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Scott Pilgrim e a doçura nerd

Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21

Scott Pilgrim vs The World não foi nada bem nas bilheterias norte-americanas e repetiu o fracasso em outras partes do mundo. Não entendi a falta de interesse do público, mas também ainda não tinha visto o filme. Depois de assisti-lo essa semana, não sei mesmo o que foi que aconteceu. Digo com certeza que a falta de interesse não foi motivada pelo filme, que cumpre o que promete e o resultado é pra lá de satisfatório.

No início, a história de Scott Pilgrim (interpretado por Michael Cera) é como a de qualquer outro jovem: rapaz de 22 anos que vive em Toronto, baixista de uma banda em início de carreira, não muito seguro de si mesmo e arranjou uma estudante colegial para suprir o vazio emocional deixado pela ex-namorada (que tornara-se a vocalista de uma banda famosa). Então ele conhece literalmente (literalmente mesmo) a garota de seus sonhos: Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead).

Então a coisa fica insólita. Se quiser namorar Ramona, Scott terá que derrotar seus sete ex-namorados malignos, gente que não teve um bom desfecho de relacionamento com a garota. Acontece que a medida que os confrontos vão ocorrendo, Scott vai se dando conta do quanto é difícil manter esse (ou qualquer outro) relacionamento afetivo. Além disso, sua namorada colegial continua a espreita, acompanhando seus passos, mas Scott não quer quebrar o coração dela.

Os sete ex-namorados malignos de Ramona

O filme á uma adaptação da história e quadrinhos de mesmo nome escrita e desenhada pelo canadense Brian Lee O’Malley. Quando O’Malley começou a publicar Scott Pilgrim, não era nada mais que mais um quadrinista de pouca expressão tentando ganhar a vida. Quando ele levava seus trabalhos a San Diego Comic-Com, praticamente passava desapercebido. Mas Scott Pilgrim, que só terminou de ser publicado no hemisfério norte este ano, acabou virando um peça cultuada e as filas para se conseguir um autógrafo de O’Malley na Comic-Com foram imensas. O autor, como seu personagem, realmente dá a volta por cima.

O filme foi dirigido por Edgar Wright, que já havia feito um bom trabalho na paródia zumbi Shaun Of The Dead. Ele se mostrou um diretor não só versátil, pois Scott Pilgrim vs The World é diferente em todos os aspectos de sua outra produção, mas também apaixonado e fiel a HQ que originou o filme. Desde os primeiros frames até os créditos finais da obra, as principais referências de O’Malley foram preservadas. São piadas nerds com videogames, outras HQs, filmes, seriados e até com a cidade de Toronto (“Eu não sabia que eles rodavam filmes aqui”, diz Scott), sem se esquecer de preservar todos os elementos jovens e agridoces que uma história desse tipo pede.

Michael Cera é Scott Pilgrim e Mary Elizabeth Winstead é Ramona Flowers

Os atores encarnam muito bem seus papéis, com destaque óbvio para o casal Scott Pilgrim e Ramona. Michael Cera faz o jovem ingênuo, nerd e meio perdido no mundo tão bem que pode vir a se tornar, num futuro não muito distante, um dos melhores exemplos cinematográficos do jovem adulto do século 21. Sua doçura natural e seus desejos mesclam-se perfeitamente com suas frustrações, fazendo a história transcorrer bem levemente. Ramona é aquela garota que está tão perdida quanto qualquer outro garoto ao seu redor, mas faz pose de mulher segura, decidida e difícil. Seus olhares e sua interpretação corporal são seus principais charmes o filme, e o diretor os evidencia sempre que pode.

Entretanto, é o visual de Scott Pilgrim que o faz valer a pena realmente. Se A Origem (Inception) é o filme mais engenhoso do ano, Scott Pilgrim é o mais estiloso. A todo momento grandes onomatopéias para socos, chutes, pancadas e toques de telefone invadem a tela de maneira tão natural quanto se estivéssemos lendo um gibi. As lutas contra os sete ex-namorados malignos também impressionam, sempre criando arroubos visuais de tirar o fôlego. Dada a quantidade de “objetos” que são atirados na direção da tela – sejam apenas onomatopéias, notas musicais ou dragões holográficos –, me peguei pensando em como seria a experiência de assistir ao filme numa projeção 3D bem feita.

O visual estiloso do filme é um de seus maiores trunfos

Edgar Wright se preocupou muito com o ritmo de Scott Pilgrim. Ele é veloz, primeiro porque a juventude que deve (ou deveria) compor a audiência do filme tem pensamentos igualmente rápidos, e segundo porque adaptar e condensar seis edições de uma HQ em 112 minutos não é tarefa fácil. Sendo assim, não há grandes planos sequência nem imagens que duram muito tempo em tela. Como muita música é tocada durante o filme todo – desde Sex Bob-Omb (a banda de Scott) até Rolling Stones e T. Rex – a edição de cenas o ritmo e os compassos das canções.

Talvez apenas o final do filme não seja tão criativo quanto o resto da história apresentada, mas não é nada que vá estragar a experiência do filme. Há diversão e inteligência em Scott Pilgrim vs The World. Há doçura nerd e esmero estético invejáveis. E o principal: Scott Pilgrim (tanto o personagem quanto o filme) comunicam-se muito bem com o público que pretendem atingir. Portanto, ainda não consigo entender quais foram os motivos que tornaram a obra um fracasso de bilheteria. Vai ver, faltou o público dar uma chance ao jovem peregrino canadense.

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