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Novas séries que podem dar o que falar

O thriller policial The Killing, que estreou domingo aposta mais no drama que na ação

Começaram a ser exibidas nos Estados Unidos três novas séries para a televisão que podem dar o que falar. Camelot, The Borgias (ambas com ambientação medieval, mas seguindo rumos um pouco diferentes) e The Killing (um thriller policial que não segue a cartilha do gênero) tiveram seus dois primeiros episódios exibidos no último final de semana. A seguir, discorro sobre cada uma.

 

The Borgias – Sangue e sexo no Vaticano

Jeremy Irons interpreta o corrupto Rodrigo Borgia, o papa Alexandre VI

Criada por Neil Jordan (diretor de Entrevista com o Vampiro e Fim de Caso), a série The Borgias narra a história verídica da corrupta e inescrupulosa família Borgia. Rodrigo Borgia (Jeremy Irons), o patriarca, é um cardeal que somente espera a morte do papa Inocêncio VIII, mostrada assim que o primeiro episódio começa, para fazer tudo o que pode para ser eleito o novo chefe da igreja católica em 1492. Contando com a ajuda de seu filho, o bispo Cesare Borgia (François Arnaud), suborna, corrompe e faz conchavos políticos com outros cardeais, obtendo na marra a maioria dos votos, tornando-se o papa Alexandre VI.

Como se baseia em fatos reais, dá para notar o cuidado da produção com cada detalhe da trama: a recriação de Roma e dos palácios do Vaticano, a fidelidade aos figurinos eclesiásticos, as referências precisas a cardeais, reis e mulheres que realmente existiram e até a pesquisa sobre direito canônico.

Neil Jordan – que produz a série e dirigiu e escreveu os dois primeiros capítulos da série – deixou claro que poupar a igreja ou o público nessa empreitada não está nos seus planos. Ele mostra os Borgias e de mais cardeais conspirando uns contra os outros e traz as relações políticas para o centro da trama. Afinal, tanto hoje quanto na Renascença, utilizar (arbitrariamente) a legalidade para garantir interesses e afastar opositores é uma medida amplamente usada no jogo político, entre políticos.

Aos poucos a série vai construindo a personalidade de seus personagens. Sabemos de antemão que Rodrigo Borgia é um vilão na história do catolicismo, mas o olhar que a série nos obriga a ter sobre os fatos daquela época revela que ninguém era santo e tomar algum partido seria maniqueísmo do próprio telespectador.

Nenhum assassinato é cometido gratuitamente, todos estão ancorados em uma função narrativa. Mesmo assim, espalham bastante sangue sobre lençóis brancos, mesas de jantar, prisões e salões do Vaticano. Sexo também está presente e deverá intensificar sua recorrência para mostrar uma das principais formas de corrupção da família Borgia. Não só Rodrigo e Cesare cometem o pecado aos olhos da igreja, mas também a jovem Lucrécia Borgia e vários outros personagens.

Apostando na força de seu roteiro e na qualidade de seus atores, The Borgias mostra dramaturgia de qualidade. Uma das melhores estréias da temporada.

 

Camelot – Uma versão para rei Arthur

Arhtur e Merlin na série que dá nova versão aos fatos da lenda britânica

Camelot, como seu nome denuncia, é a história do lendário Arthur Pendragon, rei bretão que, segundo a lenda, terá o poder de unir a Grã-Bretanha e defendê-la dos saxões invasores. Ao seu redor gravitam personagens famosos, como o mago Merlin, sua meio-irmã bruxa Morgana e os cavaleiros da Távola Redonda. No entanto, para quem já leu os escritos da saga arthuriana ou a tetralogia As Brumas de Avalon (a história de Arthur contada do ponto de vista das mulheres), essa série tem um começo um pouco estranho. Mas como não existe uma versão definitiva sobre essa história nem entre historiadores e nem entre os ficcionistas, parece que qualquer liberdade criativa vale, desde que alguns elementos sejam mantidos.

No início de Camelot, Morgana assassina seu pai, o rei Uther Pendragon, e se alia ao rei Lot. Entretanto, Merlin (Joseph Fiennes) vai em busca do filho perdido de Uther, Arthur (Jamie Campbell Bower), que precisa aprender a ser rei e aceitar seu destino. Mas é claro que tal pretensão vai incomodar poderosos e vingativos senhores feudais da ilha britânica.

A julgar pelos dois episódios exibidos até agora, não dá para saber exatamente quais são as intenções de Morgana (Eva Green) e nem se o amadurecimento do Arthur será forçado, para caber dentro do cronograma de filmagens, ou natural, dando tempo para que ele se acostume com a ideia de ser rei (coisa que o garoto nunca achou que seria até Merlin bater a sua porta).

As poucas batalhas já exibidas foram anêmicas. Nunca uma luta de espadas do século VI mostrou tão pouco vigor. Os atores, com algumas exceções, também não mostraram uma interpretação convincente. Em comparação com The Borgias, Camelot também perde em fotografia, com menos acuidade na hora de elaborar sua criação visual.

A série pega alguns atalhos. Por exemplo: Arthur é coroado rei no castelo de Camelot. Pelo menos em As Brumas de Avalon, a sede do governo arthuriano só passa a ser Camelot na segunda metade de sua história. É nesse ambiente, aliás, que a Távola Redonda é formada. E levaria muito mais tempo até que Morgana virasse, de fato, uma opositora de Arthur do que a série nos faz crer. Só mesmo acompanhando o resto dos episódios saberemos se Camelot vai justificar os atalhos que pegou e nos entregar uma história convincente.

 

The Killing – Drama policial não forense

O ponto de partido da série é o assassinato de uma adolescente

The Killing começa com uma mulher e uma garota correndo por um bosque. A primeira, Sarah Linden (Mireille Enos), acha que este será seu último dia como detetive da divisão de homicídios da úmida Seattle e não vê a hora de partir para a aconchegante Califórnia de noite. A outra é Rosie Larsen (Katie Findlay), menina de 17 anos que se arrasta aos gritos pela noite entre as árvores tentando fugir de alguém.

Não é difícil imaginar o que acontece a seguir: Rosie é dada como desaparecida e, algumas horas depois, é encontrada morta no porta-malas de um carro. A detetive Linden, diante do caso, se vê obrigada a abrir mão do sol de San Diego para cuidar do caso. Paralelamente ao misterioso assassinato, Seattle está prestes a eleger seu novo prefeito. Imagino que intrincadas armações políticas serão somadas ao enredo investigativo da série.

The Killing, remake de um seriado dinamarquês, é um thriller policial, mas segue seu próprio caminho narrativo e estético. Diferente de CSI, Bones ou Criminal Minds, medalhões do gênero, a nova série não está interessada em mostrar closes de corpos dilacerados, casos surreais e escabrosos, nem tão pouco as maravilhas das técnicas forenses. The Killing concentra-se no drama, em como a morte de uma simples garota (quantas outras não devem morrer assassinadas por dia em Seattle?) afeta uma família, uma eleição e até mesmo o destino profissional de uma detetive.

De certo modo, lembra um pouco a premissa de Twin Peaks, clássica série dos anos 90 que revelou o diretor David Lynch. No entanto, as tramas e subtramas de The Killing não devem sofrer nenhuma interferência sobrenatural. Como é típico do gênero, a série tem uma forma de filmar pessoas e ambientes e de registrar seus dramas ressaltando o que há de mais humano e material na cena, evocando uma realidade dura e crua.

 

O Discurso do Rei

A força do filme está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens

Colin Firth vive o gago príncipe Albert na produção inglesa

A produção inglesa O Discurso do Rei (The King’s Speech, 2010) vai concorrer ao Oscar em 12 categorias, mas já ganhou vários prêmios: melhor direção no BAFTA, melhor ator no Globo de Ouro para Colin Firth e melhor filme no PGA, a premiação dos produtores de cinema de Hollywood, só para citar alguns. O filme tem grandes chances de levar ainda mais prêmios no Oscar, pois entre os indicados para a categoria de Melhor Filme, O Discurso do Rei é seguramente o mais maduro. Agora, se vai ganhar, é outra história.

O enredo começa em 1925, quando o príncipe Albert Frederick Arthur George (Colin Firth) não consegue fazer um discurso por causa de sua gagueira. Sua alteza tenta diversos métodos – alguns nada ortodoxos – para se desvencilhar de sua fala vacilante, afinal seu pai, o rei George V (interpretado por Michael Gambon, o Dumbledore de Harry Potter), é um ótimo orador. Albert chega até mesmo a desistir de procurar tratamento, mas por insistência de sua esposa Elisabeth (Helena Bonham Carter) começa um tratamento com o terapeuta Lionel Logue (Geoffrey Rush), que quer tratar o monarca em seu próprio consultório e insiste em chamá-lo pelo apelido “Bertie”, uma concessão a que membros da realeza não estão acostumados a fazer.

É claro que o príncipe a princípio não concorda com os métodos e excentricidades de Lionel, mas a relação dos dois acaba indo além da relação terapeuta-paciente e eles tornam-se amigos e confidentes. Grande parte da força do filme está na atuação de seus personagens. As longas cenas levadas a cabo apenas pelas presenças magnéticas de Lionel e príncipe Albert são construídas com esmero pela câmera do diretor Tom Hooper. Colin Firth e Geoffrey Rush estão tão imersos em seus papéis quanto Frank Langella interpretando Richard Nixon e Michael Sheen encarnando David Frost em Frost/Nixon.

Firth expressa com naturalidade as inúmeras inseguranças de Albert e Rush interpreta como ninguém a franqueza e as caretas típicas dos ingleses. Hooper conhecia muito bem a história que tinha em mãos e o calibre dos atores, e soube extrair o melhor de cada um.

Mas a história de O Discurso do Rei não para por aí. Da metade para a frente, quando os atores já solidificaram bem a ideia central do filme, o enredo envereda por questões internas e externas da realeza e toca em um dos assuntos mais interessantes e polêmicos criados nos século XX: a Segunda Guerra Mundial. Albert não é o primogênito, portanto, não deve se tornar rei, o que de certa forma o alivia. Mas seu irmão, logo após ser empossado rei Edward VIII, resolve casar-se com uma mulher divorciada, o que é totalmente contra os preceitos da igreja Anglicana. Com a renúncia, Albert assume o posto como George VI, exatamente no momento em que governos europeus começam a olhar para a Alemanha e veem com enorme desconfiança e assombro a figura de Hitler.

Geoffrey Rush interpreta o terapeuta Lionel Logue

A cena em que George VI assiste a um trecho do poderoso discurso de Hitler ao lado da família é memorável. É, talvez, o momento em que Hooper e o roteirista David Seidler melhor conseguiram sintetizar as questões de ordem política e sentimental de todo o filme. Ali está uma amálgama do que aquele momento significava para o mundo e para a vida íntima do rei da Inglaterra.

A princípio, pode parecer que a história real de um rei gago não soa interessante, mas a força de O Discurso do Rei está no retrato de época que faz da Inglaterra, da igreja Anglicana, da vida privada da realeza e das emoções de cada um de seus personagens. Não deixa de ser uma história de superação, é verdade, mas é bonito ver como diretor, atores e produção se superaram para fazer um dos melhores filmes do ano.

Let Me In

Let Me In não abusa de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa, mantendo a estética do filme sueco original

Todos os elogios e prêmios que o filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original, resenhado aqui) recebeu a partir de 2008 atraiu o olhar da indústria cinematográfica americana. Não demorou muito para que os executivos da terra do Tio Sam anunciassem um remake da história, Let Me In, dirigido por Matt Reeves, que havia trabalhado em Cloverfield. Reeves faz o que já era esperado: americaniza a geografia do filme, aumenta a sangueira na tela, mantém as principais discussões levantadas e praticamente não muda a estética da obra (mas carrega um pouquinho na tinta nas cenas de maior impacto).

Let Me In conta exatamente a mesma história que o filme original e mantém o aspecto de filme “pequeno”, não abusando de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa. Mas faz algumas adaptações. Sai a pequena cidade do interior da Suécia e entra Los Alamos, Novo México, tão cheia de neve quanto o cenário urbano de Deixe Ela Entrar. O protagonista agora é Owen (Kodi Smit-McPhee), menino de doze anos que sofre de bullying na escola, não consegue revidar as agressões e adora espiar a vizinhança com sua luneta. Seus pais são problemáticos também: a mãe é uma religiosa depressiva que não faz a mínima ideia dos problemas enfrentados pelo filho; o pai está fora há alguns meses; eles estão se divorciando.

Sem amigos, Owen se refugia durante as noites num playground do quintal de seu prédio. Certo dia, conhece a misteriosa Abby (Chloe Moretz, a Hit Girl de Kick-Ass), menina que tem doze anos já “faz muito tempo” e que vive migrando de cidade em cidade. Ela diz a Owen que eles não podem ser amigos, mas a presença do livro Romeu e Julieta na cena evidencia que essa regra não será quebrada e provavelmente a relação dos dois irá além da amizade.

Chloe Moretz, a insana Hit Girl de "Kick-Ass" interpreta a vampira Abby

Não demora até que saibamos que Abby na verdade é uma vampira. E ela usa um homem mais velho (Richard Jenkins) para se faz passar por pai e consegue sangue fresco para saciar a fome da garota. Ao que parece, faz muitos anos que este homem a segue. Abby é, assim, uma sanguessuga. Mas se ela consegue ser tão mortal quanto se espera que um vampiro seja, mostra ser clemente e doce na presença de Owen. O que encantou no filme sueco e encanta neste remake americano é justamente esse contraste entre o terror e ternura.

Conforme as vidas de Owen e Abby vão se entrelaçando, ambos vão mudando. Ele se torna mais confiante, ela tem a oportunidade de se esconder menos e mostrar mais sua humanidade. Essa transformação é mais evidente e sensível no filme sueco, mas a versão americana consegue deixar mais que talvez o suposto amor de Abby por Owen seja mediado por uma necessidade e por um interesse bem específico (e não me atrevo a contar mais para não estragar o filme de ninguém).

A cena final na piscina da escola é mais impactante na obra cinematográfica original. A crueza é mais dilacerante, pois conseguia ir ao encontro do desejo secreto dos espectadores, que passaram o filme inteiro esperando uma punição para os garotos que batiam em Owen. Let Me In executa exatamente a mesma ideia com praticamente a mesma morbidade do filme sueco, mas uma quantia considerável de sangue já havia jorrado em cenas anteriores, não causando mais uma palpitação tão grande.

Como é praxe nesse tipo de filme, é claro que a perda da inocência está embutida no argumento da produção. Ao ficar tão próximo de Abby, Owen começa a despertar para o amor. Mas ele vê do que sua “namorada” é capaz e acaba sendo forçado a despertar para a violência e os horrores do mundo. E o mais espetacular é ver a anuência do garoto para com esta última situação. Mérito máximo da obra – sueca ou americana, tanto faz – é não julgar a moral de seus dois protagonistas. Cabe ao público dar-se conta da natureza de ternura e terror de Abby ou da pureza que Owen ostenta mesmo quando decide acompanhar uma criatura assassina. E o melhor a fazer talvez seja não julgá-los.

Cisne Negro

O diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie

Cisne Negro (Black Swan, 2010) é um drama, um suspense, um terror psicológico, uma história de descoberta, uma tragédia e é quase um musical. De sua abertura – em que Natalie Portman dança com total entrega à escuridão, quebrada apenas por um único grande foco de luz – até seu final arrebatador, a música cheia de contrastes de Tchaikovsky nos acompanha. E o diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie.

Em Cisne Negro, Natalie Portman interpreta a frágil e disciplinada bailarina Nina Sayers, que quer muito protagonizar a encenação de O Lago dos Cisnes, que sua companhia de balé pretende apresentar na temporada. Nina é perfeita para o papel da Rainha Cisne, virginal, doce e de movimentos mais graciosos. No entanto, Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da companhia, não tem tanta certeza se ela conseguirá interpretar também a Cisne Negra, a contraparte da Rainha, que exige movimentos mais viscerais, sensualidade e mais intensidade do que há na comportada vida cotidiana de Nina.

Nina consegue o papel e tenta chegar a sua perfeição, tentando equiparar-se a Beth (Winona Ryder), a antiga Rainha Cisne do espetáculo, celebrada por público e crítica, mas que está prestes a se aposentar. Mas a perfeição para conseguir interpretar a Cisne Negra tem seu preço e a bailarina é compelida a uma extrema autocobrança e a explorar sua sexualidade. E ainda há Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina da companhia, que parece ser a exata contraparte de Nina. Lily tem a rebeldia e o desprendimento necessários para encarnar a Cisne Negra e Thomas sabe disso, o que deixa Nina insegura.

E assim somos convidados a acompanhar uma história que pode realmente ter algo de sobrenatural ou ser mero devaneio mental da protagonista. Assim como a Rainha tem se vê refletida na Cisne Negra, Nina também parece encarar Lily como seu duplo. E o diretor espalha espelhos por todos os cenários da produção, fazendo com que Nina encare a si mesma o tempo todo.

Mesmo tendo grandes méritos, Fonte da Vida (The Fountain), que Aronofsky dirigiu, acabou sendo um fiasco. Mas o diretor se reergueu com O Lutador (The Wrestler), trazendo Mickey Rourke de volta ao estrelato contando a história de um ídolo decadente da luta-livre de forma bastante realista, nos apresentando os bastidores deste mundo inclusive. E Cisne Negro é muito mais parecido com O Lutador do que com qualquer outro filme do diretor.

A forma como a câmera segue colada às costas de Nina pelos corredores da academia, pelas ruas da cidade e por sua casa é a mesma como a câmera seguia Randy The Ram. Além disso, os bastidores do balé também ocupam boa parte do filme, entremeando os dramas de Nina. A principal diferença entre os dois, portanto, estão nas escolhas de gênero. Aronofsky deixou o realismo cru de O Lutador para, desta vez, se dedicar a um terror ou suspense psicológico. Quando Randy sofria, sabíamos exatamente porque ele estava sofrendo e por quem. Quando o corpo de Nina aparece machucado ou quando Lily faz sexo com ela, não sabemos bem o que aconteceu ou quem estava lá.

Clint Mansell, que já colaborou em outros filmes com Aronofsky, assina a trilha sonora original de Cisne Negro e beneficiou-se enormemente da sinfonia composta por Tchaikovsky. Mansell deixa a música do compositor romântico soar, preenchendo as cenas de lirismo com seu doce piano e as de maior tensão com ataques rápidos e estridentes nas cordas (como é típico de Tchaikovsky). E a emoção da música, e o que ela significa em cada cena, transparece no rosto dos atores, principalmente quando Nina ensaia, dança pra valer ou vê coisas que podem não existir.

O filme tem bons momentos de susto e nenhum deles é gratuito. Prova disso é que o sobrenatural (ou a disfunção psicológica da personagem) nunca ocupa tempo demais em cada cena. O roteiro preferiu sempre dar sequência e ritmo à história rapidamente, antes que Nina deixasse de ser uma bailarina obcecada pela perfeição e se tornasse vítima de um artifício cinematográfico (que seria a inserção de fenômenos misteriosos para captar a atenção do público).

O trabalho físico de Natalie Portman para dançar a difícil coreografia de O lago dos Cisnes impressiona sobretudo no terceiro ato do filme, quando o espetáculo está de fato sendo apresentado. Portman interpreta a Cisne Negra com intensidade, distanciando-se da figura frágil de Nina. Deixar o tripé de lado e registrar quase que o filme inteiro com a câmera na mão foi uma opção estética de Aronofsky e do diretor de fotografia Matthew Libatique. Nas cenas de dança, é possível sentir o cameraman dançando também para acompanhar a os braços e as pernas dos bailarinos.

Assim como The Ram em O Lutador termina sua trajetória sendo ovacionado e se autossacrificando em nome de um espetáculo de luta, Nina termina Cisne Negro da mesma forma – mas em nome de sua perfeição. Embora as dualidades entre Rainha e Cisne Negra, Nina e Lily, o lado doce e o lado mais escuro da alma da bailarina estejam presentes o filme inteiro, são os espelhos onipresentes que revelam o que realmente está acontecendo: refletir Nina significa que ela, e somente ela, é a chave de seu próprio mistério e o motivo de suas próprias limitações.

Belos posters para Black Swan

Cisne Negro (Black Swan), novo filme do diretor Darren Aronofsky – que também dirigiu Fonte da Vida e O Lutador -, ganhou um novo pôster com a atriz Natalie Portman vestida com uma roupa negra de bailarina em meio a pétalas escuras. É o mais belo cartaz da produção até agora, que tem divulgado o filme com seis cartazes muito diferentes entre si nos traços, mantendo apenas as cores branco, vermelho e preto e um clima bastante impressionista em todas as imagens.

Cisne Negro aborda as relações de manipulação e competição que se estabelece entre as bailarina Nina (Portaman) e Lilly (Mila Kunis), mas Nina não sabe se sua rival é real, uma existência sobrenatural ou apenas invenção da sua imaginação. Completam o elenco Wynona Rider, Barbara Hercher e Vincent Cassel. O filme estreia nos Estados Unidos dia 3 de dezembro. No Brasil, apenas dia 4 de fevereiro de 2011. Até lá, fique com os belos cartazes do longa.

A Rede Social – em busca de aprovação

Muito mais do que um filme sobre o Facebook, o site de relacionamentos mais popular do mundo, A Rede Social mostra a busca do bilionário Mark Zuckerberg por aprovação

Jesse Eisenberg vive o solitário Mark Zuckerberg, criador do Facebook. O negócio ascende, mas suas relações pessoais naufragam

A cena que abre A Rede Social (The Social Network, 2010) mostra o jovem Mark Zuckerberg, o criador do Facebook, sentado numa mesa de lanchonete com sua namorada Erica Albright. Mark, então estudante em Harvard, acaba sendo arrogante com a garota e o namoro termina. Como ela deixa bem claro, a relação não terminou por ele ser nerd, mas por ser um babaca.

A cena que fecha A Rede Social mostra um ainda jovem Mark Zuckerberg, dois anos depois, sentado na mesa de um escritório de advocacia. Uma audiência acaba de ocorrer entre ele e o advogado do Facebook contra um de seus desafetos. A estagiária que acompanha o caso (SPOILER) lhe diz: “Você não é um babaca, Mark. Apenas se esforça muito para ser”. E então ele entra em seu perfil do Facebook e adiciona Erica, sua ex-namorada, como amiga. Até os créditos finais, ele clica F5 sistematicamente, esperando para ver a aprovação de amizade da menina.

Revelar a elipse que se estabelece entra a cena inicial e final do filme não vai arruinar toda a sua experiência do filme. Há muito mais para ser visto, pode ter certeza. Mas é importante evidenciar como a história desse jovem bilionário foi contada pelo roteirista Aaron Sorkin (baseado no livro The Accidental Billionaires, de Ben Mezrich), fazendo jus à frase de divulgação no cartaz do filme: “você não chega a 500 milhões de amigos sem fazer alguns inimigos”.

Logo após romper com sua namorada, Mark (interpretado por Jesse Eisenberg) fica bêbado na frente do computador, bloga insultos contra a ex e arma uma espécie de jogo social aberto aos estudantes de Harvard, usando seu vasto conhecimento em programação. Com a notoriedade lhe batendo a porta, logo é contratado pelos gêmeos Winklevoss e Divya Narendra, que esperam que ele programe a rede social Harvard Connection. Mark Zuckerberg enrola os três por mais de um mês e quando finalmente resolve abandonar o projeto, já tem pronto o protótipo do The Facebook. Ele acaba de ganhar três inimigos. Para ajudá-lo em seu projeto pessoal, chama o brasileiro Eduardo Saverin (interpretado por Andrew Garfield), uma espécie de consciência em fazer negócios mais alerta e precavido do que Zuckerberg. Quando Sean Parker (Justin Timberlake), o criador do Napster, entra para o Facebook depois de deslumbrar Zuckerberg com a trinca dinheiro-sexo-glamour da Califórnia, a relação entre ele e Eduardo começa a se desgastar até chegar ao limite: os tribunais.

A história de criação do Facebook é contada de forma linear. Entrecortando todo o filme, de forma não linear, estão as diversas cenas de audiência. Mark contra os Winklevoss e Mark contra Eduardo. Muito mais do que um filme sobre o site de relacionamentos mais popular do mundo, é um filme sobre as pessoas que fizeram parte dele e sobre alguns dos notáveis incidentes que são parte de seus bastidores.

Deslumbrado com o mundo de possibilidades do Vale do Silício, Zuckerberg vai a reuniões de negócio de pijama

A direção do longa é de David Fincher (Zodíaco, O Curioso Caso de Benjamin Button), mas há pouca inventividade ou virtuosismo na forma de contar a história e operar a câmera de A Rede Social. O único momento em que podemos sentir que a mão do diretor esteve mais livre é na curta cena da competição de remos na Inglaterra. De resto, é Fincher sendo muito eficiente, mas optando por formas menos desafiadoras do que as usadas em Clube da Luta e Seven, por exemplo. Harvard parece mais sombria do que em outros filmes e boa parte dos ambientes tem pouca luz.

Conforme o Facebook cresce em popularidade e se alastra pelo mundo, a imagem que o filme faz de Zuckerberg só piora. De programador nerd de Harvard (chamado até de “o novo Bill Gates”), vai descendo no nosso conceito como ser humano até se tornar aquele babaca de que falavam a ex-namorada e a estagiária de direito. Nesse caso, identificar-se com o mais jovem bilionário do mundo vira uma tarefa difícil. Muito mais fácil é tomarmos as dores de Eduardo Saverin, retratado como um rapaz de negócios muito mais cauteloso (embora menos arrojado do que Sean Parker) que acaba traído. Também pesa o fato de que Andrew Garfields rouba praticamente todas as cenas em que aparece ao lado de Jesse Eisenberg, interpretando um Mark com cara de bobo e sempre apagado.

A Rede Social é um filme sobre ambição, as ciladas e o mundo dos negócios encontrados por Zuckerberg, sobre os atores de um sucesso na internet e sobre um site que pretende formar uma comunidade mesmo que seu criador seja um solitário de diálogos diretos e de pouca expressividade que busca a aprovação de alguém. Ele não é aprovado pela namorada, não é aprovado pelo melhor amigo Eduardo e nem pela estagiária. Existem 500 milhões de perfis no Facebook e Mark destruiu sua relação com a meia dúzia que importava.

Cópia Fiel

Filme de Abbas Kiarostami é um sopro de honestidade que dispensa a “moral da história”. Quando você menos espera, está andando junto com os protagonistas pelas vielas de Lucignano

"Cópia Fiel" (falado em italiano, francês e inglês) é o primeiro filme que o Iraniano Abbas Kiarostami roda fora de seu país.

Não tenho a pretensão de escrever melhor sobre Cópia Fiel (Copie Conforme, 2010) do que Marcelo Hessel (@marcelohessel) já fez, mas é importante dizer que o filme te pega de surpresa. Quando você menos espera, está totalmente imerso em sua história, andando pelas ruas de Lucignano, na Itália, com os mesmos pensamentos que a dupla de protagonistas. A produção, dirigida pelo iraniano Abbas Kiarostami (que também dirigiu Gosto de Cereja e Dez), foi uma das boas atrações da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.

Na história, o inglês James Miller (interpretado por William Shimell) vai até a Itália para divulgar seu livro que versa sobre as cópias na arte e a relativização de seu valor (relativização que, aliás, chega aos extremos: seria o sorriso de Mona Lisa verdadeiro? Ou teria Da Vinci pedido que Gioconda o fizesse?). Logo após sua palestra, conhece Elle, vivida com notável entrega por Juliette Binoche, uma francesa dona de uma galeria italiana há muitos anos.

A princípio, o escritor precisa apenas passar um tempo na cidade antes de voar de volta para a Inglaterra. Elle acaba virando uma espécie de distração e guia turística para James, com suas conversas informais sobre a arte, sobre o conceito de cópia e autenticidade e de como tudo isso tem a ver com a vida cotidiana das pessoas. A vida pessoal de Elle e seus problemas em ser, aparentemente, uma mãe solteira com um filho pré-adolescente vão sendo aos poucos incorporados à conversa dos dois. Ela trata das questões com paixão desesperada por respostas, ele às trata com certo distanciamento, como se procurasse o máximo do discernimento.

William Shimell interpreta James Miller e Juliette Binoche vive Elle. São dois estranhos ou marido e mulher?

O filme todo gira em torno das andanças e conversas de Elle e James por Lucignano a medida que uma relação vai sendo construída. É o mesmo processo já visto em Antes do Amanhecer e Antes do Pôr do Sol, mas os personagens ora retratados são mais maduros, na casa dos 40-45 anos. Então decidem tomar um café e a situação sofre uma virada interessantíssima. De dois quase estranhos, a francesa e o escritor tornam-se marido e mulher. A partir daí, o filme torna-se uma dilacerante discussão de casal e o relacionamento entre os dois começa a ser desconstruído. Ao que parece, cabe a cada um acreditar se o casal realmente já se conhecia desde o começo ou se apenas estão interpretando um papel proposto pela mulher que lhes serviu café na lanchonete.

Usando três línguas diferentes – francês, italiano e inglês – às vezes todas juntas num mesmo diálogo, Kiarostami vai tecendo uma história de casal em crise sem pressa, apresentando tanto os argumentos dela quanto os dela e os fazendo colidir, sem tomar partido por nenhum dos lados. Afinal, a vida é complexa. Como resultado, Kiarostami nos presenteia com uma discussão madura e honesta sobre os relacionamentos. Ele não deixa de nos mostrar o que seria uma atitude ideal, (como na cena em que um senhor diz a James que sua mulher talvez só queira que ele ande ao lado dela e apoie sua mão no ombro dela para mostrar sua presença). Mas nunca submete a complexidade psicológica do casal protagonista a saídas “corretas”, fazendo com que ambos tornem-se personagens ainda mais críveis.

Cópia Fiel é uma produção de baixo orçamento que não aposta na edição rápida de imagens e nem no apelo ao falso mundo eternamente jovem das platéias norte-americanas. Quando começa, parece um tanto técnico demais, com uma palestra sobre originalidade e cópia. Conforme avança, vai revelando a que realmente veio e termina extremamente emocional. Diferente da grande maioria das comédias românticas produzidas aos montes em Hollywood, sempre tentando nos fazer engolir alguma “moral da história” que já vem prontinha, Cópia Fiel deixa em aberto a conclusão da história e não propõe acordo entre as partes. Aceita a complexidade da vida e dos relacionamentos, aceita que nem sempre uma conclusão bem acabada pode ser dada. E é tão honesto em cada close que dá em Juliette Binoche e William Shimell que quase podemos ver a nós mesmo sendo estudados diante do espelho.