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Cópia Fiel

Filme de Abbas Kiarostami é um sopro de honestidade que dispensa a “moral da história”. Quando você menos espera, está andando junto com os protagonistas pelas vielas de Lucignano

"Cópia Fiel" (falado em italiano, francês e inglês) é o primeiro filme que o Iraniano Abbas Kiarostami roda fora de seu país.

Não tenho a pretensão de escrever melhor sobre Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010) do que Marcelo Hessel (@marcelohessel) já fez, mas é importante dizer que o filme te pega de surpresa. Quando você menos espera, está totalmente imerso em sua história, andando pelas ruas de Lucignano, na Itália, com os mesmos pensamentos que a dupla de protagonistas. A produção, dirigida pelo iraniano Abbas Kiarostami (que também dirigiu Gosto de Cereja e Dez), foi uma das boas atrações da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Na história, o inglês James Miller (interpretado por William Shimell) vai até a Itália para divulgar seu livro que versa sobre as cópias na arte e a relativização de seu valor (relativização que, aliás, chega aos extremos: seria o sorriso de Mona Lisa verdadeiro? Ou teria Da Vinci pedido que Gioconda o fizesse?). Logo após sua palestra, conhece Elle, vivida com notável entrega por Juliette Binoche, uma francesa dona de uma galeria italiana há muitos anos.

A princípio, o escritor precisa apenas passar um tempo na cidade antes de voar de volta para a Inglaterra. Elle acaba virando uma espécie de distração e guia turística para James, com suas conversas informais sobre a arte, sobre o conceito de cópia e autenticidade e de como tudo isso tem a ver com a vida cotidiana das pessoas. A vida pessoal de Elle e seus problemas em ser, aparentemente, uma mãe solteira com um filho pré-adolescente vão sendo aos poucos incorporados à conversa dos dois. Ela trata das questões com paixão desesperada por respostas, ele às trata com certo distanciamento, como se procurasse o máximo do discernimento.

William Shimell interpreta James Miller e Juliette Binoche vive Elle. São dois estranhos ou marido e mulher?

O filme todo gira em torno das andanças e conversas de Elle e James por Lucignano a medida que uma relação vai sendo construída. É o mesmo processo já visto em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol, mas os personagens ora retratados são mais maduros, na casa dos 40-45 anos. Então decidem tomar um café e a situação sofre uma virada interessantíssima. De dois quase estranhos, a francesa e o escritor tornam-se marido e mulher. A partir daí, o filme torna-se uma dilacerante discussão de casal e o relacionamento entre os dois começa a ser desconstruído. Ao que parece, cabe a cada um acreditar se o casal realmente já se conhecia desde o começo ou se apenas estão interpretando um papel proposto pela mulher que lhes serviu café na lanchonete.

Usando três línguas diferentes – francês, italiano e inglês – às vezes todas juntas num mesmo diálogo, Kiarostami vai tecendo uma história de casal em crise sem pressa, apresentando tanto os argumentos dela quanto os dela e os fazendo colidir, sem tomar partido por nenhum dos lados. Afinal, a vida é complexa. Como resultado, Kiarostami nos presenteia com uma discussão madura e honesta sobre os relacionamentos. Ele não deixa de nos mostrar o que seria uma atitude ideal, (como na cena em que um senhor diz a James que sua mulher talvez só queira que ele ande ao lado dela e apoie sua mão no ombro dela para mostrar sua presença). Mas nunca submete a complexidade psicológica do casal protagonista a saídas “corretas”, fazendo com que ambos tornem-se personagens ainda mais críveis.

Cópia Fiel é uma produção de baixo orçamento que não aposta na edição rápida de imagens e nem no apelo ao falso mundo eternamente jovem das platéias norte-americanas. Quando começa, parece um tanto técnico demais, com uma palestra sobre originalidade e cópia. Conforme avança, vai revelando a que realmente veio e termina extremamente emocional. Diferente da grande maioria das comédias românticas produzidas aos montes em Hollywood, sempre tentando nos fazer engolir alguma “moral da história” que já vem prontinha, Cópia Fiel deixa em aberto a conclusão da história e não propõe acordo entre as partes. Aceita a complexidade da vida e dos relacionamentos, aceita que nem sempre uma conclusão bem acabada pode ser dada. E é tão honesto em cada close que dá em Juliette Binoche e William Shimell que quase podemos ver a nós mesmo sendo estudados diante do espelho.

 

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