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O homem que entende as máquinas – parte 2

Texto e fotos por Lucas Scaliza

Quando não tem mais jeito

O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas
O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas

Se um motor dá problema e ninguém na cidade conserta, Aristides entra em cena. Foi assim que o floriculturista e professor Rubens Ap. Fabrício, Bi, o encontrou. Ele tinha uma moto que ninguém dava cabo do problema, fosse em Barra Bonita ou em Jaú. Então alguém lhe contou sobre a existência de um tal de Aristides Lanfredi que resolvia qualquer problema em motores. Bi confiou e se impressionou com o senhor que encontrou. “Em 30 minutos ele conseguiu o que nenhum outro fez em dias e semanas. Depois disso, sempre lhe entreguei minhas máquinas para serem consertadas e ele sempre encontrou soluções adequadas”, declarou.

Quando entrevistei Aristides, na tarde de uma sexta-feira, Bi me acompanhava. Ele tinha deixado com o homem dois pôneis mecânicos [pequenos arados com motor]. “Levei-os direto para o Aristides porque na Barra ninguém conheceria esse tipo de máquina”. Um deles já foi devolvido e está em ótimo estado de funcionamento, segundo Bi. O mais interessante de toda essa história é que ninguém entregou um primeiro motor para Aristides para que ele pudesse ver como era e, aí sim, construir ou consertar o primeiro. Ele simplesmente olha e entende a máquina, seja motor de barco, caminhão, moto ou carro. Até em bomba  injetora mexe e diz ser mais fácil de arrumá-la do que um carburador. E pelo ronco do motor ele também já identifica o problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos. Usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação.

A lista de feitos de Aristides não caberia nessas páginas, mas é possível contar alguns. Certa vez, um senhor de Botucatu o procurou com um motor de popa que ninguém conseguira consertar. Aristides olhou, olhou e apenas mexeu numa pecinha e mandou ligá-lo. Funcionou. Em outra ocasião lhe deram uma bomba d’água para dar uma olhada. A peça problemática era trocada e nada se resolvia. Mandaram vir da fábrica do Japão a peça necessária e mesmo assim nada de funcionar. Aristides, então, fabricou ele mesmo a peça, um modelo mais flexível, porque notou que a original era dura e se quebrava facilmente.

Há vários anos, um português de Arealva comprou um carro Mercuri que valia Cr$ 25 mil por apenas Cr$ 800. O motor não funcionou mesmo depois de ser mandado para oficinas de Rio Claro e São Paulo. O carro chegou às mãos de Aristides e foi batata! “Descobrimos na hora o problema. Bem, o português ganhou mais de 20 mil, não é?”, ele gargalha.

Bi, há 10 anos, levou até Aristides um motor estacionário de bomba d’água. Ao começar a mexer no equipamento, o “mecânico” jogou fora uns parafusinhos do motor no meio do  mato, fazendo Bi pensar: “Meu Deus do céu! Será que ele acha isso depois?”. O homem disse que não havia necessidade daquelas peças ali e fez a máquina funcionar, demonstrando que os parafusos realmente não fizeram diferença. Durante a última década, ninguém mexeu no estacionário e ele nunca mais deu problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos além do ensino básico. Por meios próprios, usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação. Diz ele: “De onde vem a faísca da vela de um motor? É um elétron que recebe uma pressão tão forte que acaba saindo de órbita e vira luz na ponta da vela, acredita nisso? A bateria só provoca o elétron”.  E continua.  “E vela de motor não queima. O que acontece é que o combustível tem partículas de chumbo que se acumulam na vela e aí ela pára de funcionar”.

Inventivo que só ele, Aristides tem na cabeça uma idéia de motor movido à água, e tudo leva a crer que essa idéia existe há bastante tempo, reclusa em sua mente, assim como ele se resguarda em seu pedaço de chão.

O homem que entende as máquinas – parte 3

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O homem persegue seus sonhos

Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto
Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto

Apesar de todo esse talento, Aristides cobra uma mixaria por seu serviço. Fica mais feliz em fazer o serviço do que em cobrar por ele. O dinheiro que lhe permite pagar os impostos, se alimentar e manter sua pequena oficina de paredes de madeira vem de sua aposentadoria e da renda que o sítio lhe proporciona.

Na verdade, como conta seu sobrinho, o eletricista de autos Pedro Stangherlin, Aristides trabalha na roça, plantando, carpindo e vez ou outra consertando algum motor. Ele é solteiro, não tem filhos e mora com irmãos, com quem divide a propriedade rural. A oficina, as máquinas, as engrenagens são seus passatempos, hobbys aos quais se dedica durante a noite e aos domingos. E, ao que parece, desde sempre foi assim. “Já tentaram levá-lo ao Rio de Janeiro para estudar”, conta Pedro, “mas seus pais não deixaram, ele tinha que ajudar na roça e, nas horas sem serviço, mexer com seus inventos”.

Ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece

O senhor mecânico autodidata sabe de seu potencial e sabe que ele foi subaproveitado. Lamenta que em sua juventude a corrente elétrica não chegava a sua casa, senão “teria feito muito mais”. Talvez muito mais bielas e pistões e pequenos motores do que já fez. Lamenta também por não ter ganho dinheiro com seu dom. “Sabe onde perdi muito dinheiro? Se eu tivesse um outro colega que soubesse negociar, a história seria diferente. Já me apareceu cada coisa aqui, já inventei tanta coisa nessa Terra…”.

Dinheiro – dizem mecânicos e eletricistas da cidade, seu sobrinho Pedro e seu amigo Bi – nunca foi a preocupação de Aristides. Para eles, o que vale de verdade é a satisfação que ele sente em pôr em prática sua arte de consertar. “Diria que dinheiro tem significado zero para ele. Ele cobrava Cr$ 10 por um conserto e acabavam lhe pagando Cr$ 20, 80 ou 100. Ele guardava esse dinheiro em uma lata. Então a moeda corrente mudou e, quando ele descobriu isso, o que ele tinha guardado já não valia mais nada. Aliás, algo valia, sim: o que ele tinha feito pelos outros”, afirma Bi.

Durante a entrevista, Aristides comentou várias vezes que não tem mais vontade de criar. Seria o cansaço ou a idade? Quem o conhece há algum tempo aposta em outro motivo: ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece. Algo como “vou inventar para quê se ninguém toca meus inventos?”. Nas palavras do professor Bi, que também é contista e poeta, esse senhor, Aristides Lanfredi, não persegue dinheiro, apenas seu sonho. E o homem deve perseguir seus sonhos, porque assim ele se realiza. E Aristides é uma pessoa realizada, mesmo sem o reconhecimento que talvez lhe seja merecido, cercado por um mar de cana, naquela estrada IGT-416, além do Igaraçu Park, seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi. Lá está o homem que entende as máquinas.