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Mary & Max – Solidão

Filme fala de Asperger e da amizade, mas trata principalmente da solidão de um homem e de uma garota

Mary & Max é uma animação feita em stop-motion

A grande maioria das animações que chegam aos cinemas ou às locadoras acabam logo fazendo parte da sessão “Infantil”. Os filmes da Pixar e da DreamWorks, os dois maiores estúdios americanos do segmento, realmente visam as crianças, mas garantem que seus filmes tenham apelo (estético e de conteúdo) tanto para adolescentes quanto para adultos. Mary & Max (Mary and Max, 2009), que estreou neste final de semana no Brasil, pode até emocionar crianças, mas é um tipo de animação feita para adultos.

Na história, Mary Daisy Dinkle é uma garotinha australiana de oito anos de idade que não tem amigos e sofre de bullying na escola. Seu pai passa mais tempo empalhando aves do que dando alguma atenção à família, e sua mãe vive alta, encontrando em certas substâncias a fuga perfeita da realidade. Sem nada a perder, Mary resolve escrever para o endereço de um desconhecido M. J. Horowitz, que encontra por acaso numa lista telefônica de Nova York.

A carta chega às mãos de Max, um homem de 44 anos, obeso, chocólatra, judeu (mas agora ateu) e igualmente solitário. Suas únicas companhias são peixes chamados Henry, uma vizinha doente e um amigo imaginário que fica o tempo todo lendo num canto de seu apartamento. Ao receber a correspondência de Mary, Max tem um ataque de pânico e não sabe lidar com a situação. Mas escreve de volta. Surge, então, um caso de amizade por correspondência entre os solitários Mary e Max.

Mary Daisy Dinkle, menina australiana de 8 anos

Parece inerente às animações que situações cômicas aconteçam, e o filme está cheio delas. É possível se divertir com as pequenas trapalhadas dos dois personagens, suas trajetórias de vida absurdas – e dolorosas –, ou com suas excentricidades. Entretanto, para cada cena de humor e imagem fofinha, há um tom de melancolia que, de tão acachapante, às vezes chega a ser desesperador. E isso reflete-se no visual do filme. A Austrália de Mary ainda tem cores, predominantemente marrom. Já a Nova York de Max é inteirinha preta e branca de alto contraste. As cores na vida dele aparecem apenas depois que começa a escrever para a garotinha, mas não chegam nunca a inundar a tela.

As cartas trocadas pela dupla solitária tratam com alguma sensibilidade questões como a amizade, o amor e o desafio de encarar as pessoas e o mundo. A inocência dos dois permeia suas cartas e a forma como tratam de assuntos complexos que nenhum deles entende bem. E é depois de mais um surto de pânico que ficamos sabendo que Max sofre da síndrome de Asperger e, por isso, é tão recluso e tem tanta dificuldade em se relacionar e entender outras pessoas. A síndrome é tratada no filme como uma condição de Max, sem torná-lo uma espécie de vítima de si próprio.

Max Horowitz sofre de Asperger e vive em uma Nova York preta e branca

Mary & Max foi escrito, dirigido, produzido e desenhado por Adam Elliot, que ganhou um Oscar na categoria melhor curta de animação e um prêmio no Anima Mundi por Harvie Krumpet. As duas produções foram feitas com a técnica stop-motion, usando personagens feitos de massinha fotografados quadro a quadro, são tristes e possuem um design de personagens bastante similar, indicando talvez um modo próprio de Elliot retratar o ser humano. Entretanto, quando comparadas, fica evidente como suas técnicas de animação, elaboração de cenários e iluminação são superiores em Mary & Max.

O filme todo usa o artifício da narração para que informações sejam passadas ao espectador, ao invés de apostar em diálogos e ações que fizessem esse trabalho sozinhos. E este é o ponto fraco do filme, porque essa estratégia pode cansar e tira um pouco do brilho especial dos personagens.

Conforme a história segue, momentos de felicidade para Mary e Max alternam-se com momentos extremamente depressivos que os levam a medidas que por pouco não acabam em tragédia. Ainda que muito bonito, é um filme triste. Embora fale de Asperger e da amizade, trata principalmente da solidão de um homem e de uma criança para atingir todas as pessoas. No final das contas, seja em Nova York ou na Austrália, todos os personagens eram solitários. Cada um ao seu modo sem ter alguém para lhes acompanhar.

Fantastic Mr. Fox: o trailer

Texto de Lucas Scaliza

Foi lançado o trailer do novo filme de Wes Anderson, Fantastic Mr. Fox, que virou Rapozas e Fazendeiros no Brasil. É a primeira vez que o diretor se aventura pelo terreno da animação stop-motion (mesma técnica de Coraline).

Na história, Mr. Fox rouba os animais e os produtos de três fazendeiros: Boque, criador de galinhas, Bunco, criador de patos e gansos, e Bino, que cria perus e planta maçãs. Cansados das investidas do Sr. Raposo, os fazendeiros resolvem se vingar.

No trailer, vários nomes de atores conhecidos aparecem, como George Clooney e Meryl Streep. Outros colaboradores de Anderson também estão lá: Owen Wilson, Jason Schwartzman e Bill Murray. Não sei como o nome de Angelica Houston não apareceu, antiga colaboradora do cineasta.

Wes Anderson dirigiu Viagem a Darjeeling, Os Excêntricos Tenenbaums, e A Vida Marinha com Steve Zissou. O filme estréia nos EUA em 13 de novembro e em 14 de dezembro nos Brasil.


Idosos e balões coloridos

Texto de Lucas Scaliza/Foto divulgação

Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo
Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo

Idosos e balões coloridos. Uma selva da América do Sul e um escoteiro determinado que quer uma relação paterna. Uma ave que come chocolate e cães falantes. Esses são alguns dos principais elementos que compõem UpAltas Aventuras, nova animação da Pixar em parceria com a Disney.

Depois do belo Wall-E, cujos 40 minutos iniciais ganharam facilmente o público e a crítica (e um Oscar), a expectativa com a próxima animação da Pixar tornou-se grande. O que eles iriam inventar agora? Que dilema humano mostrariam na tela? Conseguiriam superar Wall-E?

Quando os primeiros trailers chegaram à web o público ficou extasiado pelas cores e pela idéia de seus realizadores. Carl Fredricksen, um idoso de mais de 70 anos tem sua casa içada por milhares de balões. Faltavam o contexto em que isso aconteceria e qual seria o desenvolvimento dessa aventura.

Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir.

Desde criança, Carl era fascinado pelo aventureiro Charles Muntz e sonhava em ser como ele. Saindo do cinema e no caminho para casa encontra Ellie, uma garota ruiva que compartilha com nosso protagonista a admiração por Muntz e o sonho em viver uma aventura. O tempo passa, os dois se casam e envelhecem. É incrível como essa passagem de tempo e a relação entre os dois é passada ao público – infantil, em sua maioria – de forma tão singela e sutil, sem diálogos, aproveitando bem a trilha sonora e o poder narrativo das imagens, das situações, da ação e da reação dos personagens.

Quando a história chega ao tempo presente, Carl segue convivendo com a morte de sua esposa. A vizinhança já não é a mesma e sua casa está cercada de obras, mas ele teima em ficar. Teima até ser obrigado a se retirar. Aqui já temos todo o contexto que nos faz entender – sem que isso seja expresso em palavras por Carl – suas motivações em amarrar balões coloridos em sua casa para que saia voando em direção às florestas da América do Sul, onde espera encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e não pôde em vida.

Acidentalmente, junto com o velhinho vai o escoteiro Russel. Ele já tem várias insígnias em seu uniforme de explorador, menos uma: a insígnia por ajudar idosos. No meio de todos os problemas que a aventura apresenta, os roteiristas conseguiram incluir um dilema em Russel que acaba tornando o personagem mais real e mais empático com o público. Como não gostar de um gordinho simpático e valente que mora com a madrasta e sente falta do pai? O trunfo da produção é mostrar tudo isso de uma forma sutil e crível, sem em momento nenhum descambar para o melodrama.

Up não é uma animação japonesa e o diretor Pete Docter não é Hayao Miyazaki. Enquanto o mestre nipônico consegue fazer seus vilões tornarem-se apenas mais personagens complexos na história, e assim eliminando a rotulação dura de vilões que carregavam, Up faz o contrário. Charles Muntz assume o papel do vilão. Quando ele surge, já velho mas ainda obcecado em se reafirmar como aventureiro de credibilidade, temos a impressão que uma nova história seguirá dali. Mas Muntz acaba encarnando o vilão, e assim segue até o final do filme, como personagem raso e com o desfecho que cabe a um vilão.

Contudo, temos que dar crédito a Pixar. Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir. Além disso, Carl não busca superação nenhuma quando tenta encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e o filme não força um encontro entre pai e filho só para dizer que o dilema de Russel teve final feliz. Assim como tinha feito em Ratatouille (em menor escala) e em Wall-E (em maior dose), a Pixar conseguiu não deixar que soluções fáceis esmagassem uma história bonita e bem mais sofisticada que a maioria das animações americanas.