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Moon – Eu e eu mesmo na Lua

Sam Rockwell é Sam Bell. E Sam Bell vai ter que encarar a si próprio na Lua

A 250 mil milhas de casa a coisa mais difícil de encarar é… você mesmo

Moon, que no Brasil deve se chamar Lunar, infelizmente não vai chegar às salas de cinema nacionais. Duncan Jones, filho do cantor David Bowie, dirigiu e escreveu todo o argumento do filme, que depois foi roteirizado por Nathan Parker. Até agora Moon ganhou resenhas elogiosas da crítica internacional e participou de oito festivais de cinema, arrecadando 10 prêmios. Mesmo assim não foi tão bem nas bilheterias e por aqui ele será lançado diretamente em DVD.

É uma pena. Em sua simplicidade e com modestíssimos US$ 5 milhões de orçamento, Moon é uma ficção científica espacial que te pega de surpresa. Existem apenas dois grandes cenários na produção: as instalações de uma base espacial situada na Lua e o próprio terreno lunar acinzentado, empoeirado, sempre contrastando o enorme breu do espaço com uma luz branca vinda do sol. E existem apenas dois personagens: o robô Gerty (voz de Kevin Spacey), que comanda toda a base, e Sam Bell, o astronauta interpretado por Sam Rockwell.

Na trama, a fusão nuclear é uma fonte limpa e barata de energia para o mundo todo. E Hélio-3, combustível usado na reação nuclear, pode ser encontrado em abundância na superfície da Lua, onde faz três anos que Sam Bell trabalha completamente isolado. Faltam duas semanas para ele se aposentar e a solidão aparentemente está causando danos a sua sanidade mental. Como a comunicação direta com o mundo exterior está com problemas, ele se conforma em assistir a mensagens em vídeo enviadas por sua esposa e sua filha. Quando precisa falar com alguém, conversa com Gerty, máquina dotada de inteligência artificial que é uma referência claríssima a HAL, o computador do célebre 2001 – Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. HAL é apenas uma luz vermelha misteriosa que tem digressões humanas. Já Gerty é um equipamento que se move pela base e mostra suas “emoções” (isso sim é um simulacro!) por meio de emoticons. Usando uma brecha em sua programação, da qual Gerty tem plena consciência, ele se permite cumprir a missão para a qual foi programado ao mesmo tempo em que ajuda o astronauta solitário.

Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.

Durante um trabalho numa escavação lunar, Sam Bell sofre um acidente. Ele acorda algum tempo depois na enfermaria da base quase totalmente recuperado e sem permissão para sair daquele complexo. Mas ele infringe as regras e volta a cena do acidente onde encontra ele mesmo quase morto.

Logo percebemos que o astronauta era uma peça mantida na completa ignorância do contexto em que estava inserido. Qual dos dois Sam Bells será o Sam Bell original? O outro é realmente um clone? Ou os dois são clones? As gravações recebidas da esposa são verdadeiras?

A partir deste ponto, Sam Rockwell interpreta os dois Sam Bell em busca de conformação e compreensão. Cada um lida com a confusão do seu jeito, e mesmo que isso não fique expresso em palavras, os dois guardam uma profunda dúvida existencial dentro deles. Afinal, não deve ser nada fácil descobrir que você é ou pode ser um clone de outra pessoa fabricado para ser uma peça descartável, com memórias implantadas e, portanto, falsas.

Toda essa porção cerebral do filme é acompanhada por uma trilha sonora caprichada composta por Clint Mansell. Ele encontrou a trilha perfeita para exprimir as principais características estéticas do que se vê: músicas que nos remetem ao futuro e, mais do que isso, ao futuro no espaço. Mas um futuro espacial de desolação, de isolação, de sentimentos guardados que quase nunca podem ser jogados para fora. Falta alguém para compartilhar todas essas emoções com nosso herói. E já que ele não vai fazer isso, a música faz questão de ser mais sombria ou mais sentimental a medida que percebemos o que os Sam Bell gostariam de exprimir.

Sam Rockwell é Sam Bell. E Sam Bell vai encarar a si próprio e a sua consciência na Lua

Até chegar a seu final, a história de Moon vai sofrer mais uma reviravolta. E tudo poderia facilmente confluir para um final megalomaníaco, com os dois Sam Bell tramando grandes planos de vingança e de sobrevivência para darem conta de seus destinos trágicos. Mas Duncan Jones manteve o “pé no chão” e resolveu tudo com engenhosidade e sensibilidade humana. Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.

Moon é uma boa ideia bem executada como produto cinematográfico e que não se perde na falta de gravidade do espaço. Só por isso já valeria a pena ser visto. Mas ele vai além, ele propõe a reflexão de nossa condição humana. Diverte, sensibiliza e humaniza.

Cão come cão no Distrito 9

Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.

Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.

O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.

O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme

Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.

Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.

A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.

Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.

Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.