Arquivo da categoria: Música

Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo

 

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The Suburbs: sufoco urbano

Para o Arcade Fire, parece que estamos sozinhos com nossos próprios problemas e não adianta esperar por milagres para resolvê-los

The Arcade Fire: terceiro disco do septeto canadense The Suburbs explora mais profundamente temas abordados em álbuns anteriores

The Suburbs, terceiro álbum do The Arcade Fire, chegou com a força de um tornado. Simplesmente arrebatou a crítica e grande parte de seus fãs. Para a própria banda canadense isso deverá refletir em como a banda será tratada mundo afora e até em como negociará suas apresentações. Depois de entrar de cara no panteão das must see bandas do indie rock em 2004, puderam expandir a influência em 2007 com Neon Bible. Com o terceiro álbum em mãos e prontos para rodar o mundo, tudo indica que se tornem uma mega banda – sonho de qualquer garoto do subúrbio.

A beleza e parte da originalidade de The Suburbs começa em sua capa, muito antes do disco começar a rodar. São oito capas diferentes (apenas uma por CD), então se você quiser colecioná-las, terá que compra oito álbuns. Contudo, como mostra o site oficial do grupo, ao juntarmos as oito imagens numa animação sequencial elas formam um vídeo de um carro que passeia por oito locais diferentes do subúrbio. E é nesse contexto que nossa experiência musical começa, pegando uma carona com o Arcade Fire pelas ruas do lugar que parece sufocá-los.

Uma das oito diferentes capas de The Suburbs. Quando animadas juntas, formam uma animação que nos leva de carro pelas paisagens dos subúrbios

E não é de hoje que os temas cantados em The Suburbs incomodam esses canadenses. Falar da cidade, da vizinhança, dos empregos que nos entediam ou castram nossa real felicidade, do que significa crescer e, sobretudo, olhar para as crianças nesse contexto são todos assuntos já tratados nos álbuns anteriores. A tetralogia “Neighborhood”, de Funeral, “(Antichrist Television Blues)” e “Windowsill”, de Neon Bible, são exemplos bem acabados disso. Até mesmo os carros já estavam presentes anteriormente (“In The Backseat”, “Keep The Car Running” e “No Cars Go”).

O que o novo trabalho faz é deter-se com mais atenção sobre esses temas e elaborar canções muito bem acabadas sobre eles. “The Suburbs” e “Ready to Go”, que abrem o disco, têm versos amargos sobre a vida, mas não tristes, musicalmente falando. De forma geral, a tristeza do álbum (mais acentuada em “Wasted Hours”, “Sprawl (Flatland)” e “Half Light I”) assume uma forma mais melancólica do que depressiva. É Win Buttler, guitarrista e vocalista do grupo, cantando sobre a vida vista do ponto de vista de um adulto. O tempo que se perdeu, as transformações do ambiente, o que virou o emprego, as frustrações, o que sobrou das esperanças e o apego aos subúrbios, ao local onde “se aprendeu a dirigir”, como diz a faixa introdutória.

“Modern Man” apresenta compassos 9/8, que podem arranhar os ouvidos menos acostumados com formas rítmicas mistas, mas a má impressão começa a sumir depois da terceira audição. Tirando isso, The Suburbs não apresenta técnica apuradíssima. Os acordes geralmente são tríades, raramente apresentando uma nona, sétima ou sétima aumentada. Não há solos memoráveis solos (no máximo pequenos e raros riffs de guitarra ou piano) e absolutamente nenhum abalo nas estruturas da música pop ou rock. As 16 faixas do álbum seguem o esquema da canção: versos, pontes, refrões, clímax [ou anticlímax, como em “The Suburbs (continued)” e “Sprawl (Flatland)”].

Mesmo sem transgressão musical, The Suburbs apresenta 16 músicas que aproveitam muito bem cada um dos seus sete músicos. Até a voz de Régine Chassagne, mulher de Butler, participa mais dessa vez do que em Neon Bible. Ela conduz “Empty Room”, faz um dueto com o marido na climática “Half Light II (No Celebration)” e protagoniza “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, uma das melhores faixas do disco e com um dos melhores refrões também, bem ao estilo Depeche Mode.

Solidão e tédio são as forças que mais agem sobre as letras de The Suburbs. Andar de carona pelos subúrbios que ainda vivem na memória dos sete músicos do Arcade Fire é como acompanhar um sufocamento: as paisagens urbanas estão em ruínas desde sempre, principalmente por causa do modo como a vida se organiza nelas. Um vazio que nos leva a ser solitários, duelando com conflitos internos próprios enquanto vivemos em comunidade. E, só pra citar “Sprawl II”, nem as infindáveis montanhas de lojas são capazes de nos alegrar com o estoque de sonhos e ilusões pronto para descarregar sobre nós.

É um álbum perfeito para se ouvir sozinho ou viajando. Mas ouvi-lo enquanto viaja sozinho dá vontade de nunca mais sair da estrada, conhecer várias neighborhood e sprawls e nunca se acomodar em um deles. Com uma temática tão terrena e humana, nenhuma música ousa virar-se para Deus ou qualquer força sobrenatural que seja. Para a banda, parece que estamos sozinhos com nossos próprios problemas e não adianta esperar por milagres para resolvê-los.

Numa era em que somos inundados por novas bandas e novos bons álbuns a cada semana, nos acostumamos com a velocidade da internet e como quão rápido migramos de um lançamento para outro. The Suburbs tem menos de uma semana de vida, mas é tão completo musicalmente e rico em suas letras que fico pensando se seremos capazes de digeri-lo completamente antes qualquer outra novidade apareça e tire a atenção dele.

Road Salt One

A primeira parte do álbum duplo de Pain of Salvation mostra som anos 70 e as mesmas angústias humanas de álbuns passados

Em Road Salt One (2010) a banda amplia suas fronteiras musicais

Ao encarar uma crise econômica, a banda sueca Pain of Salvation viu seus planos de lançar um novo álbum serem adiados. Então ela aproveitou para lançar em 2009 o duplo Ending Themes – The Second Death Of, registro ao vivo em CD e DVD da banda durante a turnê de Scarsick, álbum de 2007. E no final do ano passado mostrou ao público um pouco do que já haviam gravado lançando o EP Linoleum com quatro novas faixas e um cover do Scorpions.

Este mês sai Road Salt One, primeira parte de um álbum duplo que dará continuidade a uma história iniciada em The Perfect Element, disco de 2000, e retomada em Scarsick. O vocalista e principal mente criativa por trás da banda, Daniel Gildenlöw, avisou pelo site oficial do grupo que o novo disco teria influências setentistas. Porém, ao escutarmos as suas 12 faixas, temos certeza de que a palavra influência pode ser um eufemismo. Road Salt One tem muito do som anos 70 e explora raízes de blues, jazz e rock daquela época que até então não tinham sido incorporados de forma tão evidente em trabalhos passados.

A ótima produção das músicas não as maquiou demais, conservando a sonoridade real de cada instrumento dentro do estúdio. Isso contribui para que cada faixa soe o mais orgânica possível, até mesmo cruas em alguns momentos. Embora seja um álbum que claramente prioriza o papel das guitarras de Daniel e Johan Hallgren, o trabalho com os pianos de Fredrik Hermansson está muito mais marcante do que estava em Scarsick e em álbuns mais antigos. Aliás, o piano é responsável por vários dos temas mais significativos da obra.

Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra) com novo visual e Johan Hallgren (guitarra) com seu habitual estilo

Dessa vez não há flertes com a disco music e nem com o rap/hip hop. O Pain of Salvation manteve-se mais ligado ao rock, como em “No Way”, “Curiosity”, “Darkness of Mine” e “Linoleum” (a única faixa do álbum que estava no EP de 2009). As canções alternam a reverberação do overdrive com breaks e passagens mais leves, abrindo espaço para algumas estilizações e criação de texturas com a guitarra e o teclado.

“She Likes to Hide”, “Of Dust” e “Tell Me You Don’t Know” dão a cara mais raiz e bluseira do disco. E a tristeza que transborda de “Road Salt” e “Where It Hurts” servem como anticlímax (e isso se refere a estética apresentada pelo Pain of Salvation, o que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, o anticlímax é muito bem executado dentro da proposta da banda). E como já é costume com esses suecos, temas densos são tratados de forma densa, mas com ironia também.

“Sleeping Under The Stars” e “Innocence” são os momentos mais experimentais dessa viagem. A primeira é uma valsa um tanto excêntrica e inesperada no álbum. A segunda é um rock atmosférico cheio de altos e baixos, coros, suspiros, distorção, ritmos arrastados e agressividade. “Sisters”, uma das mais belas de Road Salt One, tem a melhor letra do álbum. O ouvinte passeia com ela por vales tristes até chegar a um acesso de raiva (ou seria angústia?).

O novo baterista Leo Margarit com Fredrik Hermansson, Hallgren e Gildenlöw

Depois de trocar de baixista duas vezes desde 2006, quem assume o posto  é Per Schelander, como contratado por enquanto. Com a saída de Johan Langell para se dedicar mais à família, Leo Margarit foi escalado para a bateria e até já aparece ao lado de Gildenlöw, Hallgren e Hermansson em fotos de divulgação. Margarit mostra neste disco que tem pegada para diversos estilos musicais e sabe soltar a mão nas horas certas.

No final, é um álbum diferente dos demais na discografia dos suecos. Triste e nebuloso, como há de ser a história de She e He, os personagens principais dessa conturbada estrada que não parece levá-los a lugares bonitos. Amor corroído, sexo doído e encontros cheios de lágrimas são novamente abordados nas letras. É Daniel Gildenlöw cantando mais uma vez sobre o comportamento e as emoções humanas.

Road Salt One nos faz esperar com mais ansiedade pela sua segunda parte. Os anos 70 continuarão a soar? E quanto às letras? Essa história terá chegado ao fim? As respostas devem aparecer em outubro deste ano.

Clipe oficial de “Linoleum” (de longe, o melhor da banda até agora)

“Ainda tenho muito a mostrar”

Muito à vontade, Dominguinhos fala sobre suas inúmeras parcerias musicais, seu medo de voar e até do que pensa sobre a política

Eram três horas da tarde de domingo quando Dominguinhos, um dos maiores ícones da sanfona brasileira, desceu as escadas do Hotel Turi em Barra Bonita, bem à vontade. Usava chinelos, uma calça bem folgada e camisa de linho listrada. Não usou o seu tradicional chapéu nem na coletiva de imprensa e nem na hora do show. Quando um grupo de pessoas percebeu que o sanfoneiro pernambucano subira ao palco sem o habitual elmo, gritaram: “Dominguinhos, o chapéu! Põe o chapéu!”. “Ô, minha gente”, ele respondeu antes de começar a dedilhar seu instrumento, “esqueci o chapéu lá em Lins” (cidade onde tinha se apresentado na noite anterior).

Meu encontro de quase uma hora com o músico de 69 anos de idade foi muito proveitosa. Acompanhado por outros jornalistas, a entrevista deu uma geral na carreira, falamos de suas inúmeras parcerias com outros artistas renomados, de sua infância e lembrou de Luiz Gonzaga, mestre do baião e seu mento no início da carreira. Comentou o seu medo de viajar de avião e, quando perguntado sobre política, revelou que pretende votar no governador José Serra este ano, a quem se referiu como “o careca de São Paulo”. Mesmo sendo pernambucano, deixa claro que não é um fã do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu conterrâneo.

Dominguinhos é pai de três filhos e tem mais de 60 anos de carreira, visto que começou tocar ainda criança. Seu primeiro álbum, Fim de Festa, foi gravado em 1964. Já o último, Dominguinhos Iluminado, é instrumental e está cheio de participações, como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Yamandu Costa, Arthur Maia, e outros. Mas o cantor diz que não deve parar por aí. “Tenho muito material guardado, mas não tenho para quem mostrar, não tenho quem gravar”.

Dava uma fita K7 para o Chico Buarque e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos!

O senhor lembra-se de já ter tocado com um grupo da cidade, chamado Tribo Terra, e participou com eles até num festival da Rede Globo?

Foram dois acontecimentos em Barra Bonita, tocar com esse grupo e o projeto Asa Branca. Toquei em Lins ontem e percebi que eles são muito carentes de música do Norte. Notei que lá tem muitos “cabeças-chatas”, muitos conterrâneos meus. Na Barra o fluxo de turistas é maior e é uma cidade mais próxima de São Paulo. Fico triste por não ter trazido meu netinho de um ano e cinco meses para andar de barco e passear nos parques daqui.

Reside onde atualmente?

Em São Paulo. De lá vou para qualquer lugar.

E o pique de tocar ao vivo? Você tem datas agendadas até o meio do ano.

Para mim é mais difícil cumprir a agenda porque eu ando de carro. Ele é  muito lento e cansativo para vencer determinadas distâncias e datas. Pelo menos no estado de São Paulo andamos muito bem, porque as estradas são boas. Dá pra varar 250, 300 quilômetros sem problemas. Já no Nordeste, fazer essas distâncias é muito sofrido. Andei de avião por mais de 30 anos, mas há 25 que não voo mais. Deu medo e parei, mas estou pensando em voltar.

Teve algum problema em voo para desistir de voar?

Não, nada me aconteceu. O medo foi chegando, chegando.

Depois de tocar no interior de São Paulo, vai para onde?

Bom, por enquanto estamos nesse projeto com a Casa de Cultura e Cidadania até o dia 1º. Depois vou para o Nordeste participar de uma homenagem à Ciburca com a Orquestra Sinfônica da Paraíba em João Pessoa. Chico César atualmente é o secretário de Cultura de lá. Depois, vem a época junina, e aí aparece bastante trabalho na Bahia, Paraíba, em Sergipe e Pernambuco.

O senhor já fez parcerias com muitos músicos renomados, tanto em shows como em composições. Uma das últimas parcerias foi com Yamandu Costa no álbum Yamandu + Dominguinhos. Como essas parcerias acontecem?

Acho que é  por causa da simpatia com o trabalho de cada um, não tem outro motivo. O Yamandu, por exemplo, conheci em um ensaio no Rio Grande do Sul, junto de Renato Borghetti e de outro bamba do acordeom, Luiz Carlos Borges. O Yamandu tinha 15 anos na época e apareceu por lá com o violão debaixo do braço. Disse que gostava muito do que eu fazia, tocou algumas músicas minhas e resolvemos tocar juntos. Foram participações pequenas aqui e ali, até que ele apareceu com a proposta de fazermos um disco solado juntos. E fizemos, lançado pela Biscoito Fino. Depois fizemos o DVD, gravado pela TV Cultura. E fiz mais discos de solos, com o Iluminado, com várias participações, um de frente pro outro, bem à vontade para solar.

As bandas novas colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo!

O senhor também é da célebre época do Riocentro. Pode nos contar um pouco sobre esses anos e os amigos que fez por lá?

Nessa época encontrei o Gilberto Gil, a Gal, o Caetano, o Chico Buarque, e vários outros. Éramos amigos, todos novinhos e tocávamos juntos, andávamos juntos. As reuniões que fazíamos no Riocentro eram constantes. Lá eu tocava sempre com Paulinho da Viola, Moraes Moreira, Jorge… Ninguém tinha grupo direito, cada um levava um instrumento e tocávamos. Era um movimento da turma daquele tempo.

Foi dessa época que saíram várias de suas célebres parcerias. Demora para que elas saiam do papel?

Essas amizades e parcerias vêm de muito tempo. Uma vez, perguntei ao Chico: “Chico, tem como fazermos uma melodia juntos?”. Aí eu dava uma fita K7 para ele e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos! (risos) O Gil também demora. Agora ele está colocando letra numa música minha para um disco junino. Não sei se vai terminar a tempo. Dei uma fita uma vez para o Djavan e ele mostrou para o Orlando Moraes, marido da Glória Pires. E o Orlando fez a letra antes que o Djavan. Aí, não sei se ele ficou com vergonha ou o que, mas resolveu gravar a música. E o Orlando gravou também. Mas sempre foi assim, sem afobação e sempre por amizade.

Como sua música é vista no estado de São Paulo?

É difícil responder. Neste estado trabalha-se mais com cantores sertanejos, os chamados “caipiras de luxo”, que fazem grandes produções. Tem muitos rodeios e vaquejadas, mas nós, cantores nordestinos, não entramos na programação dessas festas.

Os prêmios Grammys que o senhor concorreu consideraram sua música como regional, mas o baião, o forró e o xote são considerados estilos musicais brasileiros nacionalmente reconhecidos. O que acha dessa rotulação de “regional”?

Pois é, acho que deveriam acabar com essas divisões de sertanejo, MPB, etc. Deveriam acabar com os rótulos.

Em 60 anos de carreira, 50 só de profissional, sabe quantos álbuns vendeu?

Nunca soube ao certo. O Roberto Carlos, que está comemorando seus 50 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos. Eu não sei como conseguiram esses dados, é algo bem difícil [de contabilizar]. Geralmente as contas de gravadoras são fechadas.

O público mudou muito nesses 50 anos?

Hoje acho que o público é mais informado, a garotada parece mais interessada, ela vê mais coisas pela televisão, os pais falam de determinados artistas ou são nordestinos. A informação começa dentro de casa, na escola, com os avós.

O que acha dos novos grupos de forró  que estão aparecendo?

Gosto muito. Mesmo as bandas do Ceará, da Paraíba e Pernambuco, que sabemos que não fazem um forró verdadeiro, nos ajudam muito falando do que fazem. No entanto, o grande acontecimento da música nordestina são os trios. Como o Falamansa, Trio Virgulino, Chamego, Sabiá, e por aí vai. A fórmula é a mesma: zabumba, sanfona, triângulo, pandeiro.

E o forró  atual, o forró universitário, o tecno-brega?

Não houve uma transição de ritmos, continua a mesma coisa. A mudança foi com as bandas. As novas bandas de forró fizeram com que toda a [atenção] da música nordestina convergisse para elas, de uma forma que quem quiser se estabelecer tem que ter as características delas. Eu uso baixo e guitarra na minha banda, mas não abandonei o triângulo e a zabumba, que não me deixam fugir [do padrão]. E as bandas novas ainda colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. (risos) Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo! (gargalhadas) São bandas que se produzem e fazem grandes produções, como Calcinha Preta e Aviões do Forró, mas que de forró não tem nada.

Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos.

Tem algum artista que apareceu da década de 1990 pra cá  que o senhor admira?

De 90 pra cá? Tem o Djavan, mas esse já tem um grande tempo de carreira. Eu estava no Rio quando ele apareceu, fazendo aquele samba bem balançado do começo da carreira dele. Um novo de que gosto muito é o Jorge Vercilo. Cantoras não, elas vêm de penca. São muitas que apareceram pra gente escolher. Desde Ana Carolina até Mariana Aydar e minha própria filha, Lívia Moraes. Hoje, quando um artista estoura, ele já tem 10, 15 anos de carreira.

Um mestre do senhor foi Luiz Gonzaga. Desde seu primeiro disco, Fim de Festa (1964) até o seu mais recente registro ao vivo, em 2009, muitos artistas apareceram dizendo que o senhor é uma referência para eles. Além do mais, o senhor mudou o jeito de se fazer baião e forró.

Luiz Gonzaga mudou o jeito de se cantar e de se acompanhar o canto. Ele foi único nisso, nunca vi outro que cantasse e tocasse sanfona como ele na música nordestina. E eu estava ali ao lado dele! Mas vários músicos me ajudaram: Chiquinho do Acordeom, Orlando Silveira, os [violões de] sete cordas Dino, Rafael Rabelo e agora o Yamandu. Dei sorte com os sete cordas. Passado o tempo, fui mudando a estrutura do baião e do forró. O baião era “liso”, e comecei a tocar um baião chorado. Pegava alguns sambas e choros, mudava algumas coisas e os transformava em baião. O forró surgiu quando Gonzaga mudou a batida da zabumba. Quem comanda verdadeiramente o forró é o zabumbeiro, é ele quem conhece as batidas e encaminha o resto da banda. Toquei na noite, fui músico de boate por muito tempo, toquei muita música americana. Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos. (risos)

O compositor erudito Maurice Ravel, pouco antes de morrer, chorou em uma apresentação de uma de suas obras em Paris e lamentou por ter tantas ideias ainda para mostrar e não poder por causa de seu estado de saúde grave. Depois de 50 anos de carreira profissional, o senhor sente que ainda tem muito a mostrar como compositor?

Acho que não tenho a quem mostrar, porque muita coisa armazenada eu tenho. O Hermeto Paschoal também tem muita coisa guardada. Ele levou um bom material de música clássica para a Alemanha. E sua música fez o maestro da orquestra chorar. Ele quis saber o porquê do choro e o intérprete disse que o motivo era a beleza da música do Hermeto, porque o maestro nunca tinha ouvido nada como aquilo. Ou seja, a gente tem muita coisa armazenada que não tem como e com quem gravar. Hoje em dia, os artistas estão fazendo trabalhos inteirinhos autorais porque as editoras estão criando muitas dificuldades para se gravar. É muito caro por um disco na praça! Levou mais de um ano para que minhas próprias músicas fossem liberadas para gravar o meu DVD. Então, os artistas começam a gravar apenas material próprio, para não encontrarem barreiras.

Vamos falar agora do seu lado político. Como foi seu relacionamento com o ex-governador Mário Covas?

Ele me chamava no Palácio dos Bandeirantes para tomarmos café, era uma pessoa muito aberta. Mas meu relacionamento com ele, e com todos os outros [políticos], era esporádico. Políticos vivem em outro mundo, é outra coisa. Eu não faço música para eles, é uma agência que faz e me chama para cantar. E agora nós não podemos mais fazer shows em campanhas de políticos.

E o que acha de não poder mais fazer shows em comícios políticos?

Acho muito ruim. Se eu vou participar de campanhas pelo nordeste, fica um monte de gente numa praça para ver o show. Ninguém fica ali esperando um candidato falar. As pessoas já sabem que ele vai mentir o tempo todinho, vai falar sobre o que nunca fez e o que “pretende” fazer. Então precisa ter uns conjuntinhos tocando para entreter o povo. Agora que isso acabou, não sei o que vão arrumar para substituir os shows.

O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado

O senhor acompanha a política atualmente?

Se tiver que falar de algum lugar, falo de São Paulo. Gosto do careca que está lá, um cara que conheço há muitos anos e está na luta. Meu voto não é mais secreto e sem dúvida nenhuma vou votar nele [José Serra], e não em quem o Lula determinar, porque ele está muito folgado! Ela está desconhecendo muito das coisas que devemos respeitar, está se achando o dono da cocada preta. Isso é muito ruim. E ele vem de uma era em que a humildade foi a maior arma que usou para vencer. Ou não, porque o Lula sempre foi muito sagaz.

Acha que o eleitor brasileiro está bem preparado para votar?

Acho que as pessoas estão mais informadas, porque a mídia está martelando dia e noite nos erros e acertos do governo, fazendo com que quem está  no poder tenha até raiva dela. O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado. As autoridades têm que tomar cuidado com o rabo. (risos) A mídia está informando e está dando oportunidade para as pessoas falarem também. Isso é muito bonito. Sabemos que tem muita gente querendo calar a liberdade de expressão, como acontece na terra do Hugo Chávez e na ilha do “charuto”, o Fidel Castro. Contudo, o Brasil está mudando muito e acho que teremos melhores políticos no futuro. Isso se as famílias deixarem, porque as dinastias são muito grandes! (gargalhadas)

O senhor começou a tocar ainda menino.

Meu pai e meu irmão mais velho eram tocadores de sanfona. Meu pai nunca me deu conselhos, cresci numa família de 16 irmãos. Eu comecei a ajudar em casa aos oito anos, tocando pandeiro na feira com meus irmãos Moraes e Waldomiro, que tocavam uma sanfoninha e um instrumento de sopro chamado mele. Esse mele meu pai fazia com borrachas de câmara de ar. A gente tocava para ganhar uns trocados. Quando viemos para o Rio, em 1954, fui tocar numa churrascaria gaúcha com meu pai. Tocava nas mesas com um garoto repentista do Rio Grande do Sul chamado Garoto de Ouro. Ganhávamos muita gorjeta e entregava toda a minha parte para o meu pai. Até que ele juntou dinheiro suficiente para buscar o resto dos filhos em Garanhuns [cidade natal de Dominguinhos].

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado. Afinal, as pessoas que nos levam para o mau caminho têm um poder incrível de persuasão. Mas eu nunca me envolvi com essas coisas. Continuei tocando. As coisas começaram a acontecer em 1964, quando lancei meu primeiro disco.

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado

Faz planos para o futuro? Trabalha com metas?

Em minha vida toda, nunca fiz planos para o futuro. Mesmo depois de 69 anos de vida, se me perguntam o que vou fazer daqui pra frente, não tenho resposta. Não faço planos e acho que a vida é isso. Você acorda todo dia e pensa no que tem pra fazer. Se não acordar no dia seguinte, já foi! (risos)

O senhor é muito humilde, não tem o estrelismo de alguns artistas.

O artista canta, dança, toca seu instrumento, pinta uns canecos… Mas quando sai do palco está sujeito a muitas coisas, igual a qualquer pessoa. Ele tem que pagar suas contas, pegar dinheiro emprestado e viver a labuta do dia a dia. E eu sou o que? Também fico aperreado! (risos) Ainda trabalho, minha família depende de mim. Em 2006, operei meu pulmão, mesmo nunca tendo fumado. Estou me tratando sempre e vivo como se não tivesse nada. Sigo cantando e tocando.

Financeiramente, a carreira do senhor valeu a pena?

Honestamente, não. Se eu estivesse na Europa ou nos Estados Unidos com todas as músicas que tenho gravadas e recebendo os direitos autorais, não precisaria mais tocar por aí. Acho que ia tocar só no terreiro de casa com os amigos. Chega um momento em que você não acha mais que é legal ficar fazendo graça com um instrumento que pesa 13 quilos no peito – e ter que mostrar serviço sempre que toca. Isso dá uma certa agonia. É melhor fazer como o Ronaldo. Parar aos 33 anos, quando está bem de vida. Pra que ficar ouvindo ser chamado de gorducho, não é? Deixa ele tomar sua cerveja a vontade! Eu, felizmente até, preciso continuar trabalhando, porque a música dá esse ensejo. Veja a Inezita Barroso. Ela está com mais de 80 anos, tem uma voz forte e é respeitadíssima. Acho que ela é a coisa mais importante que existe na música caipira do Brasil. E ninguém fez ainda esse reconhecimento para ela. Ela deveria ter sido convidada para o show do Roberto Carlos. Ainda bem que levaram o Tinoco, que fez um discurso arretado que foi ao ar pela metade, mas esqueceram da Inezita. Na idade dela – e tomando conta de um programa de televisão como dela – não conheço outra pessoa.

Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

Hotel de ritmos e ruídos

Cibelle lança disco sofisticado e exótico colocando sua voz como protagonista suprema da obra

Capa de Las Venus Resort Palace Hotel, terceiro álbum de Cibelle lançado este mês

A cantora brasileira Cibelle, radicada na Inglaterra, lançou este mês seu terceiro álbum, Las Venus Resort Palace Hotel, uma mistura de ritmos combinada com ruídos e efeitos sonoros interessantes e muito bem produzidos. Não dá pra rotular o som que Cibelle faz, mas há rock, psicodelia, batidas latinas, eletro, swing brasileiro, climas espaciais, um pouco daquela atitude transgressora tropicalista da década de 1970 e, como estão dizendo, sabores e odores do movimento Abravanation.

Em 52 minutos de música, a artista colocou seu vocal como protagonista supremo da obra, destacando-o com excelentes melodias e com acompanhamentos criativos. É um álbum mais sofisticado e mais ambicioso esteticamente do que seu antecessor, The Shine of Dried Electric Leaves. Foi produzido por ela mesma, co-produzido por Damian Taylor (diretor musical de Björk) e gravado em Londres, Berlim, Vancouver e São Paulo.

O álbum é conceitual. Cibelle entra na pele de Sonja Khalecallon (trocadilho com os nomes de Frida Kahlo e Sophie Calle), que nos leva para um passeio pelo único lugar que restou do planeta terra: o Venus Resort Palace Hotel do título do disco. Neste lugar, acompanhamos o show de uma banda concebido como uma apresentação de cabaré. Paralelamente, uma história de amor acontece. Acompanhe o faixa a faixa.

1. Welcome – Ao som de animais numa floresta com sons psicodélicos, Sonja Khalecallon nos introduz ao planeta Terra devastado. Apenas o Las Venus Resort Palace Hotel restou. E é noite de show.

2. Underneath The Mango Tree – A voz doce de Cibelle em ritmo tropical. Versos e refrão facilmente assobiáveis. Já demonstrando que o álbum – de um ponto de vista sinestésico – será tão recheado de cores quanto sua capa. Originalmente, a música fora interpretada por Ursula Andress no filme Dr. No, da série James Bond.

3. Man From Mars – No início, é como se Cibelle cantasse na superfície da Lua. Efeitos sonoros variados vão aparecendo durante a música, lembrando um pouco as experimentações sonoras de Björk, mas de uma forma tropical e psicodélica.

4. Melting The Ice – Uma valsa, algo burlesco.

5. Lighworks – Primeira música a ganhar clipe, também é um cover de Raymond Scott. Ela tem balanço, mas um balanço um pouco quadrado. Vozes, mudanças rítmicas e efeitos sonoros dão um tom excêntrico ao clima que, agora já é possível prever, perpassará todo o álbum. Mas o trunfo de Cibelle é não ser óbvia na utilização dos artifícios sonoros de que lança mão.

6. Sad Piano – Um vocal lindo e limpo acompanhado por um piano tocado nas notas graves. Sem interferência de efeitos, valoriza os acordes e a voz. Curiosamente, essa balada triste é a música mais longa e mais “limpa” do álbum. Fechando os olhos, dá para se sentir como o astronauta de 2001: Uma Odisséia no Espaço, viajando perdido pelo espaço rumo ao desconhecido.

No som dela cabe tudo: tropicália, rock, psicodelismo, brasilidade, universalidade e Abravanation!

7. Frankstein – Latinidade latente. Balançado? Claro, mas do jeito dela.

8. Escute bem – Conversas em espanhol introduzem a primeira faixa em português do disco. Até aqui deu pra sentir que as melodias do disco vieram todas muito bem construídas. Em nenhum momento há melodias fáceis. Essa música ganha força conforme se desenvolve. Continua usando efeitos, mas de um modo muito próprio.

9. Mr and Mrs Grey – Um trabalho muito bem feito e muito interessante com a guitarra sobre um baixo e uma bateria limitando-se a tocarem o básico. Mudança de compasso lá pela metade, para entrar uma melodia de teclado que não ficaria mal num álbum do MGMT. Na terceira parte, vira um rock-tropicalista aniamdo com volta para o compasso 4/4. Para a finalização, uma nova valsa.

10. The Gun and The Knife – Aqui Cibelle “reinventa” – ou reinterpreta, abravanando, quem sabe – o estilo western. Participação de Tunng’s Sam Genders fazendo um dueto com a brasileira. Um violão muito competente dialoga e marca o ritmo com poucos efeitos sonoros. Uma guitarra faz vários detalhes. Um dueto muito bonito que lembra o de Nick Cave com PJ Harvey no álbum Murder’s Ballads.

11. Sapato Azul – Também em português, levada toda pela linha de baixo. Efeitos na voz e delay na guitarra. Muito mais que os ritmos, este álbum merece atenção aos detalhes sonoros. São muitos.

12. Braid My Hair – Cantando notas bem altas, Cibelle faz uma interpretação digna de reconhecimento. Não há como negar que ela tem estilo, identificável durante todo o disco.

13. It’s Not Easy Being Green – Vozes acompanham o violão na base harmônica. Mesmo a canção sendo basicamente voz(es), violão, e algum instrumento de sopro, Cibelle não soa tradicional de forma alguma.

14. Bye Bye – Na saída do Las Venus Resort Palace Hotel, Sonja Khalecallon se despede reprisando o tema viajante de “Welcome”, mas agora ele é executado ruidosamente, dando a estranha impressão de ser uma ironia.

Clipe de “Lightworks”

MPB pra alemão ver

Texto de Lucas Scaliza Fotos Divulgação

Katharina Ahlrichs (6)-2
Katharina Alrichs e sua banda, Sessão. Eles vêm ao Brasil para uma série de seis shows mostrando composições próprias e clássicos da MPB

A cantora alemã Katharina Ahlrichs é apaixonada pela MPB e volta com a banda Sessão da Noite para shows no Brasil

A banda alemã Sessão da Noite, comandada pela cantora Katharina Ahlrichs, está fazendo uma mini-turnê pelo Brasil. O grupo deixou a cidade de Dresden, no leste da Alemanha, e a turnê germânica que faziam atualmente para aterrissarem no Brasil para uma série de seis shows que começam em Salvador, na Bahia, e passam pelas cidades de São Paulo e Barra Bonita, seguem para Joinville, em Santa Catarina, e terminam com duas apresentações em Barbacena, Minas Gerais.

Katharina Ahlrichs tocará acompanhada pelos músicos Janco Bystron (bateria), Sina Fehre (baixo), Dirk Haefner (violão e guitarra) e Lars Maeurer (piano). A banda foi formada por Ahlrichs com o intuito de tocar os clássicos da música popular brasileira, além de compor músicas próprias. Essa paixão pela MPB só foi despertar na cantora (que canta e fala muito bem o português) depois de ver um show de música tupiniquim em sua cidade. Na hora de preencher uma ficha de intercâmbio da AFS informando para quais países gostaria de ir, preencheu todos os campos disponíveis com o nome “Brasil”.

No MySpace dela é possível ouvi-la cantar MPB em português, inglês e alemão. Nos shows, será possível comprar o novo CD do grupo, Telescópio.

Entrevistei Ahlrichs por e-mail. Ela fala sobre como era viver na Alemanha dividida em dois lados durante a Guerra Fria, sobre o “jeitinho brasileiro” e música, claro.

 

Katharina, quando começou a sua relação com o Brasil? Morou aqui por muito tempo?

Quando tinha 16 anos fiz intercâmbio no Brasil por meio da AFS. Quando fui escolhida por esta organização ainda não tinha a mínima ideia para onde queria ir. Mas uma semana antes da decisão final, ouvi por acaso um show de música brasileira na minha cidade. Fiquei tão encantada e impressionada que pus no papel da AFS 10 vezes “Brasil!!”, em vez de 10 alternativas de países para onde gostaria de ir. Tinha que ser Brasil mesmo!

Fiquei um ano com uma família no interior de São Paulo – primeiro em Mococa e depois em Jaú. Isso foi de 1991 a 1992. Nestes últimos 17 anos voltei várias vezes para o Brasil e, contando tudo, morei uns dois anos por aí.

O que você mais gosta no Brasil? Quando chegou aqui, qual foi a característica deste país que mais te surpreendeu?

Foi a música brasileira que chamou a minha atenção primeiro. Adoro bossa nova e MPB. Os meus heróis são Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Joice, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan, Caetano Veloso e João Bosco.

Mas a primeira coisa que aprendi ao chegar ao Brasil é o grande coração e a gentileza que as pessoas daí têm. Eu me senti bem recebida, todo mundo me ajudou a me virar nessa cultura, nessa língua. E o “jeitinho brasileiro” me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for.

A sua infância deve ter passado pela fase em que a Alemanha ficou dividida entre os lados Ocidental e Oriental. Em qual desses lados você morava? Como era a vida de uma criança num país dividido? Quais eram os sentimentos da população quanto a essa divisão?

Muitas famílias e amizades foram divididas pela fronteira. A geração dos meus pais sofreu muita saudade e desespero por causa disso. Eu tinha 14 anos quando o muro caiu. Na época, morava numa aldeia muito pequena na Alemanha Ocidental, mas muito perto da fronteira. Era um tempo muito emocionante para nós, porque nos sentíamos livres de uma grande pressão que existia sobre a Alemanha Oriental. Tínhamos amigos no outro lado da fronteira que sofreram por causa da ditadura e que não tinham a possibilidade de viver a própria vida como queriam, por causa do sistema (socialista implantado).

Ficamos superfelizes quando o muro caiu e fomos para várias aberturas da fronteira afim de cumprimentar o pessoal do lado oriental. Tínhamos a grande esperança de que as coisas boas dos dois lados pudessem se misturar com respeito e sabedoria. No fim, não aconteceu bem assim. Foi mais a sensação de que a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental… Mas mesmo assim estamos felizes demais por termos a liberdade da mente, da palavra e do corpo para todos os alemães!

“O ‘jeitinho brasileiro’ me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for”

A Alemanha, 20 anos depois da queda do muro de Berlim, ainda guarda resquícios de um país dividido?

Infelizmente, sim. Por causa da infraestrutura, das locações de indústria e economia, até hoje os salários variam entre os dois lados (no lado oriental se ganha menos). No lado oriental também existe mais desemprego e, por causa dessas coisas, há uma certa frustração ali. Mas há exemplos muito positivos também! A nossa banda, por exemplo, é uma mistura de alemães dos dois lados. O baterista e eu somos do lado ocidental, mas moramos – como o resto da banda – em Dresden: uma cidade linda na Alemanha Oriental. A nossa geração não tem muitos preconceitos e temos uma grande amizade entre nós.

Você sempre gostou e estudou música desde pequena ou a música só apareceu para você em um momento especial da sua vida?

Eu nasci numa família muito musical. Sempre cantamos juntos, cada um tocava pelo menos um instrumento. Sempre adorei fazer música e shows. Assim ficou bem claro para mim que escolheria um caminho nesta área (que independentemente de ser dura, é MARAVILHOSA 😉 e agradeço muito aos meus pais, que me ajudaram e me apoiaram ao invés de ficarem preocupados e rígidos.

“No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha”, diz a cantora alemã Katharina Ahlrichs

Você vive de música hoje ou tem outras ocupações?

Eu vivo de música. Tenho dois conjuntos de música inspirados pelo Brasil, o Luamar ( http://www.myspace.com/luamarduo) e a Sessao. E às vezes eu dou aula de coral e canto e faço shows como palhaço.

 
Que características da música brasileira você ressaltaria como únicas em comparação com a música europeia e norte-americana?

O fator percussivo em todos os instrumentos – não só na bateria – é típico da música tradicional brasileira. O jeito de tocar e cantar as frases é grudado ao ritmo e ao groove da música. Mesmo na bossa nova, em que o canto parece completamente livre do metrum, é assim: sem a percepção do ritmo por dentro, nunca seria possível cantar tão relaxadamente ao lado do ritmo!

No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha, o povo canta junto com artistas num show, conhece as letras. Muitos sabem tocar violão e percussão.

Além dos compositores brasileiros, quem são seus artistas preferidos no resto do mundo?

Adoro Sting, Peter Gabriel, Lenny Krawitz, Maria João, entre outros. Todos eles mexem com influências do mundo inteiro e tem groove!

Em seu MySpace, vejo músicas cantadas em português, alemão e inglês. É fácil transitar em três (ou mais) idiomas?

É uma questão de exercício, de training. Para mim é muito gostoso viajar entre os mundos dessa forma. O interessante é que a técnica de cantar é diferente e a minha voz tem um som diferente dependendo de qual idioma estou cantando. Essa variedade me atrai.

“O meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca, do de Portugal e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia”

O seu português nas músicas é perfeito. Ouvindo, ninguém diria que se trata de uma estrangeira.

Obrigada! 😉

 Foi difícil pegar fluência na língua? Levou muito tempo para aprender?

Lembro que demorou uns dois meses até eu começar a entender (quase) tudo. E mais dois meses para poder dizer (quase) tudo que queria. O resto do tempo eu tentei treinar a ‘elegância’ do meu jeito de falar.

Adoro viajar, conhecer outros lugares, pessoas, culturas e sou muito chegada a línguas. Mas é claro que até hoje sempre me deparo com palavras que faltam ao meu vocabulário e com erros. Imagino também que o meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca (que ouço em tantas músicas), o de Portugal (pior que é…) que peguei nas minhas viagens para lá e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia.

Existe música brasileira tocando nas rádios da Alemanha ou da Europa? Europeus têm acesso fácil ao que é produzido no Brasil ou esse é um mercado de nicho?

A música brasileira é bem conhecida numa certa cena da Alemanha. Pelo menos a bossa nova é conhecida, que é tão grudada ao jazz, e a MPB. Nas rádios de alto nível cultural toca-se muito Bebel Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Djavan, Marisa Monte, etc. Os alemães também gostam muito de batucada e capoeira e têm muitos e muitos grupos que tocam esta música.

Você cursou Ciências Culturais na faculdade e se especializou em palhaço. Como decidiu fazer este curso e por que se especializou em palhaço?

O curso de Ciências Culturais oferece uma grande variedade de matérias. Ao lado da música, estudei teatro, psicologia e management (gerência) de cultura. Achei importante, porque sabia que ia trabalhar com isso independentemente. Sabia também que todas essas disciplinas poderiam me ajudar na profissão.

Depois da universidade eu fiz o curso de palhaço, porque sou uma pessoa que quer ficar no palco e que é muito interessada em trabalhar com emoções e com “a verdade do momento”. O palhaço é tudo isso e o que aprendi naquele curso, que durou um ano e meio, ajuda na minha presença no palco.

A sua banda tocará em Salvador, São Paulo, Barra Bonita e Barbacena, segundo a agenda de seu MySpace. Que tipo de show você preparou para essas cidades?

É basicamente o mesmo show, mas com diferenças em relação ao tempo que temos e o lugar onde tocaremos. Em Salvador e Barbacena procuramos também convidar outros músicos para tocar no palco, pois tocamos em universidades de música, e – especialmente em Salvador – vai ser um show muito “jazz”.

Em todos os lugares será uma mistura de música original do Brasil e composições próprias da gente que gostaríamos de apresentar ao público. Estou superfeliz de ter a oportunidade de tocar música brasileira no próprio país em que ela nasceu. Como somos alemães, me parece algo bem exótico! J E mais ainda porque apresentamos nossas próprias composições também! Estamos muito ansiosos e esperamos que todos gostem! 🙂

Para terminar: a arte salva?

Salva sim! Cada vez que ouço uma música que gosto fico emotiva, começo a sorrir ou a chorar. A razão de eu ser uma pessoa positiva tem a ver com a força da música. E se eu conseguir chegar até as pessoas e tocá-las com o meu canto, recibo tanta energia boa que faz bem viver! Isso é o meu lado. Agora, quanto as pessoas que ouvem a música, minha experiência mostrou que algo da minha alegria e da minha paixão viaja até o público e toca as pessoas. Se é assim, é maravilhoso!

Katharina Ahlrichs (7)-2
O baterista Janco Bystron