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55 anos de rock – parte 2

Texto de Lucas Scaliza

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O rock e você: O que as pessoas pensam do rock e como ele se apresenta para cada uma delas

Cada pessoa tem uma relação e uma história com o rock. Há quem ame como música e há quem odeie também. Alguns identificam o rock na maneira como as pessoas se vestem, na maneira como pensam, na maneira como demonstram sua rebeldia. São tantas as formas de enxergar esse estilo que podemos dizer que ele é todo ramificado, abrangendo uma série de questões, sejam sociais, comportamentais ou artísticas.

Para Antonio César Maurélio, proprietário de um rock bar, o rock é fundamentalmente música. Ele só foi ouvir rock quando começou a participar de bailes. “Comecei a perceber naquela época que gostava mais de Beatles, The Who e Rolling Stones do que samba, por exemplo. Achava o jeito de dançar mais expressivo. Às vezes o cara não precisava nem fazer passinhos, ficava só batendo o pé no chão e fazendo uma cara de acordo com o que ele achava que a música transmitia”, relembra.

“Não é a música que muda a pessoa, é a pessoa que escolhe a música que se identifica melhor com a sua maneira de ser”, diz Maurélio

Maurélio acredita que o rock é um grande rótulo que abrange muitos estilos diferentes dentro dele, indo da balada até o peso total dos instrumentos. Sendo assim, “ele está dentro de cada pessoa, seja do temperamento que for”, pois “não é a música que muda a pessoa, é a pessoa que escolhe a música que se identifica melhor com a sua maneira de ser”.

Em relação a comportamento a opinião de Maurélio é que várias pessoas que ainda não têm uma personalidade totalmente definida passam a viver ou a se espelhar em seu ídolo, seja ele no rock, no samba ou no esporte. “Isso é normal dentro da sociedade. Tem gente que chega a fazer cirurgias para ficar mais parecidos com seus ídolos. Tem gente por aí que faz questão de deixar o bigode igual ao do Belchior, por exemplo. Outros vestem camisas de flanela para ficarem igual ao Kurt Cobain, do Nirvana. Graças a Deus ainda não fiquei sabendo de nenhum fã que deu um tiro na própria cabeça também”.

Por um caminho bastante contrário, vai o músico e poeta Vanildo Machado. Ele conheceu o rock 15 anos atrás, por meio de amigos músicos que não são famosos, mas faziam rock. Vanildo diz que o rock geralmente é identificado por causa da presença da guitarra na música. Particularmente, ele acha que antes disso já se fazia rock na música clássica e na MPB, mesmo sem as seis cordas distorcidas, mas davam outro nome. Para ele, rock é fundamentalmente atitude.

“O rock pode ser feito pelo índio na tribo”, opina o poeta. “Elis Regina cantando ‘Como Nossos Pais’ é rock, cara. A 9ª Sinfonia de Beethoven é puro rock também. Rock significa rocha, não é? Então, rock é ser duro no que faz e no que diz, é ter firmeza”.

Boa parte da obra musical de Vanildo é levada apenas na voz e no violão, sem guitarra e sem bateria, mas ele acha que não é isso que caracteriza sua música como “não-rock”. Por considerá-lo uma atitude, acha que o rock lhe dá uma liberdade a mais na hora de se expressar.

“O rock pode ser feito pelo índio na tribo. Elis cantando ‘Como Nossos Pais’ é rock, cara. A 9ª Sinfonia de Beethoven é puro rock também”, diz Vanildo

Já Fábio Izeppe, consultor em gestão de qualidade, começou a gostar do ritmo quando tinha 12 anos de idade e ganhou um disco do Legião Urbana. Logo depois, um amigo emprestou o álbum Somewhere in Time, do Iron Maiden. A partir daí, rock virou uma paixão que teve dois grandes momentos: o Rock in Rio 3, de 2001, quando tinha 16 anos; e no ano passado quando viu um show das bandas alemãs Gamma Ray e Helloween. “Depois desse show eu decidi comprar uma guitarra e fazer aulas”, diz.

Embora goste das melodias e da “levada” do rock, Fábio acha difícil definir quais são os elementos do estilo que o conquistaram, mas ressalta que é “uma música que faz eu me sentir bem, tanto na hora do estresse e dos problemas quanto nos bons momentos”. Sem sombra de dúvida, Fábio acredita que rock é um estilo de vida que vai mudando suas facetas conforme os anos passam.

55 anos de rock – parte 1

Texto de Lucas Scaliza

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No dia 13 de julho o rock fez aniversário. Aqui começam algumas considerações (em 3 partes) sobre esse dia e o estilo musical

Dia 15 de março. Uma fila interminável se estendia a partir do portão de entrada de Interlagos, em São Paulo. Todo mundo gritava “Maiden, Maiden!”. Era a quarta vez que Fábio Izeppe veria os ingleses do Iron Maiden ao vivo, mas parecia a primeira vez. “Estava ansioso uma semana antes do show, não consegui dormir na noite anterior”, conta. “Passar pelas catracas e ver o principal palco brasileiro do automobilismo ser tomado por uma das maiores bandas do mundo não é algo que acontece todos os dias”.

Na ativa desde 1975, o Iron Maiden é uma das mais conhecidas bandas de heavy metal da história do rock. Eles bateram seu recorde de público no último show que fizeram em São Paulo. Fábio estava entre as mais de 45 mil pessoas que viram os clássicos da banda serem tocados. “Nunca imaginei que iria vê-los tocar na minha frente ‘Rime of the Ancient Mariner’, com 13 minutos de duração. Mas a melhor da noite foi ‘Powerslave’. O solo desta música é um orgasmo”, Fábio relata animado.

Foi um show de rock, um estilo musical que completa 55 anos na segunda-feira, dia 13. O marco zero para começar a contar a idade do rock é a primeira veiculação no rádio da música “That’s All Right Mama”, gravada por Elvis Presley em 1954 e que foi ao ar no dia 8 de julho daquele ano. No entanto, o Dia Mundial do Rock, comemorado segunda-feira, só foi instituído em 1985, quando estrelas do rock do mundo todo se apresentaram no megaevento Live Aid, um show que pretendia levantar fundos para ajudar países africanos a combater a fome e outros problemas sociais. As apresentações foram transmitidas para o mundo todo pela televisão, o que aumentou o alcance e a relevância do Live Aid. Phil Collins, então vocalista da banda Genesis, disse que aquele dia [13 de julho] era tão importante que deveria se tornar o dia mundial do rock. E assim foi feito.

Logo que surgiu, o rock correu o mundo espalhando seu ritmo animado e pulsante levando um novo modo de dançar para as pistas de dança e mudando o jeito como as pessoas encaravam a música popular. Mais tarde, o rock falaria e se envolveria em temas como comportamento, política, drogas e amor. Foi o estilo da contestação por excelência e da voz às vezes rebelde, às vezes desesperada da juventude.

“O rock sempre teve envolvimento com vários setores da sociedade, como comportamento e política”, diz o músico e jornalista Kid Vinil, que ficou famoso nos ano 80 como vocalista da banda Magazine, cantando “Tic Tic Nervoso”, “Sou Boy” e “Glub Glub no Clube”. “Foi na década de 50 que a juventude abraçou o rock como uma manifestação que identificava uma geração. E essa manifestação sempre passou para a geração seguinte, sempre se renovando”.

Arthur entre o prodígio e o talento

Texto e fotos de Lucas Scaliza

Mais consciente de sua capacidade, Arthur Massucato executará um “repertório clássico mais transparente”. Pianista se apresenta dia 16 em Jaú

Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas
Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas

Embora esteja completando dois anos de estudo de piano erudito, Arthur Massucato estava tocando uma peça de piano popular poucos minutos antes da entrevista. Era Tom Jobim. Quando percebeu que eu tinha entrado na sala do piano interrompeu a bela canção, virou-se sorridente e cumprimentou-me com um enfático “Como vai?”.

Há alguns meses Arthur começou a ensaiar um novo repertório para se apresentar novamente no Julho Cultural, mês que a cidade de Jaú reserva para mostrar os talentos artísticos da região e de fora dela. Arthur se apresentará no dia 16 [quinta-feira] às 20 horas no Teatro Municipal de Jaú como pianista solo de obras da música clássica.

Em 2008, Gláucio Munduruca, professor de piano de Arthur, fez o que hoje eles chamam de loucura: pôs o então iniciante Arthur para tocar sozinho no Julho Cultural com apenas 11 meses de aula, coisa que Gláucio nunca tinha feito. Para complicar, era a primeira vez que o jovem igaraçuense de 18 anos se apresentaria para o público. Isso o projetou como um “prodígio” na época.

– Antes do meu primeiro concerto todo mundo me via como um talento para o piano, como um prodígio – diz Arthur –, mas o que eu tenho é facilidade no estudo do instrumento. Minha mão não sai voando pelo piano, por exemplo.

Eu nunca tinha visto ninguém tocar com tão pouco tempo de estudo. Ele funciona como um relógio, tem disciplina para estudar – enfatiza Gláucio.

Antes de eu subir ao palco, o diretor do teatro municipal de Jaú me apresentou para o público como um “pianista prodígio”. Achei um pouco forçado, mas já era tarde demais.

A vida toda tive muitos alunos e o Arthur é um caso particular que conseguiu administrar tudo isso. Com poucos meses ele se apresentou sozinho como um profissional. Isso eu nunca tinha visto. Quem tem um talento e uma facilidade muito grande para tocar geralmente não estuda. E quem estuda, como é o caso dele, vira um fenômeno.

“Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”

Arthur conta que alguma semanas antes de sua primeira apresentação sentiu-se aparado por todos os lados, pela família e pelo professor. Mesmo assim ele estava uma pilha de nervos. Um dia antes do concerto ele estava calmo como nunca, o que levou Gláucio a se preocupar: “Não acho isso bom”, disse.

Contudo, a apresentação foi ótima. Arthur fez valer as cerca de 60 simulações de recital que fez ao lado de seu professor e não apresentou queda de rendimento. Gláucio diz que todas as falhas que o aluno teve foram imperceptíveis e que já eram esperadas. Para Arthur, a experiência do palco foi marcante. “Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim, porque era o máximo onde poderia estar naquele momento. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”, conta. Dali até hoje, sentiu que teria que arcar com tudo até o final.

Ao colocar a mão no instrumento para executar a primeira peça ainda não estava de todo concentrado. “Parecia que eu me via da platéia. Confesso que estava um pouco perdido no início. Acredito que neste ano isso não acontecerá”.

O único problema da apresentação foi a correspondência de empatia entre o músico e o público. “Ele não correspondia às palmas da platéia”, Gláucio lembra entre risos. “O pessoal ficava aplaudindo em pé e ele saia rápido do palco”.

No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.
No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.

Mais experiente e mais consciente

 Os 11 primeiros meses de aula que culminaram com a apresentação foram de trabalho intenso. Gláucio Munduruca precisou dispor de mais tempo para preparar seu aluno. Chegaram a passar oito horas seguidas juntos. No dia seguinte a apresentação, Arthur Massucato desabou e ficou uma semana sem tocar piano, como se o estresse de 11 meses lhe caísse de uma vez nos ombros.

Agora o pianista diz que está mais consciente do que fez – e não voltaria a se “sacrificar” tanto para preparar um repertório em tão pouco tempo – e mais experiente para tocar. Arthur agora é um aluno normal e não precisou do professor para fazer sua parte. “Eu pude me dirigir muito mais”, vibra Arthur, “o Gláucio só me mostrava onde estavam os problemas e eu os resolvia. Antes eu não sabia como resolver problema algum, não me virava sozinho! Na verdade, acho que o primeiro concerto foi mais dele que meu”, completa rindo.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”

No ano passado, ele fez o piano soar peças de compositores românticos como Chopin, Scriabin, Schumann e Liszt. Gláucio explica que esses compositores são mais livres e soltos, o que colocaria em xeque a capacidade de uma execução mais técnica e regrada de Arthur. Para que não restem dúvidas quanto a capacidade do pianista, professor e aluno montaram um programa que vai da era barroca da música erudita até os modernos. No dia 16 ele executará peças barrocas de Bach, uma sonata clássica de Haydn, duas rapsódias de Brahms e dois ponteios do compositor brasileiro Guarnieri, além de duas peças de Schumann e uma de Shchedrin.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”. Com peças mais livres era mais fácil enganar o ouvinte caso uma nota atrasasse ou adiantasse. “Não dá para enganar ninguém tocando barroco e clássico. Ou você toca, ou não toca”, afirma Gláucio.

E a dificuldade técnica que Arthur teve nos últimos meses foi juntamente com as obras de Bach – que ele considera um compositor até didático, mas muito preocupante na hora de tocar em público – e de Haydn, que é onde “abaixar as teclas é mais difícil”. De qualquer forma, ele está confiante e revela que seu modo de abordar o piano e de se comportar enquanto toca mudou, tomou ares de alguém que entende melhor o que faz.

Mesmo com tão pouco tempo de estudo e com praticamente duas apresentações solo no currículo, Arthur não se acha prodígio e nem um talento extraordinário. No entanto, logo após o Julho Cultural de 2008, recebeu um convite para integrar a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Ele recusou o convite. Se tivessem perguntado 10 meses antes, quando ele tinha febre em tocar, teria aceitado.

Com a cabeça no lugar, achou melhor continuar estudando piano regularmente seis horas por dia em sua casa. Esse tempo ele divide com a faculdade de direito que cursa a noite e o estudo das disciplinas acadêmicas. Para dar conta do recado, acorda todos os dias entre 6h30 e 7 horas da manhã. “Por enquanto eu tenho gostado do meu dia a dia, tem dado certo”. De fato, Gláucio tinha razão. Arthur tem disciplina para o estudo.

Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.
Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.

O homem que entende as máquinas – parte 1

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O que ninguém consegue consertar, o inventor Aristides Lanfredi conserta. Não é dinheiro que ele quer com isso, mas que continuem sua obra
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.

Interior de São Paulo. Saindo de Igaraçu do Tietê e seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi, para além do Igaraçu Park, e entrando na estrada IGT-416 que leva para Macatuba, siga até avistar a entrada do Rancho Floresta, a sua direita, mas não entre. Olhe o caminho misterioso a esquerda, estreito e emparedado por centenas de pés de cana-de-açúcar. No final deste caminho está um homem magro e franzino, geralmente usando chapéu de palha, chamado Aristides Lanfredi. Aos 82 anos de idade, ele vive recluso em sua propriedade rural, mas é de uma lucidez e de um brilhantismo fora de série.

Ele estudou apenas até quarta série, mas foi o suficiente para mostrar todo o potencial que tinha e que, como logo veremos, não foi todo aproveitado. Na escola, Aristides ganhou diversos prêmios por ser um inventor muito superior a qualquer outro de sua sala. Tudo que ele inventava tinha relação com a mecânica, sua grande paixão até hoje.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores

Aos 12 anos, fora da escola e morando num sítio onde a energia elétrica ainda não chegara, gostava de observar as embarcações desfilando pelo Tietê e de brincar no rio. Então sua primeira máquina nasceu: uma barquinha com motor a vapor! “Era uma farra no rio”, diz. Para que fique claro, todo o motor foi montado por Aristides a partir do zero e funcionava.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores e esnoba descobertas modernas: “Faz pouco tempo que inventaram a ignição sem platinado, mas eu já a tinha feito há 50 anos”. Ainda moleque fez sua primeira caldeira, em 1940. Pegou latas de óleo de cozinha e as colocou no fogo. Como não tinha torno naquela época, torneou tudo na mão. E como se torneia na mão? “É simples. Pega dois paus bem compridos, os cruza e fica atritando-os. Furar era tudo na força bruta, eu não tinha furadeira”. Um tempo depois, ele fez para si uma furadeira. Não elétrica, manual.

Atualmente, Aristides está empenhado em fazer telhas de cerâmica a partir de um modelo de 60 anos atrás. “Naquele tempo quase não tinha antimônio [um semi-metal]”, explica ele, “então eu fiz antimônio misturando zinco com chumbo e deu certo, a telha saiu perfeita”. A forma de telha que usa é esculpida por ele mesmo primeiro em saibro e depois feita de antimônio derretida. Se der defeito, ele funde outra. Aristides conta que há alguns anos, vários ceramistas foram atrás dele querendo que fizesse a prensa de telhas para eles, mas não aceitou. Por que não? “Ah, não. Capaz de sair algum defeitinho e acharem ruim”.  Em outra época, uma empresa que exigia um nível de escolaridade de seus empregados ficou sabendo de nosso protagonista e quis contratá-lo mesmo assim. De novo, não foi. E por que não? “É amor na família. Não queria ficar longe dela. Mas se fosse hoje, pelo amor de Deus!”, ele vibra levantando os braços para o céu.

Continua nos posts abaixo.

O homem que entende as máquinas – parte 2

Texto e fotos por Lucas Scaliza

Quando não tem mais jeito

O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas
O floriculturista e professor Bi encontrou o inventor por acaso, quando ninguém dava jeito em algumas de suas máquinas

Se um motor dá problema e ninguém na cidade conserta, Aristides entra em cena. Foi assim que o floriculturista e professor Rubens Ap. Fabrício, Bi, o encontrou. Ele tinha uma moto que ninguém dava cabo do problema, fosse em Barra Bonita ou em Jaú. Então alguém lhe contou sobre a existência de um tal de Aristides Lanfredi que resolvia qualquer problema em motores. Bi confiou e se impressionou com o senhor que encontrou. “Em 30 minutos ele conseguiu o que nenhum outro fez em dias e semanas. Depois disso, sempre lhe entreguei minhas máquinas para serem consertadas e ele sempre encontrou soluções adequadas”, declarou.

Quando entrevistei Aristides, na tarde de uma sexta-feira, Bi me acompanhava. Ele tinha deixado com o homem dois pôneis mecânicos [pequenos arados com motor]. “Levei-os direto para o Aristides porque na Barra ninguém conheceria esse tipo de máquina”. Um deles já foi devolvido e está em ótimo estado de funcionamento, segundo Bi. O mais interessante de toda essa história é que ninguém entregou um primeiro motor para Aristides para que ele pudesse ver como era e, aí sim, construir ou consertar o primeiro. Ele simplesmente olha e entende a máquina, seja motor de barco, caminhão, moto ou carro. Até em bomba  injetora mexe e diz ser mais fácil de arrumá-la do que um carburador. E pelo ronco do motor ele também já identifica o problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos. Usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação.

A lista de feitos de Aristides não caberia nessas páginas, mas é possível contar alguns. Certa vez, um senhor de Botucatu o procurou com um motor de popa que ninguém conseguira consertar. Aristides olhou, olhou e apenas mexeu numa pecinha e mandou ligá-lo. Funcionou. Em outra ocasião lhe deram uma bomba d’água para dar uma olhada. A peça problemática era trocada e nada se resolvia. Mandaram vir da fábrica do Japão a peça necessária e mesmo assim nada de funcionar. Aristides, então, fabricou ele mesmo a peça, um modelo mais flexível, porque notou que a original era dura e se quebrava facilmente.

Há vários anos, um português de Arealva comprou um carro Mercuri que valia Cr$ 25 mil por apenas Cr$ 800. O motor não funcionou mesmo depois de ser mandado para oficinas de Rio Claro e São Paulo. O carro chegou às mãos de Aristides e foi batata! “Descobrimos na hora o problema. Bem, o português ganhou mais de 20 mil, não é?”, ele gargalha.

Bi, há 10 anos, levou até Aristides um motor estacionário de bomba d’água. Ao começar a mexer no equipamento, o “mecânico” jogou fora uns parafusinhos do motor no meio do  mato, fazendo Bi pensar: “Meu Deus do céu! Será que ele acha isso depois?”. O homem disse que não havia necessidade daquelas peças ali e fez a máquina funcionar, demonstrando que os parafusos realmente não fizeram diferença. Durante a última década, ninguém mexeu no estacionário e ele nunca mais deu problema.

Para Aristides não existe a desculpa de ser ignorante por não ter continuado os estudos além do ensino básico. Por meios próprios, usando o cérebro, achou explicação para os fenômenos internos de um motor que muita gente estudada não saberia encontrar apenas pela observação. Diz ele: “De onde vem a faísca da vela de um motor? É um elétron que recebe uma pressão tão forte que acaba saindo de órbita e vira luz na ponta da vela, acredita nisso? A bateria só provoca o elétron”.  E continua.  “E vela de motor não queima. O que acontece é que o combustível tem partículas de chumbo que se acumulam na vela e aí ela pára de funcionar”.

Inventivo que só ele, Aristides tem na cabeça uma idéia de motor movido à água, e tudo leva a crer que essa idéia existe há bastante tempo, reclusa em sua mente, assim como ele se resguarda em seu pedaço de chão.

O homem que entende as máquinas – parte 3

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O homem persegue seus sonhos

Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto
Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto

Apesar de todo esse talento, Aristides cobra uma mixaria por seu serviço. Fica mais feliz em fazer o serviço do que em cobrar por ele. O dinheiro que lhe permite pagar os impostos, se alimentar e manter sua pequena oficina de paredes de madeira vem de sua aposentadoria e da renda que o sítio lhe proporciona.

Na verdade, como conta seu sobrinho, o eletricista de autos Pedro Stangherlin, Aristides trabalha na roça, plantando, carpindo e vez ou outra consertando algum motor. Ele é solteiro, não tem filhos e mora com irmãos, com quem divide a propriedade rural. A oficina, as máquinas, as engrenagens são seus passatempos, hobbys aos quais se dedica durante a noite e aos domingos. E, ao que parece, desde sempre foi assim. “Já tentaram levá-lo ao Rio de Janeiro para estudar”, conta Pedro, “mas seus pais não deixaram, ele tinha que ajudar na roça e, nas horas sem serviço, mexer com seus inventos”.

Ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece

O senhor mecânico autodidata sabe de seu potencial e sabe que ele foi subaproveitado. Lamenta que em sua juventude a corrente elétrica não chegava a sua casa, senão “teria feito muito mais”. Talvez muito mais bielas e pistões e pequenos motores do que já fez. Lamenta também por não ter ganho dinheiro com seu dom. “Sabe onde perdi muito dinheiro? Se eu tivesse um outro colega que soubesse negociar, a história seria diferente. Já me apareceu cada coisa aqui, já inventei tanta coisa nessa Terra…”.

Dinheiro – dizem mecânicos e eletricistas da cidade, seu sobrinho Pedro e seu amigo Bi – nunca foi a preocupação de Aristides. Para eles, o que vale de verdade é a satisfação que ele sente em pôr em prática sua arte de consertar. “Diria que dinheiro tem significado zero para ele. Ele cobrava Cr$ 10 por um conserto e acabavam lhe pagando Cr$ 20, 80 ou 100. Ele guardava esse dinheiro em uma lata. Então a moeda corrente mudou e, quando ele descobriu isso, o que ele tinha guardado já não valia mais nada. Aliás, algo valia, sim: o que ele tinha feito pelos outros”, afirma Bi.

Durante a entrevista, Aristides comentou várias vezes que não tem mais vontade de criar. Seria o cansaço ou a idade? Quem o conhece há algum tempo aposta em outro motivo: ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece. Algo como “vou inventar para quê se ninguém toca meus inventos?”. Nas palavras do professor Bi, que também é contista e poeta, esse senhor, Aristides Lanfredi, não persegue dinheiro, apenas seu sonho. E o homem deve perseguir seus sonhos, porque assim ele se realiza. E Aristides é uma pessoa realizada, mesmo sem o reconhecimento que talvez lhe seja merecido, cercado por um mar de cana, naquela estrada IGT-416, além do Igaraçu Park, seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi. Lá está o homem que entende as máquinas.