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Cão come cão no Distrito 9

Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.

Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.

O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.

O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme

Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.

Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.

A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.

Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.

Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.