Idosos e balões coloridos

Texto de Lucas Scaliza/Foto divulgação

Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo
Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo

Idosos e balões coloridos. Uma selva da América do Sul e um escoteiro determinado que quer uma relação paterna. Uma ave que come chocolate e cães falantes. Esses são alguns dos principais elementos que compõem UpAltas Aventuras, nova animação da Pixar em parceria com a Disney.

Depois do belo Wall-E, cujos 40 minutos iniciais ganharam facilmente o público e a crítica (e um Oscar), a expectativa com a próxima animação da Pixar tornou-se grande. O que eles iriam inventar agora? Que dilema humano mostrariam na tela? Conseguiriam superar Wall-E?

Quando os primeiros trailers chegaram à web o público ficou extasiado pelas cores e pela idéia de seus realizadores. Carl Fredricksen, um idoso de mais de 70 anos tem sua casa içada por milhares de balões. Faltavam o contexto em que isso aconteceria e qual seria o desenvolvimento dessa aventura.

Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir.

Desde criança, Carl era fascinado pelo aventureiro Charles Muntz e sonhava em ser como ele. Saindo do cinema e no caminho para casa encontra Ellie, uma garota ruiva que compartilha com nosso protagonista a admiração por Muntz e o sonho em viver uma aventura. O tempo passa, os dois se casam e envelhecem. É incrível como essa passagem de tempo e a relação entre os dois é passada ao público – infantil, em sua maioria – de forma tão singela e sutil, sem diálogos, aproveitando bem a trilha sonora e o poder narrativo das imagens, das situações, da ação e da reação dos personagens.

Quando a história chega ao tempo presente, Carl segue convivendo com a morte de sua esposa. A vizinhança já não é a mesma e sua casa está cercada de obras, mas ele teima em ficar. Teima até ser obrigado a se retirar. Aqui já temos todo o contexto que nos faz entender – sem que isso seja expresso em palavras por Carl – suas motivações em amarrar balões coloridos em sua casa para que saia voando em direção às florestas da América do Sul, onde espera encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e não pôde em vida.

Acidentalmente, junto com o velhinho vai o escoteiro Russel. Ele já tem várias insígnias em seu uniforme de explorador, menos uma: a insígnia por ajudar idosos. No meio de todos os problemas que a aventura apresenta, os roteiristas conseguiram incluir um dilema em Russel que acaba tornando o personagem mais real e mais empático com o público. Como não gostar de um gordinho simpático e valente que mora com a madrasta e sente falta do pai? O trunfo da produção é mostrar tudo isso de uma forma sutil e crível, sem em momento nenhum descambar para o melodrama.

Up não é uma animação japonesa e o diretor Pete Docter não é Hayao Miyazaki. Enquanto o mestre nipônico consegue fazer seus vilões tornarem-se apenas mais personagens complexos na história, e assim eliminando a rotulação dura de vilões que carregavam, Up faz o contrário. Charles Muntz assume o papel do vilão. Quando ele surge, já velho mas ainda obcecado em se reafirmar como aventureiro de credibilidade, temos a impressão que uma nova história seguirá dali. Mas Muntz acaba encarnando o vilão, e assim segue até o final do filme, como personagem raso e com o desfecho que cabe a um vilão.

Contudo, temos que dar crédito a Pixar. Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir. Além disso, Carl não busca superação nenhuma quando tenta encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e o filme não força um encontro entre pai e filho só para dizer que o dilema de Russel teve final feliz. Assim como tinha feito em Ratatouille (em menor escala) e em Wall-E (em maior dose), a Pixar conseguiu não deixar que soluções fáceis esmagassem uma história bonita e bem mais sofisticada que a maioria das animações americanas.

O homem que entende as máquinas – parte 1

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O que ninguém consegue consertar, o inventor Aristides Lanfredi conserta. Não é dinheiro que ele quer com isso, mas que continuem sua obra
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.

Interior de São Paulo. Saindo de Igaraçu do Tietê e seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi, para além do Igaraçu Park, e entrando na estrada IGT-416 que leva para Macatuba, siga até avistar a entrada do Rancho Floresta, a sua direita, mas não entre. Olhe o caminho misterioso a esquerda, estreito e emparedado por centenas de pés de cana-de-açúcar. No final deste caminho está um homem magro e franzino, geralmente usando chapéu de palha, chamado Aristides Lanfredi. Aos 82 anos de idade, ele vive recluso em sua propriedade rural, mas é de uma lucidez e de um brilhantismo fora de série.

Ele estudou apenas até quarta série, mas foi o suficiente para mostrar todo o potencial que tinha e que, como logo veremos, não foi todo aproveitado. Na escola, Aristides ganhou diversos prêmios por ser um inventor muito superior a qualquer outro de sua sala. Tudo que ele inventava tinha relação com a mecânica, sua grande paixão até hoje.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores

Aos 12 anos, fora da escola e morando num sítio onde a energia elétrica ainda não chegara, gostava de observar as embarcações desfilando pelo Tietê e de brincar no rio. Então sua primeira máquina nasceu: uma barquinha com motor a vapor! “Era uma farra no rio”, diz. Para que fique claro, todo o motor foi montado por Aristides a partir do zero e funcionava.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores e esnoba descobertas modernas: “Faz pouco tempo que inventaram a ignição sem platinado, mas eu já a tinha feito há 50 anos”. Ainda moleque fez sua primeira caldeira, em 1940. Pegou latas de óleo de cozinha e as colocou no fogo. Como não tinha torno naquela época, torneou tudo na mão. E como se torneia na mão? “É simples. Pega dois paus bem compridos, os cruza e fica atritando-os. Furar era tudo na força bruta, eu não tinha furadeira”. Um tempo depois, ele fez para si uma furadeira. Não elétrica, manual.

Atualmente, Aristides está empenhado em fazer telhas de cerâmica a partir de um modelo de 60 anos atrás. “Naquele tempo quase não tinha antimônio [um semi-metal]”, explica ele, “então eu fiz antimônio misturando zinco com chumbo e deu certo, a telha saiu perfeita”. A forma de telha que usa é esculpida por ele mesmo primeiro em saibro e depois feita de antimônio derretida. Se der defeito, ele funde outra. Aristides conta que há alguns anos, vários ceramistas foram atrás dele querendo que fizesse a prensa de telhas para eles, mas não aceitou. Por que não? “Ah, não. Capaz de sair algum defeitinho e acharem ruim”.  Em outra época, uma empresa que exigia um nível de escolaridade de seus empregados ficou sabendo de nosso protagonista e quis contratá-lo mesmo assim. De novo, não foi. E por que não? “É amor na família. Não queria ficar longe dela. Mas se fosse hoje, pelo amor de Deus!”, ele vibra levantando os braços para o céu.

Continua nos posts abaixo.

O homem que entende as máquinas – parte 2

Texto e fotos por Lucas Scaliza

Quando não tem mais jeito

O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas
O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas

Se um motor dá problema e ninguém na cidade conserta, Aristides entra em cena. Foi assim que o floriculturista e professor Rubens Ap. Fabrício, Bi, o encontrou. Ele tinha uma moto que ninguém dava cabo do problema, fosse em Barra Bonita ou em Jaú. Então alguém lhe contou sobre a existência de um tal de Aristides Lanfredi que resolvia qualquer problema em motores. Bi confiou e se impressionou com o senhor que encontrou. “Em 30 minutos ele conseguiu o que nenhum outro fez em dias e semanas. Depois disso, sempre lhe entreguei minhas máquinas para serem consertadas e ele sempre encontrou soluções adequadas”, declarou.

Quando entrevistei Aristides, na tarde de uma sexta-feira, Bi me acompanhava. Ele tinha deixado com o homem dois pôneis mecânicos [pequenos arados com motor]. “Levei-os direto para o Aristides porque na Barra ninguém conheceria esse tipo de máquina”. Um deles já foi devolvido e está em ótimo estado de funcionamento, segundo Bi. O mais interessante de toda essa história é que ninguém entregou um primeiro motor para Aristides para que ele pudesse ver como era e, aí sim, construir ou consertar o primeiro. Ele simplesmente olha e entende a máquina, seja motor de barco, caminhão, moto ou carro. Até em bomba  injetora mexe e diz ser mais fácil de arrumá-la do que um carburador. E pelo ronco do motor ele também já identifica o problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos. Usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação.

A lista de feitos de Aristides não caberia nessas páginas, mas é possível contar alguns. Certa vez, um senhor de Botucatu o procurou com um motor de popa que ninguém conseguira consertar. Aristides olhou, olhou e apenas mexeu numa pecinha e mandou ligá-lo. Funcionou. Em outra ocasião lhe deram uma bomba d’água para dar uma olhada. A peça problemática era trocada e nada se resolvia. Mandaram vir da fábrica do Japão a peça necessária e mesmo assim nada de funcionar. Aristides, então, fabricou ele mesmo a peça, um modelo mais flexível, porque notou que a original era dura e se quebrava facilmente.

Há vários anos, um português de Arealva comprou um carro Mercuri que valia Cr$ 25 mil por apenas Cr$ 800. O motor não funcionou mesmo depois de ser mandado para oficinas de Rio Claro e São Paulo. O carro chegou às mãos de Aristides e foi batata! “Descobrimos na hora o problema. Bem, o português ganhou mais de 20 mil, não é?”, ele gargalha.

Bi, há 10 anos, levou até Aristides um motor estacionário de bomba d’água. Ao começar a mexer no equipamento, o “mecânico” jogou fora uns parafusinhos do motor no meio do  mato, fazendo Bi pensar: “Meu Deus do céu! Será que ele acha isso depois?”. O homem disse que não havia necessidade daquelas peças ali e fez a máquina funcionar, demonstrando que os parafusos realmente não fizeram diferença. Durante a última década, ninguém mexeu no estacionário e ele nunca mais deu problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos além do ensino básico. Por meios próprios, usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação. Diz ele: “De onde vem a faísca da vela de um motor? É um elétron que recebe uma pressão tão forte que acaba saindo de órbita e vira luz na ponta da vela, acredita nisso? A bateria só provoca o elétron”.  E continua.  “E vela de motor não queima. O que acontece é que o combustível tem partículas de chumbo que se acumulam na vela e aí ela pára de funcionar”.

Inventivo que só ele, Aristides tem na cabeça uma idéia de motor movido à água, e tudo leva a crer que essa idéia existe há bastante tempo, reclusa em sua mente, assim como ele se resguarda em seu pedaço de chão.

O homem que entende as máquinas – parte 3

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O homem persegue seus sonhos

Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto
Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto

Apesar de todo esse talento, Aristides cobra uma mixaria por seu serviço. Fica mais feliz em fazer o serviço do que em cobrar por ele. O dinheiro que lhe permite pagar os impostos, se alimentar e manter sua pequena oficina de paredes de madeira vem de sua aposentadoria e da renda que o sítio lhe proporciona.

Na verdade, como conta seu sobrinho, o eletricista de autos Pedro Stangherlin, Aristides trabalha na roça, plantando, carpindo e vez ou outra consertando algum motor. Ele é solteiro, não tem filhos e mora com irmãos, com quem divide a propriedade rural. A oficina, as máquinas, as engrenagens são seus passatempos, hobbys aos quais se dedica durante a noite e aos domingos. E, ao que parece, desde sempre foi assim. “Já tentaram levá-lo ao Rio de Janeiro para estudar”, conta Pedro, “mas seus pais não deixaram, ele tinha que ajudar na roça e, nas horas sem serviço, mexer com seus inventos”.

Ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece

O senhor mecânico autodidata sabe de seu potencial e sabe que ele foi subaproveitado. Lamenta que em sua juventude a corrente elétrica não chegava a sua casa, senão “teria feito muito mais”. Talvez muito mais bielas e pistões e pequenos motores do que já fez. Lamenta também por não ter ganho dinheiro com seu dom. “Sabe onde perdi muito dinheiro? Se eu tivesse um outro colega que soubesse negociar, a história seria diferente. Já me apareceu cada coisa aqui, já inventei tanta coisa nessa Terra…”.

Dinheiro – dizem mecânicos e eletricistas da cidade, seu sobrinho Pedro e seu amigo Bi – nunca foi a preocupação de Aristides. Para eles, o que vale de verdade é a satisfação que ele sente em pôr em prática sua arte de consertar. “Diria que dinheiro tem significado zero para ele. Ele cobrava Cr$ 10 por um conserto e acabavam lhe pagando Cr$ 20, 80 ou 100. Ele guardava esse dinheiro em uma lata. Então a moeda corrente mudou e, quando ele descobriu isso, o que ele tinha guardado já não valia mais nada. Aliás, algo valia, sim: o que ele tinha feito pelos outros”, afirma Bi.

Durante a entrevista, Aristides comentou várias vezes que não tem mais vontade de criar. Seria o cansaço ou a idade? Quem o conhece há algum tempo aposta em outro motivo: ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece. Algo como “vou inventar para quê se ninguém toca meus inventos?”. Nas palavras do professor Bi, que também é contista e poeta, esse senhor, Aristides Lanfredi, não persegue dinheiro, apenas seu sonho. E o homem deve perseguir seus sonhos, porque assim ele se realiza. E Aristides é uma pessoa realizada, mesmo sem o reconhecimento que talvez lhe seja merecido, cercado por um mar de cana, naquela estrada IGT-416, além do Igaraçu Park, seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi. Lá está o homem que entende as máquinas.

Porque o mundo é complexo