Hotel de ritmos e ruídos

Cibelle lança disco sofisticado e exótico colocando sua voz como protagonista suprema da obra

Capa de Las Venus Resort Palace Hotel, terceiro álbum de Cibelle lançado este mês

A cantora brasileira Cibelle, radicada na Inglaterra, lançou este mês seu terceiro álbum, Las Venus Resort Palace Hotel, uma mistura de ritmos combinada com ruídos e efeitos sonoros interessantes e muito bem produzidos. Não dá pra rotular o som que Cibelle faz, mas há rock, psicodelia, batidas latinas, eletro, swing brasileiro, climas espaciais, um pouco daquela atitude transgressora tropicalista da década de 1970 e, como estão dizendo, sabores e odores do movimento Abravanation.

Em 52 minutos de música, a artista colocou seu vocal como protagonista supremo da obra, destacando-o com excelentes melodias e com acompanhamentos criativos. É um álbum mais sofisticado e mais ambicioso esteticamente do que seu antecessor, The Shine of Dried Electric Leaves. Foi produzido por ela mesma, co-produzido por Damian Taylor (diretor musical de Björk) e gravado em Londres, Berlim, Vancouver e São Paulo.

O álbum é conceitual. Cibelle entra na pele de Sonja Khalecallon (trocadilho com os nomes de Frida Kahlo e Sophie Calle), que nos leva para um passeio pelo único lugar que restou do planeta terra: o Venus Resort Palace Hotel do título do disco. Neste lugar, acompanhamos o show de uma banda concebido como uma apresentação de cabaré. Paralelamente, uma história de amor acontece. Acompanhe o faixa a faixa.

1. Welcome – Ao som de animais numa floresta com sons psicodélicos, Sonja Khalecallon nos introduz ao planeta Terra devastado. Apenas o Las Venus Resort Palace Hotel restou. E é noite de show.

2. Underneath The Mango Tree – A voz doce de Cibelle em ritmo tropical. Versos e refrão facilmente assobiáveis. Já demonstrando que o álbum – de um ponto de vista sinestésico – será tão recheado de cores quanto sua capa. Originalmente, a música fora interpretada por Ursula Andress no filme Dr. No, da série James Bond.

3. Man From Mars – No início, é como se Cibelle cantasse na superfície da Lua. Efeitos sonoros variados vão aparecendo durante a música, lembrando um pouco as experimentações sonoras de Björk, mas de uma forma tropical e psicodélica.

4. Melting The Ice – Uma valsa, algo burlesco.

5. Lighworks – Primeira música a ganhar clipe, também é um cover de Raymond Scott. Ela tem balanço, mas um balanço um pouco quadrado. Vozes, mudanças rítmicas e efeitos sonoros dão um tom excêntrico ao clima que, agora já é possível prever, perpassará todo o álbum. Mas o trunfo de Cibelle é não ser óbvia na utilização dos artifícios sonoros de que lança mão.

6. Sad Piano – Um vocal lindo e limpo acompanhado por um piano tocado nas notas graves. Sem interferência de efeitos, valoriza os acordes e a voz. Curiosamente, essa balada triste é a música mais longa e mais “limpa” do álbum. Fechando os olhos, dá para se sentir como o astronauta de 2001: Uma Odisséia no Espaço, viajando perdido pelo espaço rumo ao desconhecido.

No som dela cabe tudo: tropicália, rock, psicodelismo, brasilidade, universalidade e Abravanation!

7. Frankstein – Latinidade latente. Balançado? Claro, mas do jeito dela.

8. Escute bem – Conversas em espanhol introduzem a primeira faixa em português do disco. Até aqui deu pra sentir que as melodias do disco vieram todas muito bem construídas. Em nenhum momento há melodias fáceis. Essa música ganha força conforme se desenvolve. Continua usando efeitos, mas de um modo muito próprio.

9. Mr and Mrs Grey – Um trabalho muito bem feito e muito interessante com a guitarra sobre um baixo e uma bateria limitando-se a tocarem o básico. Mudança de compasso lá pela metade, para entrar uma melodia de teclado que não ficaria mal num álbum do MGMT. Na terceira parte, vira um rock-tropicalista aniamdo com volta para o compasso 4/4. Para a finalização, uma nova valsa.

10. The Gun and The Knife – Aqui Cibelle “reinventa” – ou reinterpreta, abravanando, quem sabe – o estilo western. Participação de Tunng’s Sam Genders fazendo um dueto com a brasileira. Um violão muito competente dialoga e marca o ritmo com poucos efeitos sonoros. Uma guitarra faz vários detalhes. Um dueto muito bonito que lembra o de Nick Cave com PJ Harvey no álbum Murder’s Ballads.

11. Sapato Azul – Também em português, levada toda pela linha de baixo. Efeitos na voz e delay na guitarra. Muito mais que os ritmos, este álbum merece atenção aos detalhes sonoros. São muitos.

12. Braid My Hair – Cantando notas bem altas, Cibelle faz uma interpretação digna de reconhecimento. Não há como negar que ela tem estilo, identificável durante todo o disco.

13. It’s Not Easy Being Green – Vozes acompanham o violão na base harmônica. Mesmo a canção sendo basicamente voz(es), violão, e algum instrumento de sopro, Cibelle não soa tradicional de forma alguma.

14. Bye Bye – Na saída do Las Venus Resort Palace Hotel, Sonja Khalecallon se despede reprisando o tema viajante de “Welcome”, mas agora ele é executado ruidosamente, dando a estranha impressão de ser uma ironia.

Clipe de “Lightworks”

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