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Kelly Guimarães

O jogador de Barra Bonita que mais espaço conquistou no mundo do futebol dá uma geral em sua carreira nacional e internacional, fala da fama, do dinheiro, da aposentadoria e de todas as dificuldades que enfrentou

O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram”, diz o ex-jogador Clesly “Kelly” Guimarães

Ainda criança, a disposição de Kelly para o futebol era enorme. Se precisasse, jogava três ou quatro partidas num mesmo dia, fosse na rua, no clube ou na escola. Assistia também quantos jogos fossem possíveis ou interessantes, especialmente os do São Paulo, seu time do coração. Aos 15 anos, um talento em ascensão, foi para Bragança Paulista fazer parte das categorias de base do Bragantino e, assim, iniciar sua carreira no esporte brasileiro. A partir daí, o menino Clesly Evandro Guimarães, hoje com 35 anos de idade, sempre voltaria para Barra Bonita, mas fixaria residência em diferentes estados brasileiros e diferentes países do globo.

Do Bragantino (1991-96), foi para a Espanha, jogar no Los Groñes (96). Jogou um tempo no Flamengo carioca (97) e chegou ao Atlético-PR (97-2001), onde tornou-se um jogador de expressão. Foi vendido para o F.C. Tokyo e lá foi o Kelly jogar no Japão de2001 a2005 e viver o auge de sua carreira. Voltou ao Brasil e, no Sul, atuou no Cruzeiro (2005). Foi mandado para o time Al Ain Club, nos Emirados Árabes Unidos (2006-2007). Voltou definitivamente para seu país de origem, defendeu o Grêmio do Rio Grande do Sul (2007-2008) e terminou a carreira de volta ao Atlético-PR. Ainda tentou acertar um contrato com a Ponte Preta, de Campinas, mas não deu certo.

Voltou então a Barra Bonita no começo de 2009 acompanhado da família que o acompanhou em todas as suas fases. Kelly está casado há 16 anos com Rosangela Maria Salvi Guimarães, com quem tem os filhos Matheus, 16 anos, e Sara, 9. Eles eram colegas de classe do Sesi de Barra Bonita (e foi o futebol que fez Kelly trocar a escola Gutemberg pelo Sesi) e quis o destino que um descobrisse o amor com o outro. Casaram-se aos 19 anos. Sentado em uma bonita poltrona num quarto especialmente reservado para sua coleção de camisas de futebol, vídeos e fotografias, Kelly falou de sua carreira e detalhes de sua vida. Contando os pontos marcados em sua trajetória, sempre tendo sua fé como guia, o placar da vida ainda está a favor de Kelly.

Quando você percebeu que tinha talento para o futebol?

Desde criança eu jogo futebol, sempre disputando campeonatos escolares e na rua de casa. E as pessoas comentavam meu destaque nos jogos, o que começou a aumentar meu interesse por me tornar um jogador de futebol. A dimensão dos campeonatos que eu participava foi aumentando e meus pais viram o potencial que eu tinha. Aí tive a oportunidade de fazer testes em várias equipes: XV de Jaú, Palmeiras e Santo André, mas não deu certoem nenhuma. Em1991, através de um amigo meu pai conseguiu agendar um teste no Bragantino. Eu tinha 15 anos e, para a minha felicidade, passei no teste. Foi nesse momento que comecei a ter noção de onde eu poderia chegar.

Foi nas categorias de base do Bragantino que o futebol ficou sério na sua vida.

Sim, porque antes o esporte era mais como um hobby. Se eu tivesse dois jogos pela manhã, um a tarde na escola e mais um depois da aula, eu jogava todos. [risos] Foi quando cheguei no Bragantino que comecei a formar uma disciplina de profissional, prestando atenção na alimentação, horário de descanso, treinos, etc. Então naturalmente fui ficando consciente das responsabilidades que tinha para alcançar alguma coisa.

A Barra teve alguns redutos do futebol: a AABB, o C.A. Botafogo e a Ponte Preta. Chegou a acompanhar algum desses clubes locais?

Quando eu era criança, acompanhei um pouco da ascensão da AABB – e eu entrava em campo de mãos dadas com alguns dos jogadores do clube. Veneno, Sabá e Dinei foram alguns dos jogadores que acabaram virando amigos meus. Um pouco mais pra frente, acompanhei o Botafogo, que chegou a ter um certo destaque na cidade. Eu via alguns treinos e conheci alguns jogadores, como o Taio Molina, o Daguia, o Jairo e o Luciano. Eu joguei no Botafogo e disputei campeonatos regionais pela Barra.

Antes de ser profissional, você teve algum mentor futebolístico na Barra?

Por todos os lugares que passei, sejam em clubes, escolas ou times de rua mesmo, sempre havia alguém para nos orientar, mas naquele momento apenas. Na verdade, em dimensão profissional, não havia ninguém que pudesse nos orientar. A experiência deles na época não era tão grande. Hoje eles têm mais acessos e condições de orientar algum garoto. O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram.

Sua mãe, a Geni Guimarães, é uma poetisa e escritora muito conhecida. Ela te apoiou quando você decidiu seguir a carreira esportiva?

Tanto ela quanto meu pai sempre foram pessoas de referência dentro de casa. Acompanhei a luta da minha mãe para estudar, se formar e chegar aonde chegou, recebendo o Jabuti. Meu pai também, que nunca deixou faltar nadaem casa. Forampessoas que me deram estrutura para poder lutar também e ter perseverança. Devo muito a eles.

“Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença”

Logo depois de jogar no Bragantino, você foi para a Espanha, país em que muitos sonham em jogar. O que sentiu quando isso aconteceu?

Na época eu não tinha maturidade para pensar no caso como penso hoje. Naquela época, com a Lei do Passe em vigor, tanto o jogador quanto o clube e seus diretores sabiam que a minha mudança de time geraria um retorno para todo mundo. Quando as coisas são assim, não se pensa muito no jogador e empurra-se o atleta logo para o mercado. Então acabei sendo emprestado por seis ou sete meses para o time espanhol, com apenas 21 anos de idade, um filho pequeno para cuidar e acabei nem jogando muito. Hoje posso dizer que eu não estava preparado para aquela realidade. Se eu fosse um pouco mais experiente, talvez pudesse ter aproveitado melhor.

Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Essa foi a grande dificuldade. Depois, quando voltei para o Brasil e joguei dois campeonatos maravilhosos e disputei a Taça Libertadores, vários times grandes começaram a me procurar. Cheguei a acertar verbalmente minha ida para o São Paulo quando o treinador era o Vadão, que tinha sido meu técnico no Atlético-PR. Mas o Atlético não queria me emprestar, queria me vender para o Japão, já que a Lei do Passe estava quase acabando. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença.

A Espanha é um país ocidental, mais fácil de assimilar a cultura. Mas Japão e Emirados Árabes são muito diferentes. Foi difícil viver nesses países?

O Japão é realmente muito diferente do Brasil. No meu primeiro ano lá, eu nem rendi o que podia como jogador, pois estava preocupado com outras coisas: minha esposa estava grávida da Sara, meu filho estava em idade de alfabetização e não achamos nenhuma escola brasileira, etc. Mesmo assim o clube acabou comprando meu passe e as coisas foram se encaixando: minha filha nasceu no Japão mesmo, colocamos o Matheus numa escola norte-americana e ele acabou sendo alfabetizadoem inglês. Nosegundo ano eu e minha família estávamos melhor adaptados e eu já entendia como as coisas funcionavam no Japão. Não foi nada fácil sair com a esposa e duas crianças do Brasil para um país em que você não conhecia nada.

Quando você chegava em casa e dizia para a sua esposa que precisavam mudar para o Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha, Japão o que ela dizia?

Nós sempre conversávamos sobre essas mudanças, nunca decidi baseado apenas em minha vontade. Quando surgiu a oportunidade de ir para o Japão ficamos até animados com a ideia, porque sabíamos os benefícios que teríamos e não pensamos muitos nas dificuldades. Depois você começa a pensar em alguns problemas que vai encontrar e se assusta um pouco. Mas seguimos alguns princípios cristãos e cremos que Deus preparou tudo pra gente e sempre tivemos fé. A fé é isso: dar um passo sem ver onde está pisando. E Deus sempre honrou a nossa fé. [risos]

Quando seu pai faleceu, você morava no Japão. Como foi esse momento para você?

Quando tirei férias do time japonês em dezembro de 2001, voltei ao Brasil já com um contrato assinada para mais três anos do clube. Nessa mesma época os problemas de saúde do meu pai agravaram e eu pensei sim em não voltar para o Japão. Creio que eu não podia fazer nada para solucionar o problema dele, mas fiquei por perto o quanto pude para ajudá-lo. Conversei com minha mãe e meu irmão, o Kiko, e eles disseram que era melhor eu voltar para o Japão. Nas férias, fiquei 30 dias no Brasil e meu pai estava nas últimas. No dia 22 de dezembro eu ia sair da Barra ao meio-dia para pegar um avião em Guarulhos às 19 horas. Às 10h, 10h30 meu pai faleceu. Sinceramente, sem hipocrisia, isso foi um alívio para mim. Nas condições em que ele estava eu tinha certeza de que chegaria no Japão e receberia a notícia de sua morte. No meu coração eu tinha segurança de que o Céu esperava por ele, o que serviu de consolo.

Você faz parte da igreja Batista Filadélfia. Como é o seu envolvimento com ela?

Eu me converti quando ainda morava em Bragança Paulista, com cerca de 19 anos. Desde então, sempre procurei fazer parte da igreja onde quer que eu vivesse. Em Barra Bonita, faço parte da igreja Batista há 10 anos. A Bíblia fala que em primeiro lugar devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça, e então as outras coisas nos serão acrescentadas. Sendo assim, quando buscamos em Deus nossa fortaleza e nossa fonte de alegria e direção, tudo o que precisamos nos é dado. Eu precisava de saúde, paz e ânimo pra jogar um bom futebol, então eu procurava tudo isso primeiramente em Deus.

“Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. A porta da perdição é larga”

Não é raro vermos jogadores que se perdem no sexo, nas drogas e em outros problemas durante a carreira. É realmente fácil achar todos esses perigos no futebol?

Esses perigos existem e sempre corremos o risco de nos desviarmos de nossos objetivos. O futebol é uma profissão que mexe muito com o ego das pessoas, porque muitos são famosos e dá-se a impressão de que tudo é mais fácil para os jogadores. Na década de 70, os jogadores de futebol eram considerados vagabundos. Hoje, se uma menina diz para o pai que está namorando um jogador, o pai incentiva, prevendo que financeiramente a vida pode compensar. Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. No futebol você tem dinheiro fácil, reconhecimento fácil e rápido, fama e muita gente que quer te sugar. Vi muita gente se envolver com coisas erradas e perder o casamento e a carreira. A porta da perdição é larga.

Em qual time você mais gostou de jogar e qual foi o período de sua vida que achou que estava no auge da forma?

Tirando o Flamengo (em que tive problemas contratuais) e o clube dos Emirados Árabes (em que estava com o joelho machucado), em todos os outros eu tive bons momentos. Agora, os clubes que me marcaram mesmo foram Atlético-PR, onde tive o início do auge, e o F.C. Tokyo, onde eu de fato estava no auge físico, psicológico e espiritual. Quando voltei para o Brasil, joguei apenas por um ano no Cruzeiro, mas joguei muito bem e estava voando, [risos] embora já fosse um velhinho de 30 anos. Depois dessa fase meu rendimento começou a cair, o que é natural para qualquer atleta.

Existe algum lance de jogo que é inesquecível para você?

Cara, existem vários! Às vezes vejo as fitas dos meus jogos e em certos momentos lembro até no que estava pensando na hora. Mas um dos lances mais marcantes aconteceu num clássico entre o Atlético-PR e o Paraná num gol de placa que não foi eu quem marcou, foi o Lucas, mas a jogada foi minha. Cara, foi uma jogada que ainda hoje penso em como fui capaz de realizá-la. Saí pela direita e fui até a linha de fundo, toquei de calcanhar na bola e ela passou por baixo das pernas do jogador. Entrei na área com a bola, dei um toque e ela caiu na minha perna esquerda. Acontece que minha esquerda só serve para a embreagem do carro – ou nem pra isso mais, já que meu carro é automático agora [risos] – e, na hora, dei uma letra que foi na medida e direta para o Lucas, que fez o gol. O estádio estava lotado e foi abaixo com esse gol, nós éramos aplaudidosem pé. Ainda hoje, se você for ao estádio, verá uma placa com meu nome lembrando desse passe.

Como você conheceu sua esposa?

Eu estudava na escola Gutemberg de Campos, na Vila Operária, mas quis mudar para o Sesi, porque ficava mais perto de casa e porque os times dessa escola disputavam umas olimpíadas em Bauru e todos os meus amigos do bairro participavam, menos eu. Pressionei meus pais até que eu e o Kiko conseguimos mudar, basicamente para jogar futebol, mas consegui coisa melhor: a minha esposa. Foi no Sesi que a gente se conheceu, com 13 anos de idade. Quando estávamos na 8ª série começamos a namorar.

Quem chegou em quem?

Na verdade eu paquerava uma amiga dela e ela ajudava na comunicação entre mim e a garota. Era uma coisa bem de criança mesmo, quando não tínhamos coragem de chegar na menina. Mas isso foi despertando uma amizade grande entre a gente até que um dia ela confessou que gostava de mim. Como eu também já estava gostando dela, começamos a namorar de um jeito bem simples, e bem diferente do que vemos hoje. Foi a minha primeira namorada e eu fui o primeiro namorado dela também.

O que você sentiu quando seu primeiro filho nasceu?

[Risos] Para um homem que vive no meio do futebol, imagina a alegria de ter um filho homem! O Matheus veio para alegrar um momento difícil que eu vivia, quando precisava me afirmar na profissão e tinha algumas inseguranças financeiras. No dia em que ele veio ao mundo eu estava jogando e quando cheguei ao hospital ele já tinha nascido. Lembro de pegar aquela coisa pequenininha no colo e pensar: “Meu Deus, é meu filho. Acho que agora sou homem de verdade!” [risos] Meus pensamentos mudaram totalmente depois disso. Acredito que não exista herança maior que um casal possa deixar do que seus filhos.

Hoje, depois de passar quase 20 anos lidando com o futebol profissional, você ainda se entusiasma com os jogos? Ainda tem a emoção da juventude?

Não, acho que perdi esse pique. Quando era adolescente e estava nas categorias de base eu assistia a muitos jogos pela televisão, mas depois que ingressei no profissional me distanciei um pouco. Não só para fugir um pouco do trabalho, mas por causa das críticas que poderiam ser feitas – às vezes desnecessariamente – e que poderiam pesar sobre mim. Também evitava os programas sobre esporte. Quando queria, pedia para o meu clube a gravação da partida e assistia sozinho, tirando conclusões do que tinha feito de bom e de errado. Hoje não sou muito vidrado no futebol, não consigo ficar 90 minutos vendo qualquer que seja o jogo, a não ser Copa do Mundo e jogos muito importantes.

Você teve vontade de jogar em algum clube e não pôde por algum motivo?

Queria jogar no São Paulo, que é o meu time do coração. Tive duas oportunidades, mas não dá para ser apenas emocional, você precisa ser racional também na hora de fazer as escolhas. Na primeira oportunidade o São Paulo me queria emprestado, mas o Atlético-PR queria me vender. E é aquela coisa: se você é emprestado e não vai bem, volta queimado para o clube. Quando voltei dos Emirados Árabes, operei meu joelho. Eu estava sem clube e fui fazer recuperação no CT do São Paulo. O fisioterapeuta disse que a direção do time gostava de mim e que eu tinha grandes chances de jogar no São Paulo. Mas duas semanas depois o Grêmio apareceu querendo me contratar, mesmo com a cirurgia. Como a direção do São Paulo não pôde garantir que eu jogaria no time antes da recuperação, aceitei a oferta do Grêmio.

Enquanto você ainda era jogador, a população de Barra Bonita reconhecia o seu sucesso?

Todas as vezes que voltava para a Barra sempre era muito bem recebido. Tanto no Bragantino, que é um time pequeno, quanto nos grandes clubes cujos jogos eram transmitidos pela televisão, sempre fui bem visto e querido por aqui. Lembro que crianças pediam meu autógrafo e tiravam fotos ao meu lado. Hoje eu me encontro com elas na rua e já são jovens com o dobro do meu tamanho. É claro que algumas pessoas que por frustração, mágoa ou inveja tentavam atrapalhar, mas isso eu tirei de letra!

Então chegaram a te criticar por aqui?

Isso aconteceu em alguns jogos festivos de confraternização. Algumas pessoas faziam brincadeirinhas ou jogadas maldosas, querendo discutir no meio da partida. Tentei levar essas coisas numa boa, porque entendo que há pessoas que têm dificuldade em aceitar [o sucesso dos outros], mas isso existe em qualquer lugar.

“Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer!”

Por quê você resolveu se aposentar no final de 2008?

Em 2001eu passei por uma cirurgia no joelho que não me deu problemas por muitos anos. Em 2007, no Grêmio, tive problemas novamente, o que é normal nessa profissão. Quando fui para o Atlético-PR pela última vez, tive que operar de novo. Percebi que a situação estava desgastante para o meu físico e isso abalou o meu psicológico, afinal eu não rendia tudo o que podia. Isso foi me desanimando, já não ia aos treinos com a mesma alegria, já não almejava muitas coisas e me sentia limitado. Comecei a preparar minha aposentadoria, embora nunca quisesse parar de jogar. Nunca contei para ninguém, mas depois de sair do Atlético-PR ainda tentei jogar no Ponte Preta [em Campinas], mas não passei nos testes físicos. Minha força na perna direita estava bem abaixo da média dos atletas e, pelos quatro meses que jogaria, não dava tempo de fazer um trabalho para recuperar a musculatura. Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer! [risos]

Atualmente, longe dos gramados, quais são as suas ocupações diárias?

Tenho algumas obrigações com meus filhos, preencho meu tempo com aulas de canto, pois eu e meu filho participamos da banda da igreja. Bato um futebolzinho, faço natação e estou cursando o segundo ano de licenciaturaem Educação Físicana FAEFI. Vou me formar no ano que vem, mas talvez eu estude mais um pouco para ser bacharel também. No entanto eu tenho o CREF provisório para dar aulasem escolinhas. Fiqueidois anos descansando e agora penso em que área atuar. Atualmente gostaria de continuar trabalhando com o futebol, mas vamos ver o que a vida me reserva.

Financeiramente, sua carreira compensou? Foi mais ou menos do que você esperava?

Foi muito além do que eu esperava. Quando saí de Barra Bonita para fazer um teste em um clube, não tinha dimensão de onde poderia chegar. Sei que faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da minha vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa que me permite matricular meus filhos em escolas boas, vestir o que quisermos, nos alimentar bem e ir a lugares que gostaríamos de conhecer. Entretanto, sei que preciso de outra profissão agora, por isso entrei na faculdade.

Ser jogador de futebol profissional, além de alguma fama e dinheiro, atrai também puxa-sacos. Como lidou com eles?

É uma coisa engraçada, é uma faca de dois gumes. Existem muitas pessoas que se aproximam de você por que é jogador, porque é famoso, porque tem status e uma boa condição financeira. Elas acham que enganam, mas a gente sempre percebe quando a situação é essa. Por outro lado, pessoas boas com quem a gente gostaria de ter uma amizade sólida podem acabar não se aproximando da gente com medo de que pensemos que são bajuladoras também. Tive dificuldades com isso, porque morei em muitos lugares diferentes e não conhecia ninguém nas cidades. Quando tentávamos ter uma amizade mais profunda com alguém nem sempre conseguíamos, porque achavam que iam parecer puxa-sacos. Mas mesmo assim consegui fazer amigos em muitas partes do Brasil e, quando nos falamos por telefone ou MSN, quase nunca falamos de futebol, e isso é bom.

“Faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa”

Quem é o grande talento do futebol que você admira?

No passado, durante a minha juventude, vi o Zico jogar e ele virou um referencial para mim dentro de campo. O último referencial que tive dentro de campo foi o francês Zinedine Zidane. Tive o prazer de jogar contra ele enquanto defendia o F.C. Tokyo contra o Real Madrid num amistoso. Foi um cara cheio de classe e talentoem jogo. Agora, eu respeito muito o Ronaldo Fenômeno como jogador. Fora do futebol ele tem condutas que talvez não sejam tão boas, mas não o conheço e não vou julgar o seu caráter. Lembro que quando eu estava na Espanha ele jogava no Barcelona e conseguiu um respeito e uma admiração enorme do público. Por muito tempo ele foi um craque, e hoje o que me entristece são as piadinhas que fazem com ele (se bem que até eu às vezes faço) e os meios de comunicação jogando fora tudo o que ele fez no passado. Vai demorar 10 anos para aparecer outro Ronaldo.

Você ainda quer realizar algum sonho?

Rapaz, agora você me pegou! Tenho vários sonhos, como ver meus filhos formados, realizar algumas coisas com minha família, outros são segredos. Tem um sonho da minha esposa que quero realizar: conhecer Paris. Rodamos o mundo e ainda não fomos a Paris. A gente começa a analisar nossa trajetória e lembra que muita gente não acreditava na minha carreira e nem no nosso casamento, mas hoje tenho condições de ir a Paris com ela. Acho que vai ser uma grande alegria para nós dois fazer essa viagem.

Na sarjeta com Mateus, o provocador

Ele é artista, funcionário público e pensador. Seja no poder Judiciário ou na rua, Mateus Grava emana tensão. “Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso”, ele diz sobre si próprio

Na sarjeta, Mateus dos Santos Grava encara as situações tragicômicas de sua vida. "O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos", diz

Entrevista por Lucas Scaliza

Há uma tensão latente em Mateus dos Santos Grava, 28 anos. Dele, você nunca sabe o que esperar – e o que ele pode te oferecer também depende muito de seu estado de espírito. Talvez você tente falar com o Mateus e encontre Raioé, seu efusivo alter ego (e não tem nada a ver com dupla personalidade) que manifesta-se principalmente no campo musical, mas pode aparecer também numa noite intranquila de bebedeira. Assim como Raioé, Mateus (o “original”) também tem veia artística. Recentemente recuperou músicas antigas e compôs novas baladas com o propósito de registrá-las em disco. Em 2008, ele escreveu uma série de textos que virariam um livro, mas acabou não sendo publicado, vitimado pela autocrítica imperdoável do autor. “Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo”, ele diz. Seja na literatura ou na música, ou mesmo em uma conversa informal no balcão de um bar, a forma de se expressar de Mateus é sempre provocadora, fazendo seu interlocutor confrontar paradigmas estabelecidos e seus próprios pensamentos.

A característica mais marcante de Mateus Grava é o seu estilo de vida. Funcionário público do poder Judiciário durante o dia desde 2002, ele abandona o mundo dos processos e das liminares na 2ª Vara Cível para tornar-se um boêmio veterano durante a noite. E já aprontou tantas na rua, entre coisas cômicas e trágicas, que é considerado um junkie. Não o junkie viciado em alguma droga, como denominava o termo original da palavra, mas o junkie que é um pouco anárquico e tem uma vida tresloucada. Mateus aprecia as obras de Woody Allen, Virginia Woolf e Clarice Lispector, mas imagino que se ele próprio fosse um personagem da literatura, seria Dean Moriarty, o jovem igualmente tresloucado que atravessa os Estados Unidos nas páginas de On The Road (livro símbolo da geração beat escrito por Jack Kerouac) em busca de novas experiências. Ao mesmo tempo junkie e filosófico, Mateus é uma espécie de Thomas Pynchon com barba descuidada e cabelos muito compridos.

Para preservar o seu estilo de vida, a entrevista com Mateus Grava foi gravada ao anoitecer, na mesa de um bar da orla turística de Barra Bonita, ambiente onde ele se sente bastante à vontade. Conforme a conversa de quase duas horas seguia, acompanhada de perto por seu amigo Wander Bêh e por quatro ou cinco garrafas de cervejas, deu para sentir a tensão de sua vida. Histórias tristes e engraçadas, sentimentos de inadequação, crises de consciência e reflexões profundas, tudo de uma vez só, sem pausas. Mateus respondeu a tudo com uma sinceridade cortante, e quanto mais honesto era consigo mesmo e com esta entrevista, mais o medo sobre o que seria publicado crescia dentro dele. Definitivamente Mateus não é um cara comum, mas seus sentimentos e medos são humanos, demasiadamente humanos.

Entrevistado e entrevistador. Foto: Wander Bêh

Você é uma pessoa bastante fragmentada, tem vários lados, age de diversas formas. Você consegue entender o seu eu mais substancial? E as outras pessoas, elas conseguem enxergar o seu eu também?

As pessoas não conseguem e eu também não. Sinto a energia e o jeito que as pessoas me olham, às vezes de forma legal e carinhosa e outras vezes de uma forma ruim, mas quando é assim a pessoa não chega pra falar com a gente. Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso. É uma coisa intensa tanto o meu jeito de demonstrar carinho quanto às cacas que eu faço – que não são poucas. Este ano tive realizações maravilhosas na minha vida, tudo para que 2011 seja para mim, talvez, um ano em que poderei mostrar muitas coisas boas. Contudo, meus erros continuam sendo tombos enormes.

Você sempre tem consciência das coisas que está fazendo, sejam elas boas ou ruins?

Totalmente consciente. Acontece que às vezes vivo umas fases pesadíssimas e dou de cara com a parede em todos os campos, afetivo, profissional, pessoal e artístico. Depois eu sofro no dia seguinte e desse sofrimento saia uma letra [de música] linda de chorar – bom, pelo menos eu choro. E fico com um enorme frio na barriga que só algo muito legal para me fazer abandonar aquela dor. Mas atualmente tenho vivido muito mais momentos bons.

Que tipo de coisas boas estão acontecendo agora?

Música, principalmente. Em 2008 eu fiz vários textos legais, mas depois veio a autocrítica que passou do ponto e não consegui levar o projeto do meu livro adiante. Mas este ano consegui compor uma música com a Marta Nascimento e pude pela primeira vez tocar uma música minha no palco do Teatro Municipal Profª Zita De Marchi, no recital do Américo Ereno. Foi de marejar os olhos ver o vídeo que fizeram da minha apresentação! Peguei muito material que tinha guardado e gostei do que ouvi, bem diferente do que houve com meu livro. No ano que vem devo entrar em estúdio para gravar minhas músicas.

“Muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro”

Na música você tem um alter ego chamado Raioé. O Mateus e o Raioé são muito diferentes na forma de agir e pensar?

As músicas do Mateus são, na maioria das vezes, baladas de amor com influência da música brasileira. O Raioé é algo que surgiu em 1989, quando eu tinha uns oito anos de idade. Ele usa a boca e o mamilo para fazer alguns instrumentos, tem letras sem muito sentido e foi tomando forma com o passar dos anos. E a relação entre os dois está principalmente fundamentada na desconstrução, que é feita pelo Raioé, do ser humano Mateus, do Mathers, possibilitando assim algo próximo de um maior entendimento dessa figura. Inclusive, o nome do projeto de Raioé é justamente “Desconstruindo Mathers”, idéia essa que tirei de um de meus filmes preferidos de Woody Allen, “Desconstruindo Harry”.  Como ser humano Raioé é mais nervoso que o Mateus, muito mais ansioso e agressivo. Mas o Mateus às vezes é paciente até demais. Acho que os dois se equilibram.

As pessoas agem de jeitos diferentes quando você é o Mateus e quando é o Raioé? Ou quando você está mais tranquilo ou quando está sob o efeito do álcool?

É importante dizer que o Raioé não surge da bebedeira. Ele até surge bastante na bebedeira porque isso faz com que o Mateus deixe o Raioé aparecer… Mas qual era mesmo a pergunta?

Como as pessoas agem com o Raioé e com o Mateus?

É muito doido. Se vão apresentar uma música do Mateus, dizem: “olha que bonito que ficou isso”. Se for do Raioé, é assim: “olha como essa porra aqui ficou do caralho!” Os dois são lindos e verdadeiros da mesma forma, mas o Raioé já chega dando soco na cara e dizendo “Canta, filho da puta!”

Eles já fizeram alguma parceria?

“Donde estás Maria” é parceria dos dois. A canção é interpretada pelo Raioé e é a mais conhecida dele. Foi feita num ensaio de carnaval da banda Gritos & Sussurros em 2004. Era um ambiente de energia carnavalesca impulsionado pela disciplina, porque logo mais naquela tarde tinha matinê! É a única parceria deles, pois a coisa sai muito forte. Um até palpita no trabalho do outro, mas eles puxam o freio de mão.

Mateus durante a apresentação de "Onde tudo é mais bonito", música de sua autoria, no Teatro Municipal Profª Zita De Marchi

Você escreveu um livro e não o publicou. Por quê?

Escrevi uns 30 textos ou menos que formaram uma coisa bem bonita. Todos sinceros e feitos com carinho. Ia lançar o livro no ano passado, mas não fiquei feliz com o resultado. Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo. Pretendo escrever mais coisas ou tentar melhorar o que já tenho, mas sem toda a autocrítica de um ano atrás. Tenho lido bastante Clarice Lispector ultimamente e ela quando terminava uma obra não queria nem saber de ler o que tinha escrito.

Um dos textos que você produziu contava a relação que uma pessoa viu entre suas fezes durante o ato de defecar e a sociedade. De onde veio isso?

Esse texto era o meu carro chefe e o livro levaria o nome dele, Meus restos. Ele surgiu de uma experiência verdadeira, após um fim de semana dolorido que foi intenso até demais. Eu estava sofrendo com um relacionamento e com amigos, coisas complicadas. Eu estava dando uma cagada no banheiro e, quando me limpei, ficou uma mancha na minha mão. Aí fiz uma relação entre aquele cheiro, que nunca é bom, e o que as pessoas são. O cheiro é pior na medida em que a pessoa é pior também. Aí pensei nas damas perfumadas da noite – e eu estava apaixonado por todas elas ao mesmo tempo – mas elas têm uma cara de merda, que é muito mais fedida que a merda biológica. A relação entre o mal cheiro de nossos excrementos e o perfume francês tão agradável às nossas narinas. E termino dizendo: “Fiquei verdadeiramente fascinado com aquele aroma revelador”. Sem modéstia nenhuma, acho que coloquei essas ideias no papel de forma muito feliz.

E quando você briga com um amigo, como o Wander Bêh, como você fica?

Ah, o Wander já chutou a minha fimose, cara! Ele tinha alugado uma fita de videogame e deixou na minha casa para que eu a devolvesse no dia seguinte. Acontece que no dia seguinte eu fui operar a minha fimose. Quando voltei para casa, estava naquela situação complicada do pós-operatório. E três dias depois fiquei jogando no meu quarto aquele jogo com o meu primo, até que o Wander apareceu na janela de casa alucinado. “Então, então. Cadê a fita?”, ele dizia. “Ah, estou jogando, não está vendo?”, respondi. “Você não devolveu ou alugou de novo?”. “Ah, nem devolvi, estou operado da fimose, né?” O Wander entrou em casa e deu um bicudo na minha fimose operada que eu não sei como o meu órgão funciona até hoje. [gargalhadas] Ejetou a fita do Super Nintendo sem desligar o videogame primeiro e me deixou lá daquele jeito.

E como você resolve os problemas que eventualmente tem com as pessoas?

Como eu resolvo? Só deixo passar. O que faço é dar a cara para alguma pessoa que eu tenha prejudicado e ouvir para ver se é pesado o que fiz para eu não ficar me martirizando. Principalmente vou ouvir para entender direito o que eu fiz, porque a minha amnésia alcoólica é a maior do mundo. Mas a maioria das minhas furadas é em relação a mim mesmo. Nesses casos sento com frio na barriga e fico refletindo como é possível trilhar um caminho que não me cause tanto sofrimento. Porque cada sofrimento que você causa a si próprio é irreparável, já está marcado no filme da sua vida. Aí é ficar trancado com esse desespero até ele passar, até a conquista seguinte.

Mateus Grava. Foto: Wander Bêh

Como você reage quando acorda no dia seguinte e percebe que fez algo, mas sofreu uma “amnésia alcoólica”?

O maior desespero de não lembrar é que, no início, você não sabe que fez algo. Mas você sempre fica sabendo que fez algo porque existem outras pessoas que contam o que você fez. Acordar sem lembrar o que aconteceu e com frio na barriga já indicam que não fiz coisa leve. E às vezes nem é coisa pesada, mas como não estou sabendo ainda o que é, logo julgo que foi pesado. Aí passo uma semana esperando alguém vir me contar ou vou perguntar o que houve com uma baita cara de pastel. O desesperador é me conhecer e saber que a amnésia alcoólica vem geralmente quando fiz alguma caca mesmo.

Arrepende-se de ter feito alguma coisa nessas horas?

Não sei se a palavra é arrependimento. Tudo o que a gente faz tem um motivo de ser e, mesmo bêbado ou sóbrio, partiu de uma provocação de alguém. Eu me arrependo, então, de me expor a essa situação, de atravessar a rua e chegar a um círculo de pessoas que são complicadas para mim e que sei com certeza que quando a coisa ficar tensa o Mateus que segura a onda vai soltar de forma absurda as palavras. Aí ele se prejudica fisicamente e emocionalmente, é praticamente um Mike Tyson. É uma coisa assustadora essa explosão, mas muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro. O cara que mergulha na calçada ou que ficou pelado na avenida em 2003 vira o “louco”, mas não estava feliz.

É verdade que você recebeu um processo por ter ficado pelado?

Sim, quando a polícia me pegou pelado na Avenida Pedro Ometto em 9 de novembro de 2003. Era a minha fase mais pesada, mesmo tendo cara de criança, cabelo curto e sem barba. Naquela fase eu passava por situações ruins e realmente negras. Foi um capítulo tristíssimo da minha vida, mas ajudou a formar a minha personalidade.

Muita gente considera você aquele cara “louco” da turma, por falta de outro adjetivo que se encaixe melhor. Você se acha “louco”?

Muito, mas não é esse louco que as pessoas falam. Eu conquistei esse “louco” e recebo com muito carinho, mesmo sem ser assim. O louco mesmo é o Mateus vendo o Mateus, um cara que gosta do trabalho no Fórum, que gosta das pessoas que encontra na rua, que sofre na sarjeta e ama a sarjeta ao mesmo tempo – fora as coisas difíceis de se colocar em palavras.

Lucas Scaliza. Foto: Wander Bêh

Você tem um lado intelectual muito forte, capaz de discutir assuntos complicados com ótimos pensamentos e argumentos. Acha que as pessoas que te veem na rua conhecem essa sua faceta?

A maioria não. Só conhece quem faz parte do meu círculo diário de amigos, o pessoal da minha banda e minha mãe, que acompanha mais ou menos as músicas que ouço em casa e os livros que leio. Mas também não toco muito no assunto, pois tenho medo de parecer pretensioso e ligado à intelectualidade – coisa que não existe. Gosto do [cineasta] Woody Allen porque o acho parecido comigo, seus filmes são à flor da pele como é a vida e como são meus textos, irônicos, românticos e filhos da puta. O mesmo Mateus que bate a cabeça na guia é aquele que adora Belchior, chora ouvindo Maria Bethânia e gosta de rock. É que eu também não ajudo as pessoas a terem essa imagem de mim. Eu não chego para conversar falando sobre os livros que leio da Virgínia Woolf e da Clarice Lispector. Gosto dos assuntos que fluem naturalmente. Gostaria de mostrar mais esse meu lado e acho que vou conseguir fazer isso com as minhas músicas.

Então você tem vontade, desejo e/ou necessidade de mostrar esse Mateus às pessoas?

Tenho muita vontade. Recentemente conversei com uma amiga de 18 anos do Fórum e nosso papo foi parar nos livros. Disse que tinha lido um certo livro e o pessoal que ouviu assustou. “O Mateus lendo? Como assim?” Na hora a gente ri, mas a vontade era dizer que eu sempre li pra caramba.

Você era tímido quando adolescente?

Era muito tímido, não abria a boca. Quando falava um “a”, ele saía roço, com medo de estar falando. Não conseguia chegar nas meninas – coisa que é difícil eu fazer até hoje. Eu nem bebia e falava para os meus amigos do colegial que eles não sabiam se divertir.

Mateus ainda bebê, já evidenciando seu gosto pela música em sua camiseta

E como você mudou? Houve um episódio que simbolizou isso?

Tem gente que diz que eu e o Wander, que também era tímido, combinamos nossa mudança de comportamento, que ficávamos confabulando na escola. Mas houve um episódio, em 1999 durante um churrasco de despedida de nossa classe do terceiro ano do ensino médio. Eu usava lentes de contato, cabelo arrepiadinho com gel e não bebia nunca até então. Aí… (Nossa, estou bêbado!) [risos] Bom, foi a primeira vez que tomei duas cervejas para me enturmar e fiquei bem alucinado. E resolvi mergulhar na piscina com lentes e tudo. Ainda falei para um amigo meu que também usava lentes para mergulhar também que não tinha problema. “Eu estou enxergando tudo embaçado, mas é porque estou bêbado”, disse pra ele, pois não sabia como era ficar naquele estado. Naquela noite, em casa, fui tentar tirar a lente do olho. Tentei de todas as formas e nada, puxava até quase tirar o olho e nada. Minha mãe foi me ajudar e perguntou se eu tinha bebido. Eu disse que não. Perguntou se eu não tinha perdido as lentes na piscina. Também disse que não. Fomos na farmácia e o farmacêutico também não conseguiu tirá-la. Por último, fui parar na maca do oftamologista. Ele abria meu olho, usou uma pinça por cinco minutos, quase furando meu olho, e perguntando: “Tem certeza que vocês está de lente, companheiro?” “Tenho, estou sentindo ela”, eu respondia. Depois o médico parou por 30 segundos, olhou para mim e falou: “Companheiro, não tem lente nenhuma aí!” Aí eu pensei: “Jesus, perdi minhas lentes por causa de uma droga de bebedeira e fiz minha mãe sofrer”. Então prometi que nunca mais ia beber. E hoje estou aqui, dando essa entrevista e bebendo! [gargalhadas] E as lentes devem estar até hoje no fundo da piscina da edícula do Cunhé.

E depois desse episódio sua vida ficou mais social, é isso?

É, a partir de 2000 eu e o Wander começamos a abrir mais a boca, mas não era tanto assim. Deu até pra eu beijar! Beije duas mulheres em dois anos que foi uma coisa linda. Lembro que eu dizia que estava sendo a minha fase de maior sucesso. Não, foram três mulheres em dois anos, porque beijei uma que estava bêbada no carnaval da avenida. E beijei mesmo. Na boca. Depois disso só conseguia sair com alguém a cada nove meses, parecia até que era de propósito.

“Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é necessariamente você ser casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar”

 

Um dos seus amigos diz que tudo o que você faz pela primeira vez é muito engraçado. Sua primeira experiência sexual foi engraçada também?

Foi engraçada, mas vou torcer para a minha mãe não ler isso. Não gostei da minha primeira vez, porque… porque….

Espera. A menina dessa experiência está na cidade? Ainda é sua amiga?

Não tem nada de menina, cara. [gargalhadas] Não era menina e nem da minha cidade, errou nas duas vezes. Também não era a pessoa da minha vida. Agora minha primeira vez com mulher foi no ponto de táxi da praça do Museu, e aí eu gostei bastante.

E essa menina? É da cidade?

Poxa, não era menina de novo! Era uma mulher linda, uma pessoa de que gosto muito. E foi legal, porque essa experiência aconteceu depois do primeiro show que o Gritos e Sussuros fez no bar do Maurélio.

Mas as suas escolhas de fazer sexo com homem ou com mulher foram conscientes?

Totalmente, a cerveja não influenciou em nada. A gente bebe para relaxar, mas a decisão já tinha sido tomada. E as pessoas dessas relações que contei eram lindas e gente boa. Não me arrependo de nada, nada, nada. Com homem o problema é que eu não gostei, não tenho vontade nenhuma também. Gosto mesmo é de mulher, é bem melhor em todos os sentidos.

Mateus (no centro) com o primo Marcos e o amigo Wander Bêh em 1993

Algumas pessoas defendem que sexo deve ser feito quando há amor entre duas pessoas. Outros acham que sexo pode ser bom mesmo sem amor, por puro desejo. Como você encara a questão?

Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é você ser, necessariamente, casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar. Nesse momento pode ter existido amor. Assim como às vezes você transa com raiva, sem querer realmente estar ali com seu parceiro ou parceira. Então concordo que sexo deve ser feito com amor, senão é ridículo e superficial. Mas não concordo com a concepção que muita gente faz do amor.

Há também quem defenda o poliamorismo. Ou seja, que amor de verdade não é ou não precisa acontecer apenas entre duas pessoas, muitas outras podem estar envolvidas. Isso mexe com a monogamia e com os conceitos de fidelidade que vivenciamos atualmente.

Acontece mesmo de a gente amar mais de uma pessoa, mas não faço questão de vivenciar isso. A gente sofre por causa disso, mesmo entendendo a situação. E apesar da parceira ou parceiro entender que podemos amar mais de uma pessoa, isso não impede o sofrimento deles, e isso acaba nos fazendo sofrer. Na minha música “Onde tudo é mais bonito” há um verso que diz assim: “Onde tudo é mais bonito/ Na transa a dois, a três”. Não estou falando de uma orgia, falo de uma transa emocional. Até pensei em tirar o verso da canção, mas poderia ser o verso mais marcante dela.

Atualmente você é funcionário do Fórum. Antes disso, com o que você trabalhou?

Trabalhei para a prefeitura, no departamento de Limpeza Pública. Minha desenvoltura para cortar galhos e grama era tanta que, no meu primeiro dia de trabalho no setor, passei pelo menos uns dez minutos tentando cortar uns galhos com um facão. Eu pensava “O trabalho dignifica o homem” e batia o facão nos galhos, limpava o meu suor e continuava. Então percebi que os veteranos da Limpeza Pública começaram a olhar para mim segurando o riso. Aí um deles disse: “Então, seu nome é Mateus, não é? Tenta bater com o lado da lâmina agora”. [risos] Fiquei dois meses nesse departamento e fiz lindas amizades por lá. Saí por causa da minha grande habilidade com o trabalho.

E como você chegou ao Fórum?

Minha chefe na Limpeza Pública me chamou numa sexta-feira e disse que eu iria para o Fórum, porque estavam precisando de alguém por causa da falta de servidores no poder Judiciário. Antes de passar no concurso público da prefeitura, eu era legionário mirim e desempenhava, na Prefeitura, uma função bastante semelhante com a qual estavam precisando no fórum. Entrei no Judiciário barra-bonitense dia 1º de abril, mas sou uma grande verdade lá dentro. Não pretendo passar o resto da minha vida trabalhando com isso, porque pretendo fazer com que meus projetos musicais se desenvolvam. Mas a forma como olho para o Mateus no Fórum hoje é bem diferente de como o enxergava anos atrás.

“Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa”

Por quê? Como você encarava o trabalho no Judiciário?

Ah, eu encarava a sociedade “dos engravatados” com algum desprezo, com uma postura rock and roll. Mas com o tempo percebi que os engravatados também estavam na rua, só não usavam gravata. Vi também que mesmo o funcionário público que usa gravata era bem despojado e sossegadão com a vida, enquanto outro é aristocrata. E na rua tem o cara que diz que é “o alternativo”, e por aí vai. Comecei a enxergar a energia das pessoas, independente de ela estar engravatada ou de vestido longo, vendo o lado bonito e o lado insuportável de cada ser humano em todas as suas embalagens.

É verdade que o volume de trabalho no Judiciário da Comarca de Barra Bonita, que engloba também Igaraçu do Tietê, é anormal para uma região de apenas 60 mil habitantes?

Barra Bonita é uma cidade absurdamente exótica. Um dia desses levei cinco liminares até a mesa do juiz, e ele disse: “Cinco liminares em um único dia? Isso não existe! Essa cidade é…” “Essa cidade é exótica, né?”, completei. “Exótica? Isso aqui é uma curva de rio! Não existe!” Ele disse que em uma cidade como Araraquara não acontece tanta coisa como aqui. Vejo casos de desavenças, brigas por dinheiro, coisas pequenas e grandes, internações e interdições de pessoas, e mais uma série de problemas, tudo em grande quantidade. Trabalhando no Fórum passei a enxergar Barra Bonita de uma maneira bem diferente.

Você já teve problemas com as drogas? Ou só com a polícia?

Tive com a polícia mais de uma vez por conta de algumas desventuras. Já aconteceu de eu estar muito alto e fazer brincadeiras idiotas com os policiais. Nunca tive problemas com drogas, meu único problema é o conhaque. Esse eu preciso diminuir muito!

Em 2003, quando era baixista da banda Gritos & Sussurros

Como seus pais criaram você? Sempre com liberdade?

Pai eu não tive. Ele faleceu quando eu tinha 10 anos e mesmo antes disso já não morava comigo. A única imagem que tenho dele é uma vez que ele tentou ser o pai exemplar para mim e minha mãe acabou dando uma frigideirada na cabeça dele. Com a minha mãe e irmã sempre fui solto, sem problemas. Quando eu pisava fora de casa e era obrigado a lidar com gente é que dava o frio na barriga. Era o tal do bullying tão comentado atualmente, como o qual eu sofria bastante. Era muito ofendido por causa do meu jeito tímido, desengonçado, magrinho, etc. Nunca falei sobre isso com a minha mãe, apenas conversei algumas vezes com a minha irmã. Não tenho relacionamento com tios, tias e primos. Gosto delas, mas não participo do almoço daquele tio que mora fora e nem das confraternizações de Natal. Tem só um primo meu, o Marcos, que é um irmão pra mim!

Em suas músicas e textos, e mesmo em bate-papos informais, você sempre faz com deixa ideias provocativas, seja explicitamente ou implicitamente. Você se considera um provocador?

Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… E não é uma provocação gratuita, não. Porém, também não provoco para aparecer gratuitamente. Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa. Não sou o cara conselheiro, quero apenas fazer parte da vida da pessoa e que ela faça parte da minha.

E as pessoas geralmente estão dispostas a sentar e conversar com você ou a maior parte delas fica com o pé atrás?

A maioria fica com o pé atrás, mas tem muita gente bonita que vem. E a coisa boa disso é que alguns vêm com um olhar diferente, vêm com verdade. Não com medo, mas com interesse, sem saber nem ela e nem eu como nos aproximarmos. E aí a pessoa proporciona uma ocasião em que seremos obrigados a nos comunicar e a coisa acontece.

Você conta muitas experiências difíceis com bastante franqueza. Você poderia minimizar todas as situações, mas zela por falar diretamente.

É uma briga, na verdade. Ao mesmo tempo em que quero ser franco com os outros, preciso ser franco comigo mesmo para admitir que é muito perigoso expor tudo isso. Não minto pra mim mesmo e tenho muito medo, sinceramente, de tudo isso, desta entrevista. Não existe ninguém que não tenha medo e eu estou sofrendo agora, pensando como vai ser quando a entrevista sair. O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos.

 

 

Homem fibra

Eduardo Mazzoni apresenta o Predador, sua escultura feita em fibra de vidro. “Gosto de desafios", ele diz

Eduardo Mazzoni trabalha com fibra de vidro há 40 anos e é um dos poucos profissionais brasileiros que já se aventura sozinho com a fibra de carbono. Já morou na Argentina e rodou o Brasil todo com um carro que ele mesmo projetou

Por uma semana, a garagem (que também é oficina e ateliê) de Antonio Eduardo Mazzon serviu de abrigo para o Predador, aquele guerreiro espacial que vem à Terra caçar seres humanos e que ficou famoso ao contracenar com Arnold Schwarzenegger no filme de 1987. Na última quinta-feira, Eduardo conseguiu um manequim de roupas e, sobre ele, começou a usar a manipulação de fibras de vidro – habilidade a qual se dedica há 40 anos – para compor seu personagem.

Eduardo nasceu na rua Frei Caneca, na gema de São Paulo. Já morou em Buenos Aires, rodou o Brasil todo – boa parte dele a bordo de um carro que ele mesmo projetou –, construiu embarcações em Ubatuba e veio parar em Barra Bonita há 4 anos e meio. Quando morava na Zona Norte de Sampa, era vizinho de Ayrton Senna, um moço que estava começando a correr de kart. Tem 58 anos, foi casado seis vezes e tem 16 filhos, dos quais cinco moram com ele.

Sua especialidade e sua fonte de renda são trabalhos de criação e reparo em materiais de fibra de vidro (fiber glass). Há um ano e meio começou a se aventurar também pelo terreno da fibra de carbono, tecnologia utilizada nos carros de Fórmula 1 que poucos dominam. Já fez trabalhos com fibras numa grande sala para plantas de um triplex de Hebe Camargo e em um aquário de Roberto Carlos.

Nunca teve chefe e nunca teve medo de mudar o curso de sua vida quando quis. Faz trabalhos mais práticos para garantir seu sustento, mas sua paixão mesmo são as produções que demandam grandes doses de criatividade. Sempre que aparece uma brecha entre um projeto e outro, usa a imaginação para criar coisas como o Predador que ilustra essa matéria.

Você pode contatar Eduardo Mazzon ou conhecer seu trabalho através do site www.edufibras.com.br

Eduardo trabalha no corpo de seu Predador em sua oficina/ateliê. Sempre foi autônomo e só aceitaria ter um chefe se ele fosse tão criativo quanto ele próprio

Quem te ensinou a mexer com fibra?

Não sei, fui aprendendo praticamente sozinho. Até hoje não existem cursos no Brasil para trabalhar com fibras. Eu mexia com funilaria, aí pulei pra fibra e estou com ela e vivo disso até hoje. Se bem que o que eu gostaria de fazer mesmo era entalhar em madeira. Até tentei fazer isso uma vez, mas por causa das encomendas que faço para viver fiquei sem tempo. Aprendi com um grande entalhador em Ubatuba conhecido como Bigode. Gosto dessa coisa de criar!

A fibra é considerada um dos materiais do futuro. Você sente que ela é valorizada?

Sim. Hoje não falamos nem mais na fiber glass, a fibra de vidro. A bola da vez é a fibra de carbono ou o aramida (Kevlar), que é superior ao carbono, inclusive. O carbono é do futuro mesmo. Ele tem tudo: resistência, durabilidade, leveza e beleza. Daqui a dois ou três anos a fibra de carbono terá um peso enorme no mercado. Tem um ano e meio que comecei a trabalhar com carbono. Meu irmão que mora na Inglaterra me mandou uma apostila sobre o assunto. É um material caríssimo.

A fibra de carbono é muito mais cara que a fibra de vidro?

Fica uns 300% mais caro. Acho que sai uns R$ 450 ou 500 o metro quadrado da fibra de carbono, incluindo a mão de obra. Ela aguenta temperaturas altíssimas de 400 graus. O que geralmente não aguenta tanto assim é a resina, que deve ser misturada com um produto chamado NPG, que poucos conhecem. Com a mistura você aumenta em 40% a resistência dela ao calor. E tem resina para todo tipo de finalidade.

Você faz carenagens para motos. Já projetou quantas peças dessas?

Até agora tenho 88 modelos diferentes para triciclos e motos de 150, 250, 300, 500 cilindradas, para vários modelos e tamanhos. Até o fim do ano espero criar mais 25 que estão na minha cabeça. Crio tudo, desde a matriz até o molde para fazer tantas carenagens quanto forem necessárias. Além das peças para motos faço barcos, pedalinhos, pranchas de surf, revestimentos para madeira e concreto. No momento, o carro chefe do meu trabalho estão sendo os banheiros químicos para ônibus.

“Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta”

O senhor é autônomo atualmente?

Sempre fui, nunca tive patrão. Se fosse um patrão bom e criativo, até aceitaria trabalhar com ele, mas ainda não encontrei um assim. A questão financeira logo aparece e aí a coisa não acontece. Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta. (risos)

O que lhe dá mais prazer produzir?

Criações como essa do Predador. Ele é praticamente uma estátua, criado quase que do nada. Só depende da criatividade e da imaginação de quem faz. Para algumas coisas que faço o certo seria existir um curso para ensinar o pessoal a fazer também, mas para outras não tem escola que ensine. É coisa que vem de dentro de quem faz, é como um dom!

Eduardo e o carro que construiu há 23 anos sobre o chassis e o motor de uma Brasília. Andou mais de 10,5 mil quilômetros com ele e não precisou fazer nenhum reparo

Qual é o maior desafio que enfrenta fazendo esse Predador?

A cabeça e a expressão dos olhos são as partes mais difíceis de fazer. A posição de braços e pernas para deixá-lo agressivo também são detalhes que merecem atenção. Afinal, ele tem que parecer ameaçador, tem que mostrar que veio caçar mesmo. Num carro, por exemplo, a parte mais difícil de fazer é a porta. São muitos detalhezinhos para que ela fique bem ajustada ao carro.

Antes dessa estátua, você já havia feito um capacete com o rosto do Predador. Como surgiu essa idéia?

Um amigo ia a uma festa a fantasia e queria uma máscara do Predador. Fiz um modelo para ele, mas gostei da coisa. Resolvi aperfeiçoar o projeto e transformá-lo num capacete mesmo. Um grupo de motociclistas da Paraíba, chamados Carcarás dos Sertões, encomendou 12 capacetes desses, sem pintura, para eles personalizarem como quisessem. Também vendi alguns para Manaus, quatro em São Paulo e mais um em Bauru. É uma atração legal para os encontros de motos, o que preciso é anunciar tudo isso.

Além do Predador, está trabalhando em algum outro projeto criativo?

Estou criando um capacete com a forma da cabeça de um Pit Bull agora. Além desse já comecei a preparar outro em forma de tubarão e ainda outro com o rosto do Cebolinha, da Turma da Mônica. É só eu ter um tempinho livre que começo a criar alguma coisa. O tubarão é mais fácil de fazer que o Pit Bull, pois tenho que ficar esperto com a expressão do cachorro, a relação do focinho com os olhos do animal, as distâncias, etc. Quem olhar, tem que ver um Pit Bull mesmo!

Quanto tempo o senhor perde olhando as fotos do Pit Bull, do Predador e do tubarão para conseguir reproduzir as sutilezas das imagens nos capacetes?

Levo uns dois dias para estudar as imagens. Olho, saio para dar uma voltinha, olho de novo e assim vou fazendo até minha mente “fotografar” a imagem. Aí começo a fazer um lado do capacete, depois me preocupo em fazer o outro lado idêntico ao primeiro. O capacete tem que ser simétrico.

Já trabalhei para a Rosa de Ouro fazendo cavalos alados, fiz trabalhos para a Barroca da Zona Sul, escola de samba de São Paulo. Se me chamam para fazer algo assim, fico o dia inteiro, vou criando, não saio mais de lá. Gosto dos trabalhos com criatividade, mas meu ganha pão está sendo outros tipos de serviços, como os banheiros rurais, reparos e carenagens.

Mas se você ficasse em São Paulo trabalhando com as escolas de samba, não daria para tirar uma boa renda?

Se eu me dedicasse a isso, certamente tiraria uma boa grana. É que agora estou longe da capital. Se eu mandasse um e-mail para alguma escola de samba falando do meu trabalho não teria problemas em encontrar serviço. Quando estava em Araçatuba, queriam me pagar R$ 5 mil só para fazer escapamentos de competição em fibra de carbono para o Alexandre de Barros. Não me interessei. Queria ficar mais livre, acho. Não estou mais na idade de virar funcionário de alguém.

Entre os pioneiros da fibra que Eduardo conheceu estão Sid Mosca, designer de capacetes da Fórmula 1, e Homero Naldinho, influente criador de pranchas de surf

Por que resolveu investir na produção de banheiros químicos para ônibus?

Quando cheguei a Barra Bonita abri a janela do meu quarto um dia, vi a cidade e pensei: “Eu mexo com fibras. O que vou fazer aqui no interior, onde nada estraga ou corrói?”. Então olhei para o canavial e pensei de novo. “Espera, vou ter que fazer algo relacionado a isso”. Foi assim que surgiram os banheiros rurais.

Estes banheiros são os produtos que mais contribuem com sua renda?

Atualmente eles me dão maior e mais rápido retorno financeiro. Se bem que vendo muitas peças de motos por aí.

Como eles começaram a dar resultado?

Um senhor de Jaú pediu a alguns profissionais que fizessem banheiros para ônibus rurais para ele, mas nenhum conseguiu. Então mostrei a ele o meu trabalho e ele me passou o projeto de como queria o banheiro. Em uma semana fiz o produto. Esse senhor, inclusive, sentou no banheiro para testar! (risos) No ano passado, ele comprou muitos destes, mas eram do modelo que ele tinha me passado. Como eu já tinha feito muita coisa por aí, pensei em fazer um design de banheiro que fosse meu. Fiz um menor, mais arrojado e bonito que serviria para ônibus, barcos, trailers, rodoviárias, entre outros lugares. Cabem 34 litros de dejetos nele. O único problema desses banheiros químicos é o odor, mas tenho um projeto para um banheiro que não sofrerá desse mal.

“Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira”

É difícil aprender a mexer com fibras?

Não é difícil, mas quem quiser precisa se preparar para enfrentar a coceira. Quem não está acostumado a mexer com os materiais que uso aqui vai ficar se coçando pelos primeiros dois ou três meses. Depois para. É bom que alguém aprenda a mexer com fibras, porque é uma ocupação que dá futuro, quase tudo usa esse material hoje em dia.

Muita gente trabalha com fibras de carbono no Brasil hoje em dia?

Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. São pouquíssimas pessoas mesmo. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira. Nas três empresas onde compro meu material ninguém conhece quem são as pessoas que mexem com fibras de carbono.

Eduardo e um pedaço de fibra de carbono, material do futuro, utilizada em carros de Fórmula 1

Em 1971 o senhor foi para Buenos Aires. O que foi fazer por lá?

Naquela época eu mexia com rádio amadorismo, lembro até que meu prefixo era TX-20832, e aprendi a falar castelhano conversando com argentinos. Acabei conhecendo uma argentina que foi até São Paulo me ver, depois voltei com ela para Buenos Aires. Quase me casei por lá. (risos) O pai dela tinha uma indústria de curtume muito grande chamada El Cuero e até achei bacana todo o processo, mas não quis trabalhar com aquilo. Como já mexia com fibras na época, fui convidado para trabalhar num hotel muito chique de lá. Então fiz o formato das camas arredondadas, molduras de quadros, entre outras coisas. Viajei pela Argentina toda nessa época e me aperfeiçoei muito. Os argentinos eram muito caprichosos e técnicos quando trabalhavam com a fiber glass.

E depois que voltou ao Brasil, o que fez?

Montei uma empresa própria de fibra no Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Minha vida por um tempo foi consertar carros Puma. A empresa que fazia o carro me mandava casos que precisavam de consertos e reparos que ela própria não fazia. Fiz muitas réplicas que me pediam também, como Ford 29 e jipes.

Há um carro que você fabricou sozinho. Como ele foi feito?

Levou um ano e meio pra terminar de fabricá-lo e já o tenho há 23 anos. Como ainda não existia fluoretano para facilitar, a matriz dele foi toda feita em eucatex e gesso. Fiz tudo: para-choque, grades, portas, capô, etc. O chassi, a suspensão e o motor dele são de uma Brasília e a transmissão eu tirei de um SP2. É levinho, só a carroceria pesa menos de 200 quilos. Com ele rodei o Brasil todo até Manaus e Acre. Da última vez que viajei com ele andei 10,5 mil quilômetros e não usei uma única ferramenta! Tive que projetá-lo a partir do zero praticamente, foi uma das criações que mais me deu trabalho até hoje.

Você morou um tempo na praia. Conheceu muita gente que sabia trabalhar com fibras por lá?

Resolvi mudar para a praia e me instalei em Ubatuba. Lá eu fazia muitos modelos de pranchas de surf. Trabalhei com o Hamilton Prado por seis anos, ele é dono de uma das maiores fabricantes de skate do Brasil. Ele era muito criativo, fizemos muitas coisas com fibra e nos tornamos grandes amigos. O Homero Naldinho, precursor e maior fabricante de pranchas do Brasil, era um mestre em mexer com fibras de vidro, injeções de fluoretano e dar forma a pranchas. O outro que conheci foi Sid Mosca, pioneiro em produção de capacetes para Fórmula 1. Ele está um pouco adoentado agora, é um grande amigo meu… (se emociona) Todos os capacetes do Schumacher, todos do Barrichelo e do Massa foram feitos por ele. Foi o primeiro cara com quem conversei sobre fibras de carbono na vida, e isso há 16 anos. Acredito que uma pintura de capacete dele deva custar uns R$ 15 mil. Seus capacetes de carbono têm seis malhas (camadas) de fibras, da mais fina para a mais grossa. Foi esse pessoal aí que brincava de professor pardal comigo anos atrás. (risos)

Já fez algum trabalho com o Sid Mosca?

O primeiro que fizemos juntos foi uma pista de boate, muitos anos atrás. Era uma pista de 40 metros quadrados, com oito milímetros de espessura e transparente, porque as luzes vinham de baixo do piso. E o piso tinha que aguentar o pessoal, era uma discoteca de verdade. Capacete com o Sid eu fiz apenas um, mas meu forte na época eram fibras para carros. Depois passou para motos e agora vamos ver o que acontece daqui para frente.

“Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai”

Você já construiu barcos e escunas com madeira. Foi algo que planejou fazer?

Quando cheguei em Ubatuba, perguntei: “Onde é que vou usar meus serviços com fibra aqui?”. Então comecei a fazer tanques especiais para barcos de pesca. Depois fiz botes salva-vidas. Até que conheci um senhor que fabricava embarcações e tinha 50 anos de experiência nisso. Comecei a aprender com ele e trabalhamos juntos por quase quatro anos. Logo depois comecei a fazer barcos no quintal de casa, que era muito grande. Comecei a entender que tipos de madeira usar para fazer o fundo da embarcação, a lateral, as partes internas, etc. Fiz seis escunas para grã-finos e a maior delas tinha 30 metros. Ao todo, devo ter feito uns 20 barcos de pesca de até 14 metros de comprimento.

Com tudo isso no currículo, o que veio fazer em Barra Bonita?

Uma firma de Recife estava com problemas em uma embarcação aqui em Barra Bonita e não encontrava ninguém que resolvesse o problema. Então me dispus a vir para cá fazer o serviço. Não sabia nem onde ficava esta cidade, vim com a ajuda de um amigo. Em uma semana fiz o que tinha que fazer, mas logo emendei em outro serviço, depois em mais um barquinho, fui bem recebido aqui, fiz amizades, achei a Barra bonita e acabei decidindo ficar. Saí do certo e vim para o duvidoso.

“A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!”

Mas não foi uma decisão duvidosa até demais?

Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. É como um médico, que arruma o que fazer em qualquer lugar. Se eu não arrumasse trabalho aqui, arrumaria em Jaú, ou Bauru, em cidades maiores talvez. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai. Para trabalho, essa cidade me traz muito pouco retorno. Mas ela é linda, o povo é hospitaleiro e é muito mais arrumada do que muitos lugares que visito pelo país.

Parece que o senhor não tem medo de mudar sua vida de direção.

Não mesmo, não tenho medo do mundo! Não fiz faculdade, mas estudei muito e viajei para fora do Brasil. A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!

Seu espírito criativo vem dessa disposição e da falta de medo que diz ter?

Acredito que sim. Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna. Meu pai tem 84 anos e se alguém quiser assaltá-lo terá de ser com injeção, porque ele nunca precisou de uma. Ele não tem uma única dor na unha, porque ele é alegre o dia todo. Esse é o maior remédio que pode existir! Às vezes vejo na padaria logo cedo umas caras verdes, amuadas, tristes, problemáticos… sei que todos têm problemas, mas com cara feia o conflito aumenta.

Depois que terminar a escultura do Predador, o que gostaria de fazer?

Gostaria de ter condições de criar mais coisas, gosto dos desafios, só preciso de tempo. Sempre acredito que as coisas vão dar certo no final, então já acordo com o pensamento positivo. Dificilmente alguém me vê triste. Assim, a coisa fica mais fácil.

"Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna", diz Eduardo

“Ainda tenho muito a mostrar”

Muito à vontade, Dominguinhos fala sobre suas inúmeras parcerias musicais, seu medo de voar e até do que pensa sobre a política

Eram três horas da tarde de domingo quando Dominguinhos, um dos maiores ícones da sanfona brasileira, desceu as escadas do Hotel Turi em Barra Bonita, bem à vontade. Usava chinelos, uma calça bem folgada e camisa de linho listrada. Não usou o seu tradicional chapéu nem na coletiva de imprensa e nem na hora do show. Quando um grupo de pessoas percebeu que o sanfoneiro pernambucano subira ao palco sem o habitual elmo, gritaram: “Dominguinhos, o chapéu! Põe o chapéu!”. “Ô, minha gente”, ele respondeu antes de começar a dedilhar seu instrumento, “esqueci o chapéu lá em Lins” (cidade onde tinha se apresentado na noite anterior).

Meu encontro de quase uma hora com o músico de 69 anos de idade foi muito proveitosa. Acompanhado por outros jornalistas, a entrevista deu uma geral na carreira, falamos de suas inúmeras parcerias com outros artistas renomados, de sua infância e lembrou de Luiz Gonzaga, mestre do baião e seu mento no início da carreira. Comentou o seu medo de viajar de avião e, quando perguntado sobre política, revelou que pretende votar no governador José Serra este ano, a quem se referiu como “o careca de São Paulo”. Mesmo sendo pernambucano, deixa claro que não é um fã do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu conterrâneo.

Dominguinhos é pai de três filhos e tem mais de 60 anos de carreira, visto que começou tocar ainda criança. Seu primeiro álbum, Fim de Festa, foi gravado em 1964. Já o último, Dominguinhos Iluminado, é instrumental e está cheio de participações, como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Yamandu Costa, Arthur Maia, e outros. Mas o cantor diz que não deve parar por aí. “Tenho muito material guardado, mas não tenho para quem mostrar, não tenho quem gravar”.

Dava uma fita K7 para o Chico Buarque e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos!

O senhor lembra-se de já ter tocado com um grupo da cidade, chamado Tribo Terra, e participou com eles até num festival da Rede Globo?

Foram dois acontecimentos em Barra Bonita, tocar com esse grupo e o projeto Asa Branca. Toquei em Lins ontem e percebi que eles são muito carentes de música do Norte. Notei que lá tem muitos “cabeças-chatas”, muitos conterrâneos meus. Na Barra o fluxo de turistas é maior e é uma cidade mais próxima de São Paulo. Fico triste por não ter trazido meu netinho de um ano e cinco meses para andar de barco e passear nos parques daqui.

Reside onde atualmente?

Em São Paulo. De lá vou para qualquer lugar.

E o pique de tocar ao vivo? Você tem datas agendadas até o meio do ano.

Para mim é mais difícil cumprir a agenda porque eu ando de carro. Ele é  muito lento e cansativo para vencer determinadas distâncias e datas. Pelo menos no estado de São Paulo andamos muito bem, porque as estradas são boas. Dá pra varar 250, 300 quilômetros sem problemas. Já no Nordeste, fazer essas distâncias é muito sofrido. Andei de avião por mais de 30 anos, mas há 25 que não voo mais. Deu medo e parei, mas estou pensando em voltar.

Teve algum problema em voo para desistir de voar?

Não, nada me aconteceu. O medo foi chegando, chegando.

Depois de tocar no interior de São Paulo, vai para onde?

Bom, por enquanto estamos nesse projeto com a Casa de Cultura e Cidadania até o dia 1º. Depois vou para o Nordeste participar de uma homenagem à Ciburca com a Orquestra Sinfônica da Paraíba em João Pessoa. Chico César atualmente é o secretário de Cultura de lá. Depois, vem a época junina, e aí aparece bastante trabalho na Bahia, Paraíba, em Sergipe e Pernambuco.

O senhor já fez parcerias com muitos músicos renomados, tanto em shows como em composições. Uma das últimas parcerias foi com Yamandu Costa no álbum Yamandu + Dominguinhos. Como essas parcerias acontecem?

Acho que é  por causa da simpatia com o trabalho de cada um, não tem outro motivo. O Yamandu, por exemplo, conheci em um ensaio no Rio Grande do Sul, junto de Renato Borghetti e de outro bamba do acordeom, Luiz Carlos Borges. O Yamandu tinha 15 anos na época e apareceu por lá com o violão debaixo do braço. Disse que gostava muito do que eu fazia, tocou algumas músicas minhas e resolvemos tocar juntos. Foram participações pequenas aqui e ali, até que ele apareceu com a proposta de fazermos um disco solado juntos. E fizemos, lançado pela Biscoito Fino. Depois fizemos o DVD, gravado pela TV Cultura. E fiz mais discos de solos, com o Iluminado, com várias participações, um de frente pro outro, bem à vontade para solar.

As bandas novas colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo!

O senhor também é da célebre época do Riocentro. Pode nos contar um pouco sobre esses anos e os amigos que fez por lá?

Nessa época encontrei o Gilberto Gil, a Gal, o Caetano, o Chico Buarque, e vários outros. Éramos amigos, todos novinhos e tocávamos juntos, andávamos juntos. As reuniões que fazíamos no Riocentro eram constantes. Lá eu tocava sempre com Paulinho da Viola, Moraes Moreira, Jorge… Ninguém tinha grupo direito, cada um levava um instrumento e tocávamos. Era um movimento da turma daquele tempo.

Foi dessa época que saíram várias de suas célebres parcerias. Demora para que elas saiam do papel?

Essas amizades e parcerias vêm de muito tempo. Uma vez, perguntei ao Chico: “Chico, tem como fazermos uma melodia juntos?”. Aí eu dava uma fita K7 para ele e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos! (risos) O Gil também demora. Agora ele está colocando letra numa música minha para um disco junino. Não sei se vai terminar a tempo. Dei uma fita uma vez para o Djavan e ele mostrou para o Orlando Moraes, marido da Glória Pires. E o Orlando fez a letra antes que o Djavan. Aí, não sei se ele ficou com vergonha ou o que, mas resolveu gravar a música. E o Orlando gravou também. Mas sempre foi assim, sem afobação e sempre por amizade.

Como sua música é vista no estado de São Paulo?

É difícil responder. Neste estado trabalha-se mais com cantores sertanejos, os chamados “caipiras de luxo”, que fazem grandes produções. Tem muitos rodeios e vaquejadas, mas nós, cantores nordestinos, não entramos na programação dessas festas.

Os prêmios Grammys que o senhor concorreu consideraram sua música como regional, mas o baião, o forró e o xote são considerados estilos musicais brasileiros nacionalmente reconhecidos. O que acha dessa rotulação de “regional”?

Pois é, acho que deveriam acabar com essas divisões de sertanejo, MPB, etc. Deveriam acabar com os rótulos.

Em 60 anos de carreira, 50 só de profissional, sabe quantos álbuns vendeu?

Nunca soube ao certo. O Roberto Carlos, que está comemorando seus 50 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos. Eu não sei como conseguiram esses dados, é algo bem difícil [de contabilizar]. Geralmente as contas de gravadoras são fechadas.

O público mudou muito nesses 50 anos?

Hoje acho que o público é mais informado, a garotada parece mais interessada, ela vê mais coisas pela televisão, os pais falam de determinados artistas ou são nordestinos. A informação começa dentro de casa, na escola, com os avós.

O que acha dos novos grupos de forró  que estão aparecendo?

Gosto muito. Mesmo as bandas do Ceará, da Paraíba e Pernambuco, que sabemos que não fazem um forró verdadeiro, nos ajudam muito falando do que fazem. No entanto, o grande acontecimento da música nordestina são os trios. Como o Falamansa, Trio Virgulino, Chamego, Sabiá, e por aí vai. A fórmula é a mesma: zabumba, sanfona, triângulo, pandeiro.

E o forró  atual, o forró universitário, o tecno-brega?

Não houve uma transição de ritmos, continua a mesma coisa. A mudança foi com as bandas. As novas bandas de forró fizeram com que toda a [atenção] da música nordestina convergisse para elas, de uma forma que quem quiser se estabelecer tem que ter as características delas. Eu uso baixo e guitarra na minha banda, mas não abandonei o triângulo e a zabumba, que não me deixam fugir [do padrão]. E as bandas novas ainda colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. (risos) Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo! (gargalhadas) São bandas que se produzem e fazem grandes produções, como Calcinha Preta e Aviões do Forró, mas que de forró não tem nada.

Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos.

Tem algum artista que apareceu da década de 1990 pra cá  que o senhor admira?

De 90 pra cá? Tem o Djavan, mas esse já tem um grande tempo de carreira. Eu estava no Rio quando ele apareceu, fazendo aquele samba bem balançado do começo da carreira dele. Um novo de que gosto muito é o Jorge Vercilo. Cantoras não, elas vêm de penca. São muitas que apareceram pra gente escolher. Desde Ana Carolina até Mariana Aydar e minha própria filha, Lívia Moraes. Hoje, quando um artista estoura, ele já tem 10, 15 anos de carreira.

Um mestre do senhor foi Luiz Gonzaga. Desde seu primeiro disco, Fim de Festa (1964) até o seu mais recente registro ao vivo, em 2009, muitos artistas apareceram dizendo que o senhor é uma referência para eles. Além do mais, o senhor mudou o jeito de se fazer baião e forró.

Luiz Gonzaga mudou o jeito de se cantar e de se acompanhar o canto. Ele foi único nisso, nunca vi outro que cantasse e tocasse sanfona como ele na música nordestina. E eu estava ali ao lado dele! Mas vários músicos me ajudaram: Chiquinho do Acordeom, Orlando Silveira, os [violões de] sete cordas Dino, Rafael Rabelo e agora o Yamandu. Dei sorte com os sete cordas. Passado o tempo, fui mudando a estrutura do baião e do forró. O baião era “liso”, e comecei a tocar um baião chorado. Pegava alguns sambas e choros, mudava algumas coisas e os transformava em baião. O forró surgiu quando Gonzaga mudou a batida da zabumba. Quem comanda verdadeiramente o forró é o zabumbeiro, é ele quem conhece as batidas e encaminha o resto da banda. Toquei na noite, fui músico de boate por muito tempo, toquei muita música americana. Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos. (risos)

O compositor erudito Maurice Ravel, pouco antes de morrer, chorou em uma apresentação de uma de suas obras em Paris e lamentou por ter tantas ideias ainda para mostrar e não poder por causa de seu estado de saúde grave. Depois de 50 anos de carreira profissional, o senhor sente que ainda tem muito a mostrar como compositor?

Acho que não tenho a quem mostrar, porque muita coisa armazenada eu tenho. O Hermeto Paschoal também tem muita coisa guardada. Ele levou um bom material de música clássica para a Alemanha. E sua música fez o maestro da orquestra chorar. Ele quis saber o porquê do choro e o intérprete disse que o motivo era a beleza da música do Hermeto, porque o maestro nunca tinha ouvido nada como aquilo. Ou seja, a gente tem muita coisa armazenada que não tem como e com quem gravar. Hoje em dia, os artistas estão fazendo trabalhos inteirinhos autorais porque as editoras estão criando muitas dificuldades para se gravar. É muito caro por um disco na praça! Levou mais de um ano para que minhas próprias músicas fossem liberadas para gravar o meu DVD. Então, os artistas começam a gravar apenas material próprio, para não encontrarem barreiras.

Vamos falar agora do seu lado político. Como foi seu relacionamento com o ex-governador Mário Covas?

Ele me chamava no Palácio dos Bandeirantes para tomarmos café, era uma pessoa muito aberta. Mas meu relacionamento com ele, e com todos os outros [políticos], era esporádico. Políticos vivem em outro mundo, é outra coisa. Eu não faço música para eles, é uma agência que faz e me chama para cantar. E agora nós não podemos mais fazer shows em campanhas de políticos.

E o que acha de não poder mais fazer shows em comícios políticos?

Acho muito ruim. Se eu vou participar de campanhas pelo nordeste, fica um monte de gente numa praça para ver o show. Ninguém fica ali esperando um candidato falar. As pessoas já sabem que ele vai mentir o tempo todinho, vai falar sobre o que nunca fez e o que “pretende” fazer. Então precisa ter uns conjuntinhos tocando para entreter o povo. Agora que isso acabou, não sei o que vão arrumar para substituir os shows.

O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado

O senhor acompanha a política atualmente?

Se tiver que falar de algum lugar, falo de São Paulo. Gosto do careca que está lá, um cara que conheço há muitos anos e está na luta. Meu voto não é mais secreto e sem dúvida nenhuma vou votar nele [José Serra], e não em quem o Lula determinar, porque ele está muito folgado! Ela está desconhecendo muito das coisas que devemos respeitar, está se achando o dono da cocada preta. Isso é muito ruim. E ele vem de uma era em que a humildade foi a maior arma que usou para vencer. Ou não, porque o Lula sempre foi muito sagaz.

Acha que o eleitor brasileiro está bem preparado para votar?

Acho que as pessoas estão mais informadas, porque a mídia está martelando dia e noite nos erros e acertos do governo, fazendo com que quem está  no poder tenha até raiva dela. O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado. As autoridades têm que tomar cuidado com o rabo. (risos) A mídia está informando e está dando oportunidade para as pessoas falarem também. Isso é muito bonito. Sabemos que tem muita gente querendo calar a liberdade de expressão, como acontece na terra do Hugo Chávez e na ilha do “charuto”, o Fidel Castro. Contudo, o Brasil está mudando muito e acho que teremos melhores políticos no futuro. Isso se as famílias deixarem, porque as dinastias são muito grandes! (gargalhadas)

O senhor começou a tocar ainda menino.

Meu pai e meu irmão mais velho eram tocadores de sanfona. Meu pai nunca me deu conselhos, cresci numa família de 16 irmãos. Eu comecei a ajudar em casa aos oito anos, tocando pandeiro na feira com meus irmãos Moraes e Waldomiro, que tocavam uma sanfoninha e um instrumento de sopro chamado mele. Esse mele meu pai fazia com borrachas de câmara de ar. A gente tocava para ganhar uns trocados. Quando viemos para o Rio, em 1954, fui tocar numa churrascaria gaúcha com meu pai. Tocava nas mesas com um garoto repentista do Rio Grande do Sul chamado Garoto de Ouro. Ganhávamos muita gorjeta e entregava toda a minha parte para o meu pai. Até que ele juntou dinheiro suficiente para buscar o resto dos filhos em Garanhuns [cidade natal de Dominguinhos].

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado. Afinal, as pessoas que nos levam para o mau caminho têm um poder incrível de persuasão. Mas eu nunca me envolvi com essas coisas. Continuei tocando. As coisas começaram a acontecer em 1964, quando lancei meu primeiro disco.

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado

Faz planos para o futuro? Trabalha com metas?

Em minha vida toda, nunca fiz planos para o futuro. Mesmo depois de 69 anos de vida, se me perguntam o que vou fazer daqui pra frente, não tenho resposta. Não faço planos e acho que a vida é isso. Você acorda todo dia e pensa no que tem pra fazer. Se não acordar no dia seguinte, já foi! (risos)

O senhor é muito humilde, não tem o estrelismo de alguns artistas.

O artista canta, dança, toca seu instrumento, pinta uns canecos… Mas quando sai do palco está sujeito a muitas coisas, igual a qualquer pessoa. Ele tem que pagar suas contas, pegar dinheiro emprestado e viver a labuta do dia a dia. E eu sou o que? Também fico aperreado! (risos) Ainda trabalho, minha família depende de mim. Em 2006, operei meu pulmão, mesmo nunca tendo fumado. Estou me tratando sempre e vivo como se não tivesse nada. Sigo cantando e tocando.

Financeiramente, a carreira do senhor valeu a pena?

Honestamente, não. Se eu estivesse na Europa ou nos Estados Unidos com todas as músicas que tenho gravadas e recebendo os direitos autorais, não precisaria mais tocar por aí. Acho que ia tocar só no terreiro de casa com os amigos. Chega um momento em que você não acha mais que é legal ficar fazendo graça com um instrumento que pesa 13 quilos no peito – e ter que mostrar serviço sempre que toca. Isso dá uma certa agonia. É melhor fazer como o Ronaldo. Parar aos 33 anos, quando está bem de vida. Pra que ficar ouvindo ser chamado de gorducho, não é? Deixa ele tomar sua cerveja a vontade! Eu, felizmente até, preciso continuar trabalhando, porque a música dá esse ensejo. Veja a Inezita Barroso. Ela está com mais de 80 anos, tem uma voz forte e é respeitadíssima. Acho que ela é a coisa mais importante que existe na música caipira do Brasil. E ninguém fez ainda esse reconhecimento para ela. Ela deveria ter sido convidada para o show do Roberto Carlos. Ainda bem que levaram o Tinoco, que fez um discurso arretado que foi ao ar pela metade, mas esqueceram da Inezita. Na idade dela – e tomando conta de um programa de televisão como dela – não conheço outra pessoa.

Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

MPB pra alemão ver

Texto de Lucas Scaliza Fotos Divulgação

Katharina Ahlrichs (6)-2
Katharina Alrichs e sua banda, Sessão. Eles vêm ao Brasil para uma série de seis shows mostrando composições próprias e clássicos da MPB

A cantora alemã Katharina Ahlrichs é apaixonada pela MPB e volta com a banda Sessão da Noite para shows no Brasil

A banda alemã Sessão da Noite, comandada pela cantora Katharina Ahlrichs, está fazendo uma mini-turnê pelo Brasil. O grupo deixou a cidade de Dresden, no leste da Alemanha, e a turnê germânica que faziam atualmente para aterrissarem no Brasil para uma série de seis shows que começam em Salvador, na Bahia, e passam pelas cidades de São Paulo e Barra Bonita, seguem para Joinville, em Santa Catarina, e terminam com duas apresentações em Barbacena, Minas Gerais.

Katharina Ahlrichs tocará acompanhada pelos músicos Janco Bystron (bateria), Sina Fehre (baixo), Dirk Haefner (violão e guitarra) e Lars Maeurer (piano). A banda foi formada por Ahlrichs com o intuito de tocar os clássicos da música popular brasileira, além de compor músicas próprias. Essa paixão pela MPB só foi despertar na cantora (que canta e fala muito bem o português) depois de ver um show de música tupiniquim em sua cidade. Na hora de preencher uma ficha de intercâmbio da AFS informando para quais países gostaria de ir, preencheu todos os campos disponíveis com o nome “Brasil”.

No MySpace dela é possível ouvi-la cantar MPB em português, inglês e alemão. Nos shows, será possível comprar o novo CD do grupo, Telescópio.

Entrevistei Ahlrichs por e-mail. Ela fala sobre como era viver na Alemanha dividida em dois lados durante a Guerra Fria, sobre o “jeitinho brasileiro” e música, claro.

 

Katharina, quando começou a sua relação com o Brasil? Morou aqui por muito tempo?

Quando tinha 16 anos fiz intercâmbio no Brasil por meio da AFS. Quando fui escolhida por esta organização ainda não tinha a mínima ideia para onde queria ir. Mas uma semana antes da decisão final, ouvi por acaso um show de música brasileira na minha cidade. Fiquei tão encantada e impressionada que pus no papel da AFS 10 vezes “Brasil!!”, em vez de 10 alternativas de países para onde gostaria de ir. Tinha que ser Brasil mesmo!

Fiquei um ano com uma família no interior de São Paulo – primeiro em Mococa e depois em Jaú. Isso foi de 1991 a 1992. Nestes últimos 17 anos voltei várias vezes para o Brasil e, contando tudo, morei uns dois anos por aí.

O que você mais gosta no Brasil? Quando chegou aqui, qual foi a característica deste país que mais te surpreendeu?

Foi a música brasileira que chamou a minha atenção primeiro. Adoro bossa nova e MPB. Os meus heróis são Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Joice, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan, Caetano Veloso e João Bosco.

Mas a primeira coisa que aprendi ao chegar ao Brasil é o grande coração e a gentileza que as pessoas daí têm. Eu me senti bem recebida, todo mundo me ajudou a me virar nessa cultura, nessa língua. E o “jeitinho brasileiro” me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for.

A sua infância deve ter passado pela fase em que a Alemanha ficou dividida entre os lados Ocidental e Oriental. Em qual desses lados você morava? Como era a vida de uma criança num país dividido? Quais eram os sentimentos da população quanto a essa divisão?

Muitas famílias e amizades foram divididas pela fronteira. A geração dos meus pais sofreu muita saudade e desespero por causa disso. Eu tinha 14 anos quando o muro caiu. Na época, morava numa aldeia muito pequena na Alemanha Ocidental, mas muito perto da fronteira. Era um tempo muito emocionante para nós, porque nos sentíamos livres de uma grande pressão que existia sobre a Alemanha Oriental. Tínhamos amigos no outro lado da fronteira que sofreram por causa da ditadura e que não tinham a possibilidade de viver a própria vida como queriam, por causa do sistema (socialista implantado).

Ficamos superfelizes quando o muro caiu e fomos para várias aberturas da fronteira afim de cumprimentar o pessoal do lado oriental. Tínhamos a grande esperança de que as coisas boas dos dois lados pudessem se misturar com respeito e sabedoria. No fim, não aconteceu bem assim. Foi mais a sensação de que a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental… Mas mesmo assim estamos felizes demais por termos a liberdade da mente, da palavra e do corpo para todos os alemães!

“O ‘jeitinho brasileiro’ me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for”

A Alemanha, 20 anos depois da queda do muro de Berlim, ainda guarda resquícios de um país dividido?

Infelizmente, sim. Por causa da infraestrutura, das locações de indústria e economia, até hoje os salários variam entre os dois lados (no lado oriental se ganha menos). No lado oriental também existe mais desemprego e, por causa dessas coisas, há uma certa frustração ali. Mas há exemplos muito positivos também! A nossa banda, por exemplo, é uma mistura de alemães dos dois lados. O baterista e eu somos do lado ocidental, mas moramos – como o resto da banda – em Dresden: uma cidade linda na Alemanha Oriental. A nossa geração não tem muitos preconceitos e temos uma grande amizade entre nós.

Você sempre gostou e estudou música desde pequena ou a música só apareceu para você em um momento especial da sua vida?

Eu nasci numa família muito musical. Sempre cantamos juntos, cada um tocava pelo menos um instrumento. Sempre adorei fazer música e shows. Assim ficou bem claro para mim que escolheria um caminho nesta área (que independentemente de ser dura, é MARAVILHOSA 😉 e agradeço muito aos meus pais, que me ajudaram e me apoiaram ao invés de ficarem preocupados e rígidos.

“No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha”, diz a cantora alemã Katharina Ahlrichs

Você vive de música hoje ou tem outras ocupações?

Eu vivo de música. Tenho dois conjuntos de música inspirados pelo Brasil, o Luamar ( http://www.myspace.com/luamarduo) e a Sessao. E às vezes eu dou aula de coral e canto e faço shows como palhaço.

 
Que características da música brasileira você ressaltaria como únicas em comparação com a música europeia e norte-americana?

O fator percussivo em todos os instrumentos – não só na bateria – é típico da música tradicional brasileira. O jeito de tocar e cantar as frases é grudado ao ritmo e ao groove da música. Mesmo na bossa nova, em que o canto parece completamente livre do metrum, é assim: sem a percepção do ritmo por dentro, nunca seria possível cantar tão relaxadamente ao lado do ritmo!

No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha, o povo canta junto com artistas num show, conhece as letras. Muitos sabem tocar violão e percussão.

Além dos compositores brasileiros, quem são seus artistas preferidos no resto do mundo?

Adoro Sting, Peter Gabriel, Lenny Krawitz, Maria João, entre outros. Todos eles mexem com influências do mundo inteiro e tem groove!

Em seu MySpace, vejo músicas cantadas em português, alemão e inglês. É fácil transitar em três (ou mais) idiomas?

É uma questão de exercício, de training. Para mim é muito gostoso viajar entre os mundos dessa forma. O interessante é que a técnica de cantar é diferente e a minha voz tem um som diferente dependendo de qual idioma estou cantando. Essa variedade me atrai.

“O meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca, do de Portugal e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia”

O seu português nas músicas é perfeito. Ouvindo, ninguém diria que se trata de uma estrangeira.

Obrigada! 😉

 Foi difícil pegar fluência na língua? Levou muito tempo para aprender?

Lembro que demorou uns dois meses até eu começar a entender (quase) tudo. E mais dois meses para poder dizer (quase) tudo que queria. O resto do tempo eu tentei treinar a ‘elegância’ do meu jeito de falar.

Adoro viajar, conhecer outros lugares, pessoas, culturas e sou muito chegada a línguas. Mas é claro que até hoje sempre me deparo com palavras que faltam ao meu vocabulário e com erros. Imagino também que o meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca (que ouço em tantas músicas), o de Portugal (pior que é…) que peguei nas minhas viagens para lá e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia.

Existe música brasileira tocando nas rádios da Alemanha ou da Europa? Europeus têm acesso fácil ao que é produzido no Brasil ou esse é um mercado de nicho?

A música brasileira é bem conhecida numa certa cena da Alemanha. Pelo menos a bossa nova é conhecida, que é tão grudada ao jazz, e a MPB. Nas rádios de alto nível cultural toca-se muito Bebel Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Djavan, Marisa Monte, etc. Os alemães também gostam muito de batucada e capoeira e têm muitos e muitos grupos que tocam esta música.

Você cursou Ciências Culturais na faculdade e se especializou em palhaço. Como decidiu fazer este curso e por que se especializou em palhaço?

O curso de Ciências Culturais oferece uma grande variedade de matérias. Ao lado da música, estudei teatro, psicologia e management (gerência) de cultura. Achei importante, porque sabia que ia trabalhar com isso independentemente. Sabia também que todas essas disciplinas poderiam me ajudar na profissão.

Depois da universidade eu fiz o curso de palhaço, porque sou uma pessoa que quer ficar no palco e que é muito interessada em trabalhar com emoções e com “a verdade do momento”. O palhaço é tudo isso e o que aprendi naquele curso, que durou um ano e meio, ajuda na minha presença no palco.

A sua banda tocará em Salvador, São Paulo, Barra Bonita e Barbacena, segundo a agenda de seu MySpace. Que tipo de show você preparou para essas cidades?

É basicamente o mesmo show, mas com diferenças em relação ao tempo que temos e o lugar onde tocaremos. Em Salvador e Barbacena procuramos também convidar outros músicos para tocar no palco, pois tocamos em universidades de música, e – especialmente em Salvador – vai ser um show muito “jazz”.

Em todos os lugares será uma mistura de música original do Brasil e composições próprias da gente que gostaríamos de apresentar ao público. Estou superfeliz de ter a oportunidade de tocar música brasileira no próprio país em que ela nasceu. Como somos alemães, me parece algo bem exótico! J E mais ainda porque apresentamos nossas próprias composições também! Estamos muito ansiosos e esperamos que todos gostem! 🙂

Para terminar: a arte salva?

Salva sim! Cada vez que ouço uma música que gosto fico emotiva, começo a sorrir ou a chorar. A razão de eu ser uma pessoa positiva tem a ver com a força da música. E se eu conseguir chegar até as pessoas e tocá-las com o meu canto, recibo tanta energia boa que faz bem viver! Isso é o meu lado. Agora, quanto as pessoas que ouvem a música, minha experiência mostrou que algo da minha alegria e da minha paixão viaja até o público e toca as pessoas. Se é assim, é maravilhoso!

Katharina Ahlrichs (7)-2
O baterista Janco Bystron

Adeus, Yolanda

Texto e fotos de Lucas Scaliza

 

“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer
“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer

 

A entrevista abaixo foi publicada no jornal Expresso Tietê do dia 17 de julho deste ano. Entrevistei Yolanda Jacomini na manhã de uma terça-feira. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, menos de 24 horas após nossa conversa. Essa ficará marcada em minha história.

Comer, dormir e trabalhar. São os três elementos que Yolanda Maniero Jacomini considerava as melhores coisas da vida. “Tudo é bom, mas essas três coisas são essenciais”, ela disse animada. Todos os dias ela acordava ainda de madrugada (3:00 AM!) para dar início a seu trabalho. Yolanda era proprietária do Hotel e Restaurante Cristal, localizado no centro da cidade. O telefone do local, quando entrou em atividade, era o número 40.

Lá atrás, em 1955, o hotel era apenas um bar comprado por seu marido, José Antonio Jacomini, que vislumbrou o grande mercado que poderia abocanhar quando a barragem e eclusa barra-bonitenses começaram a ser construídas. De seus 74 anos de idade, Yolanda passou 54 dedicando-se ao hotel e disse que não pretendia deixar o ofício. “Enquanto minha cabeça estiver boa, continuarei trabalhando”, declara.

Os hotéis estão no sangue da família. Os três filhos de Yolanda – José Luiz, Roseli e Rilton Rogério – foram criados à sombra do trabalho dos pais no hotel e hoje cada um deles comanda um novo estabelecimento. Rilton tem o Hotel Príncipe, Roseli tem o Hotel Vitória e José Luiz montou o Stillus Motel. Além disso, Yolanda fora sócia-proprietária anos atrás do hotel Beira Rio, que hoje pertence ao seu irmão, Moacir Maniero.

Yolanda concedeu esta entrevista a mim na manhã de terça-feira. Estava alegre, com brilho nos olhos. Ninguém esperava que este fosse seu último registro em vida. Na quarta-feira, dia 15, Rilton veio me contar sobre o falecimento de sua mãe. Ela acordou e desceu para trabalhar como sempre fez. Algumas horas depois foi acometida por uma parada cardíaca fulminante. Yolanda errou. A cabeça estava boa, o coração é que precisava de atenção.

A senhora passa o dia todo no hotel? – Agora eu tenho um apartamento no hotel e moro aqui mesmo. Todos os dias eu acordo às 3 horas da madrugada, tomo café e desço para trabalhar. Acordo cedo faz muitos anos, desde quando precisava preparar o almoço para os funcionários da companhia de força e luz antigamente. Aí acostumei. Eu gosto de acordar cedo.

A senhora dorme cedo também? – Quando é 21 horas já estou na cama.

Nem vê a novela? – Só as que passam antes desse horário. [risos] Trabalho até o meio dia e depois fico de folga o resto do dia.

“Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar”

O que a senhora faz nessas horas de folga? – Descanso um pouco, vejo uma novelinha e alguma outra coisa na televisão e depois durmo. Gosto de ler revistas, jornais e a Bíblia também. Leio o que eu tiver na mão. Sempre gostei de ler, mas nunca tive muito tempo para isso. Agora que só cuido do hotel, e não mais do restaurante, tenho tempo.

A senhora já se aposentou? – Aposentei-me faz um ano. Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar.

Ainda hoje a senhora é uma mulher animada que mostra disposição. Sempre foi assim? – Sempre, sempre. Tem clientes que dizem que sou a mãezona deles, porque procuro dar atenção a eles e não fico nervosa facilmente com qualquer coisa. Não estou nem aí, se acontecer alguma coisa logo entramos num acordo. [risos]

Muita gente diferente passa pelo hotel. É fácil lidar com todas elas? – É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas. Gosto de ver gente e gosto de trabalhar com hotéis, por isso estou aqui até hoje. E vou trabalhar até o dia em que minha cabeça parar de funcionar!

Quando a senhora gostaria de parar de trabalhar? – Na verdade, nem penso nisso. Enquanto minha cabeça estiver boa, vou seguir trabalhando. O trabalho faz parte da vida, quem não quer trabalhar está perdendo um pedacinho da vida. Nesta vida eu já fiz um pouquinho de tudo.

Depois de passar 54 anos comandando um hotel, o que é mais difícil fazer aqui dentro? – Não tem nada muito difícil no hotel. A parte que exige mais cuidado é o restaurante mesmo, ali vai muito de gosto. Sempre precisamos ajeitar uma coisinha ou outra.

A senhora não é barra-bonitense. Como chegou aqui? – Nasci em Piracicaba e lá morei e estudei até os 12 anos. Depois minha família se mudou para o Barreirinho e foi lá que comecei a cortar cana. Também morei por dois anos em Igaraçu do Tietê, onde trabalhei como padeira e doceira. Aos 20 anos me casei e desde então estou em Barra Bonita e no hotel.

Como a senhora conheceu seu marido? – Conheci o José Antonio na fazenda do Barreirinho. Enquanto eu cortava, ele puxava a cana. [risos] Naquela época, não dava para namorar no serviço, então a gente só se encontrava nos finais de semana e em algum bailinho de que participávamos, daqueles que começavam às 20h e acabavam a meia-noite. Meu irmão também era amigo do Zé Antonio e colocava lenha na fogueira. [risos]

E quem foi que pediu o outro em namoro? – Ele me pediu em namoro, e pediu permissão ao meu pai também. Não era tão fácil começar a namorar uma moça. Naquele tempo as mulheres não corriam atrás dos homens.

O que o homem tinha que ser para conquistar as moças daquela época? – Primeiramente, observávamos se ele era trabalhador, depois víamos se era honesto, se não era mulherengo. Essas são as coisas que importavam mais na época.

Que lugares a cidade tinha para namorar? – A gente não podia namorar por aí, tínhamos que namorar em casa. Nada podia ser feito escondido ou no escurinho. Há 54 anos, a coisa era assim. [risos]

O humorista Mazzaropi já ficou hospedado no hotel de Yolanda. “Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na ‘vida real’: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem”

De quem foi a idéia de comprar o bar que virou hotel? – Três meses antes de casarmos, o Zé Antonio comprou o bar. Eu comecei a trabalhar no bar também, porque a mulher devia ajudar o marido, não é? Nunca me esqueço de uma vez que fui arrumar uma cama e achei um lote de dinheiro embaixo da cama. Perguntei: “Mas para quê é esse dinheiro, Zé?”, e ele respondeu: “É o dinheiro para pagar o bar, oras”. Ele tinha comprado o bar fiado, [risos] pensando na barragem que estava sendo construída. Depois de um tempo ele comprou um terreno – fiado também.

Se o turismo da cidade fosse ainda mais desenvolvido seria melhor para o hotel? – Nossa, e como seria! O pessoal teria mais novidades para ver e precisaria ficar mais tempo aqui. Do jeito que a Barra está hoje não é ruim, mas podia ser muito melhor.

O que a senhora e os demais hoteleiros da Barra acham que podia ser feito para melhorar o negócio de vocês? – Hum, não sei. Talvez se a cidade tivesse mais atrações os turistas ficariam mais dias aqui. Ao invés de ficarem apenas um dia, ficariam dois ou três. Os turistas que vêm ao meu hotel dizem que vão embora logo porque já viram tudo o que a cidade tem.

E o que os turistas dizem da cidade? – Acham que a Barra é simpática, que o rio é muito bonito, mas que não tem outras coisas para se ver.

Também dizem que a senhora chegou a trabalhar direto por 20 horas. – Em alguns dias eu acordava às 6h e só parava à meia-noite. Era tanto serviço – fazer almoço, servir, limpar, fazer a janta, servir, limpar – que não tinha como parar. Mas o restaurante daqui é mais para o dia-a-dia: com arroz, feijão, carne e verdura, sem muita variação.

O Mazzaropi se hospedou aqui? – Sim, e ficou uma semana por aqui. Os circos vinham para a cidade e vários artistas acabavam passando por aqui. Numa dessas, veio o Mazzaropi. Todo mundo ficava aqui conversando com ele. Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na “vida real”: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem.

A senhora já tirou férias do hotel? – Já saí em férias, mas não muitas. Não gosto de sair muito. Viajei por vários lugares do Brasil e conheci a Argentina e a Itália. Gostei dos outros países, mas acho que o Brasil é único, não o trocaria por nada. Na Itália, por exemplo, a terra parece ser muito fraca e tudo custa muito caro.

A senhora reparou nos hotéis argentinos e italianos? – Ah, a gente olha, aprende alguma coisa e aplica, dependendo do que for. Achei muito seco o atendimento nos hotéis italianos. Eles não dão atenção ao cliente como nós. Para qualquer coisa que perguntamos, logo dizem “não sei, não sei, não sei”. A gente ainda vai até a porta com a pessoa e explica o caminho para ela, se ela pediu alguma localização. Prefiro o Brasil, sem dúvidas.

Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo
Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo