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Já estamos na ilha

O público da série, reflexo da sociedade pós-moderna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas

Por Francisco Trento (twitter: @_xico)

"Modernidade Líquida" (Imagem disponibilizada sob licença Creative Commons em http://www.flickr.com/photos/centralasian)

Na maioria das vezes a crítica associa o sucesso de Lost às técnicas narrativas inovadoras, à torrente de mistérios, surgidos com maior velocidade do que suas soluções, ou às inúmeras referências intertextuais presentes no pro­grama. Sim, todos esses fatores transformam-no em um produto de qualidade invejável. Mas talvez seu grande trunfo esteja na forma como os personagens são construídos: redondos e de personalidade indefinível; diferente da dualidade tradicional dos seriados de televisão, ou dos comuns núcleos família/hospital/departamento de polícia norte-americanos, que descrevem um mundo dualista e plano que não existe mais.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. Pro­va disso é o próprio cartaz de divulgação de Lost, que conta com imagens de mais de 20 per­sonagens. Por mais absurda que possa parecer a frase que vem a seguir, nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté­rios.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. […] Nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté rios

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro Amor Líquido, nossa era vive uma série crise de iden­tidade e de quebra constante de conceitos consolidados por séculos. Vivemos a “Modernidade Líquida”. Isso se reflete no modo como desenvolvemos nossas relações pessoais e afetivas. “O palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações.”, afirma o estudioso, em uma de suas obras mais conhecidas.

A figura que tão bem representa essa sociedade líquida é um território fictício fora de nosso espaço-tempo, tamanha a complexidade da dinâmica de nossas relações no século XXI. Os habitantes (ou passageiros) desse mundo-ilha são as figuras do nosso planeta – um confronto de estereótipos, de incertezas, de identidades que mudam a todo momento. Ninguém é bom ou ruim: o caráter e os laços afetivos formados no paraíso insular são leves e fracos: se desfazem com a mesma facilidade com que são criados e conforme os interesses deixam de existir. Os valores, antes fixos e imutáveis, agora deixam apenas vestígios do que já foram. O casal coreano, antes preso às rígidas tradições asiáticas, se acos­tuma com a proximidade de “estrangeiros”. Jack Shepard, o médico cético, tem um salto de fé, enquanto John Locke, o “homem da fé”, desacredita em todas as suas convicções e tenta o suicídio. Sayid, o torturador iraquiano, se apaixona por uma bon viván, tudo aquilo que estava costumado a combater. Benjamin Linus é o mais difícil de de­cifrar: sua personalidade na mesma frequência das reviravoltas de seus interesses.

O público da série, reflexo da sociedade pós-mo­derna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas, e se identifica com os personagens e suas decisões, geralmente equivocadas.

Todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva

Desmond é o personagem que busca o retorno da solidez perdida no último século, evaporada ao mesmo tempo em que os modelos da modernidade ruíam. É aquele que, apesar de ter no inconsciente a noção de que entrou em um ciclo de incertezas e absurdos, ainda insiste em buscar ter de volta um porto seguro: seu amor sólido, combatido a todo instante pelas casualidades. Não é surpresa que, apesar de não estar presente em sequer metade dos episódios do seriado, seja o preferido da maioria dos fãs: todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva: seja nas relações afetivas, na segurança, nas epidemias, no emprego, nos confron­tos culturais, ou em nossa própria identidade. Não sabemos se estamos no fim de nossa jornada, ou se haverá solução para esse vai-e-vem constante de novidades e medos, que de tão complexos beiram a abstração total.

Contato do autor: francisco.trento@gmail.com

Walter Salles em On The Road

Walter Salles vai dirigir elenco com Sam Riley, Kristen Stewart e Kirsten Dunst

Capa do livro editado pela Companhia das Letras

Agora está confirmado: a adaptação cinematográfica do clássico da beat generation On The Road vai sair do papel e as filmagens começam em agosto. Escrito por Jack Kerouac, o livro narra as viagens e desventuras de Sal Paradise e Dean Moriarty pelas estradas, bares e jazz dos Estados Unidos da década de 1950. Ao lado de Allen Ginsberg e outros escritores do movimento beat, Kerouac tornou-se um dos mais reverenciados escritores norte-americanos, capturando com vivacidade o espírito da juventude da época, no meio da ebulição da contracultura.

On The Road (o filme) estava nos planos da produtora Zoetrope, de Francis Ford Coppola, fazia 30 anos. Quando se falava publicamente do assunto, havia mais rumores do que decisões. Entretanto, as últimas semanas não só confirmaram a realização do projeto como já escolheu o diretor, o brasileiro Walter Salles, e o elenco principal: Sam Riley (Control), Garrett Hedlund (Tron – Legacy), Kristen Stewart (a Bela da saga Crepúsculo) e Kirsten Dunst (a Mary Jane de Homem-Aranha).

Wlater Salles rodou os EUA em busca dos lugares e pessoas citadas no livro. O registros dessa viagem é o documentário Em Busca de On The Road

Antes de assumir a direção do longa, Walter Salles rodou os Estados Unidos procurando os lugares e as pessoas (ou o que sobrou de vestígio delas) citadas no livro. Essa viagem foi registrada no documentário Em Busca de On The Road, ainda inédito e sem data de estreia. A contratação do cineasta é empolgante justamente porque ele conhece a obra de Kerouac e fez uma extensa pesquisa sobre o tema para seu documentário. Além disso, Salles já dirigiu um road movie (Diários de Motocicleta) e tem um modo de filmar muito próprio. Se ele tiver nos EUA tanta liberdade quanto tem em seus próprios projetos, podemos esperar cenas poéticas como aquelas presentes em Abril Despedaçado e Linha de Passe.

Em uma entrevista publicada hoje no O Globo, o diretor conta que o roteiro final do filme foi escrito a partir da edição original do livro, muito mais “livre, ousada e radical do que a versão que foi editada em 1957 e que sofreu os efeitos da era McCarthy”.

“Estamos falando de personagens que tiveram a coragem de se reinventar contra a sua época, contra tudo e contra todos. Em muitos casos, os anos que estamos vivemos são tão conservadores quanto os anos 50. É nisso que essa história é interessante: ela permite entende que mesmo quando tudo conspira contra, é possível inventar novas formas de se relacionar com o mundo”, disse o diretor na entrevista.

A atriz Kristen Stewart, ainda jovem no mercado cinematográfico, ficou conhecida ao interpretar a protagonista da série blockbuster Crepúsculo. Trabalhar com Walter Salles num road movie e em um projeto com peso simbólico tão grande quanto On The Road é uma ótima oportunidade para ela mostrar que tem talento e que é muito mais do que uma menina que sofre dividida entre um vampiro e um lobisomem.

Kristen Stewart ganhou uma oportunidade de mostrar mais e melhor os seus talentos como atriz

Retratos caricatos de Jason Seiler

Chris Martin, Darwin, Al Gore, Jay-Z, Putin e, claro, Mr. Bush na arte de retratar

Charles Darwin

Figuras políticas, da música, do cinema e do showbiz estão entre as pessoas retratadas por Jason Seiler, caricaturista e desenhista que colabora para o The New York Times, Time Magazine, The Weekly Standard, MAD Magazine entre outras publicações.

Seiler não deforma seus personagens até ficarem irreconhecíveis. Exagera nas bochechas, na testa, nos olhos, na boca ou simplesmente estiliza uma imagem para que ela se transforme numa caricatura. Do contrário, seriam apenas retratos. Ele usa o Photoshop e renderizadores de imagem para dar uma aparência tridimensional aos trabalhos.

No seu blog, Seiler posta fotos de trabalhos ainda inacabados e discute um pouco de como é fazer cada imagem. Em seu site, é possível ver amostras de trabalhos já publicados e conhecer um pouco melhor o artista.

Ben Stiller
Adrien Brody
Clint Eastwood
George Lucas
Chris Martin
Johnny Cash
Thom Yorke
Jay-Z
Meg & Jack White, dos White Stripes
Kieth Richards
Al Gore
Vladimir Putin
Precisa dizer?

A hora e a vez da liberdade feminina

Inês Levorato, 68


Quatro senhoras revelam histórias, desejos e realidades de como foi ser mulher no século 20 e surpreendem ao dizer: “Liberdade nós só temos agora”

Mirem-se no exemplo / Daquelas mulheres de Atenas / Vivem pros seus maridos / Orgulho e raça de Atenas. Esses versos da canção “Mulheres de Atenas” de Chico Buarque são o início de um poema que busca na cultura grega clássica uma postura feminina que pouco tem a ver com a mulher do século 21. Se a “mulher de Atenas” se sujeitava a tudo por seu marido, como consta na letra de Chico, e a sociedade assim também impunha que fosse sua conduta, a mulher de hoje é exatamente o contrário: quer trabalhar fora, quer usufruir da juventude, aproveita a liberdade que tem, não é submissa ao companheiro, e até quer um amor sim, mas se o homem não a faz feliz, ela não espera milagres acontecerem e trata de dar um jeito na situação. Porém, ainda é possível encontrar mulheres que durante a mocidade não tiveram liberdade suficiente – se é que alguma vez chegaram a ter um mínimo de liberdade – para se expressarem da forma como gostariam.

Para comentar e dar uma noção mais exata do que é e do que foi ser mulher nos últimos 70 anos, quatro mulheres experientes foram convocadas e entrevistadas ao mesmo tempo. Inês Levorato, 68 anos, é a única do grupo que não se casou virgem. Mercedes Puertas Frolini, 60 anos, é a única do time que nasceu e sempre morou na cidade, e não na zona rural. Geralda Naves, 69, é a única entre as quatro que não descende de espanhóis, mas de mineiros. E, por fim, Iolanda Garcia Baroni, 77, é a única que só pôde beijar o marido na boca no dia de seu casamento.

Elas revelaram uma experiência comum: a falta de liberdade quando jovens e a não realização do sonho de se “libertar” depois do casamento. Elas são unânimes ao afirmar que só atualmente, na chamada melhor idade, conseguiram se livrar de tudo que as atava a moralismos e frustrações. “Liberdade mesmo nós só temos agora”, afirmam.

Como foi a primeira vez que vocês tiveram consciência de que eram mulheres – e de todas as responsabilidades que isso traz?

Inês – Fui perceber que eu era mulher mesmo quando comecei a tomar conta da casa, cuidar dos filhos, do marido, lavar roupa e de todo o resto.

Mercedes – Sempre me senti uma mulher, mas me senti mais mulher ainda depois de me casar e de ter as minhas filhas. Aí tive a consciência de estar fazendo o papel de uma mãe, de uma mulher mesmo.

Geralda – Ah, já está gravando, é? Bom, fui me sentir mulher quando tinha 23 anos e nasceu minha primeira filha. Foi o dia mais feliz da minha vida.

Iolanda – Sou a responsável pela minha casa desde os 15 anos. Minha mãe tinha que trabalhar e meu pai adoeceu, então eu mesmo cuidava dos irmãos mais novos. Depois que me casei, dobrou o trabalho. Aos 27 eu tinha três filhos.

Vocês já foram criadas para serem donas-de-casa?

Iolanda – Desde pequena eu ajudava a minha mãe com o trabalho doméstico, estava acostumada a isso desde os sete anos. Não trabalhava fora logo depois que me casei, mas a situação foi apertando e precisei trabalhar fora.

Geralda – Eu já tive que cuidar de todos os meus irmãos aos 14 anos. Minha mãe teve 16 filhos. Os cinco filhos mais velhos morreram em Minas Gerais. Eu fui a mais velha da geração seguinte, por assim dizer.

Mercedes – A vida começou a ficar dura e cheia de responsabilidades depois do casamento. Antes eu era paparicada, era filha caçula, não tinha muitas obrigações em casa. Mas não foi difícil me acostumar com a vida que veio depois, segui o exemplo da minha mãe.

Inês – Também segui o exemplo da minha mãe, que não deixava as filhas sem aprenderem a cuidar da casa e da família. Não era como agora que os filhos não querem nem saber. Na nossa época, tinha que fazer mesmo, senão os pais até nos batiam. Fiquei grávida aos 17 anos, precisei me casar, e aí me senti mulher mesmo, tendo que cuidar do marido, da casa e dos filhos. Aos 24, eu já tinha quatro filhos.

“Antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal” – Inês Levorato

São poucas as moças atualmente que querem se casar cedo. Era costume na juventude de vocês que as moças se casassem logo?

Geralda – Ah, era! Assim não tínhamos que trabalhar! (risos gerais)

Inês – Não é nem por causa do trabalho que se casava cedo, era para nos libertar. Nossos pais não nos deixava ir a festas e bailes, então a gente achava que casando se livrava das amarras dos pais. Hoje as moças não querem se casar novas porque elas têm liberdade!

Geralda – Casar para quê agora, não?

Os pais seguravam muito as filhas?

Inês – Seguravam demais! Minha mãe era uma espanhola daquelas que batia mesmo nos filhos se não fizessem direito o que mandavam. Não queria nem saber se era moça. Era a educação dela.

Vocês conseguiam ou podiam sair de casa?

Inês – A gente queria sair, mas não deixavam. E se desobedecêssemos, apanhávamos.

Geralda – Eu pulava a janela! (risos) Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova. A gente ficava um pouco nos bailes e depois voltávamos.

Seus pais descobriram essa estripulia alguma vez?

Geralda – Descobriram sim, e apanhamos muito! (risos) E como apanhamos… E continuamos indo aos bailes escondidas, não teve jeito.

Depois que se casou, a senhora teve liberdade?

Geralda – Não tive. Casei com 18 anos e não tive liberdade.

Desobedecer os pais não trazia problemas para vocês?

Mercedes – Se deixavam eu ir, eu ia, se não deixavam, eu concordava, não desobedecia. Eram pais espanhóis muito bravos também. Teve um Carnaval que queria ir, mas eles não quiseram deixar. Acabei indo acompanhada de um irmão mais velho. Todo mundo brincando e eu sem poder fazer nada, quieta num canto, só olhando. Arrependo-me até hoje de não ter brincado naquele Carnaval.

Quando foi que a senhora pôde, enfim, curtir essas festas?

Mercedes – Sabe quando foi? Depois que fiquei viúva. Aí pude aproveitar e fazer tudo o que tinha vontade: ir a bailes, carnavais, passear, etc.

Está mais livre, então?

Mercedes – Como um passarinho! (risos)

“Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!” – Mercedes Frolini

Mercedes Puertas Frolini, 60

E como foi com a senhora, dona Iolanda?

Iolanda – Meus pais davam serviços pra gente. Se conseguíssemos terminar, estávamos liberados para passear. Mas muitas vezes quis ir a bailes e eles não deixaram. E se eu pulasse a janela, a cinta comia! (risos) Tenho mais liberdade agora do que quando era mais jovem.

Nem no começo do casamento a senhora podia sair?

Iolanda – Quando era solteira não saía porque meus pais não deixavam. Aí me casei e a situação piorou. É de uns 12, 15 anos para cá que saio mais, entendeu?

Vocês chegaram a trabalhar fora?

Mercedes – Eu sempre trabalhei em farmácia, por uns 30 anos, e fui enfermeira também. Só comecei a trabalhar depois que me casei. Gostava e precisava do emprego.

Geralda – Trabalhei porque precisava mesmo. Fiz de tudo, trabalhei na roça, fui doméstica, lavei, passei… acho que só não catei laranja. (risos)

Iolanda – Eu lavava e passava roupa pra fora, fiz isso para uma mesma família por 42 anos e ainda aparecem roupas para eu cuidar de vez em quando.

Inês – Sempre trabalhei na roça, principalmente carpindo e cortando cana. Só parei quando fiz uma cirurgia e, desde então, não pude mais carregar peso maior que 5 kg. Senão fosse isso, estaria até hoje na roça.

As mulheres hoje em dia não pensam mais em ser apenas donas-de-casa e mães. Elas estudam e almejam uma carreira, além de também serem mães e de cuidar da casa. Se fossem moças hoje, pensariam da mesma forma?

Inês – Pensaria, sim. Talvez não gostasse muito de ficar por aí nas baladas noite

adentro, mas pensaria menos como antigamente se pensava. Hoje as coisas estão bem mais fáceis para as moças, elas sabem o que querem, se divertem e até estudam.

Mercedes – Eu faria o que elas fazem hoje. Sair pra me divertir, trabalhar…

Geralda – Aproveitaria tudo o que não tive – e sem precisar sair escondida pela janela! Estudaria, me casaria mais velha, paqueraria mais.

As moças paqueram abertamente hoje. Era complicado fazer isso na época de vocês?

Iolanda – Como meu pai era muito bravo, tínhamos medo até de parar para conversar com um moço. A gente ficava sabendo do fulano que gostava da gente, mas não tinha muita paquera.

Geralda – Nunca namorei. Quando aconteceu, foi rapidinho para casar logo. Quando gostávamos de algum moço, não podíamos namorá-lo.

Mercedes – Consegui namorar bastante, seja escondida ou no cinema, no tempo em que havia um cinema na rua Primeiro de Março. Dizia a meu pai que ia ao cinema e, chegando lá, meu namoradinho estava me esperando. Meu tempo de solteira foi muito bom.

Inês – Namorei só dois rapazes e um deles foi o meu marido. Era mais fácil arrumar um bom namorado na nossa época de moça do que hoje. Acontece que, antigamente, se você desse um beijo num rapaz virava a moça mais falada da cidade. Hoje em dia você beija, vai para o motel, pinta e borda e todo mundo vê isso como algo normal. Os rapazes eram bons, mas não podíamos fazer nada, tudo era errado. Assim, eu acabei ficando grávida, porque fui além do beijo. Hoje está complicado para as moças. Elas vão aos bailes e logo vem aqueles caras bêbados por cima delas, já querem beijar, já vão avançando o sinal…

“Como meus pais não me deixavam sair, eu esperava eles dormirem e pulava a janela de casa. E levava junto a minha irmã mais nova” – Geralda Naves

Geralda Naves, 69

E era fácil encontrar um companheiro definitivo para se casar?

Mercedes – Ah, foi difícil achar. E depois de me casar vi que não era o que eu queria, mas o estrago já estava feito. Agora, que estou no segundo casamento, minha vida está um paraíso. Meu único erro do passado foi ter realizado meu primeiro casamento.

Vocês conseguiram estudar?

Mercedes – Deu para estudar tudo o que precisava até o ensino médio. Meus pais até me empurravam para a escola, eu é que não queria muito ir. (risos)

Iolanda – Eu estudei só até o primeiro ano. Depois fiquei doente e precisei parar os estudos. Quando pude voltar à escola, já estava mocinha. Aí nem fui mais.

Geralda – Até tentei estudar, mas eu entrava na escola e nascia um bebê em casa. Aí precisava parar para ajudar a criá-lo. Quando voltava pra escola, nascia outro. E assim foi indo, até que não deu mais para estudar. Como era a mais velha, tinha que tomar conta dos meus irmãos. Morria de inveja de quem ia pra escola na fazenda. Só fui poder estudar recentemente, quando apareceu a Escola para Jovens e Adultos.

E quanto ao romantismo da época? Existia isso?

Inês – Que mulher não gosta de um galanteio? Mas tem homens da época que não faziam isso, achavam até errado. Não tive isso em meu casamento.

Mercedes – Toda mulher sonha com esse romantismo. Neste meu segundo casamento tenho tudo isso. Se hoje eu perceber que o casamento não vai bem, eu me separo.

Geralda – Eu queria casar e ser feliz, mas não fui feliz no casamento. Tive uma decepção como mulher nesse ponto. Mas não podia me separar, senão a gente caía na boca do povo. Hoje não me caso mais, quero continuar solteira. Paquerar eu paquero, mas não me caso. Tenho um paquera, mas pra passear. Cada um mora em sua casa.

Sexo era um tabu. Quando é que vocês começaram a ouvir sobre isso?

Inês – Não se falava sobre isso, não se falava! Imagina se as mães tocavam no assunto? Nem quando ficamos mocinhas. A gente conversava com nossas colegas, porque as mães tinham vergonha de falar. Minha mãe ficou quase louca quando soube que eu estava grávida! Ela achou a coisa mais absurda do mundo. Mesmo com uma amiga a gente tinha vergonha de falar às vezes. Fui conhecendo o sexo conforme ia me relacionando com meu marido.

A senhora engravidou de sua primeira vez?

Inês – Não, não foi minha primeira vez. A gente dava as nossas disfarçadinhas… (risos)

“A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade” – Iolanda Baroni

Iolanda Garcia Baroni, 77

Quando chegava a hora do sexo, vocês tinham informação do que aconteceria, de como era?

Inês – Eu não sabia nada, fui ver como era na hora. A gente não sabia mesmo! Hoje em dia a coisa está melhor, porque se fala sobre isso. Eu falo sobre sexo normalmente com meus filhos.

Mercedes – Minha mãe me orientava muito. Ela não falava tão abertamente sobre o assunto, mas eu entendia o que ela queria dizer. Eu me casei virgem, sem saber de nada. Demorou até poder me expressar sobre isso. Tínhamos vergonha também. Falavam de um jeito sobre o assunto que até dava medo de chegar perto dos rapazes.

Inês – Hoje, meninas de 10 anos já sabem o que é sexo.

Mercedes – Demorou para eu me acostumar com a ideia, mas depois ficou tranquilo.

Geralda – Ninguém falava sobre isso. Só fui saber o que era na hora H mesmo. Nem me lembro mais (risos). E coisas de que a gente não gosta precisamos deletar da memória. Não gostei da minha primeira vez.

Iolanda – Só fui conhecer sexo depois que me casei e olha lá. Ninguém me falou sobre o que aconteceria, foi na surpresa mesmo. (risos) Quer que eu resuma? A gente era mais ignorante do que as moças hoje! Nada podia ser dito, ninguém ensinava nada, tínhamos menos liberdade. Sabe quando fui dar um beijo no meu marido? Só no dia do meu casamento!

Se vocês fossem mais jovens hoje e tivessem toda a liberdade e volume de informações disponíveis hoje, acham que aproveitariam mais a mocidade?

Inês – E como aproveitaríamos!

Iolanda – Ah, se eu tivesse 18 anos hoje, paqueraria bastante, viu?

Mercedes – Se tivesse 18 anos com a experiência de hoje, valeria a pena!

Acham que a liberdade que se tem hoje é grande até demais?

Mercedes – É um pouco de liberdade demais que se tem hoje, sim, mas você só passa dos limites se quiser.

Inês – Hoje em dia, é normal se falar de muita coisa que antes nem tocávamos no assunto. Eu não ignoro o mundo de hoje e falo com meus filhos e netos sobre tudo. Encaro tudo numa boa!

Iolanda – Vai ver, a gente é chata e quadrada perto da juventude de hoje…

Inês – Eu fui muito quadrada, mas hoje em dia estou pensando na frente, estou liberada. Só não faço o que não considero certo, mas cada um sabe de sua vida. Acho tudo normal.

Vocês disseram, no início da conversa, que casavam para tentar se libertar da mão pesada dos pais. No entanto, percebi que nenhuma de vocês depois do casamento conseguiu a liberdade que queria. Como fica a mulher nessa situação?

Geralda – Foi bem ruim nesse aspecto da liberdade. Meu marido não saía e não deixava eu sair. Só depois de viúva pude fazer o que queria, me sentir mulher de novo…

Iolanda – Quando meu marido me convidava pra passear ele me deixava na casa da mãe dele e ia para o bar…

Inês – Ah, mas era assim mesmo. A gente achava que melhoraria casando, mas às vezes piorava. Depois vieram os filhos e a coisa mudou um pouco.

Dá para se sentir mais mulher hoje?

Inês – Sinto-me muito mais mulher nesta minha atual fase da vida, com certeza.

Mercedes – Sou hoje uma mulher realizada e feliz, faço tudo que sempre quis.

Iolanda – E eu tenho apoio dos meus filhos. Eles gostam que eu seja assim e até me incentivam.

Mercedes – Acho que ser mulher é uma coisa abençoada, principalmente quanto a parte de ser mãe. Isso valeu a pena!

*Essa matéria foi originalmente publicada no jornal Expresso Tietêde 06/03/2010.

Segundo Geralda, uma de suas únicas fotos de arquivo

Mercedes aos 18 anos

Inês em sua identidade
Iolanda aos 23 anos com três de seus filhos


O Ronaldo e o Corinthians

Texto de Lucas Scaliza e design de Juliano Ruiz

Em abril deste ano o Brasil vibrava com os jogos do Corinthians. Os torcedores adoraram as novidades do time e os seus desafetos pagaram – e pagariam ainda mais uma vez – para ver do que os Gaviões da Fiel seriam capazes.

Entre as novidades estava a contratação de Ronaldo Luís Nazário de Lima, outrora conhecido como Ronaldinho, depois como Fenômeno, hoje ele é apenas Ronaldo. De dezembro até agora ele estampou a capa de diversas edições de jornais brasileiros, foi notícia no mundo todo e até a Rolling Stone Brasil dedicou a capa de julho a ele (embora eu tenha comprado a versão com capa tributo a Michael Jackson).

Pois foi em abril que produzi um infográfico sobre o craque em parceria com o designer Juliano Ruiz, da Agência Hexa. Escolhi a abordagem, separei dados e pensei em como dispor tudo isso em imagens. O Juliano – competentíssimo profissional – pesquisou imagens, usou todo o seu conhecimento e me devolveu algo muito melhor do que tinha imaginado. O resultado vocês conferem abaixo.

Clique para ver maior
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PS 1: Esse infográfico está aqui como ilustração e divulgação e é protegido por leis de direito autoral. A cópia sem autorização constitui crime.

PS 2: Não deixem de se logar no Orkut e conferir uma pitada do portfólio de Juliano Ruiz.

Manhattanhenge

Texto de Lucas Scaliza

Manhattanhenge visto da Rua 42, na Big Apple. Foto de Harvey Silikovitz
Manhattanhenge visto da Rua 42, na Big Apple. Foto de Harvey Silikovitz

Essa semana o entardecer de Manhattan foi mais bonito. O sol poente ficou perfeitamente alinhado com um dos principais cruzamentos da mais famosa ilha de Nova York. O efeito tornou-se ainda mais marcante quando o sol se pôs justamente entre os altos prédios de Manhattan.

Esse fenômeno é conhecido como Solstício de Manhattan, ou simplesmente Manhattanhenge. O termo deriva do Stonehenge, o monumento pré-histórico que foi construído de forma que suas estátuas se alinhassem ao sol dos solstícios ingleses. Os Manhattanhenge se dão principalmente entre os dias 12 e 13 de julho, durante o solstício de verão nos Estados Unidos, e voltam a acontecer entre 5 de dezembro e 8 de janeiro, época do solstício de inverno.

“Hoje foi um desses dias”, disse o fotógrafo Harvey Silikovitz no domingo, 12, após apresentar ao mundo suas fotos do fenômeno. “Eu estava sobre a passarela Tudor City, vendo o lado oeste da cidade ao longo da Rua 42 e de frente para o Chrysler Building. Sou um sortudo por ter conseguido capturar aquele momento. Não estava com minha câmera ‘boa’ porque tinha me esquecido completamente que o Manhattanhenge ia acontecer, mas felizmente eu sempre estou minha câmera básica”.

Além de Silikovitz, muitos outros fotógrafos estavam nas Rua 42 ao entardecer esperando o melhor momento para registrarem a cena. As fotos estão na internet e podem ser observadas em vários sites, de amadores a profissionais.

Abaixo segue alguns exemplos de boas imagens do Manhattanhenge feita pelos fotógrafos Sahadeva Hammari, Bernhard Suter, Stuart Johnson, Ludmila Marques, Nanynany, Amazin’ Jane e Diego Merino.

Foto de Sahadeva Hammari
Foto de Sahadeva Hammari
Foto de Stuart Johnson
Foto de Stuart Johnson
Foto de Diego Merino
Foto de Diego Merino
Foto de Amazin' Jane
Foto de Amazin' Jane
Foto de Ludmila Marques
Foto de Ludmila Marques
Foto de Bernhard Suter
Foto de Bernhard Suter
Foto de Nanynany
Foto de Nanynany