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Garotas desconcertadas

Cherie Currie (canto esq.) e Joan Jett (canto dir.), protagonistas de The Runaways

The Runaways, o filme, leva o mesmo nome da banda de rock que na década de 1970 começou a sacudir os Estados Unidos e boa parte do mundo com um elenco só de garotas. E eram garotas tocando rock numa era em que só homens (cabeludos, barbudos e hippies) empunhavam suas guitarras com uma exasperante libido sexual. E as garotas do The Runaways, soltas no selvagem mundo do underground, tentavam agradar como os hominídeos machos da época faziam, usando e abusando de suas atitudes para (1) poderem se expressar como quisessem e (2) também exigir respeito.

O filme conta com a estreante Floria Sigismondi na direção e com Joan Jett, a própria guitarrista fundadora do The Runaways, na produção executiva. O resultado é uma narrativa cheia de dualidades que põe em xeque o quanto a presença (e o dinheiro) de Jett influenciou no enredo, mas também uma obra que sabe de seu tamanho e seu real alcance, não almejando saltos maiores do que pode dar. Mas vamos por partes.

Kristen Stewat como a guitarrista da banda não lembra em nada a Bella de Crepúsculo.

Para começar, a direção. Sigismondi é uma artista plástica das boas que sabe muito bem trabalhar com o bizarro, então dirigir um filme sobre uma banda de rock setentista, época de fortíssimo apelo visual nas roupas e na maquiagem, não deve ter sido um grande desafio. Ajuda também o fato da diretora já ter dirigido muitos videoclipes e que o diretor de fotografia, Benoit Debie, use um estilo granulado que cai muito bem à película. Contudo, parece que em boa parte da primeira metade da obra falta a Sigismondi e ao roteiro profundidade narrativa, então qualquer emoção que precise ser evocada é acompanhada automaticamente por alguma canção de fundo. Como esse recurso é usado várias vezes, uma cena acaba não se destacando sobre a outra. Da metade adiante, esses momentos videoclipes são substituídos pelas apresentações ao vivo da banda já formada, o que é mais verossímil e ajuda a levar a história adiante.

A dualidade entre Joan Jett e Cherie Currie está presente durante todo o filme

A história tem três personagens principais. A guitarrista Joan Jett, interpretada por Kristen Stewart, a Bella da saga Crepúsculo; a vocalista Cherie Currie, vivida por uma Dakota Fanning crescida que tenta se distanciar de papéis infantis; e Kim Fowley, truculento produtor musical estrela interpretado com arroubo por Michael Shannon. Logo que o filme começa, um pingo de sangue mancha as pedras na beira da estrada. Cherie acaba de ficar menstruada. Sua vida anda um tanto entediante e complicada: vive com a irmã mais velha e com a avó, enquanto a mãe passa muito tempo fora (até que resolve ir morar na Indonésia com o novo namorado) e o pai é um alcoólatra que se afastou da família, mas às vezes retorna ao lar. Fã de David Bowie, é vaiada no show de talentos da escola quando interpreta uma de suas canções, vestida e maquiada como o camaleão do rock.

Em outro canto da cidade está Joan. Rebelde sem causa, até onde o filme nos permite ver, ela prefere se vestir com jaquetas pretas masculinas do que com os artigos femininos das lojas. Tenta substituir o sobrenome Larkin por Jett e gostaria que suas lições de guitarra fossem mais selvagens e distorcidas, mas recebe em troca um “garotas não tocam guitarra elétrica”. Nesse mundo quase hostil, Joan conhece Kim Fowley e avisa que é uma guitarrista atrás de garotas para uma banda só de meninas. O produtor se interessa e começa a reunir outras interessadas. É em uma boate, quase que sem querer, que Fowley vê Cherie num canto e recruta a menina para cantar.

Michael Shannon como o truculento produtor musical Kim Fowley

Assim começa a jornada do The Runaways. A banda vai dos sofridos ensaios num trailer até as apresentações monumentais no Japão, onde as cinco são cultuadas. O foco principal sobre Joan e Cherie evidencia as dualidades do filme. Joan não tem história pregressa, quer tocar rock’n’roll, quer ser selvagem, quer ser transgressora, enfrenta bruta montes e é retratada sempre como a integrante que faz de tudo para manter a banda funcionando, mesmo quando Cherie não quer cantar grosserias ou quando se recusa a gravar um disco. Já a vocalista é influenciada pelos problemas que deixou em casa, pelo recém descoberto mundo dos excessos e pela exploração de sua imagem que sai de seu controle.

E toda a confusão que culmina com o afastamento de Cherie Currie do The Runaways tem pelo menos dois catalisadores comuns. O primeiro é Kim Fowley, que obriga e manipula as meninas a serem o produto que ele quer que elas sejam. O segundo, como já era de se esperar, são as drogas. Elas acabam com a vida da vocalista, que nunca mais conseguiu chegar ao estrelato. Ao final do filme, parece que estamos vendo a vida de Kurt Cobain de novo, mas em outra época e sem o suicídio. Enquanto isso, Joan Jett passa um tempo longe dos holofotes, sem produtor e sem contrato com gravadora. Mas ressurge, agora como Joan Jett and The Blackhearts, e emplaca o sucesso “I Love Rock’n’Roll”.

A banda setentista The Runaways completa, como retratada no filme

A dualidade entre as duas está presente o tempo todo, mas nem Kristen Stewart nem Dakota Fanning conseguem dar conta da profundidade emocional de suas personagens – e o roteiro não se esforça para isso também. Desde o início do filme, temos constantes closes do rosto iluminado de cabeleira loira de Fanning, mas Stewart é sempre filmada a distância, cabelo na cara. Uma deixa sua história a mostra, mas da outra não temos nem vestígios de seu passado ou de sua família. Quando Cherie surta no estúdio e deixa a banda, abre uma porta atrás de Joan e se entrega ao clarão do lado de fora, enquanto a guitarrista permanece no canto mais escuro. Mas ela não vai necessariamente na direção da liberdade ou ao encontro de um futuro melhor.

Conta a favor das duas o fato de conseguirem mostrar que são atrizes capazes de se distanciarem dos papeis que as tornaram famosas. Kristen Stewart está com uma voz mais grave, uma postura mais largada e uma aparência mais sombria do que a de Bella. E Dakota Fanning mostra que está crescendo e está disposta a manchar seu rosto para fugir de estereótipos.

E então vem a questão: The Runaways tem alguma isenção ao contar a história ou ela é filtrada pelos olhos de Joan Jett, a produtora executiva? A guitarrista se dá bem na história, está longe de ser uma vilã ou de ser retratada como uma viciada tão problemática quanto Cherie. Que seja o dinheiro falando mais alto, porque se for auto-indulgência aí já é demais.

A vida real num comic book

Em Anti-herói Americano Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar e nem salvar o mundo. Na verdade, ele vive tentando salvar a si mesmo

Por Alice P. Wakai (lice_watashi@hotmail.com)

Paul Giamatti interpreta Harvey Pekar, americano que vai seguindo com a vida, sem grandes heroísmos

Harvey Pekar (Paul Giamatti) é um arquivador de documentos que trabalha num hospital em Clevand. Passa as horas livres ouvindo LP’s raros que compra nos brechós, lendo literatura ou escrevendo artigos sobre jazz. Entediado com a rotina medíocre do emprego, frustrado com os dois casamentos fracassados e sofrendo de problemas de garganta, ele conhece Robert Crumb* – um ilustrador de quadrinhos talentoso que visita os mesmos bazares baratos que Harvey. Com muito jazz e revistas em quadrinho em comum, os dois logo se tornam amigos e Crumb começa a frequentar a casa de Pekar. Entre um diálogo e outro, Harvey tem o insight que mudará sua vida: resolve se tornar um escritor de histórias em quadrinhos do seu próprio cotidiano.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia, cria personagens baseadas nas pessoas bizarras com quem convive no trabalho ou simplesmente ironiza situações que presencia dentro do ônibus. Crumb (interpretado por James Urbaniak) lê os textos e resolve criar uma revista em quadrinhos, a American Splendor, publicada pela primeira vez em 1976, e que vira um verdadeiro sucesso de crítica e público.

Harvey torna-se celebridade, participa de programas de auditório na TV, sessões de autógrafos na livraria, as pessoas o reconhecem na rua… No entanto continua absorto, mergulhado em seu mundo solitário. É nesse momento que conhece a mulher de sua vida, Joyce Brabner, também amante de quadrinhos, com quem logo se casa, depois de fazê-la vomitar com seu beijo.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia

Harvey Pekar é, de fato, o “anti-herói americano”: tem uma vida pouco luxuosa e bem diferente do “american way of life”. Ele representa a classe média baixa dos Estados Unidos: suporta um emprego mediano apenas pela comodidade e pelo plano de previdência, e acha-se um “estorvo social”.

Por se tratar de um personagem real (o próprio Harvey Pekar aparece no filme), o Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade, e além disso tem uma edição bacana que evoca sempre a página de um “comic book”, com margens, enquadramentos, letreiros chamativos e desenhos caricatos.

Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade

American Splendor se insere na década 70, período “underground” das revistas em quadrinhos, que eram vendidas em head shops e de mão em mão. Crumb, os Freak Brothers de Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, Victor Moscoso, Bill Griffin estão entre os mais conhecidos da época.

Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar, nem salvar o mundo. Na verdade ele vive tentando salvar a si mesmo. Representa a luta pela sobrevivência social, pela visibilidade (que  não necessariamente leva à felicidade). Como diz o próprio Harvey Pekar no começo do filme “Se você é o tipo de pessoa que procura por romance, escapismo ou fantasia pra salvar o dia, você pegou o filme errado”.

A ótima direção de Robert Pulcini e Shari Springer Berman aliada à brilhante interpretação de Paul Giamatti e excentricidade de Harvey Pekar garantem um bom filme.

*Robert Crumb é um famoso jornalista e quadrinista norte-americano que vive na França atualmente. Autor de várias histórias curtas e alguns livros, lançou a graphic novel Gênesis em 2009, publicado no Brasil pela Conrad. Vez ou outra, a revista Piauí publica algumas de suas histórias curtas. Crumb vem ao Brasil este ano para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Road Salt One

A primeira parte do álbum duplo de Pain of Salvation mostra som anos 70 e as mesmas angústias humanas de álbuns passados

Em Road Salt One (2010) a banda amplia suas fronteiras musicais

Ao encarar uma crise econômica, a banda sueca Pain of Salvation viu seus planos de lançar um novo álbum serem adiados. Então ela aproveitou para lançar em 2009 o duplo Ending Themes – The Second Death Of, registro ao vivo em CD e DVD da banda durante a turnê de Scarsick, álbum de 2007. E no final do ano passado mostrou ao público um pouco do que já haviam gravado lançando o EP Linoleum com quatro novas faixas e um cover do Scorpions.

Este mês sai Road Salt One, primeira parte de um álbum duplo que dará continuidade a uma história iniciada em The Perfect Element, disco de 2000, e retomada em Scarsick. O vocalista e principal mente criativa por trás da banda, Daniel Gildenlöw, avisou pelo site oficial do grupo que o novo disco teria influências setentistas. Porém, ao escutarmos as suas 12 faixas, temos certeza de que a palavra influência pode ser um eufemismo. Road Salt One tem muito do som anos 70 e explora raízes de blues, jazz e rock daquela época que até então não tinham sido incorporados de forma tão evidente em trabalhos passados.

A ótima produção das músicas não as maquiou demais, conservando a sonoridade real de cada instrumento dentro do estúdio. Isso contribui para que cada faixa soe o mais orgânica possível, até mesmo cruas em alguns momentos. Embora seja um álbum que claramente prioriza o papel das guitarras de Daniel e Johan Hallgren, o trabalho com os pianos de Fredrik Hermansson está muito mais marcante do que estava em Scarsick e em álbuns mais antigos. Aliás, o piano é responsável por vários dos temas mais significativos da obra.

Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra) com novo visual e Johan Hallgren (guitarra) com seu habitual estilo

Dessa vez não há flertes com a disco music e nem com o rap/hip hop. O Pain of Salvation manteve-se mais ligado ao rock, como em “No Way”, “Curiosity”, “Darkness of Mine” e “Linoleum” (a única faixa do álbum que estava no EP de 2009). As canções alternam a reverberação do overdrive com breaks e passagens mais leves, abrindo espaço para algumas estilizações e criação de texturas com a guitarra e o teclado.

“She Likes to Hide”, “Of Dust” e “Tell Me You Don’t Know” dão a cara mais raiz e bluseira do disco. E a tristeza que transborda de “Road Salt” e “Where It Hurts” servem como anticlímax (e isso se refere a estética apresentada pelo Pain of Salvation, o que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, o anticlímax é muito bem executado dentro da proposta da banda). E como já é costume com esses suecos, temas densos são tratados de forma densa, mas com ironia também.

“Sleeping Under The Stars” e “Innocence” são os momentos mais experimentais dessa viagem. A primeira é uma valsa um tanto excêntrica e inesperada no álbum. A segunda é um rock atmosférico cheio de altos e baixos, coros, suspiros, distorção, ritmos arrastados e agressividade. “Sisters”, uma das mais belas de Road Salt One, tem a melhor letra do álbum. O ouvinte passeia com ela por vales tristes até chegar a um acesso de raiva (ou seria angústia?).

O novo baterista Leo Margarit com Fredrik Hermansson, Hallgren e Gildenlöw

Depois de trocar de baixista duas vezes desde 2006, quem assume o posto  é Per Schelander, como contratado por enquanto. Com a saída de Johan Langell para se dedicar mais à família, Leo Margarit foi escalado para a bateria e até já aparece ao lado de Gildenlöw, Hallgren e Hermansson em fotos de divulgação. Margarit mostra neste disco que tem pegada para diversos estilos musicais e sabe soltar a mão nas horas certas.

No final, é um álbum diferente dos demais na discografia dos suecos. Triste e nebuloso, como há de ser a história de She e He, os personagens principais dessa conturbada estrada que não parece levá-los a lugares bonitos. Amor corroído, sexo doído e encontros cheios de lágrimas são novamente abordados nas letras. É Daniel Gildenlöw cantando mais uma vez sobre o comportamento e as emoções humanas.

Road Salt One nos faz esperar com mais ansiedade pela sua segunda parte. Os anos 70 continuarão a soar? E quanto às letras? Essa história terá chegado ao fim? As respostas devem aparecer em outubro deste ano.

Clipe oficial de “Linoleum” (de longe, o melhor da banda até agora)