Beyond The Lighted Stage

Vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush estão no filme, sendo discutidos abertamente

Não é por acaso que você começa a assistir Rush: Beyond The Lighted Stage, o documentário que dá uma geral na carreira da banda canadense, e não consegue mais sair da frente da televisão (ou do computador, ou em qualquer outro tipo de tela). Na introdução do filme, nosso trio de protagonistas formado por Geddy Lee (baixo, voz e teclado), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) aparece fazendo um aquecimento nos camarins pouco antes de um show. Quando são apresentados e estão prestes a subir no palco, a cena muda e vemos três jovens garotos cabeludos numa filmagem branca e preta fazendo muito barulho em algum lugar do Canadá, bem no início da carreira do Rush.

Para completar a introdução matadora, os diretores Sam Dunn e Scot McFayden, incluíram breves e instigantes relatos de estrelas do rock, como Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (Nine Inch Nails), Sebastian Bach, Mike Portnoy (ex-Dream Theater), Tim Commerford (Rage Against The Machine), Jack Black (o ator, Tenacious D), Gene Simons (Kiss) e Billy Corgan (Smashing Pumpkins). Todos esses e alguns outros músicos aparecem em vários outros momentos do documentário para ajudar a contar a história do grupo e situá-la no cenário musical de quatro décadas de existência.

Terminada a introdução, os fatos começam a ser narrados cronologicamente. A partir daí, Dunn e McFayden não arriscam e não inovam, preferindo ir tecendo a história do Rush a partir do relato dos três membros da banda, dos depoimentos de suas mães, e de amigos, produtores, diversos músicos e outras pessoas que, de alguma forma, foram importantes na trajetória do trio. Fotos antigas e filmes caseiros são usados durante boa parte do documentário para situar o público no visual, na atitude e na forma de tocar da banda ao longo dos anos.

Geddy Lee, Neil Peart e Alex Lifeson no começo da carreira do Rush

Toda essa jornada é mostrada dividida em 13 capítulos dedicados a assuntos relevantes, como a juventude de Geddy Lee e Alex Lifeson, o encontro com Neil Peart, como foi a recepção de alguns discos (2112, Hemispheres, Moving Pictures, entre outros) e os anos recentes da banda. E vários assuntos que aguçam a curiosidade dos fãs do Rush – e que podem interessar quem não conhece a banda também – estão no filme, sendo discutidos abertamente. Alguns deles são:

Como o Rush foi deixando de ser uma banda de hard rock e entrou de cabeça no rock progressivo; e como começaram a abusar dos teclados nos anos 80; e como voltaram ao rock mais direto depois;

A complexidade das músicas da banda, cheias de mudanças de tempo e técnicas complicadas, como “2112” e “La Villa Strangiatto”. E os músicos revelam que até eles penaram para aprender as próprias canções (Peart chega até a comemorar, nos dias atuais, ainda ser capaz de tocar certinho “Tom Sawyer”, que ele considera difícil);

Como Peart lia muitos livros, a ele foi dada a tarefa de escrever as letras do Rush;

Como Peart é avesso a eventos sociais, relacionamentos calorosos com fãs e não abre mão de sua privacidade;

Como Peart lidou com a morte da esposa e da filha, percorrendo os Estados Unidos de moto e mandando cartões postais para os amigos com nomes falsos;

Como o Rush foi logo no começo da carreira identificada como uma banda nerd, um reduto dos tipos mais solitários, deslocados e com interesses diferentes através das décadas.

Enfim, é um documentário que vale a pena ser visto por quem conhece o som do Rush e por quem está interessado na história do rock em geral. Não é um filme que aponta novos estilos para a arte documental, mas cumpre muito bem o que promete.

Peart, Lee e Lifeson atualmente, ainda atuantes e tocando ao redor do mundo

 

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A visita de Lula

Lula e funcionários da Barra Bioenergia, na Cosan. Foto: Lucas Scaliza

O presidente Lula visitou Barra Bonita – ou, mais precisamente, a usina do Grupo Cosan S/A que fica no município – no dia 27 de setembro. Acompanhado do senador Eduardo Suplicy, do presidente da Unica (sindicato patronal das usinas) Marcos Jank e do presidente do conselho administrativo da Cosan Rubens Ometto Silveira Mello, entre outras autoridades políticas e empresariais. Na pauta do dia estava a inauguração simultânea de oito usinas termoelétricas de biomassa que utilizam o bagaço da cana-de-açúcar para gerar energia limpa e renovável.

É claro que uma presença dessas atraiu a imprensa da região e até da capital paulista. Nas fotos que fiz durante a visita, retrato o presidente Lula conhecendo a Barra Bioenergia (termoelétrica de biomassa da Cosan) e o trabalho de fotógrafos, jornalistas e cinegrafistas, sempre mantidos à uma “distância segura” da comitiva presidencial.

Neste dia, antes de eu ir até a Cosan cobrir um evento, uma colega de trabalho me entregou duas cartinhas coloridas (lacradas com adesivos em forma de coração) escritas por suas filhas para o presidente. Fiquei, assim, encarregado de entregar a delicada correspondência. Achei que as cartas teriam que ser entregues para algum assessor de Lula, já que era quase impossível chegar muito perto dele. Mas, durante sua sessão de fotos e abraços com a população no final do evento, Lula me ouviu gritar “Presidente, duas cartinhas de duas crianças da cidade!” e pude entregá-las pessoalmente na mão dele. De quebra, ganhei um aperto de mão do presidente.

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Lula, Marcos Jank e Rubens Ometto. Foto: Lucas Scaliza

Para ser fotografados por Ricardo Stuckert, fotógrafo oficial de Lula. Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

A imprensa. Foto: Lucas Scaliza

Gilmar, assessor do presidente, coordena os jornalistas. Foto: Lucas Scaliza

Stuckert dirige a cena. Foto: Lucas Scaliza
Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

Foto: Lucas Scaliza

No meio do povo. Foto: Lucas Scaliza
Os fotojornalistas e cinegrafistas. Foto: Gilmar

Eu, durante o trabalho. Foto: Angela Rodrigues

O Resto é Ruído

E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena

A capa da edição brasileira venceu o Prêmio Jabuti 2010. Seu designer foi Retina_78 (www.retina78.com.br)

Faz apenas algumas horas que terminei de ler O Resto é Ruído – Escutando o Século XX. Escrito pelo crítico de música Alex Ross (New Yorker) e editado no Brasil pela Companhia das Letras (@cialetras), o livro-reportagem é um colosso de 680 páginas que viajou comigo por várias cidades, conheceu muitos cômodos de várias residências e dormiu ao meu lado praticamente todas as noites dos últimos meses, fazendo vigília.

Seguindo a narrativa de Alex Ross – às vezes descritiva, às vezes técnica, às vezes literária – percorri todo o mundo da música clássica e seus desdobramentos nos últimos 100 anos. São histórias fascinantes sobre Richard Strauss, Gustav Mahler, Igor Stravínsk, Arnold Schoenberg, Jean Sibelius, Benjamin Britten, John Cage, Duke Ellington, Dmítri Chostakóvitch, Karlheinz Stockhausen entre muitos outros que foram importantes de uma maneira ou de outra no século XX. Ross não apenas nos traz longas e significativas histórias biográficos de cada um desses homens (rondados por opulência, amores, morte, brigas pessoais, medos e incertezas), como mostra porque são nomes importantes na história da música até hoje.

Não raro, o autor passa várias páginas apenas contando a história de certas óperas e obras sinfônicas (como Salome, A Sagração da Primavera, Peter Grimes) e ressaltando detalhadamente como cada instrumento da orquestra se comporta, nos dizendo onde prestar atenção para atestar a modernidade, a vanguarda ou o romantismo da peça em questão. E como o século passado foi rico em eventos políticos, Ross usa a música para nos guiar através do cenário político das 1ª e 2ª Guerras Mundiais, Guerra Fria, New Deal norte-americano e as revoluções sociais que tomaram corpo na década de 1960.

Alex Ross, crítico de música da New Yorker, passou 15 anos pesquisando até concluir seu livro. Foto de Lisa Carpenter

Se você gosta de música clássica, vale a pena entrar em contato com a obra. Se for um pianista ou violinista clássico, o livro torna-se obrigatório. Se você não ouve os compositores clássicos mas quer conhecer a fundo a música, vale a pena ler. Se for um guitarrista de uma banda de rock preocupado em fazer arte, a leitura é obrigatória.

O Resto é Ruído é o resultado de 15 anos de pesquisa em bibliotecas, centros acadêmicos, biografias e conversas com músicos ainda vivos. Suas várias páginas de agradecimentos, índices remissivos e notações bibliográficas justificam a enorme quantidade de páginas. Publicado originalmente em 2007, seus autores podem usufruir das facilidades que a internet e a banda larga proporcionam para a “compreensão auditiva” do livro. É provável que muitos leitores nunca tenham ouvido as sinfonias de Mahler e Chostakóvitch, as óperas de Strauss e Wagner e peças de Debussy, Bartók, Boulez e John Adams, mas basta procurá-las no YouTube para ter uma ideia de como aquilo soa. Depois é só acompanhar as análises de Ross.

Alguns compositores participaram tantas vezes e por tanto tempo da história do século que a narrativa sempre volta a falar de suas peripécias musicais. Isso faz com que gente como Strauss, Stravínsk, Schoenberg e Mahler tornem-se verdadeiros personagens da obra. E quando você menos espera, sente toda a melancolia do mundo ao ler apaixonadamente a descrição dos últimos dias de vida de Strauss, perguntando-se se teria o herói do livro saído de cena.

O Resto é Ruído não é apenas a história da música. É a história social e política do mundo. A história de homens e dos homens. Histórias que merecem ser conhecidas.

 

PS. Minha próxima empreitada literária – e põe literária nisso – já está fazendo vigília ao lado da minha cama. É 2666, do chileno Roberto Bolaño. Daqui há alguns meses relatarei o que vou viver em sua companhia.

 

Um “machete” e várias cabeças voando

Fundo político é superficial e acaba prejudicando a história do novo filme de Robert Rodriguez

Danny Trejo é Machete, um mexicano que mata com facões e lâminas

A cena de introdutória de Machete, o novo filme de Robert Rodriguez, dá uma ideia do que será todo o resto dessa sangrenta obra: Machete, o personagem de Danny Trejo, invade o covil do grande vilão do filme, o traficante Torrez, interpretado por Steven Seagal. Armado de um “machete” (um facão), ele mata brutalmente cada um dos bandidos que atravessam seu caminho, seja atravessando-os com a lâmina ou decepando-os. Ele está no México, sua terra natal, atrás de uma menina que ele acredita ser uma refém. Depois de encontrá-la, ficamos sabendo que tudo era uma armação: a garota não era refém e o chefe de Machete na divisão policial em que ele trabalhava é um parceiro de Torrez. A mulher do protagonista é decapitada na frente dele e, ao que parece, ele é o próximo a morrer.

Mas a cena corta e somos lançados no tempo, três anos após esses eventos. Machete está nos Estados Unidos, onde vive como um imigrante ilegal. Sartana Rivera (Jessica Alba) é uma policial encarregada de mandar os imigrantes ilegais de volta para o México, mas está mais interessada em adentrar no mundo da “rede”, uma organização informal de imigrantes que ajudam outros imigrantes no filme. Luz (Michelle Rodriguez) interpreta uma espécie de líder da “rede”.

É época de eleição nos EUA do filme e o senador John McLaughlin (Robert De Niro) tenta se eleger propondo uma legislação mais dura com imigrantes mexicanos e a construção de uma cerca elétrica na fronteira dos dois países. É claro que sua audiência está baixa entre os eleitores. Para consertar isso, seu assessor Booth (Jeff Fahey) manipula Machete para que ele faça um atentado contra o senador durante um de seus discursos no Texas, alegando que as medidas do parlamentar podem arruinar a ordem econômica natural daquele estado. É claro que é uma armação e Machete, um “nacho” ou “pancho”, acaba sendo incriminado. E assim, num passe de mágica, as intenções de voto de McLaughlin disparam.

Em sua busca por proteção e vingança, Machete deixa um rastro de sangue. Usa muito seu facão, mas também tesouras e motosserras de jardinagem, lâminas cirúrgicas, revólveres e o que mais puder empunhar. Para escapar de um hospital, usa até mesmo o intestino de um dos capangas de Booth. É um banho de sangue e os diretores Robert Rodriguez e Ethan Maniquis não fizeram muita coisa para amenizar ou transformar a brutalidade dos personagens em algo cool, como acontece nos filmes de Quentin Tarantino. Machete é, do começo ao fim, uma obra com cara de filme B. Ou ele não tem estética alguma ou sua estratégia é justamente essa: parecer um filme tão árido quando o solo texano.

O fundo político criado por Rodriguez, que também escreveu o roteiro, é tão superficial que fica difícil levar a sério sua faceta política. O senador e seu assessor estão lá, bancando os caras maus com a retórica conservadora de como os “chicanos” atrapalham os EUA. Os imigrantes também estão em cena, embora sejam mostrados mais como sobreviventes do que como “cidadãos” que lutam por seus direitos com argumentos plausíveis. E até os guarda-costas dos poderosos discutem o assunto, de forma risível, segundos antes de serem atacados por Machete e suas lâminas.

Ainda temos o policial linha dura Von, um caçador de imigrantes na fronteira, pau mandado do senador. E, por fim, Torrez, o traficante latino que financia a campanha de McLaughlin para que sua droga chegue mais cara aos EUA. É triste dizer, mas Steven Seagal está deprimente no papel. Para um vilão, parece mais como um dos leões de chácara que Machete assassina.

Steven Seagal é o traficante Torrez, um papel que deixa muito a desejar

Na verdade, o verdadeiro vilão de Machete é seu roteiro. Bandidos dando explicações sobre coisas que o público já descobriu sozinho e retóricas mal elaboradas sobre política. Fora isso, há cenas que desafiam nosso conhecimento de mundo. Quando o senador é acusado de todos os crimes cometidos com seu consentimento na frente das câmera de TV, ele simplesmente sai andando pela lateral sem que um único repórter lhe faça perguntas ou o persiga colocando o microfone em sua boca. No final, em outro momento pretensamente político, a personagem de Jessica Alba faz do capô de um carro o seu palanque e, como se também estivesse em campanha, convoca todos os imigrantes mexicanos a ajudarem Machete. E aquele bando de homens durões, que não pareciam interessados na mulher, segundos depois parece comprar o discurso.

Diferente de outros filmes do próprio Rodriguez e de Tarantino, Machete parece se levar a sério demais, como se o que tem a dizer sobre a fronteira mexicana realmente levantasse novas formas de pensar a questão. Mas em alguns momentos ele parece se achar meio palhaço, como na cena em que um imigrante invade o quartel general de Von com uma espingarda e um carrinho de sorvetes, enquanto todos os outros aparecem de moto ou carros tunados. Que da próxima vez que quiser aproximar violência extrema e política, Robert Rodriguez possa se perguntar antes de ligar as câmeras: “O que eu realmente quero dizer com esse filme?”