Kick-Ass, com violência pop

Ousado na medida certa Kick-Ass fala de super-heróis e trata com respeito a adolescência, como filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer

Quando fez sua crítica de Kick-Ass – Quebrando Tudo (Kick-Ass, 2010) para a revista Veja, Isabela Boscov comparou a violência, as referências pop e o fundinho de sensibilidade do filme com Pulp Fiction, obra do diretor americano Quentin Tarantino vencedora da Palma de Ouro em Cannes em 1994. Ela acerta o diretor, mas erra o filme. Kick-Ass está muito mais próximo de Kill Bill. É praticamente um Kill Bill com e para adolescentes.

Baseado na HQ homônima de Mark Millar e John Romita Jr, Kick-Ass começa indo direto ao ponto. A câmera corta as nuvens do céu de Nova York enquanto várias narrações em off intuem a possibilidade de existir um herói de verdade, com poderes de verdade. Ao chegar ao topo de um prédio, um homem com uma fantasia vermelha abre suas “asas” e se joga lá de cima. Lá de baixo, todos assistem maravilhados sua a queda livre que acaba esmagando um táxi. Infelizmente, não há superpoderes.

Na sequência, somos apresentados a Dave Lizewski (interpretado pelo inglês Aaron Johnson), um adolescente comum. Não é bonitão, não é fortão e não existe sequer uma menina interessada nele. Dave é constantemente assaltado e gostaria que alguém fizesse algo quanto a isso, alguém que não decidisse simplesmente não se envolver – como um herói dos quadrinhos faria. Conversando com seus dois únicos amigos, ele chega a conclusão de que se super-heróis existem, são pessoas extremamente comuns, como Peter Parker ou Clark Kent. Num misto de senso de justiça com delírio juvenil, ele compra uma fantasia verde com máscara e treina uma coreografia na frente do espelho. Sente-se um herói.

Dave (centro) e seus dois amigos numa loja de quadrinhos. A referência não é gratuita

Logo em sua primeira atuação como defensor dos oprimidos, Dave é esfaqueado na barriga e atropelado por um carro. Seu corpo é remendado com pinos e placas de metal, o que lhe dá menos sensibilidade à dor. “Sou como o Wolverine!”, é seu primeiro pensamento. E ele volta às ruas como herói mascarado. Dessa vez, apesar de apanhar bastante, consegue salvar um latino que estava sendo perseguido. O ato de heroísmo é gravado por celulares de gente que também decidiu não se envolver e vai parar no YouTube e nas páginas de jornal, transformando Kick-Ass (nome do “herói’) em sensação do momento.

Mas há um grande traficante na cidade (Mark Strong) que vai começar a caçar Dave/Kick-Ass, achando que é ele quem está matando seus homens. É aí que entram duas grandes pérolas do filme. Big Daddy, interpretado por Nicolas Cage, e Mindy, a letal heroína mirim Hit-Girl, vivida com garra incrível pela pequena Chloë Grace Moretz. Juntos, eles vão atrás dos homens do mafioso Frank D’Amico, até que chegue a hora de cortar de vez a cabeça da organização. É uma vingança de Big Daddy contra o homem que destruiu sua vida quando ainda era um bom policial. Fazendo justiça com as próprias mãos, treinou a filha para ser uma arma mortal. As cenas de violência (alternando momentos mais crus com outros estilizados, mas sempre ultrapop e muito coloridas) são as protagonizadas por Hit-Girl. Se o espectador não se incomodar em ver uma menina fofa de 10 anos matando inúmeras pessoas sem um pingo dó, vai se empolgar com suas ótimas participações.

Quando Mindy, a insana Hit-Girl, está em cena, espere pelo banho de sangue

Violência colorida e pop, vingança, justiça com as próprias mãos e uma menina mortal. Elementos que estão em Kill Bill. E como no filme de Tarantino, a violência de Kick-Ass é usada por Matthew Vaughan, estreando na direção, como exercício de estilo e linguagem. E Vaughan, como Tarantino, também foi criticado por isso pela crítica que não entendeu – ou não teve estômago – para encarar uma criança que fala palavrões e mata mais do que qualquer outro personagem adulto. De Pulp Fiction, este filme guarda paralelos com a sensibilidade dos personagens, como disse Boscov, mas em suas origens revela-se o paralelo mais claro. Pulp Fiction veio da influência da literatura B publicada em revistas americanas; já Kick-Ass usa como base os quadrinhos, que são vistos por muitos críticos e acadêmicos como a literatura B de hoje. Na cena em que Vaughan explica a rixa do traficante com Big Daddy, a tela se transforma em uma belíssima HQ, com várias cenas diferentes em cada quadro. (Tarantino, em Kill Bill, usou uma cena de anime para contar a história de O-Ren Ishii, só para traçar mais um paralelo formal entre as duas produções)

Mas as obras de Quentin Tarantino são para adultos, embora o público mais jovem também goste. Já Kick-Ass é claramente para adolescentes e não leva mais de 15 minutos para percebermos isso. Dave e seus amigos concentram todas as necessidades e hábitos de adolescentes comuns. A procura pelo sexo oposto, as trapalhadas, a inexperiência e principalmente a vontade de encontrar um lugar confortável no mundo. Quando Dave finalmente se ajeita com seu interesse romântico, ele quase abdica de ser o herói do YouTube. Afinal, encontrou na realidade um estímulo mais completo do que o proporcionado por uma fantasia cafona.

Dave vestido de Kick-Ass e Mindy como Hit-Girl

Desde o início, tem um pouco de Watchmen no filme. A impotência de Dave como Kick-Ass se agrava conforme ele vai percebendo que não tem nem mesmo supercapacidades. Ao encontrar Hit-Girl, infinitamente mais bem preparada do que ele, Kick-Ass vira mais um ideal do que uma entidade que valha a pena ser posta em atividade. No entanto, não dá para dizer que o filme trata do “crepúsculo dos heróis”, pois é com heroísmo assombroso (e humanidade comedida) que a história termina.

Ousado na medida certa (aquela que incomoda e gera discussões, sabe?) e muito divertido, Kick-Ass – Quebrando Tudo faz o que promete com competência. Fala de super-heróis, fala da justiça e da vingança, e trata com respeito a adolescência, jogando na cara dela montes de erros e equívocos que filmes “mais direitos” até agora não conseguiram fazer, talvez por não ousarem tanto.

Trailer para maiores de Kick-Ass.

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Uma consideração sobre “Kick-Ass, com violência pop”

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