Let Me In

Let Me In não abusa de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa, mantendo a estética do filme sueco original

Todos os elogios e prêmios que o filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original, resenhado aqui) recebeu a partir de 2008 atraiu o olhar da indústria cinematográfica americana. Não demorou muito para que os executivos da terra do Tio Sam anunciassem um remake da história, Let Me In, dirigido por Matt Reeves, que havia trabalhado em Cloverfield. Reeves faz o que já era esperado: americaniza a geografia do filme, aumenta a sangueira na tela, mantém as principais discussões levantadas e praticamente não muda a estética da obra (mas carrega um pouquinho na tinta nas cenas de maior impacto).

Let Me In conta exatamente a mesma história que o filme original e mantém o aspecto de filme “pequeno”, não abusando de efeitos especiais magníficos, fotografia pretensiosa ou direção virtuosa. Mas faz algumas adaptações. Sai a pequena cidade do interior da Suécia e entra Los Alamos, Novo México, tão cheia de neve quanto o cenário urbano de Deixe Ela Entrar. O protagonista agora é Owen (Kodi Smit-McPhee), menino de doze anos que sofre de bullying na escola, não consegue revidar as agressões e adora espiar a vizinhança com sua luneta. Seus pais são problemáticos também: a mãe é uma religiosa depressiva que não faz a mínima ideia dos problemas enfrentados pelo filho; o pai está fora há alguns meses; eles estão se divorciando.

Sem amigos, Owen se refugia durante as noites num playground do quintal de seu prédio. Certo dia, conhece a misteriosa Abby (Chloe Moretz, a Hit Girl de Kick-Ass), menina que tem doze anos já “faz muito tempo” e que vive migrando de cidade em cidade. Ela diz a Owen que eles não podem ser amigos, mas a presença do livro Romeu e Julieta na cena evidencia que essa regra não será quebrada e provavelmente a relação dos dois irá além da amizade.

Chloe Moretz, a insana Hit Girl de "Kick-Ass" interpreta a vampira Abby

Não demora até que saibamos que Abby na verdade é uma vampira. E ela usa um homem mais velho (Richard Jenkins) para se faz passar por pai e consegue sangue fresco para saciar a fome da garota. Ao que parece, faz muitos anos que este homem a segue. Abby é, assim, uma sanguessuga. Mas se ela consegue ser tão mortal quanto se espera que um vampiro seja, mostra ser clemente e doce na presença de Owen. O que encantou no filme sueco e encanta neste remake americano é justamente esse contraste entre o terror e ternura.

Conforme as vidas de Owen e Abby vão se entrelaçando, ambos vão mudando. Ele se torna mais confiante, ela tem a oportunidade de se esconder menos e mostrar mais sua humanidade. Essa transformação é mais evidente e sensível no filme sueco, mas a versão americana consegue deixar mais que talvez o suposto amor de Abby por Owen seja mediado por uma necessidade e por um interesse bem específico (e não me atrevo a contar mais para não estragar o filme de ninguém).

A cena final na piscina da escola é mais impactante na obra cinematográfica original. A crueza é mais dilacerante, pois conseguia ir ao encontro do desejo secreto dos espectadores, que passaram o filme inteiro esperando uma punição para os garotos que batiam em Owen. Let Me In executa exatamente a mesma ideia com praticamente a mesma morbidade do filme sueco, mas uma quantia considerável de sangue já havia jorrado em cenas anteriores, não causando mais uma palpitação tão grande.

Como é praxe nesse tipo de filme, é claro que a perda da inocência está embutida no argumento da produção. Ao ficar tão próximo de Abby, Owen começa a despertar para o amor. Mas ele vê do que sua “namorada” é capaz e acaba sendo forçado a despertar para a violência e os horrores do mundo. E o mais espetacular é ver a anuência do garoto para com esta última situação. Mérito máximo da obra – sueca ou americana, tanto faz – é não julgar a moral de seus dois protagonistas. Cabe ao público dar-se conta da natureza de ternura e terror de Abby ou da pureza que Owen ostenta mesmo quando decide acompanhar uma criatura assassina. E o melhor a fazer talvez seja não julgá-los.

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