Homem fibra

Eduardo Mazzoni apresenta o Predador, sua escultura feita em fibra de vidro. “Gosto de desafios", ele diz

Eduardo Mazzoni trabalha com fibra de vidro há 40 anos e é um dos poucos profissionais brasileiros que já se aventura sozinho com a fibra de carbono. Já morou na Argentina e rodou o Brasil todo com um carro que ele mesmo projetou

Por uma semana, a garagem (que também é oficina e ateliê) de Antonio Eduardo Mazzon serviu de abrigo para o Predador, aquele guerreiro espacial que vem à Terra caçar seres humanos e que ficou famoso ao contracenar com Arnold Schwarzenegger no filme de 1987. Na última quinta-feira, Eduardo conseguiu um manequim de roupas e, sobre ele, começou a usar a manipulação de fibras de vidro – habilidade a qual se dedica há 40 anos – para compor seu personagem.

Eduardo nasceu na rua Frei Caneca, na gema de São Paulo. Já morou em Buenos Aires, rodou o Brasil todo – boa parte dele a bordo de um carro que ele mesmo projetou –, construiu embarcações em Ubatuba e veio parar em Barra Bonita há 4 anos e meio. Quando morava na Zona Norte de Sampa, era vizinho de Ayrton Senna, um moço que estava começando a correr de kart. Tem 58 anos, foi casado seis vezes e tem 16 filhos, dos quais cinco moram com ele.

Sua especialidade e sua fonte de renda são trabalhos de criação e reparo em materiais de fibra de vidro (fiber glass). Há um ano e meio começou a se aventurar também pelo terreno da fibra de carbono, tecnologia utilizada nos carros de Fórmula 1 que poucos dominam. Já fez trabalhos com fibras numa grande sala para plantas de um triplex de Hebe Camargo e em um aquário de Roberto Carlos.

Nunca teve chefe e nunca teve medo de mudar o curso de sua vida quando quis. Faz trabalhos mais práticos para garantir seu sustento, mas sua paixão mesmo são as produções que demandam grandes doses de criatividade. Sempre que aparece uma brecha entre um projeto e outro, usa a imaginação para criar coisas como o Predador que ilustra essa matéria.

Você pode contatar Eduardo Mazzon ou conhecer seu trabalho através do site www.edufibras.com.br

Eduardo trabalha no corpo de seu Predador em sua oficina/ateliê. Sempre foi autônomo e só aceitaria ter um chefe se ele fosse tão criativo quanto ele próprio

Quem te ensinou a mexer com fibra?

Não sei, fui aprendendo praticamente sozinho. Até hoje não existem cursos no Brasil para trabalhar com fibras. Eu mexia com funilaria, aí pulei pra fibra e estou com ela e vivo disso até hoje. Se bem que o que eu gostaria de fazer mesmo era entalhar em madeira. Até tentei fazer isso uma vez, mas por causa das encomendas que faço para viver fiquei sem tempo. Aprendi com um grande entalhador em Ubatuba conhecido como Bigode. Gosto dessa coisa de criar!

A fibra é considerada um dos materiais do futuro. Você sente que ela é valorizada?

Sim. Hoje não falamos nem mais na fiber glass, a fibra de vidro. A bola da vez é a fibra de carbono ou o aramida (Kevlar), que é superior ao carbono, inclusive. O carbono é do futuro mesmo. Ele tem tudo: resistência, durabilidade, leveza e beleza. Daqui a dois ou três anos a fibra de carbono terá um peso enorme no mercado. Tem um ano e meio que comecei a trabalhar com carbono. Meu irmão que mora na Inglaterra me mandou uma apostila sobre o assunto. É um material caríssimo.

A fibra de carbono é muito mais cara que a fibra de vidro?

Fica uns 300% mais caro. Acho que sai uns R$ 450 ou 500 o metro quadrado da fibra de carbono, incluindo a mão de obra. Ela aguenta temperaturas altíssimas de 400 graus. O que geralmente não aguenta tanto assim é a resina, que deve ser misturada com um produto chamado NPG, que poucos conhecem. Com a mistura você aumenta em 40% a resistência dela ao calor. E tem resina para todo tipo de finalidade.

Você faz carenagens para motos. Já projetou quantas peças dessas?

Até agora tenho 88 modelos diferentes para triciclos e motos de 150, 250, 300, 500 cilindradas, para vários modelos e tamanhos. Até o fim do ano espero criar mais 25 que estão na minha cabeça. Crio tudo, desde a matriz até o molde para fazer tantas carenagens quanto forem necessárias. Além das peças para motos faço barcos, pedalinhos, pranchas de surf, revestimentos para madeira e concreto. No momento, o carro chefe do meu trabalho estão sendo os banheiros químicos para ônibus.

“Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta”

O senhor é autônomo atualmente?

Sempre fui, nunca tive patrão. Se fosse um patrão bom e criativo, até aceitaria trabalhar com ele, mas ainda não encontrei um assim. A questão financeira logo aparece e aí a coisa não acontece. Dizem que os grandes mestres – e os grandes artistas que conheci – são sonhadores. Não sei se dá para ser um sonhador com cinco filhos em casa, mas a gente tenta. (risos)

O que lhe dá mais prazer produzir?

Criações como essa do Predador. Ele é praticamente uma estátua, criado quase que do nada. Só depende da criatividade e da imaginação de quem faz. Para algumas coisas que faço o certo seria existir um curso para ensinar o pessoal a fazer também, mas para outras não tem escola que ensine. É coisa que vem de dentro de quem faz, é como um dom!

Eduardo e o carro que construiu há 23 anos sobre o chassis e o motor de uma Brasília. Andou mais de 10,5 mil quilômetros com ele e não precisou fazer nenhum reparo

Qual é o maior desafio que enfrenta fazendo esse Predador?

A cabeça e a expressão dos olhos são as partes mais difíceis de fazer. A posição de braços e pernas para deixá-lo agressivo também são detalhes que merecem atenção. Afinal, ele tem que parecer ameaçador, tem que mostrar que veio caçar mesmo. Num carro, por exemplo, a parte mais difícil de fazer é a porta. São muitos detalhezinhos para que ela fique bem ajustada ao carro.

Antes dessa estátua, você já havia feito um capacete com o rosto do Predador. Como surgiu essa idéia?

Um amigo ia a uma festa a fantasia e queria uma máscara do Predador. Fiz um modelo para ele, mas gostei da coisa. Resolvi aperfeiçoar o projeto e transformá-lo num capacete mesmo. Um grupo de motociclistas da Paraíba, chamados Carcarás dos Sertões, encomendou 12 capacetes desses, sem pintura, para eles personalizarem como quisessem. Também vendi alguns para Manaus, quatro em São Paulo e mais um em Bauru. É uma atração legal para os encontros de motos, o que preciso é anunciar tudo isso.

Além do Predador, está trabalhando em algum outro projeto criativo?

Estou criando um capacete com a forma da cabeça de um Pit Bull agora. Além desse já comecei a preparar outro em forma de tubarão e ainda outro com o rosto do Cebolinha, da Turma da Mônica. É só eu ter um tempinho livre que começo a criar alguma coisa. O tubarão é mais fácil de fazer que o Pit Bull, pois tenho que ficar esperto com a expressão do cachorro, a relação do focinho com os olhos do animal, as distâncias, etc. Quem olhar, tem que ver um Pit Bull mesmo!

Quanto tempo o senhor perde olhando as fotos do Pit Bull, do Predador e do tubarão para conseguir reproduzir as sutilezas das imagens nos capacetes?

Levo uns dois dias para estudar as imagens. Olho, saio para dar uma voltinha, olho de novo e assim vou fazendo até minha mente “fotografar” a imagem. Aí começo a fazer um lado do capacete, depois me preocupo em fazer o outro lado idêntico ao primeiro. O capacete tem que ser simétrico.

Já trabalhei para a Rosa de Ouro fazendo cavalos alados, fiz trabalhos para a Barroca da Zona Sul, escola de samba de São Paulo. Se me chamam para fazer algo assim, fico o dia inteiro, vou criando, não saio mais de lá. Gosto dos trabalhos com criatividade, mas meu ganha pão está sendo outros tipos de serviços, como os banheiros rurais, reparos e carenagens.

Mas se você ficasse em São Paulo trabalhando com as escolas de samba, não daria para tirar uma boa renda?

Se eu me dedicasse a isso, certamente tiraria uma boa grana. É que agora estou longe da capital. Se eu mandasse um e-mail para alguma escola de samba falando do meu trabalho não teria problemas em encontrar serviço. Quando estava em Araçatuba, queriam me pagar R$ 5 mil só para fazer escapamentos de competição em fibra de carbono para o Alexandre de Barros. Não me interessei. Queria ficar mais livre, acho. Não estou mais na idade de virar funcionário de alguém.

Entre os pioneiros da fibra que Eduardo conheceu estão Sid Mosca, designer de capacetes da Fórmula 1, e Homero Naldinho, influente criador de pranchas de surf

Por que resolveu investir na produção de banheiros químicos para ônibus?

Quando cheguei a Barra Bonita abri a janela do meu quarto um dia, vi a cidade e pensei: “Eu mexo com fibras. O que vou fazer aqui no interior, onde nada estraga ou corrói?”. Então olhei para o canavial e pensei de novo. “Espera, vou ter que fazer algo relacionado a isso”. Foi assim que surgiram os banheiros rurais.

Estes banheiros são os produtos que mais contribuem com sua renda?

Atualmente eles me dão maior e mais rápido retorno financeiro. Se bem que vendo muitas peças de motos por aí.

Como eles começaram a dar resultado?

Um senhor de Jaú pediu a alguns profissionais que fizessem banheiros para ônibus rurais para ele, mas nenhum conseguiu. Então mostrei a ele o meu trabalho e ele me passou o projeto de como queria o banheiro. Em uma semana fiz o produto. Esse senhor, inclusive, sentou no banheiro para testar! (risos) No ano passado, ele comprou muitos destes, mas eram do modelo que ele tinha me passado. Como eu já tinha feito muita coisa por aí, pensei em fazer um design de banheiro que fosse meu. Fiz um menor, mais arrojado e bonito que serviria para ônibus, barcos, trailers, rodoviárias, entre outros lugares. Cabem 34 litros de dejetos nele. O único problema desses banheiros químicos é o odor, mas tenho um projeto para um banheiro que não sofrerá desse mal.

“Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira”

É difícil aprender a mexer com fibras?

Não é difícil, mas quem quiser precisa se preparar para enfrentar a coceira. Quem não está acostumado a mexer com os materiais que uso aqui vai ficar se coçando pelos primeiros dois ou três meses. Depois para. É bom que alguém aprenda a mexer com fibras, porque é uma ocupação que dá futuro, quase tudo usa esse material hoje em dia.

Muita gente trabalha com fibras de carbono no Brasil hoje em dia?

Pelo que andei me informando deve haver apenas umas 32 pessoas que mexem com carbono. São pouquíssimas pessoas mesmo. O que recebo de convites e propostas em meu site não é brincadeira. Nas três empresas onde compro meu material ninguém conhece quem são as pessoas que mexem com fibras de carbono.

Eduardo e um pedaço de fibra de carbono, material do futuro, utilizada em carros de Fórmula 1

Em 1971 o senhor foi para Buenos Aires. O que foi fazer por lá?

Naquela época eu mexia com rádio amadorismo, lembro até que meu prefixo era TX-20832, e aprendi a falar castelhano conversando com argentinos. Acabei conhecendo uma argentina que foi até São Paulo me ver, depois voltei com ela para Buenos Aires. Quase me casei por lá. (risos) O pai dela tinha uma indústria de curtume muito grande chamada El Cuero e até achei bacana todo o processo, mas não quis trabalhar com aquilo. Como já mexia com fibras na época, fui convidado para trabalhar num hotel muito chique de lá. Então fiz o formato das camas arredondadas, molduras de quadros, entre outras coisas. Viajei pela Argentina toda nessa época e me aperfeiçoei muito. Os argentinos eram muito caprichosos e técnicos quando trabalhavam com a fiber glass.

E depois que voltou ao Brasil, o que fez?

Montei uma empresa própria de fibra no Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Minha vida por um tempo foi consertar carros Puma. A empresa que fazia o carro me mandava casos que precisavam de consertos e reparos que ela própria não fazia. Fiz muitas réplicas que me pediam também, como Ford 29 e jipes.

Há um carro que você fabricou sozinho. Como ele foi feito?

Levou um ano e meio pra terminar de fabricá-lo e já o tenho há 23 anos. Como ainda não existia fluoretano para facilitar, a matriz dele foi toda feita em eucatex e gesso. Fiz tudo: para-choque, grades, portas, capô, etc. O chassi, a suspensão e o motor dele são de uma Brasília e a transmissão eu tirei de um SP2. É levinho, só a carroceria pesa menos de 200 quilos. Com ele rodei o Brasil todo até Manaus e Acre. Da última vez que viajei com ele andei 10,5 mil quilômetros e não usei uma única ferramenta! Tive que projetá-lo a partir do zero praticamente, foi uma das criações que mais me deu trabalho até hoje.

Você morou um tempo na praia. Conheceu muita gente que sabia trabalhar com fibras por lá?

Resolvi mudar para a praia e me instalei em Ubatuba. Lá eu fazia muitos modelos de pranchas de surf. Trabalhei com o Hamilton Prado por seis anos, ele é dono de uma das maiores fabricantes de skate do Brasil. Ele era muito criativo, fizemos muitas coisas com fibra e nos tornamos grandes amigos. O Homero Naldinho, precursor e maior fabricante de pranchas do Brasil, era um mestre em mexer com fibras de vidro, injeções de fluoretano e dar forma a pranchas. O outro que conheci foi Sid Mosca, pioneiro em produção de capacetes para Fórmula 1. Ele está um pouco adoentado agora, é um grande amigo meu… (se emociona) Todos os capacetes do Schumacher, todos do Barrichelo e do Massa foram feitos por ele. Foi o primeiro cara com quem conversei sobre fibras de carbono na vida, e isso há 16 anos. Acredito que uma pintura de capacete dele deva custar uns R$ 15 mil. Seus capacetes de carbono têm seis malhas (camadas) de fibras, da mais fina para a mais grossa. Foi esse pessoal aí que brincava de professor pardal comigo anos atrás. (risos)

Já fez algum trabalho com o Sid Mosca?

O primeiro que fizemos juntos foi uma pista de boate, muitos anos atrás. Era uma pista de 40 metros quadrados, com oito milímetros de espessura e transparente, porque as luzes vinham de baixo do piso. E o piso tinha que aguentar o pessoal, era uma discoteca de verdade. Capacete com o Sid eu fiz apenas um, mas meu forte na época eram fibras para carros. Depois passou para motos e agora vamos ver o que acontece daqui para frente.

“Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai”

Você já construiu barcos e escunas com madeira. Foi algo que planejou fazer?

Quando cheguei em Ubatuba, perguntei: “Onde é que vou usar meus serviços com fibra aqui?”. Então comecei a fazer tanques especiais para barcos de pesca. Depois fiz botes salva-vidas. Até que conheci um senhor que fabricava embarcações e tinha 50 anos de experiência nisso. Comecei a aprender com ele e trabalhamos juntos por quase quatro anos. Logo depois comecei a fazer barcos no quintal de casa, que era muito grande. Comecei a entender que tipos de madeira usar para fazer o fundo da embarcação, a lateral, as partes internas, etc. Fiz seis escunas para grã-finos e a maior delas tinha 30 metros. Ao todo, devo ter feito uns 20 barcos de pesca de até 14 metros de comprimento.

Com tudo isso no currículo, o que veio fazer em Barra Bonita?

Uma firma de Recife estava com problemas em uma embarcação aqui em Barra Bonita e não encontrava ninguém que resolvesse o problema. Então me dispus a vir para cá fazer o serviço. Não sabia nem onde ficava esta cidade, vim com a ajuda de um amigo. Em uma semana fiz o que tinha que fazer, mas logo emendei em outro serviço, depois em mais um barquinho, fui bem recebido aqui, fiz amizades, achei a Barra bonita e acabei decidindo ficar. Saí do certo e vim para o duvidoso.

“A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!”

Mas não foi uma decisão duvidosa até demais?

Quando você tem uma profissão você não tem que ter medo de lugar nenhum. É como um médico, que arruma o que fazer em qualquer lugar. Se eu não arrumasse trabalho aqui, arrumaria em Jaú, ou Bauru, em cidades maiores talvez. A gente inventa o que fazer, volto a ser funileiro, me torno pescador, e por aí vai. Para trabalho, essa cidade me traz muito pouco retorno. Mas ela é linda, o povo é hospitaleiro e é muito mais arrumada do que muitos lugares que visito pelo país.

Parece que o senhor não tem medo de mudar sua vida de direção.

Não mesmo, não tenho medo do mundo! Não fiz faculdade, mas estudei muito e viajei para fora do Brasil. A pessoa tem que aproveitar sua vida enquanto é jovem… (pausa) É que eu me nego a envelhecer, meu espírito não envelhece!

Seu espírito criativo vem dessa disposição e da falta de medo que diz ter?

Acredito que sim. Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna. Meu pai tem 84 anos e se alguém quiser assaltá-lo terá de ser com injeção, porque ele nunca precisou de uma. Ele não tem uma única dor na unha, porque ele é alegre o dia todo. Esse é o maior remédio que pode existir! Às vezes vejo na padaria logo cedo umas caras verdes, amuadas, tristes, problemáticos… sei que todos têm problemas, mas com cara feia o conflito aumenta.

Depois que terminar a escultura do Predador, o que gostaria de fazer?

Gostaria de ter condições de criar mais coisas, gosto dos desafios, só preciso de tempo. Sempre acredito que as coisas vão dar certo no final, então já acordo com o pensamento positivo. Dificilmente alguém me vê triste. Assim, a coisa fica mais fácil.

"Durmo e acordo sorrindo, tenho uma enorme felicidade interna", diz Eduardo
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A Origem: Nem tudo foi um sonho

O filme mais engenhoso do ano funciona, mas peca ao apostar em vários planos narrativos e não apresentar uma profundidade dramática a altura. [Atualizado] Contém spoilers sobre o final

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, uma espécie de espião que entra nos sonhos para obter informações

Da primeira cena de A Origem (Inception, 2010) até o seu final, o espectador tem pouquíssimos momentos de descanso. Simplesmente não dá para sentar na poltrona do cinema ou no sofá de casa com o cérebro desligado para assisti-lo. É um filme que precisa da mente para ser apreciado – e entendido. Não que ele seja muito complexo ou “cabeça” demais, mas é longo e com vários níveis narrativos, por isso carece de atenção.

Em sua nova empreitada, o diretor Christopher Nolan (responsável por Batman – O Cavaleiro das Trevas) teve um orçamento de 160 milhões de dólares e um ótimo elenco disponível para contar a história de Dom Cobb (Leonardo DiCaprio), um tipo muito particular de espião. Com a ajuda da tecnologia, ele e seu grupo consegue adentrar o subconsciente das pessoas, enganá-las durante os sonhos e roubar ou obter informações preciosas. No início do filme, Cobb e seu parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt) estão dentro dos sonhos de Saito (Ken Watanabe), um poderoso empresário do ramo energético, tentando conseguir informações para uma empresa rival. O plano falha e eles são obrigados a fugir, mas Saito faz uma proposta: se conseguirem não roubar, mas inserir uma ideia na mente de um jovem empresário que logo herdará o império do pai moribundo, Cobb deixará de ser um procurado em solo americano. E isso é tudo que Cobb quer.

Desde o início, há uma avalanche de informações. Afinal, estamos falando do complexo mundo do subconsciente humano, cheio de armadilhas e incertezas. Conforme personagens novos são introduzidos (como o próprio Saito ou a arquiteta Ariadne, interpretada por Ellen Page) novas explicações vão sendo dadas, servindo ao espectador como uma introdução à arte e à engenharia da invasão de sonhos.

Não demora nada para percebemos que demônios do passado assombram Cobb e estão seriamente comprometendo seus planos. Sua falecida esposa Mal (Marion Cotillard), continua aparecendo em seus sonhos e cobra que o protagonista vá ficar junto dela. Falar mais do que isso estragaria boa parte da trama.

 

Marion Cotillard é Mal, esposa de Cobb, que ainda atormenta o seu subconsciente

A Origem pode ser considerado o filme mais engenhoso do ano. Sua construção cheia de flashbacks da relação de Cobb com Mal e a inserção de imagens do passado no presente já seriam suficientes para manter o cérebro de quem assiste funcionando e tentando entender o que realmente está acontecendo. Mas Nolan vai mais fundo e abusa das possibilidades dos sonhos, dividindo a ação do filme em vários níveis narrativos, chegando ao cúmulo de criar, além do plano real de existência dos personagens, mais cinco camadas de sonhos (e em todas elas alguma coisa está acontecendo). Se você não entendeu muito bem como funciona a engenharia dos sonhos, explicada quase exaustivamente na primeira metade da película, torna-se uma tarefa difícil compreender e se localizar com precisão em sua metade final.

A trama, então, deixa de ser só uma história e vira um exercício virtuoso de roteiro – coisa a que Christopher Nolan está bem acostumado, visto outros filmes seus como Amnésia ou Insônia. Com a tecnologia em seu favor, o roteiro serve como ponte para uma direção virtuosa, mas só em alguns momentos (como nas cenas em que a gravidade é suspensa dentro do hotel). Os efeitos especiais não são meros artifícios estéticos dentro de A Origem e não tiram em momento algum a atenção do enredo. Quando são usados, geralmente mantêm o aspecto real dos ambientes e dos personagens.

 

Ellen Page é Ariadne, a habilidosa arquiteta

A trilha sonora composta por Hans Zimmer tem uma participação interessante na obra. Ela tem clima, mas não é totalmente etérea, como se esperaria de uma trilha para sonhos. A forma vigorosa que assume em momentos de maior tenção – como em diálogos decisivos, perseguições e lutas – ajudam a expressar a materialidade dos sonhos. As tensas notas graves sustentadas por oito compassos – executadas em várias partes do filme – reforçam essa impressão. Fora isso, a escolha da clássica “Non, Je Ne Regrett Rien”, de Edith Piaf, não é nada inocente. Usada como um aviso de que “os sonhos estão chegando ao fim”, sua letra é uma melancólica projeção da condição de Dom Cobb na história.

Embora o projeto de A Origem tenha sido concebido para não ser um filme assim tão fácil, ele peca justamente por pretender ser cerebral demais. Suas 2 horas e meia repletas de tramas que se chocam e sonhos dentro de sonhos cansam a mente. São situações demais sendo processadas ao mesmo tempo em planos diferentes que acabam não tendo a força dramática necessária. E isso compromete todo o tempo “gasto” tentando entender o filme.

A cena final de sonho, quando Cobb resolve acabar de vez com seus problemas e encontra Saito numa espécie de limbo, fica a impressão de que tudo está pacífico demais, correto demais, pré-agendado. Faltou, quem sabe, alguma reviravolta (se é que nosso cérebro, já bastante fatigado até aqui, conseguiria suportar mais essa). No final, nem tudo foi um sonho e mesmo o que se sonhou, foi real. A história, em resumo, é a de um pai que queria voltar pra casa.

SPOILERS SOBRE O FINAL

Após assistir ao filme, muita gente ficou em dúvida na cena final. Afinal, Dom Cobb volta para a sua casa no mundo “real” ou continua sonhando? O filme termina antes que possamos ter certeza se o peão continuará girando eternamente ou cairá. Mas há uma revelação que nos dá a resposta. Na cena final está o pai de Cobb, interpretado por Michael Caine, que afirmou em uma entrevista para a BBC 1 que a cena final se passa no mundo real. “Se meu personagem está em cena é o mundo real… eu nunca estou nos sonhos”, explicou.

The Suburbs: sufoco urbano

Para o Arcade Fire, parece que estamos sozinhos com nossos próprios problemas e não adianta esperar por milagres para resolvê-los

The Arcade Fire: terceiro disco do septeto canadense The Suburbs explora mais profundamente temas abordados em álbuns anteriores

The Suburbs, terceiro álbum do The Arcade Fire, chegou com a força de um tornado. Simplesmente arrebatou a crítica e grande parte de seus fãs. Para a própria banda canadense isso deverá refletir em como a banda será tratada mundo afora e até em como negociará suas apresentações. Depois de entrar de cara no panteão das must see bandas do indie rock em 2004, puderam expandir a influência em 2007 com Neon Bible. Com o terceiro álbum em mãos e prontos para rodar o mundo, tudo indica que se tornem uma mega banda – sonho de qualquer garoto do subúrbio.

A beleza e parte da originalidade de The Suburbs começa em sua capa, muito antes do disco começar a rodar. São oito capas diferentes (apenas uma por CD), então se você quiser colecioná-las, terá que compra oito álbuns. Contudo, como mostra o site oficial do grupo, ao juntarmos as oito imagens numa animação sequencial elas formam um vídeo de um carro que passeia por oito locais diferentes do subúrbio. E é nesse contexto que nossa experiência musical começa, pegando uma carona com o Arcade Fire pelas ruas do lugar que parece sufocá-los.

Uma das oito diferentes capas de The Suburbs. Quando animadas juntas, formam uma animação que nos leva de carro pelas paisagens dos subúrbios

E não é de hoje que os temas cantados em The Suburbs incomodam esses canadenses. Falar da cidade, da vizinhança, dos empregos que nos entediam ou castram nossa real felicidade, do que significa crescer e, sobretudo, olhar para as crianças nesse contexto são todos assuntos já tratados nos álbuns anteriores. A tetralogia “Neighborhood”, de Funeral, “(Antichrist Television Blues)” e “Windowsill”, de Neon Bible, são exemplos bem acabados disso. Até mesmo os carros já estavam presentes anteriormente (“In The Backseat”, “Keep The Car Running” e “No Cars Go”).

O que o novo trabalho faz é deter-se com mais atenção sobre esses temas e elaborar canções muito bem acabadas sobre eles. “The Suburbs” e “Ready to Go”, que abrem o disco, têm versos amargos sobre a vida, mas não tristes, musicalmente falando. De forma geral, a tristeza do álbum (mais acentuada em “Wasted Hours”, “Sprawl (Flatland)” e “Half Light I”) assume uma forma mais melancólica do que depressiva. É Win Buttler, guitarrista e vocalista do grupo, cantando sobre a vida vista do ponto de vista de um adulto. O tempo que se perdeu, as transformações do ambiente, o que virou o emprego, as frustrações, o que sobrou das esperanças e o apego aos subúrbios, ao local onde “se aprendeu a dirigir”, como diz a faixa introdutória.

“Modern Man” apresenta compassos 9/8, que podem arranhar os ouvidos menos acostumados com formas rítmicas mistas, mas a má impressão começa a sumir depois da terceira audição. Tirando isso, The Suburbs não apresenta técnica apuradíssima. Os acordes geralmente são tríades, raramente apresentando uma nona, sétima ou sétima aumentada. Não há solos memoráveis solos (no máximo pequenos e raros riffs de guitarra ou piano) e absolutamente nenhum abalo nas estruturas da música pop ou rock. As 16 faixas do álbum seguem o esquema da canção: versos, pontes, refrões, clímax [ou anticlímax, como em “The Suburbs (continued)” e “Sprawl (Flatland)”].

Mesmo sem transgressão musical, The Suburbs apresenta 16 músicas que aproveitam muito bem cada um dos seus sete músicos. Até a voz de Régine Chassagne, mulher de Butler, participa mais dessa vez do que em Neon Bible. Ela conduz “Empty Room”, faz um dueto com o marido na climática “Half Light II (No Celebration)” e protagoniza “Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)”, uma das melhores faixas do disco e com um dos melhores refrões também, bem ao estilo Depeche Mode.

Solidão e tédio são as forças que mais agem sobre as letras de The Suburbs. Andar de carona pelos subúrbios que ainda vivem na memória dos sete músicos do Arcade Fire é como acompanhar um sufocamento: as paisagens urbanas estão em ruínas desde sempre, principalmente por causa do modo como a vida se organiza nelas. Um vazio que nos leva a ser solitários, duelando com conflitos internos próprios enquanto vivemos em comunidade. E, só pra citar “Sprawl II”, nem as infindáveis montanhas de lojas são capazes de nos alegrar com o estoque de sonhos e ilusões pronto para descarregar sobre nós.

É um álbum perfeito para se ouvir sozinho ou viajando. Mas ouvi-lo enquanto viaja sozinho dá vontade de nunca mais sair da estrada, conhecer várias neighborhood e sprawls e nunca se acomodar em um deles. Com uma temática tão terrena e humana, nenhuma música ousa virar-se para Deus ou qualquer força sobrenatural que seja. Para a banda, parece que estamos sozinhos com nossos próprios problemas e não adianta esperar por milagres para resolvê-los.

Numa era em que somos inundados por novas bandas e novos bons álbuns a cada semana, nos acostumamos com a velocidade da internet e como quão rápido migramos de um lançamento para outro. The Suburbs tem menos de uma semana de vida, mas é tão completo musicalmente e rico em suas letras que fico pensando se seremos capazes de digeri-lo completamente antes qualquer outra novidade apareça e tire a atenção dele.