Família excêntrica contra a indústria bélica

Jean-Pierre Jeunet cria montes de estratagemas e se esquece de desenvolver satisfatoriamente os personagens

O filme mais famoso de Jean-Pierre Jeunet é, sem chance de errar, o cultuado O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. A adorável menina do título nos conquista com seu jeitinho meigo e esperto, o humor fino funciona bem e a trama, sempre em movimento e sempre com novos desdobramentos, flui com certa naturalidade.

Na sequência, Jeunet se apoia no sucesso de Amélie Poulain para contar uma história de época, novamente protagonizado pela Audrey Tautou: Eterno Amor. No enredo, a personagem de Tautou é novamente uma mulher esperta atrás de pistas que a levem ao paradeiro de seu noivo, que ela acha que não morreu na Primeira Guerra Mundial. Cheio de acontecimentos e ritmo rápido, como Amélie, filme está cheio de estratagemas com pelo menos duas linhas temporais para acompanharmos. Aspirando a épico (o que ele não chega a ser, ficando restrito ao campo do drama, e isso é bom), o filme nos sobrecarrega de informações, fingindo que a história é mais sofisticada do que realmente é. Mas, no final, entre mortos e feridos, o saldo é positivo.

Em seu novo filme, Jeunet arma-se de velhos maneirismos, de uma fotografia caprichada, de um humor francês fino e cerca-se de bons atores para… fazer um filme mediano. Micmacs (Micmacs a tire-larigot, 2009) tem suas marcas registradas: começa apresentando uma história trágica, mas contada com uma leveza capaz de nos tirar sorrisos, usando movimentos de câmera bem elaborados, pondo tudo em perspectiva e em várias cenas deixa que saibamos do que está acontecendo e a gravidade desses fatos apenas com as imagens, sem que seja necessário o diálogo. De quebra, o filme ainda faz uma divertida sátira com o mundo do comércio de armas internacional.

O protagonista Bazil, ainda criança, perdeu o pai quando este pisou numa mina terrestre construída por uma empresa bélica francesa. Acabou fugindo da tristeza de casa e da ditatorial escola católica. Trinta anos depois, enquanto vigiava uma loja durante a madrugada, é atingido bem no meio da testa por uma bala perdida, fabricada por outra empresa bélica francesa. Os médicos decidem no cara ou coroa a vida de Bazil, e resolvem não extrair o projétil de sua cabeça. Assim, ele viverá o resto dos seus dias podendo cair morto a qualquer momento.

Sem emprego e sem perspectiva na vida (a não ser a da câmera de Jeunet), Bazil vai viver na rua até ser encontrado por Placard, um homem que o leva a uma família excêntrica. Cada um de seus membros tem uma habilidade/disfunção: Calculette, a menina capaz de calcular qualquer coisa; Fracasso, que se gaba de ter entrado para o Guinness Book; Petit Pierre, inventor de máquinas a partir de peças encontradas no lixo; Caoutchouc, mulher elástica capaz dos mais improváveis contorcionismos; Remington, que finge ser outra pessoa muito bem; e Tambouille, matrona da estranha família.

Enquanto trabalha com essa família, Bazil encontra o prédios das duas empresas bélicas: uma responsável pela fabricação da bala que a qualquer momento matá-lo e outra fabricante da mina que matou seu pai. Mais engenhoso que a personagem de Amélie Poulin, Bazil cria ciladas e estratégias para se vingar das duas empresas e vai contar com as habilidades pessoais de cada um de seus “irmãos”, que não o questionam em momento algum.

Aí começam os problemas: algumas ciladas dão certo até demais. No terceiro ato do filme, quando Bazil é pego pelos dois grandes vilões do filme e levado para um interrogatório, seus companheiros parecem que sabiam exatamente para onde estavam indo e armam várias armadilhas pelo caminho. Mas, afinal, como é que sabiam exatamente aonde iriam? Na obsessão por criar diversos estratagemas e usar as habilidades de cada um na família, os personagens acabam sendo subaproveitados e muito pouco explorados no que diz respeito à psique de cada um. É por isso que o romance de Bazil e Caoutchouc parece tão insosso.

Com um início promissor e meio de campo enrolado, Jean-Pierre Jeunet volta a se encontrar no final. Apesar de tudo, a última façanha da trupe de desajustados contra os lordes da indústria bélica francesa faz uma crítica muito bem humorada ao comércio de armas no mundo, tentando demonstrar no discurso deles a hipocrisia e a falta de preocupação dos negociantes de arma com a humanidade. Só faltou o diretor se preocupar um pouco mais com o lado emocional dos humanos que escalou para contar essa história.

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Já estamos na ilha

O público da série, reflexo da sociedade pós-moderna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas

Por Francisco Trento (twitter: @_xico)

"Modernidade Líquida" (Imagem disponibilizada sob licença Creative Commons em http://www.flickr.com/photos/centralasian)

Na maioria das vezes a crítica associa o sucesso de Lost às técnicas narrativas inovadoras, à torrente de mistérios, surgidos com maior velocidade do que suas soluções, ou às inúmeras referências intertextuais presentes no pro­grama. Sim, todos esses fatores transformam-no em um produto de qualidade invejável. Mas talvez seu grande trunfo esteja na forma como os personagens são construídos: redondos e de personalidade indefinível; diferente da dualidade tradicional dos seriados de televisão, ou dos comuns núcleos família/hospital/departamento de polícia norte-americanos, que descrevem um mundo dualista e plano que não existe mais.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. Pro­va disso é o próprio cartaz de divulgação de Lost, que conta com imagens de mais de 20 per­sonagens. Por mais absurda que possa parecer a frase que vem a seguir, nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté­rios.

Vivemos o pluralismo de ideias, ideologias e culturas; tudo isso se chocando. […] Nos identificamos com aqueles cujos destinos foram alterados pela ilha e seus misté rios

Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu livro Amor Líquido, nossa era vive uma série crise de iden­tidade e de quebra constante de conceitos consolidados por séculos. Vivemos a “Modernidade Líquida”. Isso se reflete no modo como desenvolvemos nossas relações pessoais e afetivas. “O palco para a ação é um recipiente cheio de amigos e inimigos, no qual se espera que coalizões flutuantes e inimizades à deriva se aglutinem por algum tempo, apenas para se dissolverem outra vez e abrirem espaço para outras e diferentes condensações.”, afirma o estudioso, em uma de suas obras mais conhecidas.

A figura que tão bem representa essa sociedade líquida é um território fictício fora de nosso espaço-tempo, tamanha a complexidade da dinâmica de nossas relações no século XXI. Os habitantes (ou passageiros) desse mundo-ilha são as figuras do nosso planeta – um confronto de estereótipos, de incertezas, de identidades que mudam a todo momento. Ninguém é bom ou ruim: o caráter e os laços afetivos formados no paraíso insular são leves e fracos: se desfazem com a mesma facilidade com que são criados e conforme os interesses deixam de existir. Os valores, antes fixos e imutáveis, agora deixam apenas vestígios do que já foram. O casal coreano, antes preso às rígidas tradições asiáticas, se acos­tuma com a proximidade de “estrangeiros”. Jack Shepard, o médico cético, tem um salto de fé, enquanto John Locke, o “homem da fé”, desacredita em todas as suas convicções e tenta o suicídio. Sayid, o torturador iraquiano, se apaixona por uma bon viván, tudo aquilo que estava costumado a combater. Benjamin Linus é o mais difícil de de­cifrar: sua personalidade na mesma frequência das reviravoltas de seus interesses.

O público da série, reflexo da sociedade pós-mo­derna, é fruto do bombardeio de incertezas e influ­ências a serem seguidas ou rejeitadas, e se identifica com os personagens e suas decisões, geralmente equivocadas.

Todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva

Desmond é o personagem que busca o retorno da solidez perdida no último século, evaporada ao mesmo tempo em que os modelos da modernidade ruíam. É aquele que, apesar de ter no inconsciente a noção de que entrou em um ciclo de incertezas e absurdos, ainda insiste em buscar ter de volta um porto seguro: seu amor sólido, combatido a todo instante pelas casualidades. Não é surpresa que, apesar de não estar presente em sequer metade dos episódios do seriado, seja o preferido da maioria dos fãs: todos somos Desmond, perdidos nesse oceano de transformações, sem saber o que o mundo nos reserva: seja nas relações afetivas, na segurança, nas epidemias, no emprego, nos confron­tos culturais, ou em nossa própria identidade. Não sabemos se estamos no fim de nossa jornada, ou se haverá solução para esse vai-e-vem constante de novidades e medos, que de tão complexos beiram a abstração total.

Contato do autor: francisco.trento@gmail.com

Walter Salles em On The Road

Walter Salles vai dirigir elenco com Sam Riley, Kristen Stewart e Kirsten Dunst

Capa do livro editado pela Companhia das Letras

Agora está confirmado: a adaptação cinematográfica do clássico da beat generation On The Road vai sair do papel e as filmagens começam em agosto. Escrito por Jack Kerouac, o livro narra as viagens e desventuras de Sal Paradise e Dean Moriarty pelas estradas, bares e jazz dos Estados Unidos da década de 1950. Ao lado de Allen Ginsberg e outros escritores do movimento beat, Kerouac tornou-se um dos mais reverenciados escritores norte-americanos, capturando com vivacidade o espírito da juventude da época, no meio da ebulição da contracultura.

On The Road (o filme) estava nos planos da produtora Zoetrope, de Francis Ford Coppola, fazia 30 anos. Quando se falava publicamente do assunto, havia mais rumores do que decisões. Entretanto, as últimas semanas não só confirmaram a realização do projeto como já escolheu o diretor, o brasileiro Walter Salles, e o elenco principal: Sam Riley (Control), Garrett Hedlund (Tron – Legacy), Kristen Stewart (a Bela da saga Crepúsculo) e Kirsten Dunst (a Mary Jane de Homem-Aranha).

Wlater Salles rodou os EUA em busca dos lugares e pessoas citadas no livro. O registros dessa viagem é o documentário Em Busca de On The Road

Antes de assumir a direção do longa, Walter Salles rodou os Estados Unidos procurando os lugares e as pessoas (ou o que sobrou de vestígio delas) citadas no livro. Essa viagem foi registrada no documentário Em Busca de On The Road, ainda inédito e sem data de estreia. A contratação do cineasta é empolgante justamente porque ele conhece a obra de Kerouac e fez uma extensa pesquisa sobre o tema para seu documentário. Além disso, Salles já dirigiu um road movie (Diários de Motocicleta) e tem um modo de filmar muito próprio. Se ele tiver nos EUA tanta liberdade quanto tem em seus próprios projetos, podemos esperar cenas poéticas como aquelas presentes em Abril Despedaçado e Linha de Passe.

Em uma entrevista publicada hoje no O Globo, o diretor conta que o roteiro final do filme foi escrito a partir da edição original do livro, muito mais “livre, ousada e radical do que a versão que foi editada em 1957 e que sofreu os efeitos da era McCarthy”.

“Estamos falando de personagens que tiveram a coragem de se reinventar contra a sua época, contra tudo e contra todos. Em muitos casos, os anos que estamos vivemos são tão conservadores quanto os anos 50. É nisso que essa história é interessante: ela permite entende que mesmo quando tudo conspira contra, é possível inventar novas formas de se relacionar com o mundo”, disse o diretor na entrevista.

A atriz Kristen Stewart, ainda jovem no mercado cinematográfico, ficou conhecida ao interpretar a protagonista da série blockbuster Crepúsculo. Trabalhar com Walter Salles num road movie e em um projeto com peso simbólico tão grande quanto On The Road é uma ótima oportunidade para ela mostrar que tem talento e que é muito mais do que uma menina que sofre dividida entre um vampiro e um lobisomem.

Kristen Stewart ganhou uma oportunidade de mostrar mais e melhor os seus talentos como atriz

Road Salt One

A primeira parte do álbum duplo de Pain of Salvation mostra som anos 70 e as mesmas angústias humanas de álbuns passados

Em Road Salt One (2010) a banda amplia suas fronteiras musicais

Ao encarar uma crise econômica, a banda sueca Pain of Salvation viu seus planos de lançar um novo álbum serem adiados. Então ela aproveitou para lançar em 2009 o duplo Ending Themes – The Second Death Of, registro ao vivo em CD e DVD da banda durante a turnê de Scarsick, álbum de 2007. E no final do ano passado mostrou ao público um pouco do que já haviam gravado lançando o EP Linoleum com quatro novas faixas e um cover do Scorpions.

Este mês sai Road Salt One, primeira parte de um álbum duplo que dará continuidade a uma história iniciada em The Perfect Element, disco de 2000, e retomada em Scarsick. O vocalista e principal mente criativa por trás da banda, Daniel Gildenlöw, avisou pelo site oficial do grupo que o novo disco teria influências setentistas. Porém, ao escutarmos as suas 12 faixas, temos certeza de que a palavra influência pode ser um eufemismo. Road Salt One tem muito do som anos 70 e explora raízes de blues, jazz e rock daquela época que até então não tinham sido incorporados de forma tão evidente em trabalhos passados.

A ótima produção das músicas não as maquiou demais, conservando a sonoridade real de cada instrumento dentro do estúdio. Isso contribui para que cada faixa soe o mais orgânica possível, até mesmo cruas em alguns momentos. Embora seja um álbum que claramente prioriza o papel das guitarras de Daniel e Johan Hallgren, o trabalho com os pianos de Fredrik Hermansson está muito mais marcante do que estava em Scarsick e em álbuns mais antigos. Aliás, o piano é responsável por vários dos temas mais significativos da obra.

Daniel Gildenlöw (vocal e guitarra) com novo visual e Johan Hallgren (guitarra) com seu habitual estilo

Dessa vez não há flertes com a disco music e nem com o rap/hip hop. O Pain of Salvation manteve-se mais ligado ao rock, como em “No Way”, “Curiosity”, “Darkness of Mine” e “Linoleum” (a única faixa do álbum que estava no EP de 2009). As canções alternam a reverberação do overdrive com breaks e passagens mais leves, abrindo espaço para algumas estilizações e criação de texturas com a guitarra e o teclado.

“She Likes to Hide”, “Of Dust” e “Tell Me You Don’t Know” dão a cara mais raiz e bluseira do disco. E a tristeza que transborda de “Road Salt” e “Where It Hurts” servem como anticlímax (e isso se refere a estética apresentada pelo Pain of Salvation, o que não quer dizer que seja ruim. Na verdade, o anticlímax é muito bem executado dentro da proposta da banda). E como já é costume com esses suecos, temas densos são tratados de forma densa, mas com ironia também.

“Sleeping Under The Stars” e “Innocence” são os momentos mais experimentais dessa viagem. A primeira é uma valsa um tanto excêntrica e inesperada no álbum. A segunda é um rock atmosférico cheio de altos e baixos, coros, suspiros, distorção, ritmos arrastados e agressividade. “Sisters”, uma das mais belas de Road Salt One, tem a melhor letra do álbum. O ouvinte passeia com ela por vales tristes até chegar a um acesso de raiva (ou seria angústia?).

O novo baterista Leo Margarit com Fredrik Hermansson, Hallgren e Gildenlöw

Depois de trocar de baixista duas vezes desde 2006, quem assume o posto  é Per Schelander, como contratado por enquanto. Com a saída de Johan Langell para se dedicar mais à família, Leo Margarit foi escalado para a bateria e até já aparece ao lado de Gildenlöw, Hallgren e Hermansson em fotos de divulgação. Margarit mostra neste disco que tem pegada para diversos estilos musicais e sabe soltar a mão nas horas certas.

No final, é um álbum diferente dos demais na discografia dos suecos. Triste e nebuloso, como há de ser a história de She e He, os personagens principais dessa conturbada estrada que não parece levá-los a lugares bonitos. Amor corroído, sexo doído e encontros cheios de lágrimas são novamente abordados nas letras. É Daniel Gildenlöw cantando mais uma vez sobre o comportamento e as emoções humanas.

Road Salt One nos faz esperar com mais ansiedade pela sua segunda parte. Os anos 70 continuarão a soar? E quanto às letras? Essa história terá chegado ao fim? As respostas devem aparecer em outubro deste ano.

Clipe oficial de “Linoleum” (de longe, o melhor da banda até agora)

A Origem

Acaba de ser lançado na rede o novo trailer de A Origem (The Inception), novo filme de Christopher Nolan, o diretor de Batman – O Cavaleiro das Trevas. O projeto, que vinha tentando fazer com que pouquíssimas informações sobre sua trama fossem reveladas,  ganhou mais detalhes nas últimas semanas. O novo trailer, aliás, passa mais informações e dá uma maior ideia geral sobre como será o longa-metragem, cujo roteiro foi trabalhado por Nolan por quase 10 anos.

Na trama, Leonardo DiCaprio é Dom Cobb é o melhor ladrão que há na arte da extração, o roubo de segredos das profundezas do inconsciente durante o sono com sonhos. Sua notável habilidade o transformou em uma peça fundamental no traiçoeiro mundo da espionagem industrial, mas também um fugitivo internacional. Agora Cobb tem a chance de recuperar tudo o que perdeu e de redenção, caso consiga fazer o inverso da extração, a inserção. Ao invés de roubar uma ideia ele e sua equipe terão que plantar uma. Mas é claro que nem tudo vai correr como esperado e um habilidoso oponente vai aparecer, prevendo cada movimento da equipe. E Cobb será o único capaz de enfrentá-lo.

A maior parte do filme foi rodada em película 35mm. A Origem estreará em salas Imax também

Nolan comentou em uma recente entrevista para o Omelete que filmou A Origem com quatro tipos de película: 35mm, 65mm, Imax e VistaVision. “Filmamos a maior parte do filme, o grosso, com película 35mm anamórfico, que é a melhor qualidade e o formato mais prático de todos para filmar. Filmamos algumas sequências-chave em 65mm. Então temos um rolo de negativo que é da maior qualidade possível, abaixo do IMAX. Nós achamos que não poderíamos filmar em IMAX por causa do tamanho das câmeras. Uma vez que este filme lida com um aspecto surreal, que são os sonhos, eu queria que fosse o mais realista possível. […] Então temos a mais alta qualidade de imagem de qualquer filme que está sendo feito e que também nos permite reformatar o filme para o formato de qualquer distribuidor.”

Além de DiCaprio, o elenco tem vários outros nomes conhecidos, como os de Ken Watanabe (que filmou com Nolan Batman Begins), Ellen Page (a protagonista de Juno), a oscarizada Marion Cotillard e o veterano Michael Caine. A não ser Dom Cobb, nenhum outro personagem foi detalhado ainda. O filme estreia em 16 de julho.

Leonardo DiCaprio é Dom Cobb, ladrão especialista em extração durante o sono com sonhos
A julgar pela trama e pelos trailers, há uma mistura de dois mundos no filme. Por isso já o compararam com Matrix

A estreia está prevista para 16 de julho

Retratos caricatos de Jason Seiler

Chris Martin, Darwin, Al Gore, Jay-Z, Putin e, claro, Mr. Bush na arte de retratar

Charles Darwin

Figuras políticas, da música, do cinema e do showbiz estão entre as pessoas retratadas por Jason Seiler, caricaturista e desenhista que colabora para o The New York Times, Time Magazine, The Weekly Standard, MAD Magazine entre outras publicações.

Seiler não deforma seus personagens até ficarem irreconhecíveis. Exagera nas bochechas, na testa, nos olhos, na boca ou simplesmente estiliza uma imagem para que ela se transforme numa caricatura. Do contrário, seriam apenas retratos. Ele usa o Photoshop e renderizadores de imagem para dar uma aparência tridimensional aos trabalhos.

No seu blog, Seiler posta fotos de trabalhos ainda inacabados e discute um pouco de como é fazer cada imagem. Em seu site, é possível ver amostras de trabalhos já publicados e conhecer um pouco melhor o artista.

Ben Stiller
Adrien Brody
Clint Eastwood
George Lucas
Chris Martin
Johnny Cash
Thom Yorke
Jay-Z
Meg & Jack White, dos White Stripes
Kieth Richards
Al Gore
Vladimir Putin
Precisa dizer?

“Ainda tenho muito a mostrar”

Muito à vontade, Dominguinhos fala sobre suas inúmeras parcerias musicais, seu medo de voar e até do que pensa sobre a política

Eram três horas da tarde de domingo quando Dominguinhos, um dos maiores ícones da sanfona brasileira, desceu as escadas do Hotel Turi em Barra Bonita, bem à vontade. Usava chinelos, uma calça bem folgada e camisa de linho listrada. Não usou o seu tradicional chapéu nem na coletiva de imprensa e nem na hora do show. Quando um grupo de pessoas percebeu que o sanfoneiro pernambucano subira ao palco sem o habitual elmo, gritaram: “Dominguinhos, o chapéu! Põe o chapéu!”. “Ô, minha gente”, ele respondeu antes de começar a dedilhar seu instrumento, “esqueci o chapéu lá em Lins” (cidade onde tinha se apresentado na noite anterior).

Meu encontro de quase uma hora com o músico de 69 anos de idade foi muito proveitosa. Acompanhado por outros jornalistas, a entrevista deu uma geral na carreira, falamos de suas inúmeras parcerias com outros artistas renomados, de sua infância e lembrou de Luiz Gonzaga, mestre do baião e seu mento no início da carreira. Comentou o seu medo de viajar de avião e, quando perguntado sobre política, revelou que pretende votar no governador José Serra este ano, a quem se referiu como “o careca de São Paulo”. Mesmo sendo pernambucano, deixa claro que não é um fã do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu conterrâneo.

Dominguinhos é pai de três filhos e tem mais de 60 anos de carreira, visto que começou tocar ainda criança. Seu primeiro álbum, Fim de Festa, foi gravado em 1964. Já o último, Dominguinhos Iluminado, é instrumental e está cheio de participações, como Gilberto Gil, Elba Ramalho, Yamandu Costa, Arthur Maia, e outros. Mas o cantor diz que não deve parar por aí. “Tenho muito material guardado, mas não tenho para quem mostrar, não tenho quem gravar”.

Dava uma fita K7 para o Chico Buarque e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos!

O senhor lembra-se de já ter tocado com um grupo da cidade, chamado Tribo Terra, e participou com eles até num festival da Rede Globo?

Foram dois acontecimentos em Barra Bonita, tocar com esse grupo e o projeto Asa Branca. Toquei em Lins ontem e percebi que eles são muito carentes de música do Norte. Notei que lá tem muitos “cabeças-chatas”, muitos conterrâneos meus. Na Barra o fluxo de turistas é maior e é uma cidade mais próxima de São Paulo. Fico triste por não ter trazido meu netinho de um ano e cinco meses para andar de barco e passear nos parques daqui.

Reside onde atualmente?

Em São Paulo. De lá vou para qualquer lugar.

E o pique de tocar ao vivo? Você tem datas agendadas até o meio do ano.

Para mim é mais difícil cumprir a agenda porque eu ando de carro. Ele é  muito lento e cansativo para vencer determinadas distâncias e datas. Pelo menos no estado de São Paulo andamos muito bem, porque as estradas são boas. Dá pra varar 250, 300 quilômetros sem problemas. Já no Nordeste, fazer essas distâncias é muito sofrido. Andei de avião por mais de 30 anos, mas há 25 que não voo mais. Deu medo e parei, mas estou pensando em voltar.

Teve algum problema em voo para desistir de voar?

Não, nada me aconteceu. O medo foi chegando, chegando.

Depois de tocar no interior de São Paulo, vai para onde?

Bom, por enquanto estamos nesse projeto com a Casa de Cultura e Cidadania até o dia 1º. Depois vou para o Nordeste participar de uma homenagem à Ciburca com a Orquestra Sinfônica da Paraíba em João Pessoa. Chico César atualmente é o secretário de Cultura de lá. Depois, vem a época junina, e aí aparece bastante trabalho na Bahia, Paraíba, em Sergipe e Pernambuco.

O senhor já fez parcerias com muitos músicos renomados, tanto em shows como em composições. Uma das últimas parcerias foi com Yamandu Costa no álbum Yamandu + Dominguinhos. Como essas parcerias acontecem?

Acho que é  por causa da simpatia com o trabalho de cada um, não tem outro motivo. O Yamandu, por exemplo, conheci em um ensaio no Rio Grande do Sul, junto de Renato Borghetti e de outro bamba do acordeom, Luiz Carlos Borges. O Yamandu tinha 15 anos na época e apareceu por lá com o violão debaixo do braço. Disse que gostava muito do que eu fazia, tocou algumas músicas minhas e resolvemos tocar juntos. Foram participações pequenas aqui e ali, até que ele apareceu com a proposta de fazermos um disco solado juntos. E fizemos, lançado pela Biscoito Fino. Depois fizemos o DVD, gravado pela TV Cultura. E fiz mais discos de solos, com o Iluminado, com várias participações, um de frente pro outro, bem à vontade para solar.

As bandas novas colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo!

O senhor também é da célebre época do Riocentro. Pode nos contar um pouco sobre esses anos e os amigos que fez por lá?

Nessa época encontrei o Gilberto Gil, a Gal, o Caetano, o Chico Buarque, e vários outros. Éramos amigos, todos novinhos e tocávamos juntos, andávamos juntos. As reuniões que fazíamos no Riocentro eram constantes. Lá eu tocava sempre com Paulinho da Viola, Moraes Moreira, Jorge… Ninguém tinha grupo direito, cada um levava um instrumento e tocávamos. Era um movimento da turma daquele tempo.

Foi dessa época que saíram várias de suas célebres parcerias. Demora para que elas saiam do papel?

Essas amizades e parcerias vêm de muito tempo. Uma vez, perguntei ao Chico: “Chico, tem como fazermos uma melodia juntos?”. Aí eu dava uma fita K7 para ele e só dois anos depois ele devolvia a minha música com a letra. Numa segunda oportunidade, dei a fita pra ele e ele só me devolveu depois de 15 anos! (risos) O Gil também demora. Agora ele está colocando letra numa música minha para um disco junino. Não sei se vai terminar a tempo. Dei uma fita uma vez para o Djavan e ele mostrou para o Orlando Moraes, marido da Glória Pires. E o Orlando fez a letra antes que o Djavan. Aí, não sei se ele ficou com vergonha ou o que, mas resolveu gravar a música. E o Orlando gravou também. Mas sempre foi assim, sem afobação e sempre por amizade.

Como sua música é vista no estado de São Paulo?

É difícil responder. Neste estado trabalha-se mais com cantores sertanejos, os chamados “caipiras de luxo”, que fazem grandes produções. Tem muitos rodeios e vaquejadas, mas nós, cantores nordestinos, não entramos na programação dessas festas.

Os prêmios Grammys que o senhor concorreu consideraram sua música como regional, mas o baião, o forró e o xote são considerados estilos musicais brasileiros nacionalmente reconhecidos. O que acha dessa rotulação de “regional”?

Pois é, acho que deveriam acabar com essas divisões de sertanejo, MPB, etc. Deveriam acabar com os rótulos.

Em 60 anos de carreira, 50 só de profissional, sabe quantos álbuns vendeu?

Nunca soube ao certo. O Roberto Carlos, que está comemorando seus 50 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos. Eu não sei como conseguiram esses dados, é algo bem difícil [de contabilizar]. Geralmente as contas de gravadoras são fechadas.

O público mudou muito nesses 50 anos?

Hoje acho que o público é mais informado, a garotada parece mais interessada, ela vê mais coisas pela televisão, os pais falam de determinados artistas ou são nordestinos. A informação começa dentro de casa, na escola, com os avós.

O que acha dos novos grupos de forró  que estão aparecendo?

Gosto muito. Mesmo as bandas do Ceará, da Paraíba e Pernambuco, que sabemos que não fazem um forró verdadeiro, nos ajudam muito falando do que fazem. No entanto, o grande acontecimento da música nordestina são os trios. Como o Falamansa, Trio Virgulino, Chamego, Sabiá, e por aí vai. A fórmula é a mesma: zabumba, sanfona, triângulo, pandeiro.

E o forró  atual, o forró universitário, o tecno-brega?

Não houve uma transição de ritmos, continua a mesma coisa. A mudança foi com as bandas. As novas bandas de forró fizeram com que toda a [atenção] da música nordestina convergisse para elas, de uma forma que quem quiser se estabelecer tem que ter as características delas. Eu uso baixo e guitarra na minha banda, mas não abandonei o triângulo e a zabumba, que não me deixam fugir [do padrão]. E as bandas novas ainda colocam um bocado de bailarinas no palco para o show ficar bonito. (risos) Eu até penso em mudar o nome da minha banda para “Os bonitinhos do forró”, porque tenho só cabras feios no meu grupo! (gargalhadas) São bandas que se produzem e fazem grandes produções, como Calcinha Preta e Aviões do Forró, mas que de forró não tem nada.

Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos.

Tem algum artista que apareceu da década de 1990 pra cá  que o senhor admira?

De 90 pra cá? Tem o Djavan, mas esse já tem um grande tempo de carreira. Eu estava no Rio quando ele apareceu, fazendo aquele samba bem balançado do começo da carreira dele. Um novo de que gosto muito é o Jorge Vercilo. Cantoras não, elas vêm de penca. São muitas que apareceram pra gente escolher. Desde Ana Carolina até Mariana Aydar e minha própria filha, Lívia Moraes. Hoje, quando um artista estoura, ele já tem 10, 15 anos de carreira.

Um mestre do senhor foi Luiz Gonzaga. Desde seu primeiro disco, Fim de Festa (1964) até o seu mais recente registro ao vivo, em 2009, muitos artistas apareceram dizendo que o senhor é uma referência para eles. Além do mais, o senhor mudou o jeito de se fazer baião e forró.

Luiz Gonzaga mudou o jeito de se cantar e de se acompanhar o canto. Ele foi único nisso, nunca vi outro que cantasse e tocasse sanfona como ele na música nordestina. E eu estava ali ao lado dele! Mas vários músicos me ajudaram: Chiquinho do Acordeom, Orlando Silveira, os [violões de] sete cordas Dino, Rafael Rabelo e agora o Yamandu. Dei sorte com os sete cordas. Passado o tempo, fui mudando a estrutura do baião e do forró. O baião era “liso”, e comecei a tocar um baião chorado. Pegava alguns sambas e choros, mudava algumas coisas e os transformava em baião. O forró surgiu quando Gonzaga mudou a batida da zabumba. Quem comanda verdadeiramente o forró é o zabumbeiro, é ele quem conhece as batidas e encaminha o resto da banda. Toquei na noite, fui músico de boate por muito tempo, toquei muita música americana. Eu fui andando com minha música enquanto Gonzaga ficou na dele, seguro no que fazia. Eu era mais transgressor, ia forçando as coisas até mudar os estilos. (risos)

O compositor erudito Maurice Ravel, pouco antes de morrer, chorou em uma apresentação de uma de suas obras em Paris e lamentou por ter tantas ideias ainda para mostrar e não poder por causa de seu estado de saúde grave. Depois de 50 anos de carreira profissional, o senhor sente que ainda tem muito a mostrar como compositor?

Acho que não tenho a quem mostrar, porque muita coisa armazenada eu tenho. O Hermeto Paschoal também tem muita coisa guardada. Ele levou um bom material de música clássica para a Alemanha. E sua música fez o maestro da orquestra chorar. Ele quis saber o porquê do choro e o intérprete disse que o motivo era a beleza da música do Hermeto, porque o maestro nunca tinha ouvido nada como aquilo. Ou seja, a gente tem muita coisa armazenada que não tem como e com quem gravar. Hoje em dia, os artistas estão fazendo trabalhos inteirinhos autorais porque as editoras estão criando muitas dificuldades para se gravar. É muito caro por um disco na praça! Levou mais de um ano para que minhas próprias músicas fossem liberadas para gravar o meu DVD. Então, os artistas começam a gravar apenas material próprio, para não encontrarem barreiras.

Vamos falar agora do seu lado político. Como foi seu relacionamento com o ex-governador Mário Covas?

Ele me chamava no Palácio dos Bandeirantes para tomarmos café, era uma pessoa muito aberta. Mas meu relacionamento com ele, e com todos os outros [políticos], era esporádico. Políticos vivem em outro mundo, é outra coisa. Eu não faço música para eles, é uma agência que faz e me chama para cantar. E agora nós não podemos mais fazer shows em campanhas de políticos.

E o que acha de não poder mais fazer shows em comícios políticos?

Acho muito ruim. Se eu vou participar de campanhas pelo nordeste, fica um monte de gente numa praça para ver o show. Ninguém fica ali esperando um candidato falar. As pessoas já sabem que ele vai mentir o tempo todinho, vai falar sobre o que nunca fez e o que “pretende” fazer. Então precisa ter uns conjuntinhos tocando para entreter o povo. Agora que isso acabou, não sei o que vão arrumar para substituir os shows.

O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado

O senhor acompanha a política atualmente?

Se tiver que falar de algum lugar, falo de São Paulo. Gosto do careca que está lá, um cara que conheço há muitos anos e está na luta. Meu voto não é mais secreto e sem dúvida nenhuma vou votar nele [José Serra], e não em quem o Lula determinar, porque ele está muito folgado! Ela está desconhecendo muito das coisas que devemos respeitar, está se achando o dono da cocada preta. Isso é muito ruim. E ele vem de uma era em que a humildade foi a maior arma que usou para vencer. Ou não, porque o Lula sempre foi muito sagaz.

Acha que o eleitor brasileiro está bem preparado para votar?

Acho que as pessoas estão mais informadas, porque a mídia está martelando dia e noite nos erros e acertos do governo, fazendo com que quem está  no poder tenha até raiva dela. O maior trunfo do brasileiro atualmente pertence à imprensa. São os jornalistas que estão descobrindo tudo o que está acontecendo neste país. Não existe mais ninguém tão soberbo que não possa aparecer e ser cobrado. As autoridades têm que tomar cuidado com o rabo. (risos) A mídia está informando e está dando oportunidade para as pessoas falarem também. Isso é muito bonito. Sabemos que tem muita gente querendo calar a liberdade de expressão, como acontece na terra do Hugo Chávez e na ilha do “charuto”, o Fidel Castro. Contudo, o Brasil está mudando muito e acho que teremos melhores políticos no futuro. Isso se as famílias deixarem, porque as dinastias são muito grandes! (gargalhadas)

O senhor começou a tocar ainda menino.

Meu pai e meu irmão mais velho eram tocadores de sanfona. Meu pai nunca me deu conselhos, cresci numa família de 16 irmãos. Eu comecei a ajudar em casa aos oito anos, tocando pandeiro na feira com meus irmãos Moraes e Waldomiro, que tocavam uma sanfoninha e um instrumento de sopro chamado mele. Esse mele meu pai fazia com borrachas de câmara de ar. A gente tocava para ganhar uns trocados. Quando viemos para o Rio, em 1954, fui tocar numa churrascaria gaúcha com meu pai. Tocava nas mesas com um garoto repentista do Rio Grande do Sul chamado Garoto de Ouro. Ganhávamos muita gorjeta e entregava toda a minha parte para o meu pai. Até que ele juntou dinheiro suficiente para buscar o resto dos filhos em Garanhuns [cidade natal de Dominguinhos].

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado. Afinal, as pessoas que nos levam para o mau caminho têm um poder incrível de persuasão. Mas eu nunca me envolvi com essas coisas. Continuei tocando. As coisas começaram a acontecer em 1964, quando lancei meu primeiro disco.

Toquei na noite carioca e todo mundo me oferecia maconha, cocaína e bebida, mas ninguém oferecia um sanduíche. Ou eu seguia o que achava certo, ou enveredava para esse lado

Faz planos para o futuro? Trabalha com metas?

Em minha vida toda, nunca fiz planos para o futuro. Mesmo depois de 69 anos de vida, se me perguntam o que vou fazer daqui pra frente, não tenho resposta. Não faço planos e acho que a vida é isso. Você acorda todo dia e pensa no que tem pra fazer. Se não acordar no dia seguinte, já foi! (risos)

O senhor é muito humilde, não tem o estrelismo de alguns artistas.

O artista canta, dança, toca seu instrumento, pinta uns canecos… Mas quando sai do palco está sujeito a muitas coisas, igual a qualquer pessoa. Ele tem que pagar suas contas, pegar dinheiro emprestado e viver a labuta do dia a dia. E eu sou o que? Também fico aperreado! (risos) Ainda trabalho, minha família depende de mim. Em 2006, operei meu pulmão, mesmo nunca tendo fumado. Estou me tratando sempre e vivo como se não tivesse nada. Sigo cantando e tocando.

Financeiramente, a carreira do senhor valeu a pena?

Honestamente, não. Se eu estivesse na Europa ou nos Estados Unidos com todas as músicas que tenho gravadas e recebendo os direitos autorais, não precisaria mais tocar por aí. Acho que ia tocar só no terreiro de casa com os amigos. Chega um momento em que você não acha mais que é legal ficar fazendo graça com um instrumento que pesa 13 quilos no peito – e ter que mostrar serviço sempre que toca. Isso dá uma certa agonia. É melhor fazer como o Ronaldo. Parar aos 33 anos, quando está bem de vida. Pra que ficar ouvindo ser chamado de gorducho, não é? Deixa ele tomar sua cerveja a vontade! Eu, felizmente até, preciso continuar trabalhando, porque a música dá esse ensejo. Veja a Inezita Barroso. Ela está com mais de 80 anos, tem uma voz forte e é respeitadíssima. Acho que ela é a coisa mais importante que existe na música caipira do Brasil. E ninguém fez ainda esse reconhecimento para ela. Ela deveria ter sido convidada para o show do Roberto Carlos. Ainda bem que levaram o Tinoco, que fez um discurso arretado que foi ao ar pela metade, mas esqueceram da Inezita. Na idade dela – e tomando conta de um programa de televisão como dela – não conheço outra pessoa.