Na sarjeta com Mateus, o provocador

Ele é artista, funcionário público e pensador. Seja no poder Judiciário ou na rua, Mateus Grava emana tensão. “Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso”, ele diz sobre si próprio

Na sarjeta, Mateus dos Santos Grava encara as situações tragicômicas de sua vida. "O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos", diz

Entrevista por Lucas Scaliza

Há uma tensão latente em Mateus dos Santos Grava, 28 anos. Dele, você nunca sabe o que esperar – e o que ele pode te oferecer também depende muito de seu estado de espírito. Talvez você tente falar com o Mateus e encontre Raioé, seu efusivo alter ego (e não tem nada a ver com dupla personalidade) que manifesta-se principalmente no campo musical, mas pode aparecer também numa noite intranquila de bebedeira. Assim como Raioé, Mateus (o “original”) também tem veia artística. Recentemente recuperou músicas antigas e compôs novas baladas com o propósito de registrá-las em disco. Em 2008, ele escreveu uma série de textos que virariam um livro, mas acabou não sendo publicado, vitimado pela autocrítica imperdoável do autor. “Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo”, ele diz. Seja na literatura ou na música, ou mesmo em uma conversa informal no balcão de um bar, a forma de se expressar de Mateus é sempre provocadora, fazendo seu interlocutor confrontar paradigmas estabelecidos e seus próprios pensamentos.

A característica mais marcante de Mateus Grava é o seu estilo de vida. Funcionário público do poder Judiciário durante o dia desde 2002, ele abandona o mundo dos processos e das liminares na 2ª Vara Cível para tornar-se um boêmio veterano durante a noite. E já aprontou tantas na rua, entre coisas cômicas e trágicas, que é considerado um junkie. Não o junkie viciado em alguma droga, como denominava o termo original da palavra, mas o junkie que é um pouco anárquico e tem uma vida tresloucada. Mateus aprecia as obras de Woody Allen, Virginia Woolf e Clarice Lispector, mas imagino que se ele próprio fosse um personagem da literatura, seria Dean Moriarty, o jovem igualmente tresloucado que atravessa os Estados Unidos nas páginas de On The Road (livro símbolo da geração beat escrito por Jack Kerouac) em busca de novas experiências. Ao mesmo tempo junkie e filosófico, Mateus é uma espécie de Thomas Pynchon com barba descuidada e cabelos muito compridos.

Para preservar o seu estilo de vida, a entrevista com Mateus Grava foi gravada ao anoitecer, na mesa de um bar da orla turística de Barra Bonita, ambiente onde ele se sente bastante à vontade. Conforme a conversa de quase duas horas seguia, acompanhada de perto por seu amigo Wander Bêh e por quatro ou cinco garrafas de cervejas, deu para sentir a tensão de sua vida. Histórias tristes e engraçadas, sentimentos de inadequação, crises de consciência e reflexões profundas, tudo de uma vez só, sem pausas. Mateus respondeu a tudo com uma sinceridade cortante, e quanto mais honesto era consigo mesmo e com esta entrevista, mais o medo sobre o que seria publicado crescia dentro dele. Definitivamente Mateus não é um cara comum, mas seus sentimentos e medos são humanos, demasiadamente humanos.

Entrevistado e entrevistador. Foto: Wander Bêh

Você é uma pessoa bastante fragmentada, tem vários lados, age de diversas formas. Você consegue entender o seu eu mais substancial? E as outras pessoas, elas conseguem enxergar o seu eu também?

As pessoas não conseguem e eu também não. Sinto a energia e o jeito que as pessoas me olham, às vezes de forma legal e carinhosa e outras vezes de uma forma ruim, mas quando é assim a pessoa não chega pra falar com a gente. Continuo na luta para entender o Mateus, mas sinto que sempre estou muito longe disso. É uma coisa intensa tanto o meu jeito de demonstrar carinho quanto às cacas que eu faço – que não são poucas. Este ano tive realizações maravilhosas na minha vida, tudo para que 2011 seja para mim, talvez, um ano em que poderei mostrar muitas coisas boas. Contudo, meus erros continuam sendo tombos enormes.

Você sempre tem consciência das coisas que está fazendo, sejam elas boas ou ruins?

Totalmente consciente. Acontece que às vezes vivo umas fases pesadíssimas e dou de cara com a parede em todos os campos, afetivo, profissional, pessoal e artístico. Depois eu sofro no dia seguinte e desse sofrimento saia uma letra [de música] linda de chorar – bom, pelo menos eu choro. E fico com um enorme frio na barriga que só algo muito legal para me fazer abandonar aquela dor. Mas atualmente tenho vivido muito mais momentos bons.

Que tipo de coisas boas estão acontecendo agora?

Música, principalmente. Em 2008 eu fiz vários textos legais, mas depois veio a autocrítica que passou do ponto e não consegui levar o projeto do meu livro adiante. Mas este ano consegui compor uma música com a Marta Nascimento e pude pela primeira vez tocar uma música minha no palco do Teatro Municipal Profª Zita De Marchi, no recital do Américo Ereno. Foi de marejar os olhos ver o vídeo que fizeram da minha apresentação! Peguei muito material que tinha guardado e gostei do que ouvi, bem diferente do que houve com meu livro. No ano que vem devo entrar em estúdio para gravar minhas músicas.

“Muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro”

Na música você tem um alter ego chamado Raioé. O Mateus e o Raioé são muito diferentes na forma de agir e pensar?

As músicas do Mateus são, na maioria das vezes, baladas de amor com influência da música brasileira. O Raioé é algo que surgiu em 1989, quando eu tinha uns oito anos de idade. Ele usa a boca e o mamilo para fazer alguns instrumentos, tem letras sem muito sentido e foi tomando forma com o passar dos anos. E a relação entre os dois está principalmente fundamentada na desconstrução, que é feita pelo Raioé, do ser humano Mateus, do Mathers, possibilitando assim algo próximo de um maior entendimento dessa figura. Inclusive, o nome do projeto de Raioé é justamente “Desconstruindo Mathers”, idéia essa que tirei de um de meus filmes preferidos de Woody Allen, “Desconstruindo Harry”.  Como ser humano Raioé é mais nervoso que o Mateus, muito mais ansioso e agressivo. Mas o Mateus às vezes é paciente até demais. Acho que os dois se equilibram.

As pessoas agem de jeitos diferentes quando você é o Mateus e quando é o Raioé? Ou quando você está mais tranquilo ou quando está sob o efeito do álcool?

É importante dizer que o Raioé não surge da bebedeira. Ele até surge bastante na bebedeira porque isso faz com que o Mateus deixe o Raioé aparecer… Mas qual era mesmo a pergunta?

Como as pessoas agem com o Raioé e com o Mateus?

É muito doido. Se vão apresentar uma música do Mateus, dizem: “olha que bonito que ficou isso”. Se for do Raioé, é assim: “olha como essa porra aqui ficou do caralho!” Os dois são lindos e verdadeiros da mesma forma, mas o Raioé já chega dando soco na cara e dizendo “Canta, filho da puta!”

Eles já fizeram alguma parceria?

“Donde estás Maria” é parceria dos dois. A canção é interpretada pelo Raioé e é a mais conhecida dele. Foi feita num ensaio de carnaval da banda Gritos & Sussurros em 2004. Era um ambiente de energia carnavalesca impulsionado pela disciplina, porque logo mais naquela tarde tinha matinê! É a única parceria deles, pois a coisa sai muito forte. Um até palpita no trabalho do outro, mas eles puxam o freio de mão.

Mateus durante a apresentação de "Onde tudo é mais bonito", música de sua autoria, no Teatro Municipal Profª Zita De Marchi

Você escreveu um livro e não o publicou. Por quê?

Escrevi uns 30 textos ou menos que formaram uma coisa bem bonita. Todos sinceros e feitos com carinho. Ia lançar o livro no ano passado, mas não fiquei feliz com o resultado. Não fiquei convencido me vendo como leitor de mim mesmo. Pretendo escrever mais coisas ou tentar melhorar o que já tenho, mas sem toda a autocrítica de um ano atrás. Tenho lido bastante Clarice Lispector ultimamente e ela quando terminava uma obra não queria nem saber de ler o que tinha escrito.

Um dos textos que você produziu contava a relação que uma pessoa viu entre suas fezes durante o ato de defecar e a sociedade. De onde veio isso?

Esse texto era o meu carro chefe e o livro levaria o nome dele, Meus restos. Ele surgiu de uma experiência verdadeira, após um fim de semana dolorido que foi intenso até demais. Eu estava sofrendo com um relacionamento e com amigos, coisas complicadas. Eu estava dando uma cagada no banheiro e, quando me limpei, ficou uma mancha na minha mão. Aí fiz uma relação entre aquele cheiro, que nunca é bom, e o que as pessoas são. O cheiro é pior na medida em que a pessoa é pior também. Aí pensei nas damas perfumadas da noite – e eu estava apaixonado por todas elas ao mesmo tempo – mas elas têm uma cara de merda, que é muito mais fedida que a merda biológica. A relação entre o mal cheiro de nossos excrementos e o perfume francês tão agradável às nossas narinas. E termino dizendo: “Fiquei verdadeiramente fascinado com aquele aroma revelador”. Sem modéstia nenhuma, acho que coloquei essas ideias no papel de forma muito feliz.

E quando você briga com um amigo, como o Wander Bêh, como você fica?

Ah, o Wander já chutou a minha fimose, cara! Ele tinha alugado uma fita de videogame e deixou na minha casa para que eu a devolvesse no dia seguinte. Acontece que no dia seguinte eu fui operar a minha fimose. Quando voltei para casa, estava naquela situação complicada do pós-operatório. E três dias depois fiquei jogando no meu quarto aquele jogo com o meu primo, até que o Wander apareceu na janela de casa alucinado. “Então, então. Cadê a fita?”, ele dizia. “Ah, estou jogando, não está vendo?”, respondi. “Você não devolveu ou alugou de novo?”. “Ah, nem devolvi, estou operado da fimose, né?” O Wander entrou em casa e deu um bicudo na minha fimose operada que eu não sei como o meu órgão funciona até hoje. [gargalhadas] Ejetou a fita do Super Nintendo sem desligar o videogame primeiro e me deixou lá daquele jeito.

E como você resolve os problemas que eventualmente tem com as pessoas?

Como eu resolvo? Só deixo passar. O que faço é dar a cara para alguma pessoa que eu tenha prejudicado e ouvir para ver se é pesado o que fiz para eu não ficar me martirizando. Principalmente vou ouvir para entender direito o que eu fiz, porque a minha amnésia alcoólica é a maior do mundo. Mas a maioria das minhas furadas é em relação a mim mesmo. Nesses casos sento com frio na barriga e fico refletindo como é possível trilhar um caminho que não me cause tanto sofrimento. Porque cada sofrimento que você causa a si próprio é irreparável, já está marcado no filme da sua vida. Aí é ficar trancado com esse desespero até ele passar, até a conquista seguinte.

Mateus Grava. Foto: Wander Bêh

Como você reage quando acorda no dia seguinte e percebe que fez algo, mas sofreu uma “amnésia alcoólica”?

O maior desespero de não lembrar é que, no início, você não sabe que fez algo. Mas você sempre fica sabendo que fez algo porque existem outras pessoas que contam o que você fez. Acordar sem lembrar o que aconteceu e com frio na barriga já indicam que não fiz coisa leve. E às vezes nem é coisa pesada, mas como não estou sabendo ainda o que é, logo julgo que foi pesado. Aí passo uma semana esperando alguém vir me contar ou vou perguntar o que houve com uma baita cara de pastel. O desesperador é me conhecer e saber que a amnésia alcoólica vem geralmente quando fiz alguma caca mesmo.

Arrepende-se de ter feito alguma coisa nessas horas?

Não sei se a palavra é arrependimento. Tudo o que a gente faz tem um motivo de ser e, mesmo bêbado ou sóbrio, partiu de uma provocação de alguém. Eu me arrependo, então, de me expor a essa situação, de atravessar a rua e chegar a um círculo de pessoas que são complicadas para mim e que sei com certeza que quando a coisa ficar tensa o Mateus que segura a onda vai soltar de forma absurda as palavras. Aí ele se prejudica fisicamente e emocionalmente, é praticamente um Mike Tyson. É uma coisa assustadora essa explosão, mas muita gente não entende e acha que sou o palhaço da turma. Acham que eu estava engraçado. Na verdade, o Mateus não estava feliz de jeito nenhum [risos], mesmo tendo divertido o Brasil inteiro. O cara que mergulha na calçada ou que ficou pelado na avenida em 2003 vira o “louco”, mas não estava feliz.

É verdade que você recebeu um processo por ter ficado pelado?

Sim, quando a polícia me pegou pelado na Avenida Pedro Ometto em 9 de novembro de 2003. Era a minha fase mais pesada, mesmo tendo cara de criança, cabelo curto e sem barba. Naquela fase eu passava por situações ruins e realmente negras. Foi um capítulo tristíssimo da minha vida, mas ajudou a formar a minha personalidade.

Muita gente considera você aquele cara “louco” da turma, por falta de outro adjetivo que se encaixe melhor. Você se acha “louco”?

Muito, mas não é esse louco que as pessoas falam. Eu conquistei esse “louco” e recebo com muito carinho, mesmo sem ser assim. O louco mesmo é o Mateus vendo o Mateus, um cara que gosta do trabalho no Fórum, que gosta das pessoas que encontra na rua, que sofre na sarjeta e ama a sarjeta ao mesmo tempo – fora as coisas difíceis de se colocar em palavras.

Lucas Scaliza. Foto: Wander Bêh

Você tem um lado intelectual muito forte, capaz de discutir assuntos complicados com ótimos pensamentos e argumentos. Acha que as pessoas que te veem na rua conhecem essa sua faceta?

A maioria não. Só conhece quem faz parte do meu círculo diário de amigos, o pessoal da minha banda e minha mãe, que acompanha mais ou menos as músicas que ouço em casa e os livros que leio. Mas também não toco muito no assunto, pois tenho medo de parecer pretensioso e ligado à intelectualidade – coisa que não existe. Gosto do [cineasta] Woody Allen porque o acho parecido comigo, seus filmes são à flor da pele como é a vida e como são meus textos, irônicos, românticos e filhos da puta. O mesmo Mateus que bate a cabeça na guia é aquele que adora Belchior, chora ouvindo Maria Bethânia e gosta de rock. É que eu também não ajudo as pessoas a terem essa imagem de mim. Eu não chego para conversar falando sobre os livros que leio da Virgínia Woolf e da Clarice Lispector. Gosto dos assuntos que fluem naturalmente. Gostaria de mostrar mais esse meu lado e acho que vou conseguir fazer isso com as minhas músicas.

Então você tem vontade, desejo e/ou necessidade de mostrar esse Mateus às pessoas?

Tenho muita vontade. Recentemente conversei com uma amiga de 18 anos do Fórum e nosso papo foi parar nos livros. Disse que tinha lido um certo livro e o pessoal que ouviu assustou. “O Mateus lendo? Como assim?” Na hora a gente ri, mas a vontade era dizer que eu sempre li pra caramba.

Você era tímido quando adolescente?

Era muito tímido, não abria a boca. Quando falava um “a”, ele saía roço, com medo de estar falando. Não conseguia chegar nas meninas – coisa que é difícil eu fazer até hoje. Eu nem bebia e falava para os meus amigos do colegial que eles não sabiam se divertir.

Mateus ainda bebê, já evidenciando seu gosto pela música em sua camiseta

E como você mudou? Houve um episódio que simbolizou isso?

Tem gente que diz que eu e o Wander, que também era tímido, combinamos nossa mudança de comportamento, que ficávamos confabulando na escola. Mas houve um episódio, em 1999 durante um churrasco de despedida de nossa classe do terceiro ano do ensino médio. Eu usava lentes de contato, cabelo arrepiadinho com gel e não bebia nunca até então. Aí… (Nossa, estou bêbado!) [risos] Bom, foi a primeira vez que tomei duas cervejas para me enturmar e fiquei bem alucinado. E resolvi mergulhar na piscina com lentes e tudo. Ainda falei para um amigo meu que também usava lentes para mergulhar também que não tinha problema. “Eu estou enxergando tudo embaçado, mas é porque estou bêbado”, disse pra ele, pois não sabia como era ficar naquele estado. Naquela noite, em casa, fui tentar tirar a lente do olho. Tentei de todas as formas e nada, puxava até quase tirar o olho e nada. Minha mãe foi me ajudar e perguntou se eu tinha bebido. Eu disse que não. Perguntou se eu não tinha perdido as lentes na piscina. Também disse que não. Fomos na farmácia e o farmacêutico também não conseguiu tirá-la. Por último, fui parar na maca do oftamologista. Ele abria meu olho, usou uma pinça por cinco minutos, quase furando meu olho, e perguntando: “Tem certeza que vocês está de lente, companheiro?” “Tenho, estou sentindo ela”, eu respondia. Depois o médico parou por 30 segundos, olhou para mim e falou: “Companheiro, não tem lente nenhuma aí!” Aí eu pensei: “Jesus, perdi minhas lentes por causa de uma droga de bebedeira e fiz minha mãe sofrer”. Então prometi que nunca mais ia beber. E hoje estou aqui, dando essa entrevista e bebendo! [gargalhadas] E as lentes devem estar até hoje no fundo da piscina da edícula do Cunhé.

E depois desse episódio sua vida ficou mais social, é isso?

É, a partir de 2000 eu e o Wander começamos a abrir mais a boca, mas não era tanto assim. Deu até pra eu beijar! Beije duas mulheres em dois anos que foi uma coisa linda. Lembro que eu dizia que estava sendo a minha fase de maior sucesso. Não, foram três mulheres em dois anos, porque beijei uma que estava bêbada no carnaval da avenida. E beijei mesmo. Na boca. Depois disso só conseguia sair com alguém a cada nove meses, parecia até que era de propósito.

“Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é necessariamente você ser casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar”

 

Um dos seus amigos diz que tudo o que você faz pela primeira vez é muito engraçado. Sua primeira experiência sexual foi engraçada também?

Foi engraçada, mas vou torcer para a minha mãe não ler isso. Não gostei da minha primeira vez, porque… porque….

Espera. A menina dessa experiência está na cidade? Ainda é sua amiga?

Não tem nada de menina, cara. [gargalhadas] Não era menina e nem da minha cidade, errou nas duas vezes. Também não era a pessoa da minha vida. Agora minha primeira vez com mulher foi no ponto de táxi da praça do Museu, e aí eu gostei bastante.

E essa menina? É da cidade?

Poxa, não era menina de novo! Era uma mulher linda, uma pessoa de que gosto muito. E foi legal, porque essa experiência aconteceu depois do primeiro show que o Gritos e Sussuros fez no bar do Maurélio.

Mas as suas escolhas de fazer sexo com homem ou com mulher foram conscientes?

Totalmente, a cerveja não influenciou em nada. A gente bebe para relaxar, mas a decisão já tinha sido tomada. E as pessoas dessas relações que contei eram lindas e gente boa. Não me arrependo de nada, nada, nada. Com homem o problema é que eu não gostei, não tenho vontade nenhuma também. Gosto mesmo é de mulher, é bem melhor em todos os sentidos.

Mateus (no centro) com o primo Marcos e o amigo Wander Bêh em 1993

Algumas pessoas defendem que sexo deve ser feito quando há amor entre duas pessoas. Outros acham que sexo pode ser bom mesmo sem amor, por puro desejo. Como você encara a questão?

Tenho certeza absoluta de que sexo tem que ser com amor, mas o amor não é você ser, necessariamente, casado com sua parceira ou ficar pensando nela o dia todo. Pode haver amor entre pessoas que nunca se viram, que ficaram uma única vez e nunca mais vão se encontrar. Nesse momento pode ter existido amor. Assim como às vezes você transa com raiva, sem querer realmente estar ali com seu parceiro ou parceira. Então concordo que sexo deve ser feito com amor, senão é ridículo e superficial. Mas não concordo com a concepção que muita gente faz do amor.

Há também quem defenda o poliamorismo. Ou seja, que amor de verdade não é ou não precisa acontecer apenas entre duas pessoas, muitas outras podem estar envolvidas. Isso mexe com a monogamia e com os conceitos de fidelidade que vivenciamos atualmente.

Acontece mesmo de a gente amar mais de uma pessoa, mas não faço questão de vivenciar isso. A gente sofre por causa disso, mesmo entendendo a situação. E apesar da parceira ou parceiro entender que podemos amar mais de uma pessoa, isso não impede o sofrimento deles, e isso acaba nos fazendo sofrer. Na minha música “Onde tudo é mais bonito” há um verso que diz assim: “Onde tudo é mais bonito/ Na transa a dois, a três”. Não estou falando de uma orgia, falo de uma transa emocional. Até pensei em tirar o verso da canção, mas poderia ser o verso mais marcante dela.

Atualmente você é funcionário do Fórum. Antes disso, com o que você trabalhou?

Trabalhei para a prefeitura, no departamento de Limpeza Pública. Minha desenvoltura para cortar galhos e grama era tanta que, no meu primeiro dia de trabalho no setor, passei pelo menos uns dez minutos tentando cortar uns galhos com um facão. Eu pensava “O trabalho dignifica o homem” e batia o facão nos galhos, limpava o meu suor e continuava. Então percebi que os veteranos da Limpeza Pública começaram a olhar para mim segurando o riso. Aí um deles disse: “Então, seu nome é Mateus, não é? Tenta bater com o lado da lâmina agora”. [risos] Fiquei dois meses nesse departamento e fiz lindas amizades por lá. Saí por causa da minha grande habilidade com o trabalho.

E como você chegou ao Fórum?

Minha chefe na Limpeza Pública me chamou numa sexta-feira e disse que eu iria para o Fórum, porque estavam precisando de alguém por causa da falta de servidores no poder Judiciário. Antes de passar no concurso público da prefeitura, eu era legionário mirim e desempenhava, na Prefeitura, uma função bastante semelhante com a qual estavam precisando no fórum. Entrei no Judiciário barra-bonitense dia 1º de abril, mas sou uma grande verdade lá dentro. Não pretendo passar o resto da minha vida trabalhando com isso, porque pretendo fazer com que meus projetos musicais se desenvolvam. Mas a forma como olho para o Mateus no Fórum hoje é bem diferente de como o enxergava anos atrás.

“Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa”

Por quê? Como você encarava o trabalho no Judiciário?

Ah, eu encarava a sociedade “dos engravatados” com algum desprezo, com uma postura rock and roll. Mas com o tempo percebi que os engravatados também estavam na rua, só não usavam gravata. Vi também que mesmo o funcionário público que usa gravata era bem despojado e sossegadão com a vida, enquanto outro é aristocrata. E na rua tem o cara que diz que é “o alternativo”, e por aí vai. Comecei a enxergar a energia das pessoas, independente de ela estar engravatada ou de vestido longo, vendo o lado bonito e o lado insuportável de cada ser humano em todas as suas embalagens.

É verdade que o volume de trabalho no Judiciário da Comarca de Barra Bonita, que engloba também Igaraçu do Tietê, é anormal para uma região de apenas 60 mil habitantes?

Barra Bonita é uma cidade absurdamente exótica. Um dia desses levei cinco liminares até a mesa do juiz, e ele disse: “Cinco liminares em um único dia? Isso não existe! Essa cidade é…” “Essa cidade é exótica, né?”, completei. “Exótica? Isso aqui é uma curva de rio! Não existe!” Ele disse que em uma cidade como Araraquara não acontece tanta coisa como aqui. Vejo casos de desavenças, brigas por dinheiro, coisas pequenas e grandes, internações e interdições de pessoas, e mais uma série de problemas, tudo em grande quantidade. Trabalhando no Fórum passei a enxergar Barra Bonita de uma maneira bem diferente.

Você já teve problemas com as drogas? Ou só com a polícia?

Tive com a polícia mais de uma vez por conta de algumas desventuras. Já aconteceu de eu estar muito alto e fazer brincadeiras idiotas com os policiais. Nunca tive problemas com drogas, meu único problema é o conhaque. Esse eu preciso diminuir muito!

Em 2003, quando era baixista da banda Gritos & Sussurros

Como seus pais criaram você? Sempre com liberdade?

Pai eu não tive. Ele faleceu quando eu tinha 10 anos e mesmo antes disso já não morava comigo. A única imagem que tenho dele é uma vez que ele tentou ser o pai exemplar para mim e minha mãe acabou dando uma frigideirada na cabeça dele. Com a minha mãe e irmã sempre fui solto, sem problemas. Quando eu pisava fora de casa e era obrigado a lidar com gente é que dava o frio na barriga. Era o tal do bullying tão comentado atualmente, como o qual eu sofria bastante. Era muito ofendido por causa do meu jeito tímido, desengonçado, magrinho, etc. Nunca falei sobre isso com a minha mãe, apenas conversei algumas vezes com a minha irmã. Não tenho relacionamento com tios, tias e primos. Gosto delas, mas não participo do almoço daquele tio que mora fora e nem das confraternizações de Natal. Tem só um primo meu, o Marcos, que é um irmão pra mim!

Em suas músicas e textos, e mesmo em bate-papos informais, você sempre faz com deixa ideias provocativas, seja explicitamente ou implicitamente. Você se considera um provocador?

Em tudo tem cutucada, seja no bar, no Fórum, na igreja (se eu frequentasse alguma), na rua… E não é uma provocação gratuita, não. Porém, também não provoco para aparecer gratuitamente. Quero provocar e aparecer para fazer com que alguém tenha a oportunidade de sentar comigo e aí poderemos conversar sobre alguma coisa. Não sou o cara conselheiro, quero apenas fazer parte da vida da pessoa e que ela faça parte da minha.

E as pessoas geralmente estão dispostas a sentar e conversar com você ou a maior parte delas fica com o pé atrás?

A maioria fica com o pé atrás, mas tem muita gente bonita que vem. E a coisa boa disso é que alguns vêm com um olhar diferente, vêm com verdade. Não com medo, mas com interesse, sem saber nem ela e nem eu como nos aproximarmos. E aí a pessoa proporciona uma ocasião em que seremos obrigados a nos comunicar e a coisa acontece.

Você conta muitas experiências difíceis com bastante franqueza. Você poderia minimizar todas as situações, mas zela por falar diretamente.

É uma briga, na verdade. Ao mesmo tempo em que quero ser franco com os outros, preciso ser franco comigo mesmo para admitir que é muito perigoso expor tudo isso. Não minto pra mim mesmo e tenho muito medo, sinceramente, de tudo isso, desta entrevista. Não existe ninguém que não tenha medo e eu estou sofrendo agora, pensando como vai ser quando a entrevista sair. O que diferencia você das outras pessoas é o quanto não teme encarar seus medos.

 

 

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Cisne Negro

O diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie

Cisne Negro (Black Swan, 2010) é um drama, um suspense, um terror psicológico, uma história de descoberta, uma tragédia e é quase um musical. De sua abertura – em que Natalie Portman dança com total entrega à escuridão, quebrada apenas por um único grande foco de luz – até seu final arrebatador, a música cheia de contrastes de Tchaikovsky nos acompanha. E o diretor Darren Aronofsky confirma cada vez mais a boa mão para conduzir atores e criar significados com a câmera, sem se esquecer de sempre entregar ao público algo que o desafie.

Em Cisne Negro, Natalie Portman interpreta a frágil e disciplinada bailarina Nina Sayers, que quer muito protagonizar a encenação de O Lago dos Cisnes, que sua companhia de balé pretende apresentar na temporada. Nina é perfeita para o papel da Rainha Cisne, virginal, doce e de movimentos mais graciosos. No entanto, Thomas Leroy (Vincent Cassel), o diretor da companhia, não tem tanta certeza se ela conseguirá interpretar também a Cisne Negra, a contraparte da Rainha, que exige movimentos mais viscerais, sensualidade e mais intensidade do que há na comportada vida cotidiana de Nina.

Nina consegue o papel e tenta chegar a sua perfeição, tentando equiparar-se a Beth (Winona Ryder), a antiga Rainha Cisne do espetáculo, celebrada por público e crítica, mas que está prestes a se aposentar. Mas a perfeição para conseguir interpretar a Cisne Negra tem seu preço e a bailarina é compelida a uma extrema autocobrança e a explorar sua sexualidade. E ainda há Lily (Mila Kunis), uma nova bailarina da companhia, que parece ser a exata contraparte de Nina. Lily tem a rebeldia e o desprendimento necessários para encarnar a Cisne Negra e Thomas sabe disso, o que deixa Nina insegura.

E assim somos convidados a acompanhar uma história que pode realmente ter algo de sobrenatural ou ser mero devaneio mental da protagonista. Assim como a Rainha tem se vê refletida na Cisne Negra, Nina também parece encarar Lily como seu duplo. E o diretor espalha espelhos por todos os cenários da produção, fazendo com que Nina encare a si mesma o tempo todo.

Mesmo tendo grandes méritos, Fonte da Vida (The Fountain), que Aronofsky dirigiu, acabou sendo um fiasco. Mas o diretor se reergueu com O Lutador (The Wrestler), trazendo Mickey Rourke de volta ao estrelato contando a história de um ídolo decadente da luta-livre de forma bastante realista, nos apresentando os bastidores deste mundo inclusive. E Cisne Negro é muito mais parecido com O Lutador do que com qualquer outro filme do diretor.

A forma como a câmera segue colada às costas de Nina pelos corredores da academia, pelas ruas da cidade e por sua casa é a mesma como a câmera seguia Randy The Ram. Além disso, os bastidores do balé também ocupam boa parte do filme, entremeando os dramas de Nina. A principal diferença entre os dois, portanto, estão nas escolhas de gênero. Aronofsky deixou o realismo cru de O Lutador para, desta vez, se dedicar a um terror ou suspense psicológico. Quando Randy sofria, sabíamos exatamente porque ele estava sofrendo e por quem. Quando o corpo de Nina aparece machucado ou quando Lily faz sexo com ela, não sabemos bem o que aconteceu ou quem estava lá.

Clint Mansell, que já colaborou em outros filmes com Aronofsky, assina a trilha sonora original de Cisne Negro e beneficiou-se enormemente da sinfonia composta por Tchaikovsky. Mansell deixa a música do compositor romântico soar, preenchendo as cenas de lirismo com seu doce piano e as de maior tensão com ataques rápidos e estridentes nas cordas (como é típico de Tchaikovsky). E a emoção da música, e o que ela significa em cada cena, transparece no rosto dos atores, principalmente quando Nina ensaia, dança pra valer ou vê coisas que podem não existir.

O filme tem bons momentos de susto e nenhum deles é gratuito. Prova disso é que o sobrenatural (ou a disfunção psicológica da personagem) nunca ocupa tempo demais em cada cena. O roteiro preferiu sempre dar sequência e ritmo à história rapidamente, antes que Nina deixasse de ser uma bailarina obcecada pela perfeição e se tornasse vítima de um artifício cinematográfico (que seria a inserção de fenômenos misteriosos para captar a atenção do público).

O trabalho físico de Natalie Portman para dançar a difícil coreografia de O lago dos Cisnes impressiona sobretudo no terceiro ato do filme, quando o espetáculo está de fato sendo apresentado. Portman interpreta a Cisne Negra com intensidade, distanciando-se da figura frágil de Nina. Deixar o tripé de lado e registrar quase que o filme inteiro com a câmera na mão foi uma opção estética de Aronofsky e do diretor de fotografia Matthew Libatique. Nas cenas de dança, é possível sentir o cameraman dançando também para acompanhar a os braços e as pernas dos bailarinos.

Assim como The Ram em O Lutador termina sua trajetória sendo ovacionado e se autossacrificando em nome de um espetáculo de luta, Nina termina Cisne Negro da mesma forma – mas em nome de sua perfeição. Embora as dualidades entre Rainha e Cisne Negra, Nina e Lily, o lado doce e o lado mais escuro da alma da bailarina estejam presentes o filme inteiro, são os espelhos onipresentes que revelam o que realmente está acontecendo: refletir Nina significa que ela, e somente ela, é a chave de seu próprio mistério e o motivo de suas próprias limitações.