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Garotas desconcertadas

Cherie Currie (canto esq.) e Joan Jett (canto dir.), protagonistas de The Runaways

The Runaways, o filme, leva o mesmo nome da banda de rock que na década de 1970 começou a sacudir os Estados Unidos e boa parte do mundo com um elenco só de garotas. E eram garotas tocando rock numa era em que só homens (cabeludos, barbudos e hippies) empunhavam suas guitarras com uma exasperante libido sexual. E as garotas do The Runaways, soltas no selvagem mundo do underground, tentavam agradar como os hominídeos machos da época faziam, usando e abusando de suas atitudes para (1) poderem se expressar como quisessem e (2) também exigir respeito.

O filme conta com a estreante Floria Sigismondi na direção e com Joan Jett, a própria guitarrista fundadora do The Runaways, na produção executiva. O resultado é uma narrativa cheia de dualidades que põe em xeque o quanto a presença (e o dinheiro) de Jett influenciou no enredo, mas também uma obra que sabe de seu tamanho e seu real alcance, não almejando saltos maiores do que pode dar. Mas vamos por partes.

Kristen Stewat como a guitarrista da banda não lembra em nada a Bella de Crepúsculo.

Para começar, a direção. Sigismondi é uma artista plástica das boas que sabe muito bem trabalhar com o bizarro, então dirigir um filme sobre uma banda de rock setentista, época de fortíssimo apelo visual nas roupas e na maquiagem, não deve ter sido um grande desafio. Ajuda também o fato da diretora já ter dirigido muitos videoclipes e que o diretor de fotografia, Benoit Debie, use um estilo granulado que cai muito bem à película. Contudo, parece que em boa parte da primeira metade da obra falta a Sigismondi e ao roteiro profundidade narrativa, então qualquer emoção que precise ser evocada é acompanhada automaticamente por alguma canção de fundo. Como esse recurso é usado várias vezes, uma cena acaba não se destacando sobre a outra. Da metade adiante, esses momentos videoclipes são substituídos pelas apresentações ao vivo da banda já formada, o que é mais verossímil e ajuda a levar a história adiante.

A dualidade entre Joan Jett e Cherie Currie está presente durante todo o filme

A história tem três personagens principais. A guitarrista Joan Jett, interpretada por Kristen Stewart, a Bella da saga Crepúsculo; a vocalista Cherie Currie, vivida por uma Dakota Fanning crescida que tenta se distanciar de papéis infantis; e Kim Fowley, truculento produtor musical estrela interpretado com arroubo por Michael Shannon. Logo que o filme começa, um pingo de sangue mancha as pedras na beira da estrada. Cherie acaba de ficar menstruada. Sua vida anda um tanto entediante e complicada: vive com a irmã mais velha e com a avó, enquanto a mãe passa muito tempo fora (até que resolve ir morar na Indonésia com o novo namorado) e o pai é um alcoólatra que se afastou da família, mas às vezes retorna ao lar. Fã de David Bowie, é vaiada no show de talentos da escola quando interpreta uma de suas canções, vestida e maquiada como o camaleão do rock.

Em outro canto da cidade está Joan. Rebelde sem causa, até onde o filme nos permite ver, ela prefere se vestir com jaquetas pretas masculinas do que com os artigos femininos das lojas. Tenta substituir o sobrenome Larkin por Jett e gostaria que suas lições de guitarra fossem mais selvagens e distorcidas, mas recebe em troca um “garotas não tocam guitarra elétrica”. Nesse mundo quase hostil, Joan conhece Kim Fowley e avisa que é uma guitarrista atrás de garotas para uma banda só de meninas. O produtor se interessa e começa a reunir outras interessadas. É em uma boate, quase que sem querer, que Fowley vê Cherie num canto e recruta a menina para cantar.

Michael Shannon como o truculento produtor musical Kim Fowley

Assim começa a jornada do The Runaways. A banda vai dos sofridos ensaios num trailer até as apresentações monumentais no Japão, onde as cinco são cultuadas. O foco principal sobre Joan e Cherie evidencia as dualidades do filme. Joan não tem história pregressa, quer tocar rock’n’roll, quer ser selvagem, quer ser transgressora, enfrenta bruta montes e é retratada sempre como a integrante que faz de tudo para manter a banda funcionando, mesmo quando Cherie não quer cantar grosserias ou quando se recusa a gravar um disco. Já a vocalista é influenciada pelos problemas que deixou em casa, pelo recém descoberto mundo dos excessos e pela exploração de sua imagem que sai de seu controle.

E toda a confusão que culmina com o afastamento de Cherie Currie do The Runaways tem pelo menos dois catalisadores comuns. O primeiro é Kim Fowley, que obriga e manipula as meninas a serem o produto que ele quer que elas sejam. O segundo, como já era de se esperar, são as drogas. Elas acabam com a vida da vocalista, que nunca mais conseguiu chegar ao estrelato. Ao final do filme, parece que estamos vendo a vida de Kurt Cobain de novo, mas em outra época e sem o suicídio. Enquanto isso, Joan Jett passa um tempo longe dos holofotes, sem produtor e sem contrato com gravadora. Mas ressurge, agora como Joan Jett and The Blackhearts, e emplaca o sucesso “I Love Rock’n’Roll”.

A banda setentista The Runaways completa, como retratada no filme

A dualidade entre as duas está presente o tempo todo, mas nem Kristen Stewart nem Dakota Fanning conseguem dar conta da profundidade emocional de suas personagens – e o roteiro não se esforça para isso também. Desde o início do filme, temos constantes closes do rosto iluminado de cabeleira loira de Fanning, mas Stewart é sempre filmada a distância, cabelo na cara. Uma deixa sua história a mostra, mas da outra não temos nem vestígios de seu passado ou de sua família. Quando Cherie surta no estúdio e deixa a banda, abre uma porta atrás de Joan e se entrega ao clarão do lado de fora, enquanto a guitarrista permanece no canto mais escuro. Mas ela não vai necessariamente na direção da liberdade ou ao encontro de um futuro melhor.

Conta a favor das duas o fato de conseguirem mostrar que são atrizes capazes de se distanciarem dos papeis que as tornaram famosas. Kristen Stewart está com uma voz mais grave, uma postura mais largada e uma aparência mais sombria do que a de Bella. E Dakota Fanning mostra que está crescendo e está disposta a manchar seu rosto para fugir de estereótipos.

E então vem a questão: The Runaways tem alguma isenção ao contar a história ou ela é filtrada pelos olhos de Joan Jett, a produtora executiva? A guitarrista se dá bem na história, está longe de ser uma vilã ou de ser retratada como uma viciada tão problemática quanto Cherie. Que seja o dinheiro falando mais alto, porque se for auto-indulgência aí já é demais.

Mulheres do Irã: Chá e sexo

Por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa

Capa de Bordados, editado no Brasil pela Quadrinhos na Cia., sele de quadrinhos da Companhia das Letras

Marjane Satrapi continua desvendando aos olhos ocidentais como é a vida em seu país natal, o Irã. Para isso, a artista usa a linguagem dos quadrinhos e consegue chegar onde almeja: contar bem uma história e documentar uma realidade a partir de suas próprias memórias e histórias de vida daqueles que a cerca.

Autora do premiado Persépolis (que inclusive ganhou uma versão animada para cinema em 2008) e de Frango com Ameixas, Satrapi tenta não se repetir na hora de fazer história em quadrinhos. Seu mais recente trabalho publicado no Brasil é Bordados (Broderies, 2003), que mantém as características básicas dos desenhos da autora: traços simples, olhos expressivos e uso de branco e preto, sem escalas de cinza.

A narrativa de Bordados é focada em uma tarde na casa da avó da autora (que também participar como personagem do livro). Durante o samovar, um ritual de chá iraniano servido de manhã, à tarde e a noite, um grupo de mulheres reunidas – mãe, tias, amigas, primas de Marjane Satrapi – começam a relatar suas histórias sexuais mais marcantes.

Páginas internas de Bordados. Tradução para o português de Paulo Werneck

Está na obra a mulher que perdeu a virgindade com o homem amado, mas que havia sido prometida a outro. A mulher que nunca viu um pênis na vida porque o marido a obrigava a transar sempre no escuro. Aquela que achou que se divorciar era o fim da vida amorosa no Irã, e as garotas que faziam de tudo para se casarem com iranianos ricos que moravam na Europa. A mulher que foi traída, a mulher que traiu, aquela que não queria ser a outra e aquela que preferia ser a outra. E no meio disso tudo, os lendários “bordados” que as mulheres faziam para proteger a dignidade.

A autora não nos poupa com as palavras. Se é preciso dizer “pau” ou “pinto” para contar determinada história, suas personagens dirão. Entretanto, nos poupa com os desenhos. Não há sequer uma cena de sexo descrita em imagens nas 130 páginas da obra. Satrapi aposta mesmo é nas insinuações e no significado dos olhares. Mesmo assim, os relatos não deixam de ser fortes o suficiente para que entendamos os dilemas daquelas mulheres. Contribuiu para isso a tradução de Paulo Werneck, que sabiamente não deve ter se preocupado em usar eufemismos para as cenas e descrições mais pesadas.

A autora Marjane Satrapi nasceu e cresceu no Irã. Hoje vive na França

De modo geral, Satrapi retrata histórias sexuais e aventuras amorosas (mas nem sempre movidas por amor realmente) da alta sociedade iraniana. Como acontece em Persépolis, é a liberdade que a autora discute. Mas se em sua história em quadrinhos mais conhecida Satrapi fala da liberdade política e individual, aqui ela concentra-se na libertação do sexo feminino – o que não deixa de ser um ato político também, sobretudo no Irã. Dessa forma, a imagem de pessoas castas e caladas ao extremo que temos das iranianas quando as vemos de burca é quebrada pela artista: por baixo da burca existem mulheres como quaisquer outras no mundo, com desejos, tesão, interesses e força para dobrar o macho que têm em casa. Mas são mulheres que se decepcionam muito também, e acabam posicionando-se de forma bem mais cínica frente à sociedade, à masculinidade e à fidelidade.

Bordados não é tão épico quanto Persépolis e nem um conto tão poderoso quanto Frango com Ameixas. Contudo, continua revelando o Irã através de uma voz que nasceu e cresceu ali (lembrando que Marjane Satrapi é radicada na França, onde vive atualmente), um país de que muito se fala e pouco realmente se sabe sobre os pensamentos mais íntimos de seu povo.

Kick-Ass, com violência pop

Ousado na medida certa Kick-Ass fala de super-heróis e trata com respeito a adolescência, como filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer

Quando fez sua crítica de Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010) para a revista Veja, Isabela Boscov comparou a violência, as referências pop e o fundinho de sensibilidade do filme com Pulp Fiction, obra do diretor americano Quentin Tarantino vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 1994. Ela acerta o diretor, mas erra o filme. Kick-Ass está muito mais próximo de Kill Bill. É praticamente um Kill Bill com e para adolescentes.

Baseado na HQ homônima de Mark Millar e John Romita Jr, Kick-Ass começa indo direto ao ponto. A câmera corta as nuvens do céu de Nova York enquanto várias narrações em off intuem a possibilidade de existir um herói de verdade, com poderes de verdade. Ao chegar ao topo de um prédio, um homem com uma fantasia vermelha abre suas “asas” e se joga lá de cima. Lá de baixo, todos assistem maravilhados sua a queda livre que acaba esmagando um táxi. Infelizmente, não há superpoderes.

Na sequência, somos apresentados a Dave Lizewski (interpretado pelo inglês Aaron Johnson), um adolescente comum. Não é bonitão, não é fortão e não existe sequer uma menina interessada nele. Dave é constantemente assaltado e gostaria que alguém fizesse algo quanto a isso, alguém que não decidisse simplesmente não se envolver – como um herói dos quadrinhos faria. Conversando com seus dois únicos amigos, ele chega a conclusão de que se super-heróis existem, são pessoas extremamente comuns, como Peter Parker ou Clark Kent. Num misto de senso de justiça com delírio juvenil, ele compra uma fantasia verde com máscara e treina uma coreografia na frente do espelho. Sente-se um herói.

Dave (centro) e seus dois amigos numa loja de quadrinhos. A referência não é gratuita

Logo em sua primeira atuação como defensor dos oprimidos, Dave é esfaqueado na barriga e atropelado por um carro. Seu corpo é remendado com pinos e placas de metal, o que lhe dá menos sensibilidade à dor. “Sou como o Wolverine!”, é seu primeiro pensamento. E ele volta às ruas como herói mascarado. Dessa vez, apesar de apanhar bastante, consegue salvar um latino que estava sendo perseguido. O ato de heroísmo é gravado por celulares de gente que também decidiu não se envolver e vai parar no YouTube e nas páginas de jornal, transformando Kick-Ass (nome do “herói’) em sensação do momento.

Mas há um grande traficante na cidade (Mark Strong) que vai começar a caçar Dave/Kick-Ass, achando que é ele quem está matando seus homens. É aí que entram duas grandes pérolas do filme. Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, e Mindy, a letal heroína mirim Hit-Girl, vivida com garra incrível pela pequena Chloë Grace Moretz. Juntos, eles vão atrás dos homens do mafioso Frank D’Amico, até que chegue a hora de cortar de vez a cabeça da organização. É uma vingança de Big Daddy contra o homem que destruiu sua vida quando ainda era um bom policial. Fazendo justiça com as próprias mãos, treinou a filha para ser uma arma mortal. As cenas de violência (alternando momentos mais crus com outros estilizados, mas sempre ultrapop e muito coloridas) são as protagonizadas por Hit-Girl. Se o espectador não se incomodar em ver uma menina fofa de 10 anos matando inúmeras pessoas sem um pingo dó, vai se empolgar com suas ótimas participações.

Quando Mindy, a insana Hit-Girl, está em cena, espere pelo banho de sangue

Violência colorida e pop, vingança, justiça com as próprias mãos e uma menina mortal. Elementos que estão em Kill Bill. E como no filme de Tarantino, a violência de Kick-Ass é usada por Matthew Vaughan, estreando na direção, como exercício de estilo e linguagem. E Vaughan, como Tarantino, também foi criticado por isso pela crítica que não entendeu – ou não teve estômago – para encarar uma criança que fala palavrões e mata mais do que qualquer outro personagem adulto. De Pulp Fiction, este filme guarda paralelos com a sensibilidade dos personagens, como disse Boscov, mas em suas origens revela-se o paralelo mais claro. Pulp Fiction veio da influência da literatura B publicada em revistas americanas; já Kick-Ass usa como base os quadrinhos, que são vistos por muitos críticos e acadêmicos como a literatura B de hoje. Na cena em que Vaughan explica a rixa do traficante com Big Daddy, a tela se transforma em uma belíssima HQ, com várias cenas diferentes em cada quadro. (Tarantino, em Kill Bill, usou uma cena de anime para contar a história de O-Ren Ishii, só para traçar mais um paralelo formal entre as duas produções)

Mas as obras de Quentin Tarantino são para adultos, embora o público mais jovem também goste. Já Kick-Ass é claramente para adolescentes e não leva mais de 15 minutos para percebermos isso. Dave e seus amigos concentram todas as necessidades e hábitos de adolescentes comuns. A procura pelo sexo oposto, as trapalhadas, a inexperiência e principalmente a vontade de encontrar um lugar confortável no mundo. Quando Dave finalmente se ajeita com seu interesse romântico, ele quase abdica de ser o herói do YouTube. Afinal, encontrou na realidade um estímulo mais completo do que o proporcionado por uma fantasia cafona.

Dave vestido de Kick-Ass e Mindy como Hit-Girl

Desde o início, tem um pouco de Watchmen no filme. A impotência de Dave como Kick-Ass se agrava conforme ele vai percebendo que não tem nem mesmo supercapacidades. Ao encontrar Hit-Girl, infinitamente mais bem preparada do que ele, Kick-Ass vira mais um ideal do que uma entidade que valha a pena ser posta em atividade. No entanto, não dá para dizer que o filme trata do “crepúsculo dos heróis”, pois é com heroísmo assombroso (e humanidade comedida) que a história termina.

Ousado na medida certa (aquela que incomoda e gera discussões, sabe?) e muito divertido, Kick-Ass – Quebrando Tudo faz o que promete com competência. Fala de super-heróis, fala da justiça e da vingança, e trata com respeito a adolescência, jogando na cara dela montes de erros e equívocos que filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer, talvez por não ousarem tanto.

Trailer para maiores de Kick-Ass.

A vida real num comic book

Em Anti-herói Americano Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar e nem salvar o mundo. Na verdade, ele vive tentando salvar a si mesmo

Por Alice P. Wakai (lice_watashi@hotmail.com)

Paul Giamatti interpreta Harvey Pekar, americano que vai seguindo com a vida, sem grandes heroísmos

Harvey Pekar (Paul Giamatti) é um arquivador de documentos que trabalha num hospital em Clevand. Passa as horas livres ouvindo LP’s raros que compra nos brechós, lendo literatura ou escrevendo artigos sobre jazz. Entediado com a rotina medíocre do emprego, frustrado com os dois casamentos fracassados e sofrendo de problemas de garganta, ele conhece Robert Crumb* – um ilustrador de quadrinhos talentoso que visita os mesmos bazares baratos que Harvey. Com muito jazz e revistas em quadrinho em comum, os dois logo se tornam amigos e Crumb começa a frequentar a casa de Pekar. Entre um diálogo e outro, Harvey tem o insight que mudará sua vida: resolve se tornar um escritor de histórias em quadrinhos do seu próprio cotidiano.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia, cria personagens baseadas nas pessoas bizarras com quem convive no trabalho ou simplesmente ironiza situações que presencia dentro do ônibus. Crumb (interpretado por James Urbaniak) lê os textos e resolve criar uma revista em quadrinhos, a American Splendor, publicada pela primeira vez em 1976, e que vira um verdadeiro sucesso de crítica e público.

Harvey torna-se celebridade, participa de programas de auditório na TV, sessões de autógrafos na livraria, as pessoas o reconhecem na rua… No entanto continua absorto, mergulhado em seu mundo solitário. É nesse momento que conhece a mulher de sua vida, Joyce Brabner, também amante de quadrinhos, com quem logo se casa, depois de fazê-la vomitar com seu beijo.

Harvey começa a esboçar traços primitivos e faz do papel sua terapia: narra as desventuras do seu dia

Harvey Pekar é, de fato, o “anti-herói americano”: tem uma vida pouco luxuosa e bem diferente do “american way of life”. Ele representa a classe média baixa dos Estados Unidos: suporta um emprego mediano apenas pela comodidade e pelo plano de previdência, e acha-se um “estorvo social”.

Por se tratar de um personagem real (o próprio Harvey Pekar aparece no filme), o Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade, e além disso tem uma edição bacana que evoca sempre a página de um “comic book”, com margens, enquadramentos, letreiros chamativos e desenhos caricatos.

Anti-herói americano é totalmente metalinguístico, é um filme dentro do filme, uma autobiografia interpretada e dirigida pelo seu próprio autor, uma ficção-realidade

American Splendor se insere na década 70, período “underground” das revistas em quadrinhos, que eram vendidas em head shops e de mão em mão. Crumb, os Freak Brothers de Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, Victor Moscoso, Bill Griffin estão entre os mais conhecidos da época.

Harvey Pekar não tem super poderes, não pode voar, nem salvar o mundo. Na verdade ele vive tentando salvar a si mesmo. Representa a luta pela sobrevivência social, pela visibilidade (que  não necessariamente leva à felicidade). Como diz o próprio Harvey Pekar no começo do filme “Se você é o tipo de pessoa que procura por romance, escapismo ou fantasia pra salvar o dia, você pegou o filme errado”.

A ótima direção de Robert Pulcini e Shari Springer Berman aliada à brilhante interpretação de Paul Giamatti e excentricidade de Harvey Pekar garantem um bom filme.

*Robert Crumb é um famoso jornalista e quadrinista norte-americano que vive na França atualmente. Autor de várias histórias curtas e alguns livros, lançou a graphic novel Gênesis em 2009, publicado no Brasil pela Conrad. Vez ou outra, a revista Piauí publica algumas de suas histórias curtas. Crumb vem ao Brasil este ano para participar da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Família excêntrica contra a indústria bélica

Jean-Pierre Jeunet cria montes de estratagemas e se esquece de desenvolver satisfatoriamente os personagens

O filme mais famoso de Jean-Pierre Jeunet é, sem chance de errar, o cultuado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. A adorável menina do título nos conquista com seu jeitinho meigo e esperto, o humor fino funciona bem e a trama, sempre em movimento e sempre com novos desdobramentos, flui com certa naturalidade.

Na sequência, Jeunet se apoia no sucesso de Amélie Poulain para contar uma história de época, novamente protagonizado pela Audrey Tautou: Eterno Amor. No enredo, a personagem de Tautou é novamente uma mulher esperta atrás de pistas que a levem ao paradeiro de seu noivo, que ela acha que não morreu na Primeira Guerra Mundial. Cheio de acontecimentos e ritmo rápido, como Amélie, filme está cheio de estratagemas com pelo menos duas linhas temporais para acompanharmos. Aspirando a épico (o que ele não chega a ser, ficando restrito ao campo do drama, e isso é bom), o filme nos sobrecarrega de informações, fingindo que a história é mais sofisticada do que realmente é. Mas, no final, entre mortos e feridos, o saldo é positivo.

Em seu novo filme, Jeunet arma-se de velhos maneirismos, de uma fotografia caprichada, de um humor francês fino e cerca-se de bons atores para… fazer um filme mediano. Micmacs (Micmacs a tire-larigot, 2009) tem suas marcas registradas: começa apresentando uma história trágica, mas contada com uma leveza capaz de nos tirar sorrisos, usando movimentos de câmera bem elaborados, pondo tudo em perspectiva e em várias cenas deixa que saibamos do que está acontecendo e a gravidade desses fatos apenas com as imagens, sem que seja necessário o diálogo. De quebra, o filme ainda faz uma divertida sátira com o mundo do comércio de armas internacional.

O protagonista Bazil, ainda criança, perdeu o pai quando este pisou numa mina terrestre construída por uma empresa bélica francesa. Acabou fugindo da tristeza de casa e da ditatorial escola católica. Trinta anos depois, enquanto vigiava uma loja durante a madrugada, é atingido bem no meio da testa por uma bala perdida, fabricada por outra empresa bélica francesa. Os médicos decidem no cara ou coroa a vida de Bazil, e resolvem não extrair o projétil de sua cabeça. Assim, ele viverá o resto dos seus dias podendo cair morto a qualquer momento.

Sem emprego e sem perspectiva na vida (a não ser a da câmera de Jeunet), Bazil vai viver na rua até ser encontrado por Placard, um homem que o leva a uma família excêntrica. Cada um de seus membros tem uma habilidade/disfunção: Calculette, a menina capaz de calcular qualquer coisa; Fracasso, que se gaba de ter entrado para o Guinness Book; Petit Pierre, inventor de máquinas a partir de peças encontradas no lixo; Caoutchouc, mulher elástica capaz dos mais improváveis contorcionismos; Remington, que finge ser outra pessoa muito bem; e Tambouille, matrona da estranha família.

Enquanto trabalha com essa família, Bazil encontra o prédios das duas empresas bélicas: uma responsável pela fabricação da bala que a qualquer momento matá-lo e outra fabricante da mina que matou seu pai. Mais engenhoso que a personagem de Amélie Poulin, Bazil cria ciladas e estratégias para se vingar das duas empresas e vai contar com as habilidades pessoais de cada um de seus “irmãos”, que não o questionam em momento algum.

Aí começam os problemas: algumas ciladas dão certo até demais. No terceiro ato do filme, quando Bazil é pego pelos dois grandes vilões do filme e levado para um interrogatório, seus companheiros parecem que sabiam exatamente para onde estavam indo e armam várias armadilhas pelo caminho. Mas, afinal, como é que sabiam exatamente aonde iriam? Na obsessão por criar diversos estratagemas e usar as habilidades de cada um na família, os personagens acabam sendo subaproveitados e muito pouco explorados no que diz respeito à psique de cada um. É por isso que o romance de Bazil e Caoutchouc parece tão insosso.

Com um início promissor e meio de campo enrolado, Jean-Pierre Jeunet volta a se encontrar no final. Apesar de tudo, a última façanha da trupe de desajustados contra os lordes da indústria bélica francesa faz uma crítica muito bem humorada ao comércio de armas no mundo, tentando demonstrar no discurso deles a hipocrisia e a falta de preocupação dos negociantes de arma com a humanidade. Só faltou o diretor se preocupar um pouco mais com o lado emocional dos humanos que escalou para contar essa história.

Road Salt One

A primeira parte do álbum duplo de Pain of Salvation mostra som anos 70 e as mesmas angústias humanas de álbuns passados

Em Road Salt One (2010) a banda amplia suas fronteiras musicais

Ao encarar uma crise econômica, a banda sueca Pain of Salvation viu seus planos de lançar um novo álbum serem adiados. Então ela aproveitou para lançar em 2009 o duplo Ending Themes – The Second Death Of, registro ao vivo em CD e DVD da banda durante a turnê de Scarsick, álbum de 2007. E no final do ano passado mostrou ao público um pouco do que já haviam gravado lançando o EP Linoleum com quatro novas faixas e um cover do Scorpions.

Este mês sai Road Salt One, primeira parte de um álbum duplo que dará continuidade a uma história iniciada em The Perfect Element, disco de 2000, e retomada em Scarsick. O vocalista e principal mente criativa por trás da banda, Daniel Gildenlöw, avisou pelo site oficial do grupo que o novo disco teria influências setentistas. Porém, ao escutarmos as suas 12 faixas, temos certeza de que a palavra influência pode ser um eufemismo. Road Salt One tem muito do som anos 70 e explora raízes de blues, jazz e rock daquela época que até então não tinham sido incorporados de forma tão evidente em trabalhos passados.

A ótima produção das músicas não as maquiou demais, conservando a sonoridade real de cada instrumento dentro do estúdio. Isso contribui para que cada faixa soe o mais orgânica possível, até mesmo cruas em alguns momentos. Embora seja um álbum que claramente prioriza o papel das guitarras de Daniel e Johan Hallgren, o trabalho com os pianos de Fredrik Hermansson está muito mais marcante do que estava em Scarsick e em álbuns mais antigos. Aliás, o piano é responsável por vários dos temas mais significativos da obra.

Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra) com novo visual e Johan Hallgren (guitarra) com seu habitual estilo

Dessa vez não há flertes com a disco music e nem com o rap/hip hop. O Pain of Salvation manteve-se mais ligado ao rock, como em “No Way”, “Curiosity”, “Darkness of Mine” e “Linoleum” (a única faixa do álbum que estava no EP de 2009). As canções alternam a reverberação do overdrive com breaks e passagens mais leves, abrindo espaço para algumas estilizações e criação de texturas com a guitarra e o teclado.

“She Likes to Hide”, “Of Dust” e “Tell Me You Don’t Know” dão a cara mais raiz e bluseira do disco. E a tristeza que transborda de “Road Salt” e “Where It Hurts” servem como anticlímax (e isso se refere a estética apresentada pelo Pain of Salvation, o que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, o anticlímax é muito bem executado dentro da proposta da banda). E como já é costume com esses suecos, temas densos são tratados de forma densa, mas com ironia também.

“Sleeping Under The Stars” e “Innocence” são os momentos mais experimentais dessa viagem. A primeira é uma valsa um tanto excêntrica e inesperada no álbum. A segunda é um rock atmosférico cheio de altos e baixos, coros, suspiros, distorção, ritmos arrastados e agressividade. “Sisters”, uma das mais belas de Road Salt One, tem a melhor letra do álbum. O ouvinte passeia com ela por vales tristes até chegar a um acesso de raiva (ou seria angústia?).

O novo baterista Leo Margarit com Fredrik Hermansson, Hallgren e Gildenlöw

Depois de trocar de baixista duas vezes desde 2006, quem assume o posto  é Per Schelander, como contratado por enquanto. Com a saída de Johan Langell para se dedicar mais à família, Leo Margarit foi escalado para a bateria e até já aparece ao lado de Gildenlöw, Hallgren e Hermansson em fotos de divulgação. Margarit mostra neste disco que tem pegada para diversos estilos musicais e sabe soltar a mão nas horas certas.

No final, é um álbum diferente dos demais na discografia dos suecos. Triste e nebuloso, como há de ser a história de She e He, os personagens principais dessa conturbada estrada que não parece levá-los a lugares bonitos. Amor corroído, sexo doído e encontros cheios de lágrimas são novamente abordados nas letras. É Daniel Gildenlöw cantando mais uma vez sobre o comportamento e as emoções humanas.

Road Salt One nos faz esperar com mais ansiedade pela sua segunda parte. Os anos 70 continuarão a soar? E quanto às letras? Essa história terá chegado ao fim? As respostas devem aparecer em outubro deste ano.

Clipe oficial de “Linoleum” (de longe, o melhor da banda até agora)