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Kelly Guimarães

O jogador de Barra Bonita que mais espaço conquistou no mundo do futebol dá uma geral em sua carreira nacional e internacional, fala da fama, do dinheiro, da aposentadoria e de todas as dificuldades que enfrentou

O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram”, diz o ex-jogador Clesly “Kelly” Guimarães

Ainda criança, a disposição de Kelly para o futebol era enorme. Se precisasse, jogava três ou quatro partidas num mesmo dia, fosse na rua, no clube ou na escola. Assistia também quantos jogos fossem possíveis ou interessantes, especialmente os do São Paulo, seu time do coração. Aos 15 anos, um talento em ascensão, foi para Bragança Paulista fazer parte das categorias de base do Bragantino e, assim, iniciar sua carreira no esporte brasileiro. A partir daí, o menino Clesly Evandro Guimarães, hoje com 35 anos de idade, sempre voltaria para Barra Bonita, mas fixaria residência em diferentes estados brasileiros e diferentes países do globo.

Do Bragantino (1991-96), foi para a Espanha, jogar no Los Groñes (96). Jogou um tempo no Flamengo carioca (97) e chegou ao Atlético-PR (97-2001), onde tornou-se um jogador de expressão. Foi vendido para o F.C. Tokyo e lá foi o Kelly jogar no Japão de2001 a2005 e viver o auge de sua carreira. Voltou ao Brasil e, no Sul, atuou no Cruzeiro (2005). Foi mandado para o time Al Ain Club, nos Emirados Árabes Unidos (2006-2007). Voltou definitivamente para seu país de origem, defendeu o Grêmio do Rio Grande do Sul (2007-2008) e terminou a carreira de volta ao Atlético-PR. Ainda tentou acertar um contrato com a Ponte Preta, de Campinas, mas não deu certo.

Voltou então a Barra Bonita no começo de 2009 acompanhado da família que o acompanhou em todas as suas fases. Kelly está casado há 16 anos com Rosangela Maria Salvi Guimarães, com quem tem os filhos Matheus, 16 anos, e Sara, 9. Eles eram colegas de classe do Sesi de Barra Bonita (e foi o futebol que fez Kelly trocar a escola Gutemberg pelo Sesi) e quis o destino que um descobrisse o amor com o outro. Casaram-se aos 19 anos. Sentado em uma bonita poltrona num quarto especialmente reservado para sua coleção de camisas de futebol, vídeos e fotografias, Kelly falou de sua carreira e detalhes de sua vida. Contando os pontos marcados em sua trajetória, sempre tendo sua fé como guia, o placar da vida ainda está a favor de Kelly.

Quando você percebeu que tinha talento para o futebol?

Desde criança eu jogo futebol, sempre disputando campeonatos escolares e na rua de casa. E as pessoas comentavam meu destaque nos jogos, o que começou a aumentar meu interesse por me tornar um jogador de futebol. A dimensão dos campeonatos que eu participava foi aumentando e meus pais viram o potencial que eu tinha. Aí tive a oportunidade de fazer testes em várias equipes: XV de Jaú, Palmeiras e Santo André, mas não deu certoem nenhuma. Em1991, através de um amigo meu pai conseguiu agendar um teste no Bragantino. Eu tinha 15 anos e, para a minha felicidade, passei no teste. Foi nesse momento que comecei a ter noção de onde eu poderia chegar.

Foi nas categorias de base do Bragantino que o futebol ficou sério na sua vida.

Sim, porque antes o esporte era mais como um hobby. Se eu tivesse dois jogos pela manhã, um a tarde na escola e mais um depois da aula, eu jogava todos. [risos] Foi quando cheguei no Bragantino que comecei a formar uma disciplina de profissional, prestando atenção na alimentação, horário de descanso, treinos, etc. Então naturalmente fui ficando consciente das responsabilidades que tinha para alcançar alguma coisa.

A Barra teve alguns redutos do futebol: a AABB, o C.A. Botafogo e a Ponte Preta. Chegou a acompanhar algum desses clubes locais?

Quando eu era criança, acompanhei um pouco da ascensão da AABB – e eu entrava em campo de mãos dadas com alguns dos jogadores do clube. Veneno, Sabá e Dinei foram alguns dos jogadores que acabaram virando amigos meus. Um pouco mais pra frente, acompanhei o Botafogo, que chegou a ter um certo destaque na cidade. Eu via alguns treinos e conheci alguns jogadores, como o Taio Molina, o Daguia, o Jairo e o Luciano. Eu joguei no Botafogo e disputei campeonatos regionais pela Barra.

Antes de ser profissional, você teve algum mentor futebolístico na Barra?

Por todos os lugares que passei, sejam em clubes, escolas ou times de rua mesmo, sempre havia alguém para nos orientar, mas naquele momento apenas. Na verdade, em dimensão profissional, não havia ninguém que pudesse nos orientar. A experiência deles na época não era tão grande. Hoje eles têm mais acessos e condições de orientar algum garoto. O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram.

Sua mãe, a Geni Guimarães, é uma poetisa e escritora muito conhecida. Ela te apoiou quando você decidiu seguir a carreira esportiva?

Tanto ela quanto meu pai sempre foram pessoas de referência dentro de casa. Acompanhei a luta da minha mãe para estudar, se formar e chegar aonde chegou, recebendo o Jabuti. Meu pai também, que nunca deixou faltar nadaem casa. Forampessoas que me deram estrutura para poder lutar também e ter perseverança. Devo muito a eles.

“Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença”

Logo depois de jogar no Bragantino, você foi para a Espanha, país em que muitos sonham em jogar. O que sentiu quando isso aconteceu?

Na época eu não tinha maturidade para pensar no caso como penso hoje. Naquela época, com a Lei do Passe em vigor, tanto o jogador quanto o clube e seus diretores sabiam que a minha mudança de time geraria um retorno para todo mundo. Quando as coisas são assim, não se pensa muito no jogador e empurra-se o atleta logo para o mercado. Então acabei sendo emprestado por seis ou sete meses para o time espanhol, com apenas 21 anos de idade, um filho pequeno para cuidar e acabei nem jogando muito. Hoje posso dizer que eu não estava preparado para aquela realidade. Se eu fosse um pouco mais experiente, talvez pudesse ter aproveitado melhor.

Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Essa foi a grande dificuldade. Depois, quando voltei para o Brasil e joguei dois campeonatos maravilhosos e disputei a Taça Libertadores, vários times grandes começaram a me procurar. Cheguei a acertar verbalmente minha ida para o São Paulo quando o treinador era o Vadão, que tinha sido meu técnico no Atlético-PR. Mas o Atlético não queria me emprestar, queria me vender para o Japão, já que a Lei do Passe estava quase acabando. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença.

A Espanha é um país ocidental, mais fácil de assimilar a cultura. Mas Japão e Emirados Árabes são muito diferentes. Foi difícil viver nesses países?

O Japão é realmente muito diferente do Brasil. No meu primeiro ano lá, eu nem rendi o que podia como jogador, pois estava preocupado com outras coisas: minha esposa estava grávida da Sara, meu filho estava em idade de alfabetização e não achamos nenhuma escola brasileira, etc. Mesmo assim o clube acabou comprando meu passe e as coisas foram se encaixando: minha filha nasceu no Japão mesmo, colocamos o Matheus numa escola norte-americana e ele acabou sendo alfabetizadoem inglês. Nosegundo ano eu e minha família estávamos melhor adaptados e eu já entendia como as coisas funcionavam no Japão. Não foi nada fácil sair com a esposa e duas crianças do Brasil para um país em que você não conhecia nada.

Quando você chegava em casa e dizia para a sua esposa que precisavam mudar para o Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha, Japão o que ela dizia?

Nós sempre conversávamos sobre essas mudanças, nunca decidi baseado apenas em minha vontade. Quando surgiu a oportunidade de ir para o Japão ficamos até animados com a ideia, porque sabíamos os benefícios que teríamos e não pensamos muitos nas dificuldades. Depois você começa a pensar em alguns problemas que vai encontrar e se assusta um pouco. Mas seguimos alguns princípios cristãos e cremos que Deus preparou tudo pra gente e sempre tivemos fé. A fé é isso: dar um passo sem ver onde está pisando. E Deus sempre honrou a nossa fé. [risos]

Quando seu pai faleceu, você morava no Japão. Como foi esse momento para você?

Quando tirei férias do time japonês em dezembro de 2001, voltei ao Brasil já com um contrato assinada para mais três anos do clube. Nessa mesma época os problemas de saúde do meu pai agravaram e eu pensei sim em não voltar para o Japão. Creio que eu não podia fazer nada para solucionar o problema dele, mas fiquei por perto o quanto pude para ajudá-lo. Conversei com minha mãe e meu irmão, o Kiko, e eles disseram que era melhor eu voltar para o Japão. Nas férias, fiquei 30 dias no Brasil e meu pai estava nas últimas. No dia 22 de dezembro eu ia sair da Barra ao meio-dia para pegar um avião em Guarulhos às 19 horas. Às 10h, 10h30 meu pai faleceu. Sinceramente, sem hipocrisia, isso foi um alívio para mim. Nas condições em que ele estava eu tinha certeza de que chegaria no Japão e receberia a notícia de sua morte. No meu coração eu tinha segurança de que o Céu esperava por ele, o que serviu de consolo.

Você faz parte da igreja Batista Filadélfia. Como é o seu envolvimento com ela?

Eu me converti quando ainda morava em Bragança Paulista, com cerca de 19 anos. Desde então, sempre procurei fazer parte da igreja onde quer que eu vivesse. Em Barra Bonita, faço parte da igreja Batista há 10 anos. A Bíblia fala que em primeiro lugar devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça, e então as outras coisas nos serão acrescentadas. Sendo assim, quando buscamos em Deus nossa fortaleza e nossa fonte de alegria e direção, tudo o que precisamos nos é dado. Eu precisava de saúde, paz e ânimo pra jogar um bom futebol, então eu procurava tudo isso primeiramente em Deus.

“Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. A porta da perdição é larga”

Não é raro vermos jogadores que se perdem no sexo, nas drogas e em outros problemas durante a carreira. É realmente fácil achar todos esses perigos no futebol?

Esses perigos existem e sempre corremos o risco de nos desviarmos de nossos objetivos. O futebol é uma profissão que mexe muito com o ego das pessoas, porque muitos são famosos e dá-se a impressão de que tudo é mais fácil para os jogadores. Na década de 70, os jogadores de futebol eram considerados vagabundos. Hoje, se uma menina diz para o pai que está namorando um jogador, o pai incentiva, prevendo que financeiramente a vida pode compensar. Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. No futebol você tem dinheiro fácil, reconhecimento fácil e rápido, fama e muita gente que quer te sugar. Vi muita gente se envolver com coisas erradas e perder o casamento e a carreira. A porta da perdição é larga.

Em qual time você mais gostou de jogar e qual foi o período de sua vida que achou que estava no auge da forma?

Tirando o Flamengo (em que tive problemas contratuais) e o clube dos Emirados Árabes (em que estava com o joelho machucado), em todos os outros eu tive bons momentos. Agora, os clubes que me marcaram mesmo foram Atlético-PR, onde tive o início do auge, e o F.C. Tokyo, onde eu de fato estava no auge físico, psicológico e espiritual. Quando voltei para o Brasil, joguei apenas por um ano no Cruzeiro, mas joguei muito bem e estava voando, [risos] embora já fosse um velhinho de 30 anos. Depois dessa fase meu rendimento começou a cair, o que é natural para qualquer atleta.

Existe algum lance de jogo que é inesquecível para você?

Cara, existem vários! Às vezes vejo as fitas dos meus jogos e em certos momentos lembro até no que estava pensando na hora. Mas um dos lances mais marcantes aconteceu num clássico entre o Atlético-PR e o Paraná num gol de placa que não foi eu quem marcou, foi o Lucas, mas a jogada foi minha. Cara, foi uma jogada que ainda hoje penso em como fui capaz de realizá-la. Saí pela direita e fui até a linha de fundo, toquei de calcanhar na bola e ela passou por baixo das pernas do jogador. Entrei na área com a bola, dei um toque e ela caiu na minha perna esquerda. Acontece que minha esquerda só serve para a embreagem do carro – ou nem pra isso mais, já que meu carro é automático agora [risos] – e, na hora, dei uma letra que foi na medida e direta para o Lucas, que fez o gol. O estádio estava lotado e foi abaixo com esse gol, nós éramos aplaudidosem pé. Ainda hoje, se você for ao estádio, verá uma placa com meu nome lembrando desse passe.

Como você conheceu sua esposa?

Eu estudava na escola Gutemberg de Campos, na Vila Operária, mas quis mudar para o Sesi, porque ficava mais perto de casa e porque os times dessa escola disputavam umas olimpíadas em Bauru e todos os meus amigos do bairro participavam, menos eu. Pressionei meus pais até que eu e o Kiko conseguimos mudar, basicamente para jogar futebol, mas consegui coisa melhor: a minha esposa. Foi no Sesi que a gente se conheceu, com 13 anos de idade. Quando estávamos na 8ª série começamos a namorar.

Quem chegou em quem?

Na verdade eu paquerava uma amiga dela e ela ajudava na comunicação entre mim e a garota. Era uma coisa bem de criança mesmo, quando não tínhamos coragem de chegar na menina. Mas isso foi despertando uma amizade grande entre a gente até que um dia ela confessou que gostava de mim. Como eu também já estava gostando dela, começamos a namorar de um jeito bem simples, e bem diferente do que vemos hoje. Foi a minha primeira namorada e eu fui o primeiro namorado dela também.

O que você sentiu quando seu primeiro filho nasceu?

[Risos] Para um homem que vive no meio do futebol, imagina a alegria de ter um filho homem! O Matheus veio para alegrar um momento difícil que eu vivia, quando precisava me afirmar na profissão e tinha algumas inseguranças financeiras. No dia em que ele veio ao mundo eu estava jogando e quando cheguei ao hospital ele já tinha nascido. Lembro de pegar aquela coisa pequenininha no colo e pensar: “Meu Deus, é meu filho. Acho que agora sou homem de verdade!” [risos] Meus pensamentos mudaram totalmente depois disso. Acredito que não exista herança maior que um casal possa deixar do que seus filhos.

Hoje, depois de passar quase 20 anos lidando com o futebol profissional, você ainda se entusiasma com os jogos? Ainda tem a emoção da juventude?

Não, acho que perdi esse pique. Quando era adolescente e estava nas categorias de base eu assistia a muitos jogos pela televisão, mas depois que ingressei no profissional me distanciei um pouco. Não só para fugir um pouco do trabalho, mas por causa das críticas que poderiam ser feitas – às vezes desnecessariamente – e que poderiam pesar sobre mim. Também evitava os programas sobre esporte. Quando queria, pedia para o meu clube a gravação da partida e assistia sozinho, tirando conclusões do que tinha feito de bom e de errado. Hoje não sou muito vidrado no futebol, não consigo ficar 90 minutos vendo qualquer que seja o jogo, a não ser Copa do Mundo e jogos muito importantes.

Você teve vontade de jogar em algum clube e não pôde por algum motivo?

Queria jogar no São Paulo, que é o meu time do coração. Tive duas oportunidades, mas não dá para ser apenas emocional, você precisa ser racional também na hora de fazer as escolhas. Na primeira oportunidade o São Paulo me queria emprestado, mas o Atlético-PR queria me vender. E é aquela coisa: se você é emprestado e não vai bem, volta queimado para o clube. Quando voltei dos Emirados Árabes, operei meu joelho. Eu estava sem clube e fui fazer recuperação no CT do São Paulo. O fisioterapeuta disse que a direção do time gostava de mim e que eu tinha grandes chances de jogar no São Paulo. Mas duas semanas depois o Grêmio apareceu querendo me contratar, mesmo com a cirurgia. Como a direção do São Paulo não pôde garantir que eu jogaria no time antes da recuperação, aceitei a oferta do Grêmio.

Enquanto você ainda era jogador, a população de Barra Bonita reconhecia o seu sucesso?

Todas as vezes que voltava para a Barra sempre era muito bem recebido. Tanto no Bragantino, que é um time pequeno, quanto nos grandes clubes cujos jogos eram transmitidos pela televisão, sempre fui bem visto e querido por aqui. Lembro que crianças pediam meu autógrafo e tiravam fotos ao meu lado. Hoje eu me encontro com elas na rua e já são jovens com o dobro do meu tamanho. É claro que algumas pessoas que por frustração, mágoa ou inveja tentavam atrapalhar, mas isso eu tirei de letra!

Então chegaram a te criticar por aqui?

Isso aconteceu em alguns jogos festivos de confraternização. Algumas pessoas faziam brincadeirinhas ou jogadas maldosas, querendo discutir no meio da partida. Tentei levar essas coisas numa boa, porque entendo que há pessoas que têm dificuldade em aceitar [o sucesso dos outros], mas isso existe em qualquer lugar.

“Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer!”

Por quê você resolveu se aposentar no final de 2008?

Em 2001eu passei por uma cirurgia no joelho que não me deu problemas por muitos anos. Em 2007, no Grêmio, tive problemas novamente, o que é normal nessa profissão. Quando fui para o Atlético-PR pela última vez, tive que operar de novo. Percebi que a situação estava desgastante para o meu físico e isso abalou o meu psicológico, afinal eu não rendia tudo o que podia. Isso foi me desanimando, já não ia aos treinos com a mesma alegria, já não almejava muitas coisas e me sentia limitado. Comecei a preparar minha aposentadoria, embora nunca quisesse parar de jogar. Nunca contei para ninguém, mas depois de sair do Atlético-PR ainda tentei jogar no Ponte Preta [em Campinas], mas não passei nos testes físicos. Minha força na perna direita estava bem abaixo da média dos atletas e, pelos quatro meses que jogaria, não dava tempo de fazer um trabalho para recuperar a musculatura. Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer! [risos]

Atualmente, longe dos gramados, quais são as suas ocupações diárias?

Tenho algumas obrigações com meus filhos, preencho meu tempo com aulas de canto, pois eu e meu filho participamos da banda da igreja. Bato um futebolzinho, faço natação e estou cursando o segundo ano de licenciaturaem Educação Físicana FAEFI. Vou me formar no ano que vem, mas talvez eu estude mais um pouco para ser bacharel também. No entanto eu tenho o CREF provisório para dar aulasem escolinhas. Fiqueidois anos descansando e agora penso em que área atuar. Atualmente gostaria de continuar trabalhando com o futebol, mas vamos ver o que a vida me reserva.

Financeiramente, sua carreira compensou? Foi mais ou menos do que você esperava?

Foi muito além do que eu esperava. Quando saí de Barra Bonita para fazer um teste em um clube, não tinha dimensão de onde poderia chegar. Sei que faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da minha vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa que me permite matricular meus filhos em escolas boas, vestir o que quisermos, nos alimentar bem e ir a lugares que gostaríamos de conhecer. Entretanto, sei que preciso de outra profissão agora, por isso entrei na faculdade.

Ser jogador de futebol profissional, além de alguma fama e dinheiro, atrai também puxa-sacos. Como lidou com eles?

É uma coisa engraçada, é uma faca de dois gumes. Existem muitas pessoas que se aproximam de você por que é jogador, porque é famoso, porque tem status e uma boa condição financeira. Elas acham que enganam, mas a gente sempre percebe quando a situação é essa. Por outro lado, pessoas boas com quem a gente gostaria de ter uma amizade sólida podem acabar não se aproximando da gente com medo de que pensemos que são bajuladoras também. Tive dificuldades com isso, porque morei em muitos lugares diferentes e não conhecia ninguém nas cidades. Quando tentávamos ter uma amizade mais profunda com alguém nem sempre conseguíamos, porque achavam que iam parecer puxa-sacos. Mas mesmo assim consegui fazer amigos em muitas partes do Brasil e, quando nos falamos por telefone ou MSN, quase nunca falamos de futebol, e isso é bom.

“Faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa”

Quem é o grande talento do futebol que você admira?

No passado, durante a minha juventude, vi o Zico jogar e ele virou um referencial para mim dentro de campo. O último referencial que tive dentro de campo foi o francês Zinedine Zidane. Tive o prazer de jogar contra ele enquanto defendia o F.C. Tokyo contra o Real Madrid num amistoso. Foi um cara cheio de classe e talentoem jogo. Agora, eu respeito muito o Ronaldo Fenômeno como jogador. Fora do futebol ele tem condutas que talvez não sejam tão boas, mas não o conheço e não vou julgar o seu caráter. Lembro que quando eu estava na Espanha ele jogava no Barcelona e conseguiu um respeito e uma admiração enorme do público. Por muito tempo ele foi um craque, e hoje o que me entristece são as piadinhas que fazem com ele (se bem que até eu às vezes faço) e os meios de comunicação jogando fora tudo o que ele fez no passado. Vai demorar 10 anos para aparecer outro Ronaldo.

Você ainda quer realizar algum sonho?

Rapaz, agora você me pegou! Tenho vários sonhos, como ver meus filhos formados, realizar algumas coisas com minha família, outros são segredos. Tem um sonho da minha esposa que quero realizar: conhecer Paris. Rodamos o mundo e ainda não fomos a Paris. A gente começa a analisar nossa trajetória e lembra que muita gente não acreditava na minha carreira e nem no nosso casamento, mas hoje tenho condições de ir a Paris com ela. Acho que vai ser uma grande alegria para nós dois fazer essa viagem.