Aí me casei e a situação piorou. É de uns 12, 15 anos para cá que saio mais, entendeu?

Vocês chegaram a trabalhar fora?

Mercedes – Eu sempre trabalhei em farmácia, por uns 30 anos, e fui enfermeira também. Só comecei a trabalhar depois que me casei. Gostava e precisava do emprego.

Geralda – Trabalhei porque precisava mesmo. Fiz de tudo, trabalhei na roça, fui doméstica, lavei, passei… acho que só não catei laranja. (risos)

Iolanda – Eu lavava e passava roupa pra fora, fiz isso para uma mesma família por 42 anos e ainda aparecem roupas para eu cuidar de vez em quando.

Inês – Sempre trabalhei na roça, principalmente carpindo e cortando cana. Só parei quando fiz uma cirurgia e, desde então, não pude mais carregar peso maior que 5 kg. Senão fosse isso, estaria até hoje na roça.

As mulheres hoje em dia não pensam mais em ser apenas donas-de-casa e mães. Elas estudam e almejam uma carreira, além de também serem mães e de cuidar da casa. Se fossem moças hoje, pensariam da mesma forma?

Inês – Pensaria, sim. Talvez não gostasse muito de ficar por aí nas baladas noite

adentro, mas pensaria menos como antigamente se pensava. Hoje as coisas estão bem mais fáceis para as moças, elas sabem o que querem, se divertem e até estudam.

Mercedes – Eu faria o que elas fazem hoje. Sair pra me divertir, trabalhar…

Geralda – Aproveitaria tudo o que não tive – e sem precisar sair escondida pela janela! Estudaria, me casaria mais velha, paqueraria mais.

As moças paqueram abertamente hoje. Era complicado fazer isso na época de vocês?

Iolanda – Como meu pai era muito bravo, tínhamos medo até de parar para conversar com um moço. A gente ficava sabendo do fulano que gostava da gente, mas não tinha muita paquera.

Geralda – Nunca namorei. Quando aconteceu, foi rapidinho para casar logo. Quando gostávamos de algum moço, não podíamos namorá-lo.

Mercedes – Consegui namorar bastante, seja escondida ou no cinema, no tempo em que havia um cinema na rua Primeiro de Março. Dizia a meu pai que ia ao cinema e, chegando lá, meu namoradinho estava me esperando. Meu tempo de solteira foi muito bom.

Inês – Namorei só dois rapazes e um deles foi o meu marido. Era mais fácil arrumar um bom namorado na nossa época de moça do que hoje. Acontece que, antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal. Os rapazes eram bons, mas não podíamos fazer nada, tudo era errado. Assim, eu acabei ficando grávida, porque fui além do beijo. Hoje está complicado para as moças. Elas vão aos bailes e logo vem aqueles caras bêbados por cima delas, já querem beijar, já vão avançando o sinal…

“Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova” – Geralda Naves

Geralda Naves, 69

E era fácil encontrar um companheiro definitivo para se casar?

Mercedes – Ah, foi difícil achar. E depois de me casar vi que não era o que eu queria, mas o estrago já estava feito. Agora, que estou no segundo casamento, minha vida está um paraíso. Meu único erro do passado foi ter realizado meu primeiro casamento.

Vocês conseguiram estudar?

Mercedes – Deu para estudar tudo o que precisava até o ensino médio. Meus pais até me empurravam para a escola, eu é que não queria muito ir. (risos)

Iolanda – Eu estudei só até o primeiro ano. Depois fiquei doente e precisei parar os estudos. Quando pude voltar à escola, já estava mocinha. Aí nem fui mais.

Geralda – Até tentei estudar, mas eu entrava na escola e nascia um bebê em casa. Aí precisava parar para ajudar a criá-lo. Quando voltava pra escola, nascia outro. E assim foi indo, até que não deu mais para estudar. Como era a mais velha, tinha que tomar conta dos meus irmãos. Morria de inveja de quem ia pra escola na fazenda. Só fui poder estudar recentemente, quando apareceu a Escola para Jovens e Adultos.

E quanto ao romantismo da época? Existia isso?

Inês – Que mulher não gosta de um galanteio? Mas tem homens da época que não faziam isso, achavam até errado. Não tive isso em meu casamento.

Mercedes – Toda mulher sonha com esse romantismo. Neste meu segundo casamento tenho tudo isso. Se hoje eu perceber que o casamento não vai bem, eu me separo.

Geralda – Eu queria casar e ser feliz, mas não fui feliz no casamento. Tive uma decepção como mulher nesse ponto. Mas não podia me separar, senão a gente caía na boca do povo. Hoje não me caso mais, quero continuar solteira. Paquerar eu paquero, mas não me caso. Tenho um paquera, mas pra passear. Cada um mora em sua casa.

Sexo era um tabu. Quando é que vocês começaram a ouvir sobre isso?

Inês – Não se falava sobre isso, não se falava! Imagina se as mães tocavam no assunto? Nem quando ficamos mocinhas. A gente conversava com nossas colegas, porque as mães tinham vergonha de falar. Minha mãe ficou quase louca quando soube que eu estava grávida! Ela achou a coisa mais absurda do mundo. Mesmo com uma amiga a gente tinha vergonha de falar às vezes. Fui conhecendo o sexo conforme ia me relacionando com meu marido.

A senhora engravidou de sua primeira vez?

Inês – Não, não foi minha primeira vez. A gente dava as nossas disfarçadinhas… (risos)

“A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade” – Iolanda Baroni

Iolanda Garcia Baroni, 77

Quando chegava a hora do sexo, vocês tinham informação do que aconteceria, de como era?

Inês – Eu não sabia nada, fui ver como era na hora. A gente não sabia mesmo! Hoje em dia a coisa está melhor, porque se fala sobre isso. Eu falo sobre sexo normalmente com meus filhos.

Mercedes – Minha mãe me orientava muito. Ela não falava tão abertamente sobre o assunto, mas eu entendia o que ela queria dizer. Eu me casei virgem, sem saber de nada. Demorou até poder me expressar sobre isso. Tínhamos vergonha também. Falavam de um jeito sobre o assunto que até dava medo de chegar perto dos rapazes.

Inês – Hoje, meninas de 10 anos já sabem o que é sexo.

Mercedes – Demorou para eu me acostumar com a ideia, mas depois ficou tranquilo.

Geralda – Ninguém falava sobre isso. Só fui saber o que era na hora H mesmo. Nem me lembro mais (risos). E coisas de que a gente não gosta precisamos deletar da memória. Não gostei da minha primeira vez.

Iolanda – Só fui conhecer sexo depois que me casei e olha lá. Ninguém me falou sobre o que aconteceria, foi na surpresa mesmo. (risos) Quer que eu resuma? A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade. Sabe quando fui dar um beijo no meu marido? Só no dia do meu casamento!

Se vocês fossem mais jovens hoje e tivessem toda a liberdade e volume de informações disponíveis hoje, acham que aproveitariam mais a mocidade?

Inês – E como aproveitaríamos!

Iolanda – Ah, se eu tivesse 18 anos hoje, paqueraria bastante, viu?

Mercedes – Se tivesse 18 anos com a experiência de hoje, valeria a pena!

Acham que a liberdade que se tem hoje é grande até demais?

Mercedes – É um pouco de liberdade demais que se tem hoje, sim, mas você só passa dos limites se quiser.

Inês – Hoje em dia, é normal se falar de muita coisa que antes nem tocávamos no assunto. Eu não ignoro o mundo de hoje e falo com meus filhos e netos sobre tudo. Encaro tudo numa boa!

Iolanda – Vai ver, a gente é chata e quadrada perto da juventude de hoje…

Inês – Eu fui muito quadrada, mas hoje em dia estou pensando na frente, estou liberada. Só não faço o que não considero certo, mas cada um sabe de sua vida. Acho tudo normal.

Vocês disseram, no início da conversa, que casavam para tentar se libertar da mão pesada dos pais. No entanto, percebi que nenhuma de vocês depois do casamento conseguiu a liberdade que queria. Como fica a mulher nessa situação?

Geralda – Foi bem ruim nesse aspecto da liberdade. Meu marido não saía e não deixava eu sair. Só depois de viúva pude fazer o que queria, me sentir mulher de novo…

Iolanda – Quando meu marido me convidava pra passear ele me deixava na casa da mãe dele e ia para o bar…

Inês – Ah, mas era assim mesmo. A gente achava que melhoraria casando, mas às vezes piorava. Depois vieram os filhos e a coisa mudou um pouco.

Dá para se sentir mais mulher hoje?

Inês – Sinto-me muito mais mulher nesta minha atual fase da vida, com certeza.

Mercedes – Sou hoje uma mulher realizada e feliz, faço tudo que sempre quis.

Iolanda – E eu tenho apoio dos meus filhos. Eles gostam que eu seja assim e até me incentivam.

Mercedes – Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!

*Essa matéria foi originalmente publicada no jornal Expresso Tietêde 06/03/2010.

Segundo Geralda, uma de suas únicas fotos de arquivo

Mercedes aos 18 anos

Inês em sua identidade
Iolanda aos 23 anos com três de seus filhos


Adeus, Yolanda

Texto e fotos de Lucas Scaliza

 

“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer
“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer

 

A entrevista abaixo foi publicada no jornal Expresso Tietê do dia 17 de julho deste ano. Entrevistei Yolanda Jacomini na manhã de uma terça-feira. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, menos de 24 horas após nossa conversa. Essa ficará marcada em minha história.

Comer, dormir e trabalhar. São os três elementos que Yolanda Maniero Jacomini considerava as melhores coisas da vida. “Tudo é bom, mas essas três coisas são essenciais”, ela disse animada. Todos os dias ela acordava ainda de madrugada (3:00 AM!) para dar início a seu trabalho. Yolanda era proprietária do Hotel e Restaurante Cristal, localizado no centro da cidade. O telefone do local, quando entrou em atividade, era o número 40.

Lá atrás, em 1955, o hotel era apenas um bar comprado por seu marido, José Antonio Jacomini, que vislumbrou o grande mercado que poderia abocanhar quando a barragem e eclusa barra-bonitenses começaram a ser construídas. De seus 74 anos de idade, Yolanda passou 54 dedicando-se ao hotel e disse que não pretendia deixar o ofício. “Enquanto minha cabeça estiver boa, continuarei trabalhando”, declara.

Os hotéis estão no sangue da família. Os três filhos de Yolanda – José Luiz, Roseli e Rilton Rogério – foram criados à sombra do trabalho dos pais no hotel e hoje cada um deles comanda um novo estabelecimento. Rilton tem o Hotel Príncipe, Roseli tem o Hotel Vitória e José Luiz montou o Stillus Motel. Além disso, Yolanda fora sócia-proprietária anos atrás do hotel Beira Rio, que hoje pertence ao seu irmão, Moacir Maniero.

Yolanda concedeu esta entrevista a mim na manhã de terça-feira. Estava alegre, com brilho nos olhos. Ninguém esperava que este fosse seu último registro em vida. Na quarta-feira, dia 15, Rilton veio me contar sobre o falecimento de sua mãe. Ela acordou e desceu para trabalhar como sempre fez. Algumas horas depois foi acometida por uma parada cardíaca fulminante. Yolanda errou. A cabeça estava boa, o coração é que precisava de atenção.

A senhora passa o dia todo no hotel? – Agora eu tenho um apartamento no hotel e moro aqui mesmo. Todos os dias eu acordo às 3 horas da madrugada, tomo café e desço para trabalhar. Acordo cedo faz muitos anos, desde quando precisava preparar o almoço para os funcionários da companhia de força e luz antigamente. Aí acostumei. Eu gosto de acordar cedo.

A senhora dorme cedo também? – Quando é 21 horas já estou na cama.

Nem vê a novela? – Só as que passam antes desse horário. [risos] Trabalho até o meio dia e depois fico de folga o resto do dia.

“Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar”

O que a senhora faz nessas horas de folga? – Descanso um pouco, vejo uma novelinha e alguma outra coisa na televisão e depois durmo. Gosto de ler revistas, jornais e a Bíblia também. Leio o que eu tiver na mão. Sempre gostei de ler, mas nunca tive muito tempo para isso. Agora que só cuido do hotel, e não mais do restaurante, tenho tempo.

A senhora já se aposentou? – Aposentei-me faz um ano. Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar.

Ainda hoje a senhora é uma mulher animada que mostra disposição. Sempre foi assim? – Sempre, sempre. Tem clientes que dizem que sou a mãezona deles, porque procuro dar atenção a eles e não fico nervosa facilmente com qualquer coisa. Não estou nem aí, se acontecer alguma coisa logo entramos num acordo. [risos]

Muita gente diferente passa pelo hotel. É fácil lidar com todas elas? – É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas. Gosto de ver gente e gosto de trabalhar com hotéis, por isso estou aqui até hoje. E vou trabalhar até o dia em que minha cabeça parar de funcionar!

Quando a senhora gostaria de parar de trabalhar? – Na verdade, nem penso nisso. Enquanto minha cabeça estiver boa, vou seguir trabalhando. O trabalho faz parte da vida, quem não quer trabalhar está perdendo um pedacinho da vida. Nesta vida eu já fiz um pouquinho de tudo.

Depois de passar 54 anos comandando um hotel, o que é mais difícil fazer aqui dentro? – Não tem nada muito difícil no hotel. A parte que exige mais cuidado é o restaurante mesmo, ali vai muito de gosto. Sempre precisamos ajeitar uma coisinha ou outra.

A senhora não é barra-bonitense. Como chegou aqui? – Nasci em Piracicaba e lá morei e estudei até os 12 anos. Depois minha família se mudou para o Barreirinho e foi lá que comecei a cortar cana. Também morei por dois anos em Igaraçu do Tietê, onde trabalhei como padeira e doceira. Aos 20 anos me casei e desde então estou em Barra Bonita e no hotel.

Como a senhora conheceu seu marido? – Conheci o José Antonio na fazenda do Barreirinho. Enquanto eu cortava, ele puxava a cana. [risos] Naquela época, não dava para namorar no serviço, então a gente só se encontrava nos finais de semana e em algum bailinho de que participávamos, daqueles que começavam às 20h e acabavam a meia-noite. Meu irmão também era amigo do Zé Antonio e colocava lenha na fogueira. [risos]

E quem foi que pediu o outro em namoro? – Ele me pediu em namoro, e pediu permissão ao meu pai também. Não era tão fácil começar a namorar uma moça. Naquele tempo as mulheres não corriam atrás dos homens.

O que o homem tinha que ser para conquistar as moças daquela época? – Primeiramente, observávamos se ele era trabalhador, depois víamos se era honesto, se não era mulherengo. Essas são as coisas que importavam mais na época.

Que lugares a cidade tinha para namorar? – A gente não podia namorar por aí, tínhamos que namorar em casa. Nada podia ser feito escondido ou no escurinho. Há 54 anos, a coisa era assim. [risos]

O humorista Mazzaropi já ficou hospedado no hotel de Yolanda. “Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na ‘vida real’: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem”

De quem foi a idéia de comprar o bar que virou hotel? – Três meses antes de casarmos, o Zé Antonio comprou o bar. Eu comecei a trabalhar no bar também, porque a mulher devia ajudar o marido, não é? Nunca me esqueço de uma vez que fui arrumar uma cama e achei um lote de dinheiro embaixo da cama. Perguntei: “Mas para quê é esse dinheiro, Zé?”, e ele respondeu: “É o dinheiro para pagar o bar, oras”. Ele tinha comprado o bar fiado, [risos] pensando na barragem que estava sendo construída. Depois de um tempo ele comprou um terreno – fiado também.

Se o turismo da cidade fosse ainda mais desenvolvido seria melhor para o hotel? – Nossa, e como seria! O pessoal teria mais novidades para ver e precisaria ficar mais tempo aqui. Do jeito que a Barra está hoje não é ruim, mas podia ser muito melhor.

O que a senhora e os demais hoteleiros da Barra acham que podia ser feito para melhorar o negócio de vocês? – Hum, não sei. Talvez se a cidade tivesse mais atrações os turistas ficariam mais dias aqui. Ao invés de ficarem apenas um dia, ficariam dois ou três. Os turistas que vêm ao meu hotel dizem que vão embora logo porque já viram tudo o que a cidade tem.

E o que os turistas dizem da cidade? – Acham que a Barra é simpática, que o rio é muito bonito, mas que não tem outras coisas para se ver.

Também dizem que a senhora chegou a trabalhar direto por 20 horas. – Em alguns dias eu acordava às 6h e só parava à meia-noite. Era tanto serviço – fazer almoço, servir, limpar, fazer a janta, servir, limpar – que não tinha como parar. Mas o restaurante daqui é mais para o dia-a-dia: com arroz, feijão, carne e verdura, sem muita variação.

O Mazzaropi se hospedou aqui? – Sim, e ficou uma semana por aqui. Os circos vinham para a cidade e vários artistas acabavam passando por aqui. Numa dessas, veio o Mazzaropi. Todo mundo ficava aqui conversando com ele. Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na “vida real”: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem.

A senhora já tirou férias do hotel? – Já saí em férias, mas não muitas. Não gosto de sair muito. Viajei por vários lugares do Brasil e conheci a Argentina e a Itália. Gostei dos outros países, mas acho que o Brasil é único, não o trocaria por nada. Na Itália, por exemplo, a terra parece ser muito fraca e tudo custa muito caro.

A senhora reparou nos hotéis argentinos e italianos? – Ah, a gente olha, aprende alguma coisa e aplica, dependendo do que for. Achei muito seco o atendimento nos hotéis italianos. Eles não dão atenção ao cliente como nós. Para qualquer coisa que perguntamos, logo dizem “não sei, não sei, não sei”. A gente ainda vai até a porta com a pessoa e explica o caminho para ela, se ela pediu alguma localização. Prefiro o Brasil, sem dúvidas.

Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo
Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo

55 anos de rock – parte 1

Texto de Lucas Scaliza

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No dia 13 de julho o rock fez aniversário. Aqui começam algumas considerações (em 3 partes) sobre esse dia e o estilo musical

Dia 15 de março. Uma fila interminável se estendia a partir do portão de entrada de Interlagos, em São Paulo. Todo mundo gritava “Maiden, Maiden!”. Era a quarta vez que Fábio Izeppe veria os ingleses do Iron Maiden ao vivo, mas parecia a primeira vez. “Estava ansioso uma semana antes do show, não consegui dormir na noite anterior”, conta. “Passar pelas catracas e ver o principal palco brasileiro do automobilismo ser tomado por uma das maiores bandas do mundo não é algo que acontece todos os dias”.

Na ativa desde 1975, o Iron Maiden é uma das mais conhecidas bandas de heavy metal da história do rock. Eles bateram seu recorde de público no último show que fizeram em São Paulo. Fábio estava entre as mais de 45 mil pessoas que viram os clássicos da banda serem tocados. “Nunca imaginei que iria vê-los tocar na minha frente ‘Rime of the Ancient Mariner’, com 13 minutos de duração. Mas a melhor da noite foi ‘Powerslave’. O solo desta música é um orgasmo”, Fábio relata animado.

Foi um show de rock, um estilo musical que completa 55 anos na segunda-feira, dia 13. O marco zero para começar a contar a idade do rock é a primeira veiculação no rádio da música “That’s All Right Mama”, gravada por Elvis Presley em 1954 e que foi ao ar no dia 8 de julho daquele ano. No entanto, o Dia Mundial do Rock, comemorado segunda-feira, só foi instituído em 1985, quando estrelas do rock do mundo todo se apresentaram no megaevento Live Aid, um show que pretendia levantar fundos para ajudar países africanos a combater a fome e outros problemas sociais. As apresentações foram transmitidas para o mundo todo pela televisão, o que aumentou o alcance e a relevância do Live Aid. Phil Collins, então vocalista da banda Genesis, disse que aquele dia [13 de julho] era tão importante que deveria se tornar o dia mundial do rock. E assim foi feito.

Logo que surgiu, o rock correu o mundo espalhando seu ritmo animado e pulsante levando um novo modo de dançar para as pistas de dança e mudando o jeito como as pessoas encaravam a música popular. Mais tarde, o rock falaria e se envolveria em temas como comportamento, política, drogas e amor. Foi o estilo da contestação por excelência e da voz às vezes rebelde, às vezes desesperada da juventude.

“O rock sempre teve envolvimento com vários setores da sociedade, como comportamento e política”, diz o músico e jornalista Kid Vinil, que ficou famoso nos ano 80 como vocalista da banda Magazine, cantando “Tic Tic Nervoso”, “Sou Boy” e “Glub Glub no Clube”. “Foi na década de 50 que a juventude abraçou o rock como uma manifestação que identificava uma geração. E essa manifestação sempre passou para a geração seguinte, sempre se renovando”.