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Kelly Guimarães

O jogador de Barra Bonita que mais espaço conquistou no mundo do futebol dá uma geral em sua carreira nacional e internacional, fala da fama, do dinheiro, da aposentadoria e de todas as dificuldades que enfrentou

O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram”, diz o ex-jogador Clesly “Kelly” Guimarães

Ainda criança, a disposição de Kelly para o futebol era enorme. Se precisasse, jogava três ou quatro partidas num mesmo dia, fosse na rua, no clube ou na escola. Assistia também quantos jogos fossem possíveis ou interessantes, especialmente os do São Paulo, seu time do coração. Aos 15 anos, um talento em ascensão, foi para Bragança Paulista fazer parte das categorias de base do Bragantino e, assim, iniciar sua carreira no esporte brasileiro. A partir daí, o menino Clesly Evandro Guimarães, hoje com 35 anos de idade, sempre voltaria para Barra Bonita, mas fixaria residência em diferentes estados brasileiros e diferentes países do globo.

Do Bragantino (1991-96), foi para a Espanha, jogar no Los Groñes (96). Jogou um tempo no Flamengo carioca (97) e chegou ao Atlético-PR (97-2001), onde tornou-se um jogador de expressão. Foi vendido para o F.C. Tokyo e lá foi o Kelly jogar no Japão de2001 a2005 e viver o auge de sua carreira. Voltou ao Brasil e, no Sul, atuou no Cruzeiro (2005). Foi mandado para o time Al Ain Club, nos Emirados Árabes Unidos (2006-2007). Voltou definitivamente para seu país de origem, defendeu o Grêmio do Rio Grande do Sul (2007-2008) e terminou a carreira de volta ao Atlético-PR. Ainda tentou acertar um contrato com a Ponte Preta, de Campinas, mas não deu certo.

Voltou então a Barra Bonita no começo de 2009 acompanhado da família que o acompanhou em todas as suas fases. Kelly está casado há 16 anos com Rosangela Maria Salvi Guimarães, com quem tem os filhos Matheus, 16 anos, e Sara, 9. Eles eram colegas de classe do Sesi de Barra Bonita (e foi o futebol que fez Kelly trocar a escola Gutemberg pelo Sesi) e quis o destino que um descobrisse o amor com o outro. Casaram-se aos 19 anos. Sentado em uma bonita poltrona num quarto especialmente reservado para sua coleção de camisas de futebol, vídeos e fotografias, Kelly falou de sua carreira e detalhes de sua vida. Contando os pontos marcados em sua trajetória, sempre tendo sua fé como guia, o placar da vida ainda está a favor de Kelly.

Quando você percebeu que tinha talento para o futebol?

Desde criança eu jogo futebol, sempre disputando campeonatos escolares e na rua de casa. E as pessoas comentavam meu destaque nos jogos, o que começou a aumentar meu interesse por me tornar um jogador de futebol. A dimensão dos campeonatos que eu participava foi aumentando e meus pais viram o potencial que eu tinha. Aí tive a oportunidade de fazer testes em várias equipes: XV de Jaú, Palmeiras e Santo André, mas não deu certoem nenhuma. Em1991, através de um amigo meu pai conseguiu agendar um teste no Bragantino. Eu tinha 15 anos e, para a minha felicidade, passei no teste. Foi nesse momento que comecei a ter noção de onde eu poderia chegar.

Foi nas categorias de base do Bragantino que o futebol ficou sério na sua vida.

Sim, porque antes o esporte era mais como um hobby. Se eu tivesse dois jogos pela manhã, um a tarde na escola e mais um depois da aula, eu jogava todos. [risos] Foi quando cheguei no Bragantino que comecei a formar uma disciplina de profissional, prestando atenção na alimentação, horário de descanso, treinos, etc. Então naturalmente fui ficando consciente das responsabilidades que tinha para alcançar alguma coisa.

A Barra teve alguns redutos do futebol: a AABB, o C.A. Botafogo e a Ponte Preta. Chegou a acompanhar algum desses clubes locais?

Quando eu era criança, acompanhei um pouco da ascensão da AABB – e eu entrava em campo de mãos dadas com alguns dos jogadores do clube. Veneno, Sabá e Dinei foram alguns dos jogadores que acabaram virando amigos meus. Um pouco mais pra frente, acompanhei o Botafogo, que chegou a ter um certo destaque na cidade. Eu via alguns treinos e conheci alguns jogadores, como o Taio Molina, o Daguia, o Jairo e o Luciano. Eu joguei no Botafogo e disputei campeonatos regionais pela Barra.

Antes de ser profissional, você teve algum mentor futebolístico na Barra?

Por todos os lugares que passei, sejam em clubes, escolas ou times de rua mesmo, sempre havia alguém para nos orientar, mas naquele momento apenas. Na verdade, em dimensão profissional, não havia ninguém que pudesse nos orientar. A experiência deles na época não era tão grande. Hoje eles têm mais acessos e condições de orientar algum garoto. O que fez diferença mesmo na minha vida e na minha carreira foram os princípios familiares que meus pais me deram.

Sua mãe, a Geni Guimarães, é uma poetisa e escritora muito conhecida. Ela te apoiou quando você decidiu seguir a carreira esportiva?

Tanto ela quanto meu pai sempre foram pessoas de referência dentro de casa. Acompanhei a luta da minha mãe para estudar, se formar e chegar aonde chegou, recebendo o Jabuti. Meu pai também, que nunca deixou faltar nadaem casa. Forampessoas que me deram estrutura para poder lutar também e ter perseverança. Devo muito a eles.

“Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença”

Logo depois de jogar no Bragantino, você foi para a Espanha, país em que muitos sonham em jogar. O que sentiu quando isso aconteceu?

Na época eu não tinha maturidade para pensar no caso como penso hoje. Naquela época, com a Lei do Passe em vigor, tanto o jogador quanto o clube e seus diretores sabiam que a minha mudança de time geraria um retorno para todo mundo. Quando as coisas são assim, não se pensa muito no jogador e empurra-se o atleta logo para o mercado. Então acabei sendo emprestado por seis ou sete meses para o time espanhol, com apenas 21 anos de idade, um filho pequeno para cuidar e acabei nem jogando muito. Hoje posso dizer que eu não estava preparado para aquela realidade. Se eu fosse um pouco mais experiente, talvez pudesse ter aproveitado melhor.

Quando saí do Brasil pela primeira vez, eu não tinha um nome feito, então não cheguei à Espanha com moral. Essa foi a grande dificuldade. Depois, quando voltei para o Brasil e joguei dois campeonatos maravilhosos e disputei a Taça Libertadores, vários times grandes começaram a me procurar. Cheguei a acertar verbalmente minha ida para o São Paulo quando o treinador era o Vadão, que tinha sido meu técnico no Atlético-PR. Mas o Atlético não queria me emprestar, queria me vender para o Japão, já que a Lei do Passe estava quase acabando. Mas quando fui para o Japão eu estava com moral, cheguei sendo respeitado. Essa foi a grande diferença.

A Espanha é um país ocidental, mais fácil de assimilar a cultura. Mas Japão e Emirados Árabes são muito diferentes. Foi difícil viver nesses países?

O Japão é realmente muito diferente do Brasil. No meu primeiro ano lá, eu nem rendi o que podia como jogador, pois estava preocupado com outras coisas: minha esposa estava grávida da Sara, meu filho estava em idade de alfabetização e não achamos nenhuma escola brasileira, etc. Mesmo assim o clube acabou comprando meu passe e as coisas foram se encaixando: minha filha nasceu no Japão mesmo, colocamos o Matheus numa escola norte-americana e ele acabou sendo alfabetizadoem inglês. Nosegundo ano eu e minha família estávamos melhor adaptados e eu já entendia como as coisas funcionavam no Japão. Não foi nada fácil sair com a esposa e duas crianças do Brasil para um país em que você não conhecia nada.

Quando você chegava em casa e dizia para a sua esposa que precisavam mudar para o Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Espanha, Japão o que ela dizia?

Nós sempre conversávamos sobre essas mudanças, nunca decidi baseado apenas em minha vontade. Quando surgiu a oportunidade de ir para o Japão ficamos até animados com a ideia, porque sabíamos os benefícios que teríamos e não pensamos muitos nas dificuldades. Depois você começa a pensar em alguns problemas que vai encontrar e se assusta um pouco. Mas seguimos alguns princípios cristãos e cremos que Deus preparou tudo pra gente e sempre tivemos fé. A fé é isso: dar um passo sem ver onde está pisando. E Deus sempre honrou a nossa fé. [risos]

Quando seu pai faleceu, você morava no Japão. Como foi esse momento para você?

Quando tirei férias do time japonês em dezembro de 2001, voltei ao Brasil já com um contrato assinada para mais três anos do clube. Nessa mesma época os problemas de saúde do meu pai agravaram e eu pensei sim em não voltar para o Japão. Creio que eu não podia fazer nada para solucionar o problema dele, mas fiquei por perto o quanto pude para ajudá-lo. Conversei com minha mãe e meu irmão, o Kiko, e eles disseram que era melhor eu voltar para o Japão. Nas férias, fiquei 30 dias no Brasil e meu pai estava nas últimas. No dia 22 de dezembro eu ia sair da Barra ao meio-dia para pegar um avião em Guarulhos às 19 horas. Às 10h, 10h30 meu pai faleceu. Sinceramente, sem hipocrisia, isso foi um alívio para mim. Nas condições em que ele estava eu tinha certeza de que chegaria no Japão e receberia a notícia de sua morte. No meu coração eu tinha segurança de que o Céu esperava por ele, o que serviu de consolo.

Você faz parte da igreja Batista Filadélfia. Como é o seu envolvimento com ela?

Eu me converti quando ainda morava em Bragança Paulista, com cerca de 19 anos. Desde então, sempre procurei fazer parte da igreja onde quer que eu vivesse. Em Barra Bonita, faço parte da igreja Batista há 10 anos. A Bíblia fala que em primeiro lugar devemos buscar o reino de Deus e a sua justiça, e então as outras coisas nos serão acrescentadas. Sendo assim, quando buscamos em Deus nossa fortaleza e nossa fonte de alegria e direção, tudo o que precisamos nos é dado. Eu precisava de saúde, paz e ânimo pra jogar um bom futebol, então eu procurava tudo isso primeiramente em Deus.

“Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. A porta da perdição é larga”

Não é raro vermos jogadores que se perdem no sexo, nas drogas e em outros problemas durante a carreira. É realmente fácil achar todos esses perigos no futebol?

Esses perigos existem e sempre corremos o risco de nos desviarmos de nossos objetivos. O futebol é uma profissão que mexe muito com o ego das pessoas, porque muitos são famosos e dá-se a impressão de que tudo é mais fácil para os jogadores. Na década de 70, os jogadores de futebol eram considerados vagabundos. Hoje, se uma menina diz para o pai que está namorando um jogador, o pai incentiva, prevendo que financeiramente a vida pode compensar. Ser conhecido no futebol atrai muita gente boa e muita gente ruim, mas muitos atletas não estão preparados e não têm princípios fortes para aguentar firme. No futebol você tem dinheiro fácil, reconhecimento fácil e rápido, fama e muita gente que quer te sugar. Vi muita gente se envolver com coisas erradas e perder o casamento e a carreira. A porta da perdição é larga.

Em qual time você mais gostou de jogar e qual foi o período de sua vida que achou que estava no auge da forma?

Tirando o Flamengo (em que tive problemas contratuais) e o clube dos Emirados Árabes (em que estava com o joelho machucado), em todos os outros eu tive bons momentos. Agora, os clubes que me marcaram mesmo foram Atlético-PR, onde tive o início do auge, e o F.C. Tokyo, onde eu de fato estava no auge físico, psicológico e espiritual. Quando voltei para o Brasil, joguei apenas por um ano no Cruzeiro, mas joguei muito bem e estava voando, [risos] embora já fosse um velhinho de 30 anos. Depois dessa fase meu rendimento começou a cair, o que é natural para qualquer atleta.

Existe algum lance de jogo que é inesquecível para você?

Cara, existem vários! Às vezes vejo as fitas dos meus jogos e em certos momentos lembro até no que estava pensando na hora. Mas um dos lances mais marcantes aconteceu num clássico entre o Atlético-PR e o Paraná num gol de placa que não foi eu quem marcou, foi o Lucas, mas a jogada foi minha. Cara, foi uma jogada que ainda hoje penso em como fui capaz de realizá-la. Saí pela direita e fui até a linha de fundo, toquei de calcanhar na bola e ela passou por baixo das pernas do jogador. Entrei na área com a bola, dei um toque e ela caiu na minha perna esquerda. Acontece que minha esquerda só serve para a embreagem do carro – ou nem pra isso mais, já que meu carro é automático agora [risos] – e, na hora, dei uma letra que foi na medida e direta para o Lucas, que fez o gol. O estádio estava lotado e foi abaixo com esse gol, nós éramos aplaudidosem pé. Ainda hoje, se você for ao estádio, verá uma placa com meu nome lembrando desse passe.

Como você conheceu sua esposa?

Eu estudava na escola Gutemberg de Campos, na Vila Operária, mas quis mudar para o Sesi, porque ficava mais perto de casa e porque os times dessa escola disputavam umas olimpíadas em Bauru e todos os meus amigos do bairro participavam, menos eu. Pressionei meus pais até que eu e o Kiko conseguimos mudar, basicamente para jogar futebol, mas consegui coisa melhor: a minha esposa. Foi no Sesi que a gente se conheceu, com 13 anos de idade. Quando estávamos na 8ª série começamos a namorar.

Quem chegou em quem?

Na verdade eu paquerava uma amiga dela e ela ajudava na comunicação entre mim e a garota. Era uma coisa bem de criança mesmo, quando não tínhamos coragem de chegar na menina. Mas isso foi despertando uma amizade grande entre a gente até que um dia ela confessou que gostava de mim. Como eu também já estava gostando dela, começamos a namorar de um jeito bem simples, e bem diferente do que vemos hoje. Foi a minha primeira namorada e eu fui o primeiro namorado dela também.

O que você sentiu quando seu primeiro filho nasceu?

[Risos] Para um homem que vive no meio do futebol, imagina a alegria de ter um filho homem! O Matheus veio para alegrar um momento difícil que eu vivia, quando precisava me afirmar na profissão e tinha algumas inseguranças financeiras. No dia em que ele veio ao mundo eu estava jogando e quando cheguei ao hospital ele já tinha nascido. Lembro de pegar aquela coisa pequenininha no colo e pensar: “Meu Deus, é meu filho. Acho que agora sou homem de verdade!” [risos] Meus pensamentos mudaram totalmente depois disso. Acredito que não exista herança maior que um casal possa deixar do que seus filhos.

Hoje, depois de passar quase 20 anos lidando com o futebol profissional, você ainda se entusiasma com os jogos? Ainda tem a emoção da juventude?

Não, acho que perdi esse pique. Quando era adolescente e estava nas categorias de base eu assistia a muitos jogos pela televisão, mas depois que ingressei no profissional me distanciei um pouco. Não só para fugir um pouco do trabalho, mas por causa das críticas que poderiam ser feitas – às vezes desnecessariamente – e que poderiam pesar sobre mim. Também evitava os programas sobre esporte. Quando queria, pedia para o meu clube a gravação da partida e assistia sozinho, tirando conclusões do que tinha feito de bom e de errado. Hoje não sou muito vidrado no futebol, não consigo ficar 90 minutos vendo qualquer que seja o jogo, a não ser Copa do Mundo e jogos muito importantes.

Você teve vontade de jogar em algum clube e não pôde por algum motivo?

Queria jogar no São Paulo, que é o meu time do coração. Tive duas oportunidades, mas não dá para ser apenas emocional, você precisa ser racional também na hora de fazer as escolhas. Na primeira oportunidade o São Paulo me queria emprestado, mas o Atlético-PR queria me vender. E é aquela coisa: se você é emprestado e não vai bem, volta queimado para o clube. Quando voltei dos Emirados Árabes, operei meu joelho. Eu estava sem clube e fui fazer recuperação no CT do São Paulo. O fisioterapeuta disse que a direção do time gostava de mim e que eu tinha grandes chances de jogar no São Paulo. Mas duas semanas depois o Grêmio apareceu querendo me contratar, mesmo com a cirurgia. Como a direção do São Paulo não pôde garantir que eu jogaria no time antes da recuperação, aceitei a oferta do Grêmio.

Enquanto você ainda era jogador, a população de Barra Bonita reconhecia o seu sucesso?

Todas as vezes que voltava para a Barra sempre era muito bem recebido. Tanto no Bragantino, que é um time pequeno, quanto nos grandes clubes cujos jogos eram transmitidos pela televisão, sempre fui bem visto e querido por aqui. Lembro que crianças pediam meu autógrafo e tiravam fotos ao meu lado. Hoje eu me encontro com elas na rua e já são jovens com o dobro do meu tamanho. É claro que algumas pessoas que por frustração, mágoa ou inveja tentavam atrapalhar, mas isso eu tirei de letra!

Então chegaram a te criticar por aqui?

Isso aconteceu em alguns jogos festivos de confraternização. Algumas pessoas faziam brincadeirinhas ou jogadas maldosas, querendo discutir no meio da partida. Tentei levar essas coisas numa boa, porque entendo que há pessoas que têm dificuldade em aceitar [o sucesso dos outros], mas isso existe em qualquer lugar.

“Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer!”

Por quê você resolveu se aposentar no final de 2008?

Em 2001eu passei por uma cirurgia no joelho que não me deu problemas por muitos anos. Em 2007, no Grêmio, tive problemas novamente, o que é normal nessa profissão. Quando fui para o Atlético-PR pela última vez, tive que operar de novo. Percebi que a situação estava desgastante para o meu físico e isso abalou o meu psicológico, afinal eu não rendia tudo o que podia. Isso foi me desanimando, já não ia aos treinos com a mesma alegria, já não almejava muitas coisas e me sentia limitado. Comecei a preparar minha aposentadoria, embora nunca quisesse parar de jogar. Nunca contei para ninguém, mas depois de sair do Atlético-PR ainda tentei jogar no Ponte Preta [em Campinas], mas não passei nos testes físicos. Minha força na perna direita estava bem abaixo da média dos atletas e, pelos quatro meses que jogaria, não dava tempo de fazer um trabalho para recuperar a musculatura. Voltando de Campinas para casa liguei para a minha esposa e anunciei que pararia de jogar bola. No dia seguinte acordei meio perdido dentro de casa e não sabia o que fazer! [risos]

Atualmente, longe dos gramados, quais são as suas ocupações diárias?

Tenho algumas obrigações com meus filhos, preencho meu tempo com aulas de canto, pois eu e meu filho participamos da banda da igreja. Bato um futebolzinho, faço natação e estou cursando o segundo ano de licenciaturaem Educação Físicana FAEFI. Vou me formar no ano que vem, mas talvez eu estude mais um pouco para ser bacharel também. No entanto eu tenho o CREF provisório para dar aulasem escolinhas. Fiqueidois anos descansando e agora penso em que área atuar. Atualmente gostaria de continuar trabalhando com o futebol, mas vamos ver o que a vida me reserva.

Financeiramente, sua carreira compensou? Foi mais ou menos do que você esperava?

Foi muito além do que eu esperava. Quando saí de Barra Bonita para fazer um teste em um clube, não tinha dimensão de onde poderia chegar. Sei que faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da minha vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa que me permite matricular meus filhos em escolas boas, vestir o que quisermos, nos alimentar bem e ir a lugares que gostaríamos de conhecer. Entretanto, sei que preciso de outra profissão agora, por isso entrei na faculdade.

Ser jogador de futebol profissional, além de alguma fama e dinheiro, atrai também puxa-sacos. Como lidou com eles?

É uma coisa engraçada, é uma faca de dois gumes. Existem muitas pessoas que se aproximam de você por que é jogador, porque é famoso, porque tem status e uma boa condição financeira. Elas acham que enganam, mas a gente sempre percebe quando a situação é essa. Por outro lado, pessoas boas com quem a gente gostaria de ter uma amizade sólida podem acabar não se aproximando da gente com medo de que pensemos que são bajuladoras também. Tive dificuldades com isso, porque morei em muitos lugares diferentes e não conhecia ninguém nas cidades. Quando tentávamos ter uma amizade mais profunda com alguém nem sempre conseguíamos, porque achavam que iam parecer puxa-sacos. Mas mesmo assim consegui fazer amigos em muitas partes do Brasil e, quando nos falamos por telefone ou MSN, quase nunca falamos de futebol, e isso é bom.

“Faço parte de uma pequena porcentagem de jogadores que conseguiu montar uma estrutura financeira e se preparar para outra profissão. Não posso viver o resto da vida com o dinheiro que já ganhei, mas tenho uma condição muito boa”

Quem é o grande talento do futebol que você admira?

No passado, durante a minha juventude, vi o Zico jogar e ele virou um referencial para mim dentro de campo. O último referencial que tive dentro de campo foi o francês Zinedine Zidane. Tive o prazer de jogar contra ele enquanto defendia o F.C. Tokyo contra o Real Madrid num amistoso. Foi um cara cheio de classe e talentoem jogo. Agora, eu respeito muito o Ronaldo Fenômeno como jogador. Fora do futebol ele tem condutas que talvez não sejam tão boas, mas não o conheço e não vou julgar o seu caráter. Lembro que quando eu estava na Espanha ele jogava no Barcelona e conseguiu um respeito e uma admiração enorme do público. Por muito tempo ele foi um craque, e hoje o que me entristece são as piadinhas que fazem com ele (se bem que até eu às vezes faço) e os meios de comunicação jogando fora tudo o que ele fez no passado. Vai demorar 10 anos para aparecer outro Ronaldo.

Você ainda quer realizar algum sonho?

Rapaz, agora você me pegou! Tenho vários sonhos, como ver meus filhos formados, realizar algumas coisas com minha família, outros são segredos. Tem um sonho da minha esposa que quero realizar: conhecer Paris. Rodamos o mundo e ainda não fomos a Paris. A gente começa a analisar nossa trajetória e lembra que muita gente não acreditava na minha carreira e nem no nosso casamento, mas hoje tenho condições de ir a Paris com ela. Acho que vai ser uma grande alegria para nós dois fazer essa viagem.

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Os sofrimentos e as alegrias de ET

O vendedor de bilhetes de loteria mais famoso de Barra Bonita conta como chegou na cidade, como ganhou seu apelido, o que pensa sobre as drogas e como lida com seus problemas familiares

“Não adianta pensar em colocar uma corda em volta do pescoço. Se todos nós resolvermos pensar assim, estaremos perdidos, não é?”, diz ET, o homem com um dos bordões mais conhecidos de Barra Bonita

Por Lucas Scaliza (entrevista originalmente veiculada em Jornal Expresso Tietê nº1002)

ET é um dos rostos mais conhecidos de Barra Bonita, embora pouquíssima gente saiba que seu nome verdadeiro é José Alves dos Santos. Quem circula pelas ruas do Centro da cidade identifica facilmente na multidão seu chapéu cata-ovo e seu bordão mais conhecido – “Ó o veado!” –, que era pronunciado sempre que ET vendia bilhetes da loteria Federal queria chamar a atenção de seus clientes. É claro que um bordão tão característico e com potencial ofensivo tão grande quase lhe meteu em grandes confusões. Por causa do Jogo do Bicho, porém, ele já levou uma dura das autoridades policiais e jura que não trabalha mais com esse jogo. Diz ele que agora só vende bilhetes de loteria federal permitidos por lei.

José Alves dos Santos, 55 anos, nasceu em Mirandópolis, interior de São Paulo, e mudou-se para Santo André logo após completar seu primeiro ano de vida. É filho de um pai pernambucana e de uma mãe alagoana, de quem herdou um jeito de falar bem rápido (característico de algumas regiões do Nordeste) e um par de olhos verdes claros que sempre foram bem elogiados pelas mulheres, ele diz. Aprendeu o ofício da marcenaria e trabalhou em grandes empresas automobilísticas, como Mercedes, Scania, Ford e General Motors.

Saiu da casa dos pais aos 26 anos, quando se casou com Sônia Ferreira da Veiga Santos. Com ela teve três filhos, Douglas (27 anos), Rafael (26) e Daiana (22). Por causa dos sérios problemas de saúde de sua esposa, ET precisou parar de trabalhar. Por quatro anos a família viveu no limite da necessidade, que culminou com a morte de Sônia aos 27 anos. Sem desistir da vida, ET criou os três filhos e arranjou um meio de sair da miséria em que estava.

Já trabalhando como bilheteiro – profissão que ET adora –, mudou-se para Barra Bonita em 1995 junto dos filhos. Seu espírito divide-se entre uma fé inabalável na vida, o que lhe garante muita felicidade, e os sofrimentos familiares, como a prisão de seus dois filhos mais velhos (atualmente retidos nas cadeias de Balbinos e Valparaíso). Embora o assunto não seja fácil, ET mostra que está bastante resolvido quanto a isso e fala como um pai que não deixa de acreditar na solução dos problemas.

Durante uma hora e meia de entrevista, ET falou de suas alegrias e tristezas, contou como se tornou um bilheteiro e como lidou com a morte da esposa. Também falou de música, cinema, televisão e sobre as drogas, um problema que ele conheceu bem de perto por causa dos filhos. No final das contas, ele está muito longe de ser um extraterrestre como diz seu apelido e parece-se mais com um cidadão que precisa vencer na vida todos os dias, sem pensar em desistir em nenhum momento.

José Alves dos Santos, o ET, aos 21 anos. Foto retirada de sua carteira de reservista do Exército brasileiro

Por que seu apelido é ET?

[Risos] Desde que cheguei em Barra Bonita, sempre tive vontade de ir pescar no Mato Grosso. E atenderam o meu pedido de tanto eu insistir. Chegando lá e encontrei muitos borrachudos e fiquei com o pessoal numa pousada. No meio do pessoal um colega meu chamado Amaury me chamou de ET. Esse apelido pegou e foi se espalhando bem rápido. Gosto dele, temos até um jornal na cidade chamado ET!

Mas por que seu amigo te chamou de ET?

Não sei bem. Acho que ele me achou feio demais, mas o que manda é o charme! [risos] Às vezes ligam pra mim e perguntam: “Onde você está, ET?” E eu respondo: “Estou em Marte, porque é só lá que um ET pode estar!”

Muita gente já fez alguma ligação entre o seu apelido e o Jornal ET?

Já sim. Sempre me perguntam se o Jornal ET é meu. Às vezes eu brinco dizendo: “Vai me ver hoje, hein? Está lendo o ET”. Todo mundo quer ver o ET, não é?

O senhor nasceu em Mirandópolis. Viveu muito tempo por lá?

Nasci em Mirandópolis, mas me mudei com apenas um ano de idade para Santo André. Só fui conhecer Mirandópolis depois de 33 anos. Já trabalhei como servente de pedreiro, cortador de cana e como marceneiro em várias indústrias automobilísticas, como Mercedes, Scania, Ford, todas em São Bernardo do Campo, e na General Motors de São Caetano do Sul. Naquela época esse ramo era bom de emprego, principalmente para quem já tinha alguma experiência em outras metalúrgicas.

“Eu fui candidato a vereador de Barra Bonita em 2004, mas pretendo concorrer a prefeitura qualquer dia. E já tenho até um vice. Quero subir até o galho mais alto de uma vez”

Foi difícil aprender o serviço nessas indústrias?

Não, pois desde moleque eu trabalhava em fábrica de móveis até conseguir um emprego na Villares, onde sempre mexi com madeira. Foi um cunhado meu que arranjou serviço pra mim na Mercedes, onde virei marceneiro de produção. A marcenaria era a minha profissão, mas agora sou bilheteiro, [risos] meu trabalho é vender papel. Arrumei meu primeiro emprego com 13 anos e acho que está errado permitir que a moçada só comece a trabalhar com 16.

O senhor queria ou precisava trabalhar aos 13 anos?

Eu queria e precisava, porque antigamente era muito difícil conseguir as coisas. Hoje está fácil demais e os jovens não dão valor para cada conquista. Posso falar francamente? Meus dois filhos que achei que estavam trabalhando entraram num caminho errado e estão presos agora. Não tenho problemas em falar nisso, muitos já sabem. Agora eles pagam pelo que fizeram.

Como era o seu relacionamento com seus pais?

Meu pai era pernambucano e minha mãe era alagoana, e eu tinha um bom relacionamento com os dois. Meu pai era analfabeto, mas homem igual a ele nunca existiu. Era muito educado, não ficava nervoso e era inteligente. Hoje está difícil para um pai criar os filhos. Não falo por todos, mas por boa parte dos pais. Essa coisa das drogas está por todo lado, a situação está complicadíssima.

O senhor conheceu o presidente Lula na época em que trabalhava nas metalúrgicas?

Conheci o Lula sim. Ele falava pra gente entrar em greve e depois dizia que era pra gente voltar a trabalhar. Mas em cada uma dessas os trabalhadores tomavam muito prejuízo. É por isso que muitos metalúrgicos da Grande São Paulo não votam nele.

Estamos chegando ao fim de oito anos de governo Lula. Acha que a situação da população melhorou?

Não sou fã do Lula, mas também não reclamo da vida. Dou meus pulos por aí, trabalho direitinho e está tudo certo. E nunca nenhum político vai conseguir agradar a todos. Hoje PT e Lula são a mesma coisa. Dizer que é PT é como dizer que é Lula.

O senhor já pensou em entrar para a política?

Eu fui candidato a vereador de Barra Bonita em 2004, mas pretendo concorrer a prefeitura qualquer dia. E já tenho até um vice, o Terra Branca. Quero subir até o galho mais alto de uma vez. Fui candidato pelo PV e fiz 30 votos, mais votos do que o padre Mário precisava para ganhar naquela eleição pra prefeito! [Na contagem de votos absolutos, padre Mário fez 25 votos a menos que Dimas de Sales Paiva em 2004]

O que faria pela cidade se fosse eleito prefeito?

Tentaria encontrar um terreno onde pudesse instalar uma escola e uma fábrica de sapatos, bolsas e o que mais couber nele, com isenção de impostos e tudo o mais. Seria um lugar onde tentaríamos ajudar todo mundo. Emprego é o mais importante agora, porque quem tem condições manda os filhos estudarem fora da cidade e eles acabam tendo que arrumar um trabalho fora daqui também. E aí a família começa a se separar.

“Sou bom em vender bilhetes e me considero um artista nesse ramo. Faço o que gosto e não quero outra ocupação. Só vou largar esse ofício quando não puder mais trabalhar. Quer coisa melhor do que vender papel?”

Faz 15 anos que o senhor mora aqui. O que essa cidade tem que o conquistou? Ou não gosta da cidade?

Gosto da cidade sim, senão já teria ido embora. Faço amigos facilmente em qualquer lugar e sempre dou um jeito de arrumar emprego, tanto faz a cidade. Mas gostei da Barra e me acostumei com ela. Quando me mudei pra cá o movimento na cidade era bem maior, o turismo era maior. Aqui é bem fácil de se fazer amizades e posso dizer que não tenho inimigos.

Como o senhor começou a vender bilhetes de loteria?

Comecei a exercer a profissão logo depois que minha mulher faleceu. Tinha três filhos pequenos para criar e morava em Mogi Guaçu, onde minha mãe me ajudava a cuidar deles. Mas ela estava cada vez mais doente. Então eu comprei umas raspadinhas para vender. Comecei a perceber que esses jogos interessavam às pessoas e que elas pagavam por isso. Das raspadinhas passei para os bilhetes de loteria e virei bilheteiro.

E vende bem em Barra Bonita?

Vendo fácil, acho que é por causa do meu jeito cara de pau. Eu sou bom em vender bilhetes e me considero um artista nesse ramo. Tem gente que me chama de carrapato, porque enquanto o peão não compra meu bilhete eu não desgrudo dele. Faço o que gosto e não quero outra ocupação. Só vou largar esse ofício quando não puder mais trabalhar. Quer coisa melhor do que vender papel? [risos]

O senhor vende quantos bilhetes por mês?

Ah, não sei se vale falar… Por semana, acho que vendo uns 100 bilhetes inteiros. Não, vendo uns 80 bilhetes por semana, vai. Isso varia muito. Trabalho com a Mega Sena e os sorteios da Loteria Federal atualmente. Saio vendendo gritando “Ó a cobra! Ó o veado!”

O senhor também já vendeu Jogo do Bicho, não é?

Vendi sim, mas parei. Um dia eu estava vendendo o Jogo do Bicho e uns policiais me abordaram, dizendo que aquela atividade era contraversão. Eu já sabia disso e, para não ter mais problemas com a polícia, resolvi parar de vender. Porém eu ganhava mais dinheiro no meu serviço permitido por lei do que no Bicho. Mas o pessoal que comprava o Bicho comigo acostumou e continuou me procurando para jogar, mesmo depois de eu ter parado.

Os jargões que o senhor usa para vender bilhetes, como “Ó o veado” ou “Ó o touro”, já lhe causaram alguma confusão?

Às vezes quem não me conhece acha que estou provocando quando grito “Ó o veado” ou “Ó a vaca”. Várias pessoas já me disseram que ficaram com vontade de me bater por causa disso, mas sempre brinco dizendo que estava falando da vaca da minha sogra. Às vezes grito “Ó o touro”, depois completo: “Porque o homem sem chifre fica indefeso” [risos] Uma vez passou uma mulher, o namorado e o cachorro perto de mim, aí mandei: “Ó o veado, o cachorro e a vaca”, mas eu estava mesmo com os bilhetes do veado, cachorro e vaca na mão. Até mesmo a molecada que passa perto de mim já mexe comigo, gritando “Ó o veado” também.

O senhor também aposta na loteria?

Aposto em um bocado de jogos da loteria. Inclusive várias pessoas já ganharam depois de comprar meus bilhetes. Quando isso acontece, alguns me dão um troquinho, outros não. Até eu já fui premiado!

Dá pra viver bem com essa profissão?

Não sei se dá para ter uma boa vida com todos os problemas que tenho. Não me falta nada, mas também não tenho luxos. Atualmente eu ajudo também minha filha e três netos, que estão morando comigo. Não sou aposentado e acho que só vou me aposentar na Avenida da Saudade [onde fica o Cemitério Municipal], porque lá é definitivo. Ano que vem eu penso em voltar a pagar minha aposentadoria particular e ver como é que fica.

“Às vezes quem não me conhece acha que estou provocando quando grito ‘Ó o veado’ ou ‘Ó a vaca’. Várias pessoas já me disseram que ficaram com vontade de me bater por causa disso”

Como o senhor conheceu a sua esposa?

Foi na época em que eu trabalhava na Mercedes, eu era mais novo e bonito. Trabalhava até às 15 horas, depois ia para casa, arrumava uns panos e ia para a Mooca em São Paulo. Bati o olho nela e gostei do que vi – e até que não foi difícil conquistá-la. Sabe, me aconteceu algo curioso nessa história. Antes de encontrar a minha esposa, eu estava com uma mulher chamada Francisca e não quis me casar com ela só por causa do nome. Agora veja como é o destino: depois que minha esposa faleceu, arrumei outra mulher. Qual o nome dela? Francisca! [risos] É destino. Nem eu sei o que tinha contra o nome Francisca.

O seu casamento durou 10 anos. Foi uma experiência boa?

Foi boa, mas sofremos bastante. Antes de nascer nosso primeiro filho, perdemos cinco crianças [de aborto espontâneo]. E era muito difícil ter um bom atendimento médico na época. Quem não tivesse cartão do INPS não era atendido em nenhum hospital. Hoje é diferente, pois todos os hospitais são obrigados a atender quem precisa. Enfim, minha mulher fez uma simples consulta em São Paulo, se tratou com um remédio barato e sarou do problema. Aí nasceram todos os nossos filhos normalmente. Mas a situação foi se complicando, porque minha mulher ficava cada vez mais doente e até tive que parar de trabalhar para cuidar dos filhos. O pouco que tinha eu perdi. Tive até mesmo que vender a minha casa própria. A situação crítica durou uns quatro anos.

Como vocês faziam para sobreviver?

Alguém sempre uma ajudava e eu tentava fazer uns bicos. Hoje estou na santa paz, graças a Deus. Mas nesses casos não adianta se desesperar, pois para todos os problemas sempre há uma solução. Não adianta pensar em colocar uma corda em volta do pescoço. Se todos nós resolvermos pensar assim, estaremos perdidos, não é?

Já precisou pedir ajuda para desconhecidos?

Pedi sim, e ter que fazer isso cortava meu coração. É duro você ter filhos e não ter nem um pedaço de pão. Não tem como você não se sentir mal numa situação dessas. Minha mulher fez duas cirurgias no coração. Ela levou oito meses para se recuperar da primeira e precisou fazer a segunda em menos de um ano após a primeira. A gente dependia dos remédios do Posto de Saúde e sempre nos davam os mais baratinhos. Cheguei a ver meu filho ficar doente por causa de um pastel e já precisei penhorar um liquidificador para comprar remédio. Mas a vida é isso aí. O importante é não se desesperar e sempre se levantar quando estiver no chão.

“É duro você ter filhos e não ter nem um pedaço de pão. Cheguei a ver meu filho ficar doente por causa de um pastel e já precisei penhorar um liquidificador para comprar remédio”

Depois de viver uma situação crítica por quatro anos, como foi encarar a morte da esposa?

Foi triste. Estávamos vivendo bem aquela época dos juros altos do governo Sarney e precisei vender todos os meus móveis para ter algum dinheiro. Depois que ela morreu nem as nossas fotos eu guardei, destruí todas. Perdi minha mulher muito nova, foi um choque, tínhamos três crianças que mal a conheceram, mas o que é que eu ia fazer?

O senhor disse que dois filhos seus estão presos e se envolveram com drogas. O senhor demorou a perceber o que estava acontecendo?

Não demorou muito, embora o pai seja sempre o último a saber das coisas. Eles começaram a sair e voltar pra casa muito tarde da noite, e quem faz muito isso é porque com boa coisa não deve estar envolvido. Depois que entram nesse mundo, é difícil voltar.

Mas não tentou aconselhá-los?

Mais conselhos do que eu já dei? Falei muito com eles. Por causa das drogas eles até chegaram a mexer nas coisas dos outros, mas que eu saiba nunca mexeram em coisas minhas.

E como o senhor se sente vivendo essa situação?

Sinto-me envergonhado. Não era para ser assim. Quando vou visitá-los na prisão eles dizem que querem sair de lá, trabalhar e me ajudar. Mas não sei, não. Acho que eles saem e entram de novo no problema. Um deles parece que realmente mudou, agora vamos ver no que vai dar. Já disse pra eles que desse jeito a vida só tem dois caminhos: a morte ou a cadeia para o resto da vida.

O senhor acha que é possível mudar?

Vou pedir pra Deus e Ele é que vai falar com os dois. Eu quero morrer em paz, quero vê-los fora dessa vida, trabalhando honestamente e cuidando de suas famílias. A vida não é um mar de rosas, sabia? E tem muitos filhinhos de papai por aí que tem tudo o que querem e também fazem seus pais passarem vergonha. A pessoa que quer ser decente tem que ser decente por ela mesma. E devemos perdoar sempre, fazer 10 vezes o bem que alguém faz pra gente.

O senhor é religioso?

Eu acredito em Deus, mas não frequento nenhuma igreja. Eu diria que sou católico, mas católico de verdade é aquele que vai a missa todos os domingos, não aqueles que como eu só entraram numa igreja para casar e batizar os filhos. [risos] Quando preciso pedir alguma coisa, procuro Deus. Peço muito para Ele me dar saúde para que eu possa continuar cuidando dos meus filhos, porque eles precisam muito de mim.

“É muito ruim para um pai ou para uma mãe ter de ver um filho seu atrás das grades. Eu nunca tinha visto uma cadeia de perto e, quando vi, descobri que viver numa cela é uma situação crítica, companheiro”

Qual é a sua maior preocupação hoje?

Eu queria que meus filhos saíssem da situação em que estão. É muito ruim para um pai ou para uma mãe ter de ver um filho seu atrás das grades. Eu nunca tinha visto uma cadeia de perto e quando vi descobri que viver numa cela é uma situação crítica, companheiro. Como é que 10 ou 12 homens conseguem viver juntos dentro de um espaço tão pequeno?

Mesmo com todos esses problemas o senhor sempre parece estar alegre.

Tento me manter feliz, preciso tocar minha vida. Se eu arriar, estou perdido. Às vezes acordo no meio da madrugada e não consigo mais fechar os olhos, fico pensando nos problemas. Mas graças a Deus me levanto no dia seguinte sabendo que preciso continuar a vida.

O senhor já experimentou alguma droga?

Não, nunca. Quando eu era jovem sempre saía com um ou dois colegas, mais do que isso não. E andava com quem não usava essas coisas. Antes tínhamos pouca droga disponível, e as mais acessíveis eram maconha e cocaína. Hoje tem muita droga e tem de tudo. As companhias que escolhemos ajudam a entrar nas drogas. Quando saio a noite vejo a molecada se enchendo de pinga com Coca-Cola, porque o álcool também é uma droga. As drogas que eu uso são cerveja e cigarro, de vez em quando peço uma caipirinha.

O senhor acha que a família está diferente agora? Acha que os filhos não ouvem mais os pais e os pais não servem mais de exemplo para eles?

Mudou demais. Antigamente a família toda se reunia para almoçar na casa de um pai, de um tio ou tia. Todos comiam juntos. Hoje cada um almoça num horário, um come na cozinha, outro no quarto e outro na sala. Ninguém mais pede a benção para os pais ou avós e nem pedem licença. Agora dois irmãos vivem brigando dentro de casa por qualquer motivo, mas com qualquer outra pessoa se dão bem. Acabou a união da família! Acho que antigamente existia mais respeito e mais amor entre as pessoas. É só ver como os casamentos não duram mais nada hoje.

O que o senhor gosta de ver na televisão?

Gosto de assistir aos telejornais principalmente. Não vejo novelas, tenho ódio delas. É tudo enrolação e fantasia! Filmes do Rambo eu também nunca vou assistir, porque eu sei que ele vai acabar matando todo mundo mesmo! Mas gosto de filmes de comédia!

Que filme o senhor viu recentemente e gostou?

Tem um chamado O Vingador da Noite que eu gostei muito. Não vou te contar o final porque acho isso chato, mas é um filme que você não faz ideia do que vai acontecer até ele terminar. É emocionante e eu quase chorei.

E de que tipo de música o senhor gosta?

Gosto de música sertaneja, aquela antiga de raiz mesmo. Ouço Chitãzinho e Xororó, Liu e Léu, Lourenço e Lourival, Teodoro e Sampaio, Belmonte e Amarai, Caminhoneiro e Rei da Estrada, esses artistas. Acho que os cantores atuais mudaram muito o sertanejo. Luan Santana e Guilherme e Santiago não são do meu feitio. Ligo direto nas rádios da cidade pedindo música.

Conseguiu estudar?

Estudei até a quarta série do primário [ensino fundamental], mas vou te contar o seguinte: sei mais do que muita gente que terminou o ginásio. Antigamente a gente só passava de ano se realmente soubesse. Pode me perguntar qualquer tabuada que eu te respondo na hora, não preciso nem de calculadora. Minha mente é boa! Hoje o pessoal é ruim pra isso, devem errar a conta até se usarem a calculadora. E minha caligrafia é boa, não erro no português. Se eu tivesse condições na época, teria estudado mais.

Mas gostava de estudar?

Pra falar a verdade eu não gostava. Até matava umas aulinhas para roubar goiabas das chácaras, caçar coelhos ou pardais. Coisas de moleque.

“Quando eu era jovem, além dos olhos verdes, eu tinha cabelo comprido até o ombro, era bonito. Também me perguntam como é que eu fico com tanta mulher mesmo sendo banguela, mas a resposta é simples: se mulher gostasse de dentes todo mundo saía com uma dentadura pendurada no pescoço!”

Se o senhor pudesse escolher uma profissão para exercer, qual seria?

Queria ser ferramenteiro. Conheci uma escola particular que formava pessoas nisso, mas era muito cara. Acabei trabalhando com marcenaria e em metalúrgicas mesmo.

Para que time o ET torce?

Torço para o Corinthians. Eu era fanático pelo time, não perdia um jogo. Dava gosto de ver! Conhecia o Morumbi inteirinho, numa época em que ele abrigou 140 mil pessoas. Hoje não cabem nem 90 mil dentro dele. Hoje torço pelo time, mas não sou fanático.

O senhor era namorador quando era mais jovem?

Quando era mais jovem? Até hoje sou conquistador! Eu chego e pergunto: “E aí? Vamos dar uma namoradinha?” Antes eu era meio tímido, mandava bilhetes ou mandava uma mensagem nos alto-falantes dos parques.

Era mais difícil sair com uma mulher antigamente?

Ah, hoje está uma moleza sair com a mulherada.

Os seus olhos são verdes claros. As mulheres elogiam?

Tem gente que fala pra mim: “Mas que olhos bonitos, hein ET?” E eu respondo: “Ah, mas não são só os olhos, o resto todo também é bonito!” [risos] Quando eu era jovem, além dos olhos verdes, eu tinha cabelo comprido até o ombro, era bonito. Agora nem penteio mais o cabelo, porque com esse chapéu cata-ovo que usou ele quase não aparece mais. Também me perguntam como é que eu fico com tanta mulher mesmo sendo banguela, mas a resposta é simples: se mulher gostasse de dentes todo mundo saía com uma dentadura pendurada no pescoço! [risos]

O que o senhor acha que é a maior perdição para o homem atualmente? Drogas, mulheres, dinheiro, futebol…

Acho que é um pouco de cada coisa. Começa com a mulher, porque tem cara por aí que é ciumento demais e se perde fácil por causa dela. Mas a maior perdição do homem hoje é o dinheiro, a ganância. Hoje tudo é dinheiro e todos os interesses giram em torno disso. E a situação vai ficar cada vez pior.

Que o sonho o senhor ainda quer realizar?

Queria ter condições de comprar uma casa para cada filho meu e depois eles que decidam o que fazer com elas. Seria isso, para que eles pelo menos saíssem do aluguel. Para mim não quero mais nada!

Nem se casar novamente?

Casar pra que se eu tenho um monte de namoradas? [risos]

ET começou a vender bilhetes da loteria federal após a morte de sua esposa, em 1991. Ele também joga e diz que já ganhou algumas vezes

A visita de Lula

Lula e funcionários da Barra Bioenergia, na Cosan. Foto: Lucas Scaliza

O presidente Lula visitou Barra Bonita – ou, mais precisamente, a usina do Grupo Cosan S/A que fica no município – no dia 27 de setembro. Acompanhado do senador Eduardo Suplicy, do presidente da Unica (sindicato patronal das usinas) Marcos Jank e do presidente do conselho administrativo da Cosan Rubens Ometto Silveira Mello, entre outras autoridades políticas e empresariais. Na pauta do dia estava a inauguração simultânea de oito usinas termoelétricas de biomassa que utilizam o bagaço da cana-de-açúcar para gerar energia limpa e renovável.

É claro que uma presença dessas atraiu a imprensa da região e até da capital paulista. Nas fotos que fiz durante a visita, retrato o presidente Lula conhecendo a Barra Bioenergia (termoelétrica de biomassa da Cosan) e o trabalho de fotógrafos, jornalistas e cinegrafistas, sempre mantidos à uma “distância segura” da comitiva presidencial.

Neste dia, antes de eu ir até a Cosan cobrir um evento, uma colega de trabalho me entregou duas cartinhas coloridas (lacradas com adesivos em forma de coração) escritas por suas filhas para o presidente. Fiquei, assim, encarregado de entregar a delicada correspondência. Achei que as cartas teriam que ser entregues para algum assessor de Lula, já que era quase impossível chegar muito perto dele. Mas, durante sua sessão de fotos e abraços com a população no final do evento, Lula me ouviu gritar “Presidente, duas cartinhas de duas crianças da cidade!” e pude entregá-las pessoalmente na mão dele. De quebra, ganhei um aperto de mão do presidente.

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Lula, Marcos Jank e Rubens Ometto. Foto: Lucas Scaliza

Para ser fotografados por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula. Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

A imprensa. Foto: Lucas Scaliza

Gilmar, assessor do presidente, coordena os jornalistas. Foto: Lucas Scaliza

Stuckert dirige a cena. Foto: Lucas Scaliza
Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

No meio do povo. Foto: Lucas Scaliza
Os fotojornalistas e cinegrafistas. Foto: Gilmar

Eu, durante o trabalho. Foto: Angela Rodrigues

Homem fibra

Eduardo Mazzoni apresenta o Predador, sua escultura feita em fibra de vidro. “Gosto de desafios", ele diz

Eduardo Mazzoni trabalha com fibra de vidro há 40 anos e é um dos poucos profissionais brasileiros que já se aventura sozinho com a fibra de carbono. Já morou na Argentina e rodou o Brasil todo com um carro que ele mesmo projetou

Por uma semana, a garagem (que também é oficina e ateliê) de Antonio Eduardo Mazzon serviu de abrigo para o Predador, aquele guerreiro espacial que vem à Terra caçar seres humanos e que ficou famoso ao contracenar com Arnold Schwarzenegger no filme de 1987. Na última quinta-feira, Eduardo conseguiu um manequim de roupas e, sobre ele, começou a usar a manipulação de fibras de vidro – habilidade a qual se dedica há 40 anos – para compor seu personagem.

Eduardo nasceu na rua Frei Caneca, na gema de São Paulo. Já morou em Buenos Aires, rodou o Brasil todo – boa parte dele a bordo de um carro que ele mesmo projetou –, construiu embarcações em Ubatuba e veio parar em Barra Bonita há 4 anos e meio. Quando morava na Zona Norte de Sampa, era vizinho de Ayrton Senna, um moço que estava começando a correr de kart. Tem 58 anos, foi casado seis vezes e tem 16 filhos, dos quais cinco moram com ele.

Sua especialidade e sua fonte de renda são trabalhos de criação e reparo em materiais de fibra de vidro (fiber glass). Há um ano e meio começou a se aventurar também pelo terreno da fibra de carbono, tecnologia utilizada nos carros de Fórmula 1 que poucos dominam. Já fez trabalhos com fibras numa grande sala para plantas de um triplex de Hebe Camargo e em um aquário de Roberto Carlos.

Nunca teve chefe e nunca teve medo de mudar o curso de sua vida quando quis. Faz trabalhos mais práticos para garantir seu sustento, mas sua paixão mesmo são as produções que demandam grandes doses de criatividade. Sempre que aparece uma brecha entre um projeto e outro, usa a imaginação para criar coisas como o Predador que ilustra essa matéria.

Você pode contatar Eduardo Mazzon ou conhecer seu trabalho através do site www.edufibras.com.br

Eduardo trabalha no corpo de seu Predador em sua oficina/ateliê. Sempre foi autônomo e só aceitaria ter um chefe se ele fosse tão criativo quanto ele próprio

Quem te ensinou a mexer com fibra?

Não sei, fui aprendendo praticamente sozinho. Até hoje não existem cursos no Brasil para trabalhar com fibras. Eu mexia com funilaria, aí pulei pra fibra e estou com ela e vivo disso até hoje. Se bem que o que eu gostaria de fazer mesmo era entalhar em madeira. Até tentei fazer isso uma vez, mas por causa das encomendas que faço para viver fiquei sem tempo. Aprendi com um grande entalhador em Ubatuba conhecido como Bigode. Gosto dessa coisa de criar!

A fibra é considerada um dos materiais do futuro. Você sente que ela é valorizada?

Sim. Hoje não falamos nem mais na fiber glass, a fibra de vidro. A bola da vez é a fibra de carbono ou o aramida (Kevlar), que é superior ao carbono, inclusive. O carbono é do futuro mesmo. Ele tem tudo: resistência, durabilidade, leveza e beleza. Daqui a dois ou três anos a fibra de carbono terá um peso enorme no mercado. Tem um ano e meio que comecei a trabalhar com carbono. Meu irmão que mora na Inglaterra me mandou uma apostila sobre o assunto. É um material caríssimo.

A fibra de carbono é muito mais cara que a fibra de vidro?

Fica uns 300% mais caro. Acho que sai uns R$ 450 ou 500 o metro quadrado da fibra de carbono, incluindo a mão de obra. Ela aguenta temperaturas altíssimas de 400 graus. O que geralmente não aguenta tanto assim é a resina, que deve ser misturada com um produto chamado NPG, que poucos conhecem. Com a mistura você aumenta em 40% a resistência dela ao calor. E tem resina para todo tipo de finalidade.

Você faz carenagens para motos. Já projetou quantas peças dessas?

Até agora tenho 88 modelos diferentes para triciclos e motos de 150, 250, 300, 500 cilindradas, para vários modelos e tamanhos. Até o fim do ano espero criar mais 25 que estão na minha cabeça. Crio tudo, desde a matriz até o molde para fazer tantas carenagens quanto forem necessárias. Além das peças para motos faço barcos, pedalinhos, pranchas de surf, revestimentos para madeira e concreto. No momento, o carro chefe do meu trabalho estão sendo os banheiros químicos para ônibus.

“Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta”

O senhor é autônomo atualmente?

Sempre fui, nunca tive patrão. Se fosse um patrão bom e criativo, até aceitaria trabalhar com ele, mas ainda não encontrei um assim. A questão financeira logo aparece e aí a coisa não acontece. Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta. (risos)

O que lhe dá mais prazer produzir?

Criações como essa do Predador. Ele é praticamente uma estátua, criado quase que do nada. Só depende da criatividade e da imaginação de quem faz. Para algumas coisas que faço o certo seria existir um curso para ensinar o pessoal a fazer também, mas para outras não tem escola que ensine. É coisa que vem de dentro de quem faz, é como um dom!

Eduardo e o carro que construiu há 23 anos sobre o chassis e o motor de uma Brasília. Andou mais de 10,5 mil quilômetros com ele e não precisou fazer nenhum reparo

Qual é o maior desafio que enfrenta fazendo esse Predador?

A cabeça e a expressão dos olhos são as partes mais difíceis de fazer. A posição de braços e pernas para deixá-lo agressivo também são detalhes que merecem atenção. Afinal, ele tem que parecer ameaçador, tem que mostrar que veio caçar mesmo. Num carro, por exemplo, a parte mais difícil de fazer é a porta. São muitos detalhezinhos para que ela fique bem ajustada ao carro.

Antes dessa estátua, você já havia feito um capacete com o rosto do Predador. Como surgiu essa idéia?

Um amigo ia a uma festa a fantasia e queria uma máscara do Predador. Fiz um modelo para ele, mas gostei da coisa. Resolvi aperfeiçoar o projeto e transformá-lo num capacete mesmo. Um grupo de motociclistas da Paraíba, chamados Carcarás dos Sertões, encomendou 12 capacetes desses, sem pintura, para eles personalizarem como quisessem. Também vendi alguns para Manaus, quatro em São Paulo e mais um em Bauru. É uma atração legal para os encontros de motos, o que preciso é anunciar tudo isso.

Além do Predador, está trabalhando em algum outro projeto criativo?

Estou criando um capacete com a forma da cabeça de um Pit Bull agora. Além desse já comecei a preparar outro em forma de tubarão e ainda outro com o rosto do Cebolinha, da Turma da Mônica. É só eu ter um tempinho livre que começo a criar alguma coisa. O tubarão é mais fácil de fazer que o Pit Bull, pois tenho que ficar esperto com a expressão do cachorro, a relação do focinho com os olhos do animal, as distâncias, etc. Quem olhar, tem que ver um Pit Bull mesmo!

Quanto tempo o senhor perde olhando as fotos do Pit Bull, do Predador e do tubarão para conseguir reproduzir as sutilezas das imagens nos capacetes?

Levo uns dois dias para estudar as imagens. Olho, saio para dar uma voltinha, olho de novo e assim vou fazendo até minha mente “fotografar” a imagem. Aí começo a fazer um lado do capacete, depois me preocupo em fazer o outro lado idêntico ao primeiro. O capacete tem que ser simétrico.

Já trabalhei para a Rosa de Ouro fazendo cavalos alados, fiz trabalhos para a Barroca da Zona Sul, escola de samba de São Paulo. Se me chamam para fazer algo assim, fico o dia inteiro, vou criando, não saio mais de lá. Gosto dos trabalhos com criatividade, mas meu ganha pão está sendo outros tipos de serviços, como os banheiros rurais, reparos e carenagens.

Mas se você ficasse em São Paulo trabalhando com as escolas de samba, não daria para tirar uma boa renda?

Se eu me dedicasse a isso, certamente tiraria uma boa grana. É que agora estou longe da capital. Se eu mandasse um e-mail para alguma escola de samba falando do meu trabalho não teria problemas em encontrar serviço. Quando estava em Araçatuba, queriam me pagar R$ 5 mil só para fazer escapamentos de competição em fibra de carbono para o Alexandre de Barros. Não me interessei. Queria ficar mais livre, acho. Não estou mais na idade de virar funcionário de alguém.

Entre os pioneiros da fibra que Eduardo conheceu estão Sid Mosca, designer de capacetes da Fórmula 1, e Homero Naldinho, influente criador de pranchas de surf

Por que resolveu investir na produção de banheiros químicos para ônibus?

Quando cheguei a Barra Bonita abri a janela do meu quarto um dia, vi a cidade e pensei: “Eu mexo com fibras. O que vou fazer aqui no interior, onde nada estraga ou corrói?”. Então olhei para o canavial e pensei de novo. “Espera, vou ter que fazer algo relacionado a isso”. Foi assim que surgiram os banheiros rurais.

Estes banheiros são os produtos que mais contribuem com sua renda?

Atualmente eles me dão maior e mais rápido retorno financeiro. Se bem que vendo muitas peças de motos por aí.

Como eles começaram a dar resultado?

Um senhor de Jaú pediu a alguns profissionais que fizessem banheiros para ônibus rurais para ele, mas nenhum conseguiu. Então mostrei a ele o meu trabalho e ele me passou o projeto de como queria o banheiro. Em uma semana fiz o produto. Esse senhor, inclusive, sentou no banheiro para testar! (risos) No ano passado, ele comprou muitos destes, mas eram do modelo que ele tinha me passado. Como eu já tinha feito muita coisa por aí, pensei em fazer um design de banheiro que fosse meu. Fiz um menor, mais arrojado e bonito que serviria para ônibus, barcos, trailers, rodoviárias, entre outros lugares. Cabem 34 litros de dejetos nele. O único problema desses banheiros químicos é o odor, mas tenho um projeto para um banheiro que não sofrerá desse mal.

“Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira”

É difícil aprender a mexer com fibras?

Não é difícil, mas quem quiser precisa se preparar para enfrentar a coceira. Quem não está acostumado a mexer com os materiais que uso aqui vai ficar se coçando pelos primeiros dois ou três meses. Depois para. É bom que alguém aprenda a mexer com fibras, porque é uma ocupação que dá futuro, quase tudo usa esse material hoje em dia.

Muita gente trabalha com fibras de carbono no Brasil hoje em dia?

Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. São pouquíssimas pessoas mesmo. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira. Nas três empresas onde compro meu material ninguém conhece quem são as pessoas que mexem com fibras de carbono.

Eduardo e um pedaço de fibra de carbono, material do futuro, utilizada em carros de Fórmula 1

Em 1971 o senhor foi para Buenos Aires. O que foi fazer por lá?

Naquela época eu mexia com rádio amadorismo, lembro até que meu prefixo era TX-20832, e aprendi a falar castelhano conversando com argentinos. Acabei conhecendo uma argentina que foi até São Paulo me ver, depois voltei com ela para Buenos Aires. Quase me casei por lá. (risos) O pai dela tinha uma indústria de curtume muito grande chamada El Cuero e até achei bacana todo o processo, mas não quis trabalhar com aquilo. Como já mexia com fibras na época, fui convidado para trabalhar num hotel muito chique de lá. Então fiz o formato das camas arredondadas, molduras de quadros, entre outras coisas. Viajei pela Argentina toda nessa época e me aperfeiçoei muito. Os argentinos eram muito caprichosos e técnicos quando trabalhavam com a fiber glass.

E depois que voltou ao Brasil, o que fez?

Montei uma empresa própria de fibra no Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Minha vida por um tempo foi consertar carros Puma. A empresa que fazia o carro me mandava casos que precisavam de consertos e reparos que ela própria não fazia. Fiz muitas réplicas que me pediam também, como Ford 29 e jipes.

Há um carro que você fabricou sozinho. Como ele foi feito?

Levou um ano e meio pra terminar de fabricá-lo e já o tenho há 23 anos. Como ainda não existia fluoretano para facilitar, a matriz dele foi toda feita em eucatex e gesso. Fiz tudo: para-choque, grades, portas, capô, etc. O chassi, a suspensão e o motor dele são de uma Brasília e a transmissão eu tirei de um SP2. É levinho, só a carroceria pesa menos de 200 quilos. Com ele rodei o Brasil todo até Manaus e Acre. Da última vez que viajei com ele andei 10,5 mil quilômetros e não usei uma única ferramenta! Tive que projetá-lo a partir do zero praticamente, foi uma das criações que mais me deu trabalho até hoje.

Você morou um tempo na praia. Conheceu muita gente que sabia trabalhar com fibras por lá?

Resolvi mudar para a praia e me instalei em Ubatuba. Lá eu fazia muitos modelos de pranchas de surf. Trabalhei com o Hamilton Prado por seis anos, ele é dono de uma das maiores fabricantes de skate do Brasil. Ele era muito criativo, fizemos muitas coisas com fibra e nos tornamos grandes amigos. O Homero Naldinho, precursor e maior fabricante de pranchas do Brasil, era um mestre em mexer com fibras de vidro, injeções de fluoretano e dar forma a pranchas. O outro que conheci foi Sid Mosca, pioneiro em produção de capacetes para Fórmula 1. Ele está um pouco adoentado agora, é um grande amigo meu… (se emociona) Todos os capacetes do Schumacher, todos do Barrichelo e do Massa foram feitos por ele. Foi o primeiro cara com quem conversei sobre fibras de carbono na vida, e isso há 16 anos. Acredito que uma pintura de capacete dele deva custar uns R$ 15 mil. Seus capacetes de carbono têm seis malhas (camadas) de fibras, da mais fina para a mais grossa. Foi esse pessoal aí que brincava de professor pardal comigo anos atrás. (risos)

Já fez algum trabalho com o Sid Mosca?

O primeiro que fizemos juntos foi uma pista de boate, muitos anos atrás. Era uma pista de 40 metros quadrados, com oito milímetros de espessura e transparente, porque as luzes vinham de baixo do piso. E o piso tinha que aguentar o pessoal, era uma discoteca de verdade. Capacete com o Sid eu fiz apenas um, mas meu forte na época eram fibras para carros. Depois passou para motos e agora vamos ver o que acontece daqui para frente.

“Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai”

Você já construiu barcos e escunas com madeira. Foi algo que planejou fazer?

Quando cheguei em Ubatuba, perguntei: “Onde é que vou usar meus serviços com fibra aqui?”. Então comecei a fazer tanques especiais para barcos de pesca. Depois fiz botes salva-vidas. Até que conheci um senhor que fabricava embarcações e tinha 50 anos de experiência nisso. Comecei a aprender com ele e trabalhamos juntos por quase quatro anos. Logo depois comecei a fazer barcos no quintal de casa, que era muito grande. Comecei a entender que tipos de madeira usar para fazer o fundo da embarcação, a lateral, as partes internas, etc. Fiz seis escunas para grã-finos e a maior delas tinha 30 metros. Ao todo, devo ter feito uns 20 barcos de pesca de até 14 metros de comprimento.

Com tudo isso no currículo, o que veio fazer em Barra Bonita?

Uma firma de Recife estava com problemas em uma embarcação aqui em Barra Bonita e não encontrava ninguém que resolvesse o problema. Então me dispus a vir para cá fazer o serviço. Não sabia nem onde ficava esta cidade, vim com a ajuda de um amigo. Em uma semana fiz o que tinha que fazer, mas logo emendei em outro serviço, depois em mais um barquinho, fui bem recebido aqui, fiz amizades, achei a Barra bonita e acabei decidindo ficar. Saí do certo e vim para o duvidoso.

“A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!”

Mas não foi uma decisão duvidosa até demais?

Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. É como um médico, que arruma o que fazer em qualquer lugar. Se eu não arrumasse trabalho aqui, arrumaria em Jaú, ou Bauru, em cidades maiores talvez. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai. Para trabalho, essa cidade me traz muito pouco retorno. Mas ela é linda, o povo é hospitaleiro e é muito mais arrumada do que muitos lugares que visito pelo país.

Parece que o senhor não tem medo de mudar sua vida de direção.

Não mesmo, não tenho medo do mundo! Não fiz faculdade, mas estudei muito e viajei para fora do Brasil. A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!

Seu espírito criativo vem dessa disposição e da falta de medo que diz ter?

Acredito que sim. Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna. Meu pai tem 84 anos e se alguém quiser assaltá-lo terá de ser com injeção, porque ele nunca precisou de uma. Ele não tem uma única dor na unha, porque ele é alegre o dia todo. Esse é o maior remédio que pode existir! Às vezes vejo na padaria logo cedo umas caras verdes, amuadas, tristes, problemáticos… sei que todos têm problemas, mas com cara feia o conflito aumenta.

Depois que terminar a escultura do Predador, o que gostaria de fazer?

Gostaria de ter condições de criar mais coisas, gosto dos desafios, só preciso de tempo. Sempre acredito que as coisas vão dar certo no final, então já acordo com o pensamento positivo. Dificilmente alguém me vê triste. Assim, a coisa fica mais fácil.

"Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna", diz Eduardo

Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

Adeus, Yolanda

Texto e fotos de Lucas Scaliza

 

“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer
“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer

 

A entrevista abaixo foi publicada no jornal Expresso Tietê do dia 17 de julho deste ano. Entrevistei Yolanda Jacomini na manhã de uma terça-feira. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, menos de 24 horas após nossa conversa. Essa ficará marcada em minha história.

Comer, dormir e trabalhar. São os três elementos que Yolanda Maniero Jacomini considerava as melhores coisas da vida. “Tudo é bom, mas essas três coisas são essenciais”, ela disse animada. Todos os dias ela acordava ainda de madrugada (3:00 AM!) para dar início a seu trabalho. Yolanda era proprietária do Hotel e Restaurante Cristal, localizado no centro da cidade. O telefone do local, quando entrou em atividade, era o número 40.

Lá atrás, em 1955, o hotel era apenas um bar comprado por seu marido, José Antonio Jacomini, que vislumbrou o grande mercado que poderia abocanhar quando a barragem e eclusa barra-bonitenses começaram a ser construídas. De seus 74 anos de idade, Yolanda passou 54 dedicando-se ao hotel e disse que não pretendia deixar o ofício. “Enquanto minha cabeça estiver boa, continuarei trabalhando”, declara.

Os hotéis estão no sangue da família. Os três filhos de Yolanda – José Luiz, Roseli e Rilton Rogério – foram criados à sombra do trabalho dos pais no hotel e hoje cada um deles comanda um novo estabelecimento. Rilton tem o Hotel Príncipe, Roseli tem o Hotel Vitória e José Luiz montou o Stillus Motel. Além disso, Yolanda fora sócia-proprietária anos atrás do hotel Beira Rio, que hoje pertence ao seu irmão, Moacir Maniero.

Yolanda concedeu esta entrevista a mim na manhã de terça-feira. Estava alegre, com brilho nos olhos. Ninguém esperava que este fosse seu último registro em vida. Na quarta-feira, dia 15, Rilton veio me contar sobre o falecimento de sua mãe. Ela acordou e desceu para trabalhar como sempre fez. Algumas horas depois foi acometida por uma parada cardíaca fulminante. Yolanda errou. A cabeça estava boa, o coração é que precisava de atenção.

A senhora passa o dia todo no hotel? – Agora eu tenho um apartamento no hotel e moro aqui mesmo. Todos os dias eu acordo às 3 horas da madrugada, tomo café e desço para trabalhar. Acordo cedo faz muitos anos, desde quando precisava preparar o almoço para os funcionários da companhia de força e luz antigamente. Aí acostumei. Eu gosto de acordar cedo.

A senhora dorme cedo também? – Quando é 21 horas já estou na cama.

Nem vê a novela? – Só as que passam antes desse horário. [risos] Trabalho até o meio dia e depois fico de folga o resto do dia.

“Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar”

O que a senhora faz nessas horas de folga? – Descanso um pouco, vejo uma novelinha e alguma outra coisa na televisão e depois durmo. Gosto de ler revistas, jornais e a Bíblia também. Leio o que eu tiver na mão. Sempre gostei de ler, mas nunca tive muito tempo para isso. Agora que só cuido do hotel, e não mais do restaurante, tenho tempo.

A senhora já se aposentou? – Aposentei-me faz um ano. Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar.

Ainda hoje a senhora é uma mulher animada que mostra disposição. Sempre foi assim? – Sempre, sempre. Tem clientes que dizem que sou a mãezona deles, porque procuro dar atenção a eles e não fico nervosa facilmente com qualquer coisa. Não estou nem aí, se acontecer alguma coisa logo entramos num acordo. [risos]

Muita gente diferente passa pelo hotel. É fácil lidar com todas elas? – É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas. Gosto de ver gente e gosto de trabalhar com hotéis, por isso estou aqui até hoje. E vou trabalhar até o dia em que minha cabeça parar de funcionar!

Quando a senhora gostaria de parar de trabalhar? – Na verdade, nem penso nisso. Enquanto minha cabeça estiver boa, vou seguir trabalhando. O trabalho faz parte da vida, quem não quer trabalhar está perdendo um pedacinho da vida. Nesta vida eu já fiz um pouquinho de tudo.

Depois de passar 54 anos comandando um hotel, o que é mais difícil fazer aqui dentro? – Não tem nada muito difícil no hotel. A parte que exige mais cuidado é o restaurante mesmo, ali vai muito de gosto. Sempre precisamos ajeitar uma coisinha ou outra.

A senhora não é barra-bonitense. Como chegou aqui? – Nasci em Piracicaba e lá morei e estudei até os 12 anos. Depois minha família se mudou para o Barreirinho e foi lá que comecei a cortar cana. Também morei por dois anos em Igaraçu do Tietê, onde trabalhei como padeira e doceira. Aos 20 anos me casei e desde então estou em Barra Bonita e no hotel.

Como a senhora conheceu seu marido? – Conheci o José Antonio na fazenda do Barreirinho. Enquanto eu cortava, ele puxava a cana. [risos] Naquela época, não dava para namorar no serviço, então a gente só se encontrava nos finais de semana e em algum bailinho de que participávamos, daqueles que começavam às 20h e acabavam a meia-noite. Meu irmão também era amigo do Zé Antonio e colocava lenha na fogueira. [risos]

E quem foi que pediu o outro em namoro? – Ele me pediu em namoro, e pediu permissão ao meu pai também. Não era tão fácil começar a namorar uma moça. Naquele tempo as mulheres não corriam atrás dos homens.

O que o homem tinha que ser para conquistar as moças daquela época? – Primeiramente, observávamos se ele era trabalhador, depois víamos se era honesto, se não era mulherengo. Essas são as coisas que importavam mais na época.

Que lugares a cidade tinha para namorar? – A gente não podia namorar por aí, tínhamos que namorar em casa. Nada podia ser feito escondido ou no escurinho. Há 54 anos, a coisa era assim. [risos]

O humorista Mazzaropi já ficou hospedado no hotel de Yolanda. “Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na ‘vida real’: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem”

De quem foi a idéia de comprar o bar que virou hotel? – Três meses antes de casarmos, o Zé Antonio comprou o bar. Eu comecei a trabalhar no bar também, porque a mulher devia ajudar o marido, não é? Nunca me esqueço de uma vez que fui arrumar uma cama e achei um lote de dinheiro embaixo da cama. Perguntei: “Mas para quê é esse dinheiro, Zé?”, e ele respondeu: “É o dinheiro para pagar o bar, oras”. Ele tinha comprado o bar fiado, [risos] pensando na barragem que estava sendo construída. Depois de um tempo ele comprou um terreno – fiado também.

Se o turismo da cidade fosse ainda mais desenvolvido seria melhor para o hotel? – Nossa, e como seria! O pessoal teria mais novidades para ver e precisaria ficar mais tempo aqui. Do jeito que a Barra está hoje não é ruim, mas podia ser muito melhor.

O que a senhora e os demais hoteleiros da Barra acham que podia ser feito para melhorar o negócio de vocês? – Hum, não sei. Talvez se a cidade tivesse mais atrações os turistas ficariam mais dias aqui. Ao invés de ficarem apenas um dia, ficariam dois ou três. Os turistas que vêm ao meu hotel dizem que vão embora logo porque já viram tudo o que a cidade tem.

E o que os turistas dizem da cidade? – Acham que a Barra é simpática, que o rio é muito bonito, mas que não tem outras coisas para se ver.

Também dizem que a senhora chegou a trabalhar direto por 20 horas. – Em alguns dias eu acordava às 6h e só parava à meia-noite. Era tanto serviço – fazer almoço, servir, limpar, fazer a janta, servir, limpar – que não tinha como parar. Mas o restaurante daqui é mais para o dia-a-dia: com arroz, feijão, carne e verdura, sem muita variação.

O Mazzaropi se hospedou aqui? – Sim, e ficou uma semana por aqui. Os circos vinham para a cidade e vários artistas acabavam passando por aqui. Numa dessas, veio o Mazzaropi. Todo mundo ficava aqui conversando com ele. Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na “vida real”: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem.

A senhora já tirou férias do hotel? – Já saí em férias, mas não muitas. Não gosto de sair muito. Viajei por vários lugares do Brasil e conheci a Argentina e a Itália. Gostei dos outros países, mas acho que o Brasil é único, não o trocaria por nada. Na Itália, por exemplo, a terra parece ser muito fraca e tudo custa muito caro.

A senhora reparou nos hotéis argentinos e italianos? – Ah, a gente olha, aprende alguma coisa e aplica, dependendo do que for. Achei muito seco o atendimento nos hotéis italianos. Eles não dão atenção ao cliente como nós. Para qualquer coisa que perguntamos, logo dizem “não sei, não sei, não sei”. A gente ainda vai até a porta com a pessoa e explica o caminho para ela, se ela pediu alguma localização. Prefiro o Brasil, sem dúvidas.

Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo
Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo

“Covering” Michael Jackson

Texto e fotos de Lucas Scaliza

“Eu só queria que ele soubesse que eu existia”, diz Rodrigo Teaser, considerado o melhor cover da América Latina do Rei do Pop mundial

Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão
Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodrigo Matos chegou a Barra Bonita às 19h45. Desembarcou no restaurante El Puerto acompanhado pela noiva, Priscila Freitas, e por Marcelo Nardo, organizador do evento que o trouxe a cidade. Chegou vestindo boné e roupas de cores neutras e escuras, não fez alarde, agiu discretamente. Seu codinome é Rodrigo Teaser e sob esse pseudônimo o jovem de 29 anos se transforma em um cover de Michael Jackson que, sobre o palco, é uma figura expansiva, dançante e luminosa que quase em nada lembra o Rodrigo que poucas horas antes passava desapercebido na multidão.

Em meados de 1990 veio a onda do ICQ e todo o grupo de amigos de Rodrigo, que também gostavam de Michael Jackson, correu para se inscrever no programa usando seus nomes junto de alguma música do cantor. “Eles foram mais rápidos e pegaram as músicas mais conhecidas, como ‘Bad’, ‘Dangerous’, ‘Beat It’, etc. Para mim sobrou a música nova dele na época, que estava sendo chamada de ‘Teaser'”. Assim nasceu Rodrigo Teaser, que adotou o nickname como nome artístico.

Michael Jackson (o original) começou a mostrar que era um artista quando tinha cinco anos e cantava e dançava. Aos 11, o mundo o conheceu como o carismático vocalista do Jackson Five. Não tardaria a se lançar em carreira solo, longe dos irmãos. Com Teaser a história foi parecida. Ele é fã do Rei do Pop desde os cinco anos e aos nove sua mãe começou a inscrevê-lo em concursos de imitações mirins de Michael Jackson. Alguns desses concursos foram veiculados nos programas da Mara Maravilha e da Angélica. “Fui crescendo e a coisa se profissionalizou, mas continua sendo uma brincadeira, é um faz de contas”, ele diz.

“O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”

Passava da meia-noite e meia quando Rodrigo Matos virou Rodrigo Teaser e apareceu no palco do El Puerto. Depois de uma introdução operística, Michael surgiu do fundo negro cantando “Bad”, com cabelos longos e encaracolados, camiseta branca sob uma jaqueta preta de couro, calça social e sapatos de dança pretos e meias brancas com adereços bufantes na canela. Igualzinho ao Michael que cantava “Bad” na década de 1990. Durante o show ele interpretaria ainda os maiores sucessos do astro como “Beat It”, “Thriller”, “Billie Jean” e “Black or White”, com direito a pirotecnias. As jaquetas vermelhas usadas nos clipes de “Thriller” e “Beat It” estavam lá, assim como o chapéu preto e a luva de cristais e paetê de “Billie Jean”. Todas as danças características do Michael original o Michael cover executou com perfeição, da famosa Moonwalk à dança com zumbis.

Rodrigo Teaser nunca fez aula de dança, mas desde pequeno observava os passos de Michael. “O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”, explica Teaser. “Quando você começa a sacar o jeito dele de se comportar você percebe que ele tem um modo de improvisar para cada música. Isso nos faz criar e aprender um leque de passos diferentes”. Teaser diz que sempre estuda o local onde vai se apresentar para não ter surpresas e poder adaptar bem o espaço e a iluminação às suas necessidades.

“Tenho que estudar muito, porque o show do Michael é muito bem montado e feito para tirar emoções diferentes ao longo dele. E tudo ajuda para extrair as emoções, a música, a dança, a iluminação…”, conta Teaser. “Quando faço um show grande, com bailarinos de apoio e tudo mais, tentamos fazer a mesma coisa – salvo as devidas proporções, é claro”.

Teaser geralmente não canta ao vivo, ele dubla a voz de Michael Jackson de faixas extraídas de apresentações ao vivo. “Tem gente que no final do show diz que meu inglês é perfeito”, conta rindo. Completa dizendo que o próprio Michael às vezes dubla suas próprias músicas para não comprometer nem a voz e nem a dança. “Isso acontece em músicas como ‘Thriller’, que requerem um cuidado maior com a coreografia”. Quem o vê dançando o tempo todo logo imagina que ele termina a noite esgotado, mas Teaser explica que com o tempo aprendeu a segurar mais a energia em alguns momentos para liberá-la apenas em momentos específicos. Entretanto, confessa que não consegue se segurar muito. “Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era. Saio morto do palco”.

“Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era”

Mantendo a máxima fidelidade possível ao original, Teaser faz diversas trocas de roupa durante seu show. Embora tenham um sentido estritamente estético e de identificação, o figurino é importante para o artista sentir que está no clima e no “humor” certo para interpretar determinada canção. “Eu não consigo interpretar uma música sem a roupa própria para. Fico louco com isso! Tem gente que quer que eu troque a ordem das músicas, mas digo que não tem como porque elas estão listadas numa sequência lógica. Eles acham que não tem problema, mas tem, sim. O show de um artista é uma obra fechada, nada é por acaso”, inquieta-se Teaser.

Sua noiva, Priscila Freitas, é atriz e tabém faz eventos como cover da atriz norte-americana e eterna pin up Marilyn Monroe. Conheceram-se em uma das apresentações que fizeram. Por compartilharem a mesma profissão, eles se apoiam mutuamente. “Quando faço show, ela me ajuda. Quando é a vez dela, eu a acompanho”.

De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"
De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"

 

Rei do Pop?

A carreira solo do cantor estadunidense começou pra valer em 1979 com o disco Off The Wall, transformando-o em uma promessa da black music. Um ano depois, no meio de uma turnê e de complicações com sua primeira rinoplastia, aceitou o convite do cineasta Steven Spielberg para narrar a história de E.T. – O Extraterrestre em um álbum musical. Em 1983 veio seu maior sucesso que o consolidou como Rei do Pop. O álbum Thriller vendeu 106 milhões de cópias e é o disco mais vendido da história. O vídeoclipe da faixa homônima é, na verdade, um curta-metragem de 14 minutos que custou US$ 600 mil e o fez entrar na história por mais um motivo: foi o primeiro artista que usou o videoclipe como algo que complementava a música, o álbum e o artista, mostrando como aquela linguagem audiovisual poderia ser usada de maneira original.

“Ele não era só música”, observa Rodrigo Teaser. “As pessoas reconheciam seus clipes e vestiam a música dele. Se alguém na rua estivesse com uma jaqueta vermelha, logo todo mundo remeteria aos clipes de Michael Jackson. O mesmo acontecia se alguém usasse uma luva de paetê com cristais”. Foi por tomar essas várias frentes – música, videoclipe, figurino, dança, show, filmes – que o reconheceram como um divisor de águas não só na indústria fonográfica, mas dentro de uma série de outras áreas criativas – como a moda e a cenografia. Britney Spears, Usher e Justin Timberlake, artistas do pop recente, e a própria Madonna, diva do gênero, reconhecem Michael como inspiração que apontou um caminho para todos eles. A MTV também reconheceu, ainda que tardiamente, que se não fosse por Michael o canal não seria o que se tornou. “A carreira dele é tão grande que é difícil encontrar alguém para quem MJ passou despercebido”.

Notícia de uma tragédia

Rodrigo Matos (ou Teaser) estava fora de casa quando um amigo lhe telefonou e contou que “Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca”. Ficou estarrecido. Perguntou se era boato e o amigo respondeu que “provavelmente não”, já que várias emissoras de TV estavam fiilmando o hospital onde o astro fora socorrido. “Fui voando para casa e liguei a televisão. Todos os canais falavam da tragédia. Não me passava pela cabeça que uma coisa dessas aconteceria”, declara.

Logo veio a notícia: “MJ pode ter morrido”. Contudo, o site de fofocas de celebridades TMZ já estampava em sua página principal a notícia “Morre Michael Jackson”, furando todos os veículos de comunicação. Teaser não quis acreditar de imediato e ficou esperando a CNN confirmar. “Quando confirmaram a morte a sensação foi estranha, foi como se eu perdesse o chão”, revela. Logo depois os telefones de sua casa começaram a tocar e muita gente queria entrevistá-lo, mas Teaser estava bastante abalado e confusão ainda. “Gravei o programa Mais Você da Ana Maria Braga numa manhã de sexta-feira e não segurei a onda. Depois disso a Priscila ligou para todas as emissoras, pediu desculpas por mim e desmarcou todas as gravações que eu faria”.

“Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Teaser e sua noiva tinham comprado dois ingressos cada um para dois dos últimos 50 shows que Michael apresentaria em Londres, nos dias 8 e 10 de setembro. Estima-se que o lucro desses show chegaria a US$ 50 milhões e todos os ingressos esgotaram-se rapidamente. “Conseguimos preços bons e começamos a correr para trabalhar e pagar a viagem a Londres”, conta. Cada novo detalhe dos shows era acompanhado de perto pelo Twitter de Kenny Ortega, o organziador do megaevento. O ensaio de Michael, recentemente divulgado pela televisão, já havia sido postado na internet por Ortega logo depois de ser gravado. “Foi um dos ensaios mais incríveis até agora. Michael está em ótima forma”, disse o organizador.

Michael passou três vezes pelo Brasil. Em 1974, durante a turnê sul-americana do Jackson Five, em 1993 para dois shows no estádio Morumbi em São Paulo e em 1996 para a gravação do clipe de “They Don’t Care About Us” na favela Santa Maria (RJ) e no Pelourinho (BA). Rodrigo teve a oportunidade de vê-lo ao vivo em São Paulo, mas na época tinha apenas 13 anos. Sua meta nunca foi ganhar nada do ídolo, não era sequer tirar uma foto ao lado dele. “Só queria que ele soubesse que eu existia”, desabafa Teaser, que inclusive preparava uma operação em solo londrino para se fazer notar por Michael. “Eu estava produzindo um livrinho de capa dura com fotos minhas, mostrando meu trabalho. Ia gastar uma grana e fazer 40 desses. Ficaríamos em Londres por 5 dias para entregar os livrinhos a todo mundo que é parte da produção do show. Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Embora não seja fácil aceitar uma rasteira dessas do Destino, Teaser parece conformado. “A vida nos apresenta as coisas de formas estranhas”, comenta, e completa, sem deixar claro se a esperança morreu ou não. “Há pessoas que dizem que ele devia saber sobre mim por causa da abrangência do meu trabalho, mas nunca tive prova alguma disso. Por isso prefiro a hipótese de que ele não sabia”.

Michael Jackson não foi o primeiro ídolo mundial que morreu cercado de problemas, seja na vida financeira, pessoal, social e na saúde. No livro História da Música: da Idade da Pedra à Idade do Rock, o musicólogo Valdir Montanari conta que Elvis Presley morreu mais vítima que herói, neurótico e cansado do severo esquema que os empresários montaram para faturar em cima dele. “Ao final da vida”, escreve Montanari, “ele estava desgastado, desiludido e sustentado por remédios”.

Com Michael não foi muito diferente de Elvis. Deixou uma dívida de milhões dólares (ninguém sabe ao certo quanto) e seu acervo pessoal de objetos quase foi a leilão em abril. Estava viciado em remédios, com problemas nas pernas e nas costas. Sua nova turnê começaria nessa segunda-feira, dia 13.

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Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência
Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência