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Um “machete” e várias cabeças voando

Fundo político é superficial e acaba prejudicando a história do novo filme de Robert Rodriguez

Danny Trejo é Machete, um mexicano que mata com facões e lâminas

A cena de introdutória de Machete, o novo filme de Robert Rodriguez, dá uma ideia do que será todo o resto dessa sangrenta obra: Machete, o personagem de Danny Trejo, invade o covil do grande vilão do filme, o traficante Torrez, interpretado por Steven Seagal. Armado de um “machete” (um facão), ele mata brutalmente cada um dos bandidos que atravessam seu caminho, seja atravessando-os com a lâmina ou decepando-os. Ele está no México, sua terra natal, atrás de uma menina que ele acredita ser uma refém. Depois de encontrá-la, ficamos sabendo que tudo era uma armação: a garota não era refém e o chefe de Machete na divisão policial em que ele trabalhava é um parceiro de Torrez. A mulher do protagonista é decapitada na frente dele e, ao que parece, ele é o próximo a morrer.

Mas a cena corta e somos lançados no tempo, três anos após esses eventos. Machete está nos Estados Unidos, onde vive como um imigrante ilegal. Sartana Rivera (Jessica Alba) é uma policial encarregada de mandar os imigrantes ilegais de volta para o México, mas está mais interessada em adentrar no mundo da “rede”, uma organização informal de imigrantes que ajudam outros imigrantes no filme. Luz (Michelle Rodriguez) interpreta uma espécie de líder da “rede”.

É época de eleição nos EUA do filme e o senador John McLaughlin (Robert De Niro) tenta se eleger propondo uma legislação mais dura com imigrantes mexicanos e a construção de uma cerca elétrica na fronteira dos dois países. É claro que sua audiência está baixa entre os eleitores. Para consertar isso, seu assessor Booth (Jeff Fahey) manipula Machete para que ele faça um atentado contra o senador durante um de seus discursos no Texas, alegando que as medidas do parlamentar podem arruinar a ordem econômica natural daquele estado. É claro que é uma armação e Machete, um “nacho” ou “pancho”, acaba sendo incriminado. E assim, num passe de mágica, as intenções de voto de McLaughlin disparam.

Em sua busca por proteção e vingança, Machete deixa um rastro de sangue. Usa muito seu facão, mas também tesouras e motosserras de jardinagem, lâminas cirúrgicas, revólveres e o que mais puder empunhar. Para escapar de um hospital, usa até mesmo o intestino de um dos capangas de Booth. É um banho de sangue e os diretores Robert Rodriguez e Ethan Maniquis não fizeram muita coisa para amenizar ou transformar a brutalidade dos personagens em algo cool, como acontece nos filmes de Quentin Tarantino. Machete é, do começo ao fim, uma obra com cara de filme B. Ou ele não tem estética alguma ou sua estratégia é justamente essa: parecer um filme tão árido quando o solo texano.

O fundo político criado por Rodriguez, que também escreveu o roteiro, é tão superficial que fica difícil levar a sério sua faceta política. O senador e seu assessor estão lá, bancando os caras maus com a retórica conservadora de como os “chicanos” atrapalham os EUA. Os imigrantes também estão em cena, embora sejam mostrados mais como sobreviventes do que como “cidadãos” que lutam por seus direitos com argumentos plausíveis. E até os guarda-costas dos poderosos discutem o assunto, de forma risível, segundos antes de serem atacados por Machete e suas lâminas.

Ainda temos o policial linha dura Von, um caçador de imigrantes na fronteira, pau mandado do senador. E, por fim, Torrez, o traficante latino que financia a campanha de McLaughlin para que sua droga chegue mais cara aos EUA. É triste dizer, mas Steven Seagal está deprimente no papel. Para um vilão, parece mais como um dos leões de chácara que Machete assassina.

Steven Seagal é o traficante Torrez, um papel que deixa muito a desejar

Na verdade, o verdadeiro vilão de Machete é seu roteiro. Bandidos dando explicações sobre coisas que o público já descobriu sozinho e retóricas mal elaboradas sobre política. Fora isso, há cenas que desafiam nosso conhecimento de mundo. Quando o senador é acusado de todos os crimes cometidos com seu consentimento na frente das câmera de TV, ele simplesmente sai andando pela lateral sem que um único repórter lhe faça perguntas ou o persiga colocando o microfone em sua boca. No final, em outro momento pretensamente político, a personagem de Jessica Alba faz do capô de um carro o seu palanque e, como se também estivesse em campanha, convoca todos os imigrantes mexicanos a ajudarem Machete. E aquele bando de homens durões, que não pareciam interessados na mulher, segundos depois parece comprar o discurso.

Diferente de outros filmes do próprio Rodriguez e de Tarantino, Machete parece se levar a sério demais, como se o que tem a dizer sobre a fronteira mexicana realmente levantasse novas formas de pensar a questão. Mas em alguns momentos ele parece se achar meio palhaço, como na cena em que um imigrante invade o quartel general de Von com uma espingarda e um carrinho de sorvetes, enquanto todos os outros aparecem de moto ou carros tunados. Que da próxima vez que quiser aproximar violência extrema e política, Robert Rodriguez possa se perguntar antes de ligar as câmeras: “O que eu realmente quero dizer com esse filme?”

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A Origem: Nem tudo foi um sonho

O filme mais engenhoso do ano funciona, mas peca ao apostar em vários planos narrativos e não apresentar uma profundidade dramática a altura. [Atualizado] Contém spoilers sobre o final

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, uma espécie de espião que entra nos sonhos para obter informações

Da primeira cena de A Origem (Inception, 2010) até o seu final, o espectador tem pouquíssimos momentos de descanso. Simplesmente não dá para sentar na poltrona do cinema ou no sofá de casa com o cérebro desligado para assisti-lo. É um filme que precisa da mente para ser apreciado – e entendido. Não que ele seja muito complexo ou “cabeça” demais, mas é longo e com vários níveis narrativos, por isso carece de atenção.

Em sua nova empreitada, o diretor Christopher Nolan (responsável por Batman – O Cavaleiro das Trevas) teve um orçamento de 160 milhões de dólares e um ótimo elenco disponível para contar a história de Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), um tipo muito particular de espião. Com a ajuda da tecnologia, ele e seu grupo consegue adentrar o subconsciente das pessoas, enganá-las durante os sonhos e roubar ou obter informações preciosas. No início do filme, Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) estão dentro dos sonhos de Saito (Ken Watanabe), um poderoso empresário do ramo energético, tentando conseguir informações para uma empresa rival. O plano falha e eles são obrigados a fugir, mas Saito faz uma proposta: se conseguirem não roubar, mas inserir uma ideia na mente de um jovem empresário que logo herdará o império do pai moribundo, Cobb deixará de ser um procurado em solo americano. E isso é tudo que Cobb quer.

Desde o início, há uma avalanche de informações. Afinal, estamos falando do complexo mundo do subconsciente humano, cheio de armadilhas e incertezas. Conforme personagens novos são introduzidos (como o próprio Saito ou a arquiteta Ariadne, interpretada por Ellen Page) novas explicações vão sendo dadas, servindo ao espectador como uma introdução à arte e à engenharia da invasão de sonhos.

Não demora nada para percebemos que demônios do passado assombram Cobb e estão seriamente comprometendo seus planos. Sua falecida esposa Mal (Marion Cotillard), continua aparecendo em seus sonhos e cobra que o protagonista vá ficar junto dela. Falar mais do que isso estragaria boa parte da trama.

 

Marion Cotillard é Mal, esposa de Cobb, que ainda atormenta o seu subconsciente

A Origem pode ser considerado o filme mais engenhoso do ano. Sua construção cheia de flashbacks da relação de Cobb com Mal e a inserção de imagens do passado no presente já seriam suficientes para manter o cérebro de quem assiste funcionando e tentando entender o que realmente está acontecendo. Mas Nolan vai mais fundo e abusa das possibilidades dos sonhos, dividindo a ação do filme em vários níveis narrativos, chegando ao cúmulo de criar, além do plano real de existência dos personagens, mais cinco camadas de sonhos (e em todas elas alguma coisa está acontecendo). Se você não entendeu muito bem como funciona a engenharia dos sonhos, explicada quase exaustivamente na primeira metade da película, torna-se uma tarefa difícil compreender e se localizar com precisão em sua metade final.

A trama, então, deixa de ser só uma história e vira um exercício virtuoso de roteiro – coisa a que Christopher Nolan está bem acostumado, visto outros filmes seus como Amnésia ou Insônia. Com a tecnologia em seu favor, o roteiro serve como ponte para uma direção virtuosa, mas só em alguns momentos (como nas cenas em que a gravidade é suspensa dentro do hotel). Os efeitos especiais não são meros artifícios estéticos dentro de A Origem e não tiram em momento algum a atenção do enredo. Quando são usados, geralmente mantêm o aspecto real dos ambientes e dos personagens.

 

Ellen Page é Ariadne, a habilidosa arquiteta

A trilha sonora composta por Hans Zimmer tem uma participação interessante na obra. Ela tem clima, mas não é totalmente etérea, como se esperaria de uma trilha para sonhos. A forma vigorosa que assume em momentos de maior tenção – como em diálogos decisivos, perseguições e lutas – ajudam a expressar a materialidade dos sonhos. As tensas notas graves sustentadas por oito compassos – executadas em várias partes do filme – reforçam essa impressão. Fora isso, a escolha da clássica “Non, Je Ne Regrett Rien”, de Edith Piaf, não é nada inocente. Usada como um aviso de que “os sonhos estão chegando ao fim”, sua letra é uma melancólica projeção da condição de Dom Cobb na história.

Embora o projeto de A Origem tenha sido concebido para não ser um filme assim tão fácil, ele peca justamente por pretender ser cerebral demais. Suas 2 horas e meia repletas de tramas que se chocam e sonhos dentro de sonhos cansam a mente. São situações demais sendo processadas ao mesmo tempo em planos diferentes que acabam não tendo a força dramática necessária. E isso compromete todo o tempo “gasto” tentando entender o filme.

A cena final de sonho, quando Cobb resolve acabar de vez com seus problemas e encontra Saito numa espécie de limbo, fica a impressão de que tudo está pacífico demais, correto demais, pré-agendado. Faltou, quem sabe, alguma reviravolta (se é que nosso cérebro, já bastante fatigado até aqui, conseguiria suportar mais essa). No final, nem tudo foi um sonho e mesmo o que se sonhou, foi real. A história, em resumo, é a de um pai que queria voltar pra casa.

SPOILERS SOBRE O FINAL

Após assistir ao filme, muita gente ficou em dúvida na cena final. Afinal, Dom Cobb volta para a sua casa no mundo “real” ou continua sonhando? O filme termina antes que possamos ter certeza se o peão continuará girando eternamente ou cairá. Mas há uma revelação que nos dá a resposta. Na cena final está o pai de Cobb, interpretado por Michael Caine, que afirmou em uma entrevista para a BBC 1 que a cena final se passa no mundo real. “Se meu personagem está em cena é o mundo real… eu nunca estou nos sonhos”, explicou.

Kick-Ass, com violência pop

Ousado na medida certa Kick-Ass fala de super-heróis e trata com respeito a adolescência, como filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer

Quando fez sua crítica de Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010) para a revista Veja, Isabela Boscov comparou a violência, as referências pop e o fundinho de sensibilidade do filme com Pulp Fiction, obra do diretor americano Quentin Tarantino vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 1994. Ela acerta o diretor, mas erra o filme. Kick-Ass está muito mais próximo de Kill Bill. É praticamente um Kill Bill com e para adolescentes.

Baseado na HQ homônima de Mark Millar e John Romita Jr, Kick-Ass começa indo direto ao ponto. A câmera corta as nuvens do céu de Nova York enquanto várias narrações em off intuem a possibilidade de existir um herói de verdade, com poderes de verdade. Ao chegar ao topo de um prédio, um homem com uma fantasia vermelha abre suas “asas” e se joga lá de cima. Lá de baixo, todos assistem maravilhados sua a queda livre que acaba esmagando um táxi. Infelizmente, não há superpoderes.

Na sequência, somos apresentados a Dave Lizewski (interpretado pelo inglês Aaron Johnson), um adolescente comum. Não é bonitão, não é fortão e não existe sequer uma menina interessada nele. Dave é constantemente assaltado e gostaria que alguém fizesse algo quanto a isso, alguém que não decidisse simplesmente não se envolver – como um herói dos quadrinhos faria. Conversando com seus dois únicos amigos, ele chega a conclusão de que se super-heróis existem, são pessoas extremamente comuns, como Peter Parker ou Clark Kent. Num misto de senso de justiça com delírio juvenil, ele compra uma fantasia verde com máscara e treina uma coreografia na frente do espelho. Sente-se um herói.

Dave (centro) e seus dois amigos numa loja de quadrinhos. A referência não é gratuita

Logo em sua primeira atuação como defensor dos oprimidos, Dave é esfaqueado na barriga e atropelado por um carro. Seu corpo é remendado com pinos e placas de metal, o que lhe dá menos sensibilidade à dor. “Sou como o Wolverine!”, é seu primeiro pensamento. E ele volta às ruas como herói mascarado. Dessa vez, apesar de apanhar bastante, consegue salvar um latino que estava sendo perseguido. O ato de heroísmo é gravado por celulares de gente que também decidiu não se envolver e vai parar no YouTube e nas páginas de jornal, transformando Kick-Ass (nome do “herói’) em sensação do momento.

Mas há um grande traficante na cidade (Mark Strong) que vai começar a caçar Dave/Kick-Ass, achando que é ele quem está matando seus homens. É aí que entram duas grandes pérolas do filme. Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, e Mindy, a letal heroína mirim Hit-Girl, vivida com garra incrível pela pequena Chloë Grace Moretz. Juntos, eles vão atrás dos homens do mafioso Frank D’Amico, até que chegue a hora de cortar de vez a cabeça da organização. É uma vingança de Big Daddy contra o homem que destruiu sua vida quando ainda era um bom policial. Fazendo justiça com as próprias mãos, treinou a filha para ser uma arma mortal. As cenas de violência (alternando momentos mais crus com outros estilizados, mas sempre ultrapop e muito coloridas) são as protagonizadas por Hit-Girl. Se o espectador não se incomodar em ver uma menina fofa de 10 anos matando inúmeras pessoas sem um pingo dó, vai se empolgar com suas ótimas participações.

Quando Mindy, a insana Hit-Girl, está em cena, espere pelo banho de sangue

Violência colorida e pop, vingança, justiça com as próprias mãos e uma menina mortal. Elementos que estão em Kill Bill. E como no filme de Tarantino, a violência de Kick-Ass é usada por Matthew Vaughan, estreando na direção, como exercício de estilo e linguagem. E Vaughan, como Tarantino, também foi criticado por isso pela crítica que não entendeu – ou não teve estômago – para encarar uma criança que fala palavrões e mata mais do que qualquer outro personagem adulto. De Pulp Fiction, este filme guarda paralelos com a sensibilidade dos personagens, como disse Boscov, mas em suas origens revela-se o paralelo mais claro. Pulp Fiction veio da influência da literatura B publicada em revistas americanas; já Kick-Ass usa como base os quadrinhos, que são vistos por muitos críticos e acadêmicos como a literatura B de hoje. Na cena em que Vaughan explica a rixa do traficante com Big Daddy, a tela se transforma em uma belíssima HQ, com várias cenas diferentes em cada quadro. (Tarantino, em Kill Bill, usou uma cena de anime para contar a história de O-Ren Ishii, só para traçar mais um paralelo formal entre as duas produções)

Mas as obras de Quentin Tarantino são para adultos, embora o público mais jovem também goste. Já Kick-Ass é claramente para adolescentes e não leva mais de 15 minutos para percebermos isso. Dave e seus amigos concentram todas as necessidades e hábitos de adolescentes comuns. A procura pelo sexo oposto, as trapalhadas, a inexperiência e principalmente a vontade de encontrar um lugar confortável no mundo. Quando Dave finalmente se ajeita com seu interesse romântico, ele quase abdica de ser o herói do YouTube. Afinal, encontrou na realidade um estímulo mais completo do que o proporcionado por uma fantasia cafona.

Dave vestido de Kick-Ass e Mindy como Hit-Girl

Desde o início, tem um pouco de Watchmen no filme. A impotência de Dave como Kick-Ass se agrava conforme ele vai percebendo que não tem nem mesmo supercapacidades. Ao encontrar Hit-Girl, infinitamente mais bem preparada do que ele, Kick-Ass vira mais um ideal do que uma entidade que valha a pena ser posta em atividade. No entanto, não dá para dizer que o filme trata do “crepúsculo dos heróis”, pois é com heroísmo assombroso (e humanidade comedida) que a história termina.

Ousado na medida certa (aquela que incomoda e gera discussões, sabe?) e muito divertido, Kick-Ass – Quebrando Tudo faz o que promete com competência. Fala de super-heróis, fala da justiça e da vingança, e trata com respeito a adolescência, jogando na cara dela montes de erros e equívocos que filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer, talvez por não ousarem tanto.

Trailer para maiores de Kick-Ass.

A vida real num comic book

Em Anti-herói Americano Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar e nem salvar o mundo. Na verdade, ele vive tentando salvar a si mesmo

Por Alice P. Wakai (lice_watashi@hotmail.com)

Paul Giamatti interpreta Harvey Pekar, americano que vai seguindo com a vida, sem grandes heroísmos

Harvey Pekar (Paul Giamatti) é um arquivador de documentos que trabalha num hospital em Clevand. Passa as horas livres ouvindo LP’s raros que compra nos brechós, lendo literatura ou escrevendo artigos sobre jazz. Entediado com a rotina medíocre do emprego, frustrado com os dois casamentos fracassados e sofrendo de problemas de garganta, ele conhece Robert Crumb* – um ilustrador de quadrinhos talentoso que visita os mesmos bazares baratos que Harvey. Com muito jazz e revistas em quadrinho em comum, os dois logo se tornam amigos e Crumb começa a frequentar a casa de Pekar. Entre um diálogo e outro, Harvey tem o insight que mudará sua vida: resolve se tornar um escritor de histórias em quadrinhos do seu próprio cotidiano.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia, cria personagens baseadas nas pessoas bizarras com quem convive no trabalho ou simplesmente ironiza situações que presencia dentro do ônibus. Crumb (interpretado por James Urbaniak) lê os textos e resolve criar uma revista em quadrinhos, a American Splendor, publicada pela primeira vez em 1976, e que vira um verdadeiro sucesso de crítica e público.

Harvey torna-se celebridade, participa de programas de auditório na TV, sessões de autógrafos na livraria, as pessoas o reconhecem na rua… No entanto continua absorto, mergulhado em seu mundo solitário. É nesse momento que conhece a mulher de sua vida, Joyce Brabner, também amante de quadrinhos, com quem logo se casa, depois de fazê-la vomitar com seu beijo.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia

Harvey Pekar é, de fato, o “anti-herói americano”: tem uma vida pouco luxuosa e bem diferente do “american way of life”. Ele representa a classe média baixa dos Estados Unidos: suporta um emprego mediano apenas pela comodidade e pelo plano de previdência, e acha-se um “estorvo social”.

Por se tratar de um personagem real (o próprio Harvey Pekar aparece no filme), o Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade, e além disso tem uma edição bacana que evoca sempre a página de um “comic book”, com margens, enquadramentos, letreiros chamativos e desenhos caricatos.

Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade

American Splendor se insere na década 70, período “underground” das revistas em quadrinhos, que eram vendidas em head shops e de mão em mão. Crumb, os Freak Brothers de Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, Victor Moscoso, Bill Griffin estão entre os mais conhecidos da época.

Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar, nem salvar o mundo. Na verdade ele vive tentando salvar a si mesmo. Representa a luta pela sobrevivência social, pela visibilidade (que  não necessariamente leva à felicidade). Como diz o próprio Harvey Pekar no começo do filme “Se você é o tipo de pessoa que procura por romance, escapismo ou fantasia pra salvar o dia, você pegou o filme errado”.

A ótima direção de Robert Pulcini e Shari Springer Berman aliada à brilhante interpretação de Paul Giamatti e excentricidade de Harvey Pekar garantem um bom filme.

*Robert Crumb é um famoso jornalista e quadrinista norte-americano que vive na França atualmente. Autor de várias histórias curtas e alguns livros, lançou a graphic novel Gênesis em 2009, publicado no Brasil pela Conrad. Vez ou outra, a revista Piauí publica algumas de suas histórias curtas. Crumb vem ao Brasil este ano para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Alice, de Burton

Nada parece tão enfadonho que o final não possa piorar

Johnny Depp, mais uma vez hipermaquiado, faz o Chapeleiro Maluco

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010) era uma das maiores apostas do ano. Dentro dos estúdios da Disney, um orçamento de 200 milhões de dólares daria nova vida à história original escrita pelo inglês Lewis Carroll. Quem ficou responsável pelo projeto foi o competente diretor Tim Burton, responsável por bons filmes como Edward Mãos de Tesoura, Sweeney Todd, Noiva Cadáver, a nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate, entre muitos outros.

Para começar, deve ficar claro que o filme não é – e nem tinha a pretensão de ser – uma adaptação do livro original. É, na verdade, uma apropriação dos seus personagens e do universo surreal criado por Carroll para contar uma história paralela que se passa alguns anos mais tarde, quando Alice está com 19 anos. Para a garota, a primeira aventura que vivera no País das Maravilhas é apenas um sonho.

Na trama, Alice (Mia Wasikowska) vai a um baile da aristocracia inglesa e descobre que será pedida em casamento por um homem com quem não gostaria de se casar. Acontece que um certo coelho branco com um relógio dourado chama a atenção da garota. Quando o pedido de casamento acontece, na frente de lordes e ladys, Alice não sabe o que fazer e foge, indo atrás do coelho. E então cai por um buraco escuro direto para o psicodélico mundo subterrâneo, que não lembra ter visitado no passado.

Quando chega, descobre que o Glorian Day se aproxima e todo mundo que é contra a ditadura da cabeçuda Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) quer saber se a menina é a mesma Alice que os salvou anos atrás. Afinal, segundo o “oráculo”, só a Alice pode empunhar a espada Vorpal, única arma capaz de matar o dragão Jaguadarte, maior arma do exército de Copas. Mas nem Alice sabe se ela é realmente a “escolhida”.

A Alice e seu figurino de copas. A personagem veste desde camisola até uma armadura no filme

Sempre que se fala em Tim Burton, palavras como “bizarro, excêntrico, exótico e sombrio” são imediatamente associadas às suas produções, mesmo quando direcionadas ao público infantil. Desde sempre essa associação é feita na obra do diretor, mas em Alice a fórmula dá sinais de cansaço. Parece que Burton está se repetindo, afinal até o seu ator principal é sempre o mesmo hipermaquiado Johnny Depp (que interpreta o Chapeleiro Maluco).

O visual do filme é esplêndido. O cuidado com a criação do País das Maravilhas aliado aos figurinos extremamente bem elaborados – e que estão sempre mudando – fazem o deleite visual valer a pena ver o filme na tela grande. Os contrastes entre azul e laranja, muito usados atualmente no cinema, ajudam a dar uma cara ainda mais psicodélica ao mundo descrito por Carroll e traduzido em imagens por Burton e sua equipe de arte. As criaturas e cenários construídos por animação (que não são poucas) fazem um bom trabalho, mas não chegam a impressionar.

Em compensação, o roteiro é um dos maiores problemas do filme. Embora a história esteja bem amarrada, Alice sofre com suas saídas fáceis para cada problema que encontra. Cada vez que se vê em um aparente beco sem saída, há uma criatura ou animal falante por perto para levá-la ao lugar certo. Isso dá uma leve impressão de que tudo em sua aventura acontece na hora certa. Quando o Valete vai caçá-la, lá está o Chapeleiro para escondê-la. Quando o Chapeleiro é preso, lá está um cão farejador para ajudá-la. Quando sua farsa dentro do Castelo de Copas é descoberta e alguns soldados a cercam, eis que uma fera que acabou de tornar-se amigável surge para salvá-la.

Anne Hathaway no papel de Mirana, a Rainha Branca

Na pele de Alice, às vezes falta à atriz Mia Wasikowska um pouco mais de dramaticidade. No castelo da Rainha Branca Mirana (interpretada por Anne Hathaway) Alice é chamada a assumir seu posto de “predestinada” que vai enfrentar e matar o Jaguadarte, destronando assim a Rainha de Copas. Na primeira vez que é confrontada com a situação ela foge, como fugiu do pedido de casamento, mas sem expressar convincentemente suas dúvidas, medos e angústias. Johnny Depp, de longe com o personagem mais interessante do filme nas mãos, também fica limitado pelo roteiro. Seu personagem oscila entre alguém que se finge de louco para que seu lado subversivo passe despercebido e um herói que luta usando suas ferramentas de costura.

Quando chega o Glorian Day, o filme vira uma espécie de O Senhor dos Anéis. Os soldados de cartas de copas enfrentarão as peças de xadrez do exército da Rainha Branca num tabuleiro de damas. Depois de conseguir a lendária espada Vorpal (como faz Aragorn antes de partir para a batalha final), Alice enfrenta o monstro Jaguadarte, que lembra muito o Nazgûl da trilogia do anel. Uma luta épica se inicia, e cabe perguntar se era mesmo necessário levar a história de Alice para um campo de batalha. É a velha fórmula de resolver tudo num grande confronto entre o bem e o mal. (Só para constar, a história original de Alice no País das Maravilhas não cai nesse maniqueísmo).

Quando tudo parece lindo aos olhos, mas enfadonho para a mente, Burton e Linda Wolverton, a roteirista, pisam na bola mais uma vez e estragam o final. Primeiro, com uma dança dispensável do Chapeleiro. Depois, quando Alice retorna ao mundo real, começa a despejar de uma só vez lições de moral: não espere por um príncipe encantado, o importante é ser você mesma, respeite quem você ama, e por aí vai.

Em 2008, durante a premiação do Oscar exibida pela Rede Globo, o ator e comentarista dos prêmios José Wilker se espantou quando Piratas do Caribe: No Fim do Mundo não levou a estatueta de “melhor figurino”. Disse ele: “O filme é sobre isso, figurinos e efeitos especiais, é por isso que foi feito. Não é sobre piratas, sobre uma história”. O mesmo pode ser dito sobre Alice, de Tim Burton. É um filme de efeitos, cenários e figurinos, não de grandes ideias.

Mary & Max – Solidão

Filme fala de Asperger e da amizade, mas trata principalmente da solidão de um homem e de uma garota

Mary & Max é uma animação feita em stop-motion

A grande maioria das animações que chegam aos cinemas ou às locadoras acabam logo fazendo parte da sessão “Infantil”. Os filmes da Pixar e da DreamWorks, os dois maiores estúdios americanos do segmento, realmente visam as crianças, mas garantem que seus filmes tenham apelo (estético e de conteúdo) tanto para adolescentes quanto para adultos. Mary & Max (Mary and Max, 2009), que estreou neste final de semana no Brasil, pode até emocionar crianças, mas é um tipo de animação feita para adultos.

Na história, Mary Daisy Dinkle é uma garotinha australiana de oito anos de idade que não tem amigos e sofre de bullying na escola. Seu pai passa mais tempo empalhando aves do que dando alguma atenção à família, e sua mãe vive alta, encontrando em certas substâncias a fuga perfeita da realidade. Sem nada a perder, Mary resolve escrever para o endereço de um desconhecido M. J. Horowitz, que encontra por acaso numa lista telefônica de Nova York.

A carta chega às mãos de Max, um homem de 44 anos, obeso, chocólatra, judeu (mas agora ateu) e igualmente solitário. Suas únicas companhias são peixes chamados Henry, uma vizinha doente e um amigo imaginário que fica o tempo todo lendo num canto de seu apartamento. Ao receber a correspondência de Mary, Max tem um ataque de pânico e não sabe lidar com a situação. Mas escreve de volta. Surge, então, um caso de amizade por correspondência entre os solitários Mary e Max.

Mary Daisy Dinkle, menina australiana de 8 anos

Parece inerente às animações que situações cômicas aconteçam, e o filme está cheio delas. É possível se divertir com as pequenas trapalhadas dos dois personagens, suas trajetórias de vida absurdas – e dolorosas –, ou com suas excentricidades. Entretanto, para cada cena de humor e imagem fofinha, há um tom de melancolia que, de tão acachapante, às vezes chega a ser desesperador. E isso reflete-se no visual do filme. A Austrália de Mary ainda tem cores, predominantemente marrom. Já a Nova York de Max é inteirinha preta e branca de alto contraste. As cores na vida dele aparecem apenas depois que começa a escrever para a garotinha, mas não chegam nunca a inundar a tela.

As cartas trocadas pela dupla solitária tratam com alguma sensibilidade questões como a amizade, o amor e o desafio de encarar as pessoas e o mundo. A inocência dos dois permeia suas cartas e a forma como tratam de assuntos complexos que nenhum deles entende bem. E é depois de mais um surto de pânico que ficamos sabendo que Max sofre da síndrome de Asperger e, por isso, é tão recluso e tem tanta dificuldade em se relacionar e entender outras pessoas. A síndrome é tratada no filme como uma condição de Max, sem torná-lo uma espécie de vítima de si próprio.

Max Horowitz sofre de Asperger e vive em uma Nova York preta e branca

Mary & Max foi escrito, dirigido, produzido e desenhado por Adam Elliot, que ganhou um Oscar na categoria melhor curta de animação e um prêmio no Anima Mundi por Harvie Krumpet. As duas produções foram feitas com a técnica stop-motion, usando personagens feitos de massinha fotografados quadro a quadro, são tristes e possuem um design de personagens bastante similar, indicando talvez um modo próprio de Elliot retratar o ser humano. Entretanto, quando comparadas, fica evidente como suas técnicas de animação, elaboração de cenários e iluminação são superiores em Mary & Max.

O filme todo usa o artifício da narração para que informações sejam passadas ao espectador, ao invés de apostar em diálogos e ações que fizessem esse trabalho sozinhos. E este é o ponto fraco do filme, porque essa estratégia pode cansar e tira um pouco do brilho especial dos personagens.

Conforme a história segue, momentos de felicidade para Mary e Max alternam-se com momentos extremamente depressivos que os levam a medidas que por pouco não acabam em tragédia. Ainda que muito bonito, é um filme triste. Embora fale de Asperger e da amizade, trata principalmente da solidão de um homem e de uma criança para atingir todas as pessoas. No final das contas, seja em Nova York ou na Austrália, todos os personagens eram solitários. Cada um ao seu modo sem ter alguém para lhes acompanhar.

Cão come cão no Distrito 9

Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.

Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.

O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.

O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme

Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.

Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.

A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.

Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.

Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.