Arquivo da categoria: Música

Scarlett também canta

Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek
Capa do primeiro álbum de Scarlett Johansson. Foto de David Sitek

Texto de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Logo, logo a atriz Scarlett Johansson lançará um álbum musical ao lado do músico Pete Yorn. Até um video clipe da dupla já foi liberado na internet. No entanto essa não será a primeira vez de Scarlett como cantora. Em 2008 a moça gravou Anywhere I Lay My Head interpretando 10 canções de Tom Waits e uma inédita que não é de autoria dele.

Hesitei muito em ouvir o álbum de Scarlett, já imaginando a bomba que vinha pela frente. Seriam músicas pop teen melosas? Será que ela acabaria com Tom Waits? Aliás, ela canta bem? Logo de cara o disco mostra que não veio brincando e não demorou muito até eu perceber que ali havia alguém que sabia o que estava fazendo.

Ela não tenta mostrar potência vocal, nem inventa firulas. Faz o básico e acerta, não se expõe em momento algum ao constrangedor. A banda que a acompanha é excelente e recriou todo o clima das músicas de Waits com esmero, apostando em climas viajantes. Scarlett e seu produtor David Sitek, da banda TV On The Radio, não regravaram tudo exatamente como eram os registros originais. Eles incorporaram novos elementos com propriedade e conseguiram fazer o álbum soar coeso.

O disco também conta com a participação de Nick Zinner, guitarrista da banda Yeah Yeah Yeahs e o guitarrista da Celebration, Sean Antanaitis. O cantor britânico David Bowie, 61, empresta sua voz a duas faixas do disco, “Falling Down” e “Fannin Street”. Você pode ouvir a íntegra do álbum aqui ou aqui.

Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn
Scarlett manteve um clima onírico em todo o álbum. Ainda este ano sai o disco em parceria com Pete Yorn

Resenha faixa a faixa

Fawn – uma linda abertura que deve ter deixado o próprio Tom Waits feliz. Não teve medo de arriscar combinações agudas.

Town With No Cheer – No comeo quase não parece a Scarlett, clima soturno, onírico. Teclados, sintetizadores presentes.

Falling Down – É como se ela cantasse na segurança de uma redoma de vidro enquanto em volta um tornado rodopiasse. Destaque para a guitarra e o jogo dos vocais dobrados cantando o refrão.

Anywhere I Lay My Head – Reinventa sem medo. Imprime força e faz sua voz, que não é adocicada, ganhar força e destaque.

Fannin Street – Lenta, a percussão dá o tom. Belos arranjos vocais. Nada de pressa aqui, e ela acerta novamente.

Song For Jo – A música inédita do álbum. Não decepciona também e mantém-se, estilisticamente falando, em sintonia com o resto do disco.

Green Grass – Voz grave, não tenta subverter a canção, mas também não deixa de deixar impressa sua marca pessoal. Tudo em seu devido lugar e com bom gosto.

I Wish I Was In New Orleans – Quase uma canção de ninar. É o mais doce que ela chegou neste álbum.

I Don’t Wanna Grow Up – Dançante do começo ao fim. Podia cair na mãe de algum DJ e virar um hit em pistas de dança. Bem animada.

No One Knows I’m Gone – O que acontece quando você mistura os climas de Pink Floyd com Beirut e um vocal feminino que não tenta soar nem diva do soul, nem ídolo teen? Você tem uma bela canção.

Who Are You – Belo dueto e serve como síntese do álbum. Scarlett não tenta fazer mais do que sua voz permite, não cai em impressionismo tolos.

As cores da Björk ao vivo

Texto de Lucas Scaliza

Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)
Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)

Depois de lançar com enorme alarde seu último álbum de estúdio, Volta, Björk retorna com um registro ao vivo da turnê. Voltaic foi lançado em julho e contém dois sets de shows. O maior deles registra a apresentação da cantora islandesa em Paris quase no fim da turnê. O segundo, bem enxuto, foi gravado em Reykjavík e nos brinda com canções soturnas novas e antigas.

Depois da introdução com uma marcha nórdica, Björk logo faz o show em Paris explodir com a percussão étnica de “Earth Intruders”. Daí para frente segue-se uma seleção de grandes músicas de Volta e de álbuns anteriores, principalmente Homogenic, Vespertine e Medulla. Estão lá “Hunter”, “Hyperballad”, “Pluto”, “Army of Me”, “Bacherolette”, “Who Is It” e “Jóga”, como destaques entre as antigas. E “Declare Independence”, “Vertebrae by Vertebrae” e “Wanderlust”, entre as criações da última safra.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções

A cada turnê, Björk muda a composição de seu palco, isto é, as cores do show, os instrumentos que serão usados por sua “banda” e por seu coral. Muda também a sua atitude. Uma das belezas de ouvir – e de ver, pois Voltaic é um DVD duplo também – a islandesa de 43 anos ao vivo é reparar em como ela rearranja e quase recria suas músicas para novas configurações de instrumentos.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções. Desde os raios laser verdes até a roupa bufante rosada da artista central, e do macacão amarelo com riscas coloridas dos músicos do coral até as bandeiras com símbolos antigos no alto do palco, tudo tem sua força na produção. Em contraste com tudo isso está o clima às vezes depressivo das canções executadas.

Entretanto, a versão ao vivo do DVD é diferente da versão ao vivo do CD. Embora belo, o DVD com o show de Paris e Reykjavík não tem as superconhecidas (e exigidas pelo público, em certa medida) “Pagan Poetry” e “All is Full of Love”, o que o deixa com um certo vazio. Já o CD, gravado no Olympic Studios, traz uma apresentação menor, mas que contém essas duas faixas. Não tem jeito, para se satisfazer com o novo lançamento de Björk o consumidor terá que possuir tanto CD quanto DVD.

Veja abaixo um vídeo de Voltaic das músicas “Hyperballad” e “Pluto” e observe como o show vira uma balada pessoal de Björk.

Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m
Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m

 

“Covering” Michael Jackson

Texto e fotos de Lucas Scaliza

“Eu só queria que ele soubesse que eu existia”, diz Rodrigo Teaser, considerado o melhor cover da América Latina do Rei do Pop mundial

Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão
Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodrigo Matos chegou a Barra Bonita às 19h45. Desembarcou no restaurante El Puerto acompanhado pela noiva, Priscila Freitas, e por Marcelo Nardo, organizador do evento que o trouxe a cidade. Chegou vestindo boné e roupas de cores neutras e escuras, não fez alarde, agiu discretamente. Seu codinome é Rodrigo Teaser e sob esse pseudônimo o jovem de 29 anos se transforma em um cover de Michael Jackson que, sobre o palco, é uma figura expansiva, dançante e luminosa que quase em nada lembra o Rodrigo que poucas horas antes passava desapercebido na multidão.

Em meados de 1990 veio a onda do ICQ e todo o grupo de amigos de Rodrigo, que também gostavam de Michael Jackson, correu para se inscrever no programa usando seus nomes junto de alguma música do cantor. “Eles foram mais rápidos e pegaram as músicas mais conhecidas, como ‘Bad’, ‘Dangerous’, ‘Beat It’, etc. Para mim sobrou a música nova dele na época, que estava sendo chamada de ‘Teaser'”. Assim nasceu Rodrigo Teaser, que adotou o nickname como nome artístico.

Michael Jackson (o original) começou a mostrar que era um artista quando tinha cinco anos e cantava e dançava. Aos 11, o mundo o conheceu como o carismático vocalista do Jackson Five. Não tardaria a se lançar em carreira solo, longe dos irmãos. Com Teaser a história foi parecida. Ele é fã do Rei do Pop desde os cinco anos e aos nove sua mãe começou a inscrevê-lo em concursos de imitações mirins de Michael Jackson. Alguns desses concursos foram veiculados nos programas da Mara Maravilha e da Angélica. “Fui crescendo e a coisa se profissionalizou, mas continua sendo uma brincadeira, é um faz de contas”, ele diz.

“O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”

Passava da meia-noite e meia quando Rodrigo Matos virou Rodrigo Teaser e apareceu no palco do El Puerto. Depois de uma introdução operística, Michael surgiu do fundo negro cantando “Bad”, com cabelos longos e encaracolados, camiseta branca sob uma jaqueta preta de couro, calça social e sapatos de dança pretos e meias brancas com adereços bufantes na canela. Igualzinho ao Michael que cantava “Bad” na década de 1990. Durante o show ele interpretaria ainda os maiores sucessos do astro como “Beat It”, “Thriller”, “Billie Jean” e “Black or White”, com direito a pirotecnias. As jaquetas vermelhas usadas nos clipes de “Thriller” e “Beat It” estavam lá, assim como o chapéu preto e a luva de cristais e paetê de “Billie Jean”. Todas as danças características do Michael original o Michael cover executou com perfeição, da famosa Moonwalk à dança com zumbis.

Rodrigo Teaser nunca fez aula de dança, mas desde pequeno observava os passos de Michael. “O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”, explica Teaser. “Quando você começa a sacar o jeito dele de se comportar você percebe que ele tem um modo de improvisar para cada música. Isso nos faz criar e aprender um leque de passos diferentes”. Teaser diz que sempre estuda o local onde vai se apresentar para não ter surpresas e poder adaptar bem o espaço e a iluminação às suas necessidades.

“Tenho que estudar muito, porque o show do Michael é muito bem montado e feito para tirar emoções diferentes ao longo dele. E tudo ajuda para extrair as emoções, a música, a dança, a iluminação…”, conta Teaser. “Quando faço um show grande, com bailarinos de apoio e tudo mais, tentamos fazer a mesma coisa – salvo as devidas proporções, é claro”.

Teaser geralmente não canta ao vivo, ele dubla a voz de Michael Jackson de faixas extraídas de apresentações ao vivo. “Tem gente que no final do show diz que meu inglês é perfeito”, conta rindo. Completa dizendo que o próprio Michael às vezes dubla suas próprias músicas para não comprometer nem a voz e nem a dança. “Isso acontece em músicas como ‘Thriller’, que requerem um cuidado maior com a coreografia”. Quem o vê dançando o tempo todo logo imagina que ele termina a noite esgotado, mas Teaser explica que com o tempo aprendeu a segurar mais a energia em alguns momentos para liberá-la apenas em momentos específicos. Entretanto, confessa que não consegue se segurar muito. “Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era. Saio morto do palco”.

“Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era”

Mantendo a máxima fidelidade possível ao original, Teaser faz diversas trocas de roupa durante seu show. Embora tenham um sentido estritamente estético e de identificação, o figurino é importante para o artista sentir que está no clima e no “humor” certo para interpretar determinada canção. “Eu não consigo interpretar uma música sem a roupa própria para. Fico louco com isso! Tem gente que quer que eu troque a ordem das músicas, mas digo que não tem como porque elas estão listadas numa sequência lógica. Eles acham que não tem problema, mas tem, sim. O show de um artista é uma obra fechada, nada é por acaso”, inquieta-se Teaser.

Sua noiva, Priscila Freitas, é atriz e tabém faz eventos como cover da atriz norte-americana e eterna pin up Marilyn Monroe. Conheceram-se em uma das apresentações que fizeram. Por compartilharem a mesma profissão, eles se apoiam mutuamente. “Quando faço show, ela me ajuda. Quando é a vez dela, eu a acompanho”.

De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"
De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"

 

Rei do Pop?

A carreira solo do cantor estadunidense começou pra valer em 1979 com o disco Off The Wall, transformando-o em uma promessa da black music. Um ano depois, no meio de uma turnê e de complicações com sua primeira rinoplastia, aceitou o convite do cineasta Steven Spielberg para narrar a história de E.T. – O Extraterrestre em um álbum musical. Em 1983 veio seu maior sucesso que o consolidou como Rei do Pop. O álbum Thriller vendeu 106 milhões de cópias e é o disco mais vendido da história. O vídeoclipe da faixa homônima é, na verdade, um curta-metragem de 14 minutos que custou US$ 600 mil e o fez entrar na história por mais um motivo: foi o primeiro artista que usou o videoclipe como algo que complementava a música, o álbum e o artista, mostrando como aquela linguagem audiovisual poderia ser usada de maneira original.

“Ele não era só música”, observa Rodrigo Teaser. “As pessoas reconheciam seus clipes e vestiam a música dele. Se alguém na rua estivesse com uma jaqueta vermelha, logo todo mundo remeteria aos clipes de Michael Jackson. O mesmo acontecia se alguém usasse uma luva de paetê com cristais”. Foi por tomar essas várias frentes – música, videoclipe, figurino, dança, show, filmes – que o reconheceram como um divisor de águas não só na indústria fonográfica, mas dentro de uma série de outras áreas criativas – como a moda e a cenografia. Britney Spears, Usher e Justin Timberlake, artistas do pop recente, e a própria Madonna, diva do gênero, reconhecem Michael como inspiração que apontou um caminho para todos eles. A MTV também reconheceu, ainda que tardiamente, que se não fosse por Michael o canal não seria o que se tornou. “A carreira dele é tão grande que é difícil encontrar alguém para quem MJ passou despercebido”.

Notícia de uma tragédia

Rodrigo Matos (ou Teaser) estava fora de casa quando um amigo lhe telefonou e contou que “Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca”. Ficou estarrecido. Perguntou se era boato e o amigo respondeu que “provavelmente não”, já que várias emissoras de TV estavam fiilmando o hospital onde o astro fora socorrido. “Fui voando para casa e liguei a televisão. Todos os canais falavam da tragédia. Não me passava pela cabeça que uma coisa dessas aconteceria”, declara.

Logo veio a notícia: “MJ pode ter morrido”. Contudo, o site de fofocas de celebridades TMZ já estampava em sua página principal a notícia “Morre Michael Jackson”, furando todos os veículos de comunicação. Teaser não quis acreditar de imediato e ficou esperando a CNN confirmar. “Quando confirmaram a morte a sensação foi estranha, foi como se eu perdesse o chão”, revela. Logo depois os telefones de sua casa começaram a tocar e muita gente queria entrevistá-lo, mas Teaser estava bastante abalado e confusão ainda. “Gravei o programa Mais Você da Ana Maria Braga numa manhã de sexta-feira e não segurei a onda. Depois disso a Priscila ligou para todas as emissoras, pediu desculpas por mim e desmarcou todas as gravações que eu faria”.

“Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Teaser e sua noiva tinham comprado dois ingressos cada um para dois dos últimos 50 shows que Michael apresentaria em Londres, nos dias 8 e 10 de setembro. Estima-se que o lucro desses show chegaria a US$ 50 milhões e todos os ingressos esgotaram-se rapidamente. “Conseguimos preços bons e começamos a correr para trabalhar e pagar a viagem a Londres”, conta. Cada novo detalhe dos shows era acompanhado de perto pelo Twitter de Kenny Ortega, o organziador do megaevento. O ensaio de Michael, recentemente divulgado pela televisão, já havia sido postado na internet por Ortega logo depois de ser gravado. “Foi um dos ensaios mais incríveis até agora. Michael está em ótima forma”, disse o organizador.

Michael passou três vezes pelo Brasil. Em 1974, durante a turnê sul-americana do Jackson Five, em 1993 para dois shows no estádio Morumbi em São Paulo e em 1996 para a gravação do clipe de “They Don’t Care About Us” na favela Santa Maria (RJ) e no Pelourinho (BA). Rodrigo teve a oportunidade de vê-lo ao vivo em São Paulo, mas na época tinha apenas 13 anos. Sua meta nunca foi ganhar nada do ídolo, não era sequer tirar uma foto ao lado dele. “Só queria que ele soubesse que eu existia”, desabafa Teaser, que inclusive preparava uma operação em solo londrino para se fazer notar por Michael. “Eu estava produzindo um livrinho de capa dura com fotos minhas, mostrando meu trabalho. Ia gastar uma grana e fazer 40 desses. Ficaríamos em Londres por 5 dias para entregar os livrinhos a todo mundo que é parte da produção do show. Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Embora não seja fácil aceitar uma rasteira dessas do Destino, Teaser parece conformado. “A vida nos apresenta as coisas de formas estranhas”, comenta, e completa, sem deixar claro se a esperança morreu ou não. “Há pessoas que dizem que ele devia saber sobre mim por causa da abrangência do meu trabalho, mas nunca tive prova alguma disso. Por isso prefiro a hipótese de que ele não sabia”.

Michael Jackson não foi o primeiro ídolo mundial que morreu cercado de problemas, seja na vida financeira, pessoal, social e na saúde. No livro História da Música: da Idade da Pedra à Idade do Rock, o musicólogo Valdir Montanari conta que Elvis Presley morreu mais vítima que herói, neurótico e cansado do severo esquema que os empresários montaram para faturar em cima dele. “Ao final da vida”, escreve Montanari, “ele estava desgastado, desiludido e sustentado por remédios”.

Com Michael não foi muito diferente de Elvis. Deixou uma dívida de milhões dólares (ninguém sabe ao certo quanto) e seu acervo pessoal de objetos quase foi a leilão em abril. Estava viciado em remédios, com problemas nas pernas e nas costas. Sua nova turnê começaria nessa segunda-feira, dia 13.

Veja mais fotos de Rodrigo Teaser interpretando Michael Jackson clicando aqui e veja seus vídeos de shows aqui!

Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência
Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

55 anos de rock – parte 3

Texto de Lucas Scaliza

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Polifonias roqueiras – final

O rock já foi estudado e retratado de todas as formas imagináveis. Está no cinema, nas artes plásticas, na televisão, na literatura, inspira e embala peças teatrais, fala de si mesmo e faz paródia de si em diversas músicas, num exercício de metalinguagem. Também invadiu o ambiente acadêmico e não é difícil encontrar teses de pós-graduação que abordam o tema.

O poeta, músico e escritor José Miguel Wisnik, que tem várias composições musicais próprias e outras feitas em parceria com grandes nomes da MPB (como Caetano Veloso), também falou sobre o rock em seu livro O som e o sentido: Uma outra história das músicas. Wisnik, que há vários anos é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), analisou a música contemporânea e concluiu que o cenário é dos mais confusos. Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, diz ele, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”.

Segundo ele, a repetição e a alternância entre ruído e silêncio e as experiências de sincronia e simultaneidade tanto podem atestar o fim do social como podem criar um tempo musical singular para outros, de extrema complexidade e sutileza. “O rock encontra-se no meio desse fogo cruzado, uma hibridização típica da cultura pós-moderna”.

Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”, diz Wisnik

O rock, escreve Wisnik, é a superfície de um tempo que se torno polirrítmico. “Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens”. Complicado entender? Um pouco, mas a discussão serve para contextualizar o rock – e a música em geral – dentro do mundo de hoje, em que várias modas e tendências, posicionamentos políticos e mudanças econômicas e culturais acontecem ao mesmo tempo.

Atualmente o rock está em uma fase de múltiplas confluências. Você quer ouvir heavy metal? Pois existem várias bandas deste estilo em atividade. Quer folk rock à la Bob Dylan? Você também encontra. Rock com música eletrônica? Rock com hip hop? Rock comercial? Rock do século 21 com pinta de década de 1970? Tudo isso acontece agora. Pelo jeito, o rock é um senhor de 55 anos que pretende viver por pelo menos mais 50 e continuar influenciando todas as áreas do conhecimento humano, quer você goste da música ou não.

55 anos de rock – parte 2

Texto de Lucas Scaliza

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O rock e você: O que as pessoas pensam do rock e como ele se apresenta para cada uma delas

Cada pessoa tem uma relação e uma história com o rock. Há quem ame como música e há quem odeie também. Alguns identificam o rock na maneira como as pessoas se vestem, na maneira como pensam, na maneira como demonstram sua rebeldia. São tantas as formas de enxergar esse estilo que podemos dizer que ele é todo ramificado, abrangendo uma série de questões, sejam sociais, comportamentais ou artísticas.

Para Antonio César Maurélio, proprietário de um rock bar, o rock é fundamentalmente música. Ele só foi ouvir rock quando começou a participar de bailes. “Comecei a perceber naquela época que gostava mais de Beatles, The Who e Rolling Stones do que samba, por exemplo. Achava o jeito de dançar mais expressivo. Às vezes o cara não precisava nem fazer passinhos, ficava só batendo o pé no chão e fazendo uma cara de acordo com o que ele achava que a música transmitia”, relembra.

“Não é a música que muda a pessoa, é a pessoa que escolhe a música que se identifica melhor com a sua maneira de ser”, diz Maurélio

Maurélio acredita que o rock é um grande rótulo que abrange muitos estilos diferentes dentro dele, indo da balada até o peso total dos instrumentos. Sendo assim, “ele está dentro de cada pessoa, seja do temperamento que for”, pois “não é a música que muda a pessoa, é a pessoa que escolhe a música que se identifica melhor com a sua maneira de ser”.

Em relação a comportamento a opinião de Maurélio é que várias pessoas que ainda não têm uma personalidade totalmente definida passam a viver ou a se espelhar em seu ídolo, seja ele no rock, no samba ou no esporte. “Isso é normal dentro da sociedade. Tem gente que chega a fazer cirurgias para ficar mais parecidos com seus ídolos. Tem gente por aí que faz questão de deixar o bigode igual ao do Belchior, por exemplo. Outros vestem camisas de flanela para ficarem igual ao Kurt Cobain, do Nirvana. Graças a Deus ainda não fiquei sabendo de nenhum fã que deu um tiro na própria cabeça também”.

Por um caminho bastante contrário, vai o músico e poeta Vanildo Machado. Ele conheceu o rock 15 anos atrás, por meio de amigos músicos que não são famosos, mas faziam rock. Vanildo diz que o rock geralmente é identificado por causa da presença da guitarra na música. Particularmente, ele acha que antes disso já se fazia rock na música clássica e na MPB, mesmo sem as seis cordas distorcidas, mas davam outro nome. Para ele, rock é fundamentalmente atitude.

“O rock pode ser feito pelo índio na tribo”, opina o poeta. “Elis Regina cantando ‘Como Nossos Pais’ é rock, cara. A 9ª Sinfonia de Beethoven é puro rock também. Rock significa rocha, não é? Então, rock é ser duro no que faz e no que diz, é ter firmeza”.

Boa parte da obra musical de Vanildo é levada apenas na voz e no violão, sem guitarra e sem bateria, mas ele acha que não é isso que caracteriza sua música como “não-rock”. Por considerá-lo uma atitude, acha que o rock lhe dá uma liberdade a mais na hora de se expressar.

“O rock pode ser feito pelo índio na tribo. Elis cantando ‘Como Nossos Pais’ é rock, cara. A 9ª Sinfonia de Beethoven é puro rock também”, diz Vanildo

Já Fábio Izeppe, consultor em gestão de qualidade, começou a gostar do ritmo quando tinha 12 anos de idade e ganhou um disco do Legião Urbana. Logo depois, um amigo emprestou o álbum Somewhere in Time, do Iron Maiden. A partir daí, rock virou uma paixão que teve dois grandes momentos: o Rock in Rio 3, de 2001, quando tinha 16 anos; e no ano passado quando viu um show das bandas alemãs Gamma Ray e Helloween. “Depois desse show eu decidi comprar uma guitarra e fazer aulas”, diz.

Embora goste das melodias e da “levada” do rock, Fábio acha difícil definir quais são os elementos do estilo que o conquistaram, mas ressalta que é “uma música que faz eu me sentir bem, tanto na hora do estresse e dos problemas quanto nos bons momentos”. Sem sombra de dúvida, Fábio acredita que rock é um estilo de vida que vai mudando suas facetas conforme os anos passam.

55 anos de rock – parte 1

Texto de Lucas Scaliza

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No dia 13 de julho o rock fez aniversário. Aqui começam algumas considerações (em 3 partes) sobre esse dia e o estilo musical

Dia 15 de março. Uma fila interminável se estendia a partir do portão de entrada de Interlagos, em São Paulo. Todo mundo gritava “Maiden, Maiden!”. Era a quarta vez que Fábio Izeppe veria os ingleses do Iron Maiden ao vivo, mas parecia a primeira vez. “Estava ansioso uma semana antes do show, não consegui dormir na noite anterior”, conta. “Passar pelas catracas e ver o principal palco brasileiro do automobilismo ser tomado por uma das maiores bandas do mundo não é algo que acontece todos os dias”.

Na ativa desde 1975, o Iron Maiden é uma das mais conhecidas bandas de heavy metal da história do rock. Eles bateram seu recorde de público no último show que fizeram em São Paulo. Fábio estava entre as mais de 45 mil pessoas que viram os clássicos da banda serem tocados. “Nunca imaginei que iria vê-los tocar na minha frente ‘Rime of the Ancient Mariner’, com 13 minutos de duração. Mas a melhor da noite foi ‘Powerslave’. O solo desta música é um orgasmo”, Fábio relata animado.

Foi um show de rock, um estilo musical que completa 55 anos na segunda-feira, dia 13. O marco zero para começar a contar a idade do rock é a primeira veiculação no rádio da música “That’s All Right Mama”, gravada por Elvis Presley em 1954 e que foi ao ar no dia 8 de julho daquele ano. No entanto, o Dia Mundial do Rock, comemorado segunda-feira, só foi instituído em 1985, quando estrelas do rock do mundo todo se apresentaram no megaevento Live Aid, um show que pretendia levantar fundos para ajudar países africanos a combater a fome e outros problemas sociais. As apresentações foram transmitidas para o mundo todo pela televisão, o que aumentou o alcance e a relevância do Live Aid. Phil Collins, então vocalista da banda Genesis, disse que aquele dia [13 de julho] era tão importante que deveria se tornar o dia mundial do rock. E assim foi feito.

Logo que surgiu, o rock correu o mundo espalhando seu ritmo animado e pulsante levando um novo modo de dançar para as pistas de dança e mudando o jeito como as pessoas encaravam a música popular. Mais tarde, o rock falaria e se envolveria em temas como comportamento, política, drogas e amor. Foi o estilo da contestação por excelência e da voz às vezes rebelde, às vezes desesperada da juventude.

“O rock sempre teve envolvimento com vários setores da sociedade, como comportamento e política”, diz o músico e jornalista Kid Vinil, que ficou famoso nos ano 80 como vocalista da banda Magazine, cantando “Tic Tic Nervoso”, “Sou Boy” e “Glub Glub no Clube”. “Foi na década de 50 que a juventude abraçou o rock como uma manifestação que identificava uma geração. E essa manifestação sempre passou para a geração seguinte, sempre se renovando”.

Arthur entre o prodígio e o talento

Texto e fotos de Lucas Scaliza

Mais consciente de sua capacidade, Arthur Massucato executará um “repertório clássico mais transparente”. Pianista se apresenta dia 16 em Jaú

Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas
Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas

Embora esteja completando dois anos de estudo de piano erudito, Arthur Massucato estava tocando uma peça de piano popular poucos minutos antes da entrevista. Era Tom Jobim. Quando percebeu que eu tinha entrado na sala do piano interrompeu a bela canção, virou-se sorridente e cumprimentou-me com um enfático “Como vai?”.

Há alguns meses Arthur começou a ensaiar um novo repertório para se apresentar novamente no Julho Cultural, mês que a cidade de Jaú reserva para mostrar os talentos artísticos da região e de fora dela. Arthur se apresentará no dia 16 [quinta-feira] às 20 horas no Teatro Municipal de Jaú como pianista solo de obras da música clássica.

Em 2008, Gláucio Munduruca, professor de piano de Arthur, fez o que hoje eles chamam de loucura: pôs o então iniciante Arthur para tocar sozinho no Julho Cultural com apenas 11 meses de aula, coisa que Gláucio nunca tinha feito. Para complicar, era a primeira vez que o jovem igaraçuense de 18 anos se apresentaria para o público. Isso o projetou como um “prodígio” na época.

– Antes do meu primeiro concerto todo mundo me via como um talento para o piano, como um prodígio – diz Arthur –, mas o que eu tenho é facilidade no estudo do instrumento. Minha mão não sai voando pelo piano, por exemplo.

Eu nunca tinha visto ninguém tocar com tão pouco tempo de estudo. Ele funciona como um relógio, tem disciplina para estudar – enfatiza Gláucio.

Antes de eu subir ao palco, o diretor do teatro municipal de Jaú me apresentou para o público como um “pianista prodígio”. Achei um pouco forçado, mas já era tarde demais.

A vida toda tive muitos alunos e o Arthur é um caso particular que conseguiu administrar tudo isso. Com poucos meses ele se apresentou sozinho como um profissional. Isso eu nunca tinha visto. Quem tem um talento e uma facilidade muito grande para tocar geralmente não estuda. E quem estuda, como é o caso dele, vira um fenômeno.

“Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”

Arthur conta que alguma semanas antes de sua primeira apresentação sentiu-se aparado por todos os lados, pela família e pelo professor. Mesmo assim ele estava uma pilha de nervos. Um dia antes do concerto ele estava calmo como nunca, o que levou Gláucio a se preocupar: “Não acho isso bom”, disse.

Contudo, a apresentação foi ótima. Arthur fez valer as cerca de 60 simulações de recital que fez ao lado de seu professor e não apresentou queda de rendimento. Gláucio diz que todas as falhas que o aluno teve foram imperceptíveis e que já eram esperadas. Para Arthur, a experiência do palco foi marcante. “Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim, porque era o máximo onde poderia estar naquele momento. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”, conta. Dali até hoje, sentiu que teria que arcar com tudo até o final.

Ao colocar a mão no instrumento para executar a primeira peça ainda não estava de todo concentrado. “Parecia que eu me via da platéia. Confesso que estava um pouco perdido no início. Acredito que neste ano isso não acontecerá”.

O único problema da apresentação foi a correspondência de empatia entre o músico e o público. “Ele não correspondia às palmas da platéia”, Gláucio lembra entre risos. “O pessoal ficava aplaudindo em pé e ele saia rápido do palco”.

No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.
No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.

Mais experiente e mais consciente

 Os 11 primeiros meses de aula que culminaram com a apresentação foram de trabalho intenso. Gláucio Munduruca precisou dispor de mais tempo para preparar seu aluno. Chegaram a passar oito horas seguidas juntos. No dia seguinte a apresentação, Arthur Massucato desabou e ficou uma semana sem tocar piano, como se o estresse de 11 meses lhe caísse de uma vez nos ombros.

Agora o pianista diz que está mais consciente do que fez – e não voltaria a se “sacrificar” tanto para preparar um repertório em tão pouco tempo – e mais experiente para tocar. Arthur agora é um aluno normal e não precisou do professor para fazer sua parte. “Eu pude me dirigir muito mais”, vibra Arthur, “o Gláucio só me mostrava onde estavam os problemas e eu os resolvia. Antes eu não sabia como resolver problema algum, não me virava sozinho! Na verdade, acho que o primeiro concerto foi mais dele que meu”, completa rindo.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”

No ano passado, ele fez o piano soar peças de compositores românticos como Chopin, Scriabin, Schumann e Liszt. Gláucio explica que esses compositores são mais livres e soltos, o que colocaria em xeque a capacidade de uma execução mais técnica e regrada de Arthur. Para que não restem dúvidas quanto a capacidade do pianista, professor e aluno montaram um programa que vai da era barroca da música erudita até os modernos. No dia 16 ele executará peças barrocas de Bach, uma sonata clássica de Haydn, duas rapsódias de Brahms e dois ponteios do compositor brasileiro Guarnieri, além de duas peças de Schumann e uma de Shchedrin.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”. Com peças mais livres era mais fácil enganar o ouvinte caso uma nota atrasasse ou adiantasse. “Não dá para enganar ninguém tocando barroco e clássico. Ou você toca, ou não toca”, afirma Gláucio.

E a dificuldade técnica que Arthur teve nos últimos meses foi juntamente com as obras de Bach – que ele considera um compositor até didático, mas muito preocupante na hora de tocar em público – e de Haydn, que é onde “abaixar as teclas é mais difícil”. De qualquer forma, ele está confiante e revela que seu modo de abordar o piano e de se comportar enquanto toca mudou, tomou ares de alguém que entende melhor o que faz.

Mesmo com tão pouco tempo de estudo e com praticamente duas apresentações solo no currículo, Arthur não se acha prodígio e nem um talento extraordinário. No entanto, logo após o Julho Cultural de 2008, recebeu um convite para integrar a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Ele recusou o convite. Se tivessem perguntado 10 meses antes, quando ele tinha febre em tocar, teria aceitado.

Com a cabeça no lugar, achou melhor continuar estudando piano regularmente seis horas por dia em sua casa. Esse tempo ele divide com a faculdade de direito que cursa a noite e o estudo das disciplinas acadêmicas. Para dar conta do recado, acorda todos os dias entre 6h30 e 7 horas da manhã. “Por enquanto eu tenho gostado do meu dia a dia, tem dado certo”. De fato, Gláucio tinha razão. Arthur tem disciplina para o estudo.

Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.
Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.