Popular com amor

O amor me desafia, novo disco de Wander Bêh troca a distorção pela canção para celebrar o amor, falar de sexo e prestar uma homenagem a seu pai

Wander Bêh aposta mais em seu lado compositor do que em showman no novo trabalho

De cabelos pretos, não mais vermelhos, e vestindo uma camisa do Corinthians, e não uma baby look, o cantor e compositor Wander Bêh mostra a sua cara. Embora seja a sua nova cara, não quer dizer que ele renegue o que fez no passado. Mesmo assim, seu novo disco, O amor me desafia, soa como a coisa mais polêmica que Wander fez até hoje. Afinal, ele trocou o rock pela MPB, a distorção pela canção, e acabou com uma obra pop e popular nas mãos.

O amor me desafia mostra um Wander que canta muito melhor do que em Rockstar???, seu primeiro disco. Com leveza, celebra o amor em todas as faixas, encaixa sutilmente passagens de teor sensual e sexual (que não devem escandalizar ninguém) e mostra um lado alegre que não estava presente nos trabalhos anteriores, seja como o antigo Wander B ou como o performático vocalista do Gritos & Sussurros. No meio de tantos sorrisos, encontra espaço para a nostalgia ao homenagear seu pai, já falecido, com um bolero chamado “O mais verdadeiro”. “Meu pai era fã de bolero e queria fazer uma música – ou um disco – que ele comprasse porque gostasse do estilo musical, e não apenas porque era meu pai”, o cantor explica.

O novo trabalho se deve, em grande medida, ao relacionamento que o cantor manteve entre 2007 e 2010 com uma mulher soteropolitana. Ele inclusive passou um tempo em Salvador absorvendo o clima festivo, praiano e ensolarado baianos. “Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade entre eu e a Ludmila, essas músicas não teriam sido feitas”, diz.

“As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos. Ele só não chegou aos ouvidos desse público”

O disco abre com uma bossa, “Nosso filme sem fim”, que já deixa claro as marcas que permearão as próximas 10 faixas: letras que contam histórias cheias de versos com aliterações, assonâncias e figuras de linguagem para ouvidos espertos notarem, sons que não agridem os ouvidos e uma aposta em ritmos bem brasileiros. Wander manteve em suas letras a boa opção de insinuar certos acontecimentos sem torná-los óbvios. Em praticamente todas as composições o que está nas entrelinhas faz tanto barulho na cabeça de quem ouve quanto o que sai da boca do cantor.

“A Praia” nasceu pop e um hit de fácil memorização. “Saudade é sede, saudade é fome” também vem pronta para tocar na Bahia, no Carnaval ou em qualquer micareta. As duas faixas seguintes estão entre as finas flores compostas por Wander. Ainda se mantendo popular, dá um show de simplicidade e beleza na bela faixa-título, “O amor me desafia”, emendando um momento de alta sofisticação na letra e nos arranjos com “Sexo, música e religião”, forte candidata a virar música cult do repertório.

“Eu não sou santo” aparece como uma música bastante simples e direta. Uma guitarra aqui não faria feio e imprimiria um pouco dos anos 80 que carrega em sua estrutura rítmica e melódica. Pra fechar o álbum, duas baladas. “O mais verdadeiro”, bolero feito para o pai de Wander, é a letra mais sensível do disco. Na sequência, “Our endless dream” é a primeira faixa revisitada, agora cantada em inglês e acompanhada apenas pelo violão.

O amor me desafia é o projeto mais polêmico em que já estive. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme”

Acompanhe a entrevista que fiz com Wander Bêh na semana de lançamento do disco. Muito a vontade, a conversa aconteceu em um boteco numa movimentada esquina de Barra Bonita. Conosco estava Matters Grava, que bebia cerveja, fazia comentários sobre o disco e a entrevista e batia fotos da gente (que também estão nessa reportagem, um exemplo de jornalismo gonzo).

Durante a entrevista, Wander Bêh lembrou de passagens com o Gritos & Sussurros, sua primeira banda, e com o disco "Rockstar???" Foto de Matters Grava

Como O amor me desafia começou a ser concebido?

Produzi Rockstar??? de 2006 a 2008. Duas semanas depois de fazer dois shows de pré-lançamento dele, comecei a pensar neste novo trabalho. Num sábado, conheci a Ludmila pela internet. Era dia de show em Bauru. Na sexta-feira seguinte, fiz um show no Bar do Maurélio e de lá fui direto para a rodoviária. Segui viagem até o aeroporto de São Paulo. De lá, fui para Salvador me encontrar com a Ludmila, com quem namorei até pouco tempo atrás. Lá, comecei a compor o disco, fazendo a música “Melhor que ter você”. E ela participou muito do álbum todo. Se não tivesse rolado uma interação para além da amizade, essas músicas não teriam sido feitas, concorda?

Concordo. Aliás, pelos temas que contém e a forma de abordá-los, parece que o disco foi feito para alguém. Foi mesmo?

Esse disco é uma história de alguns anos de minha vida. Meus discos têm esse jeito de ser, coisa que pretendo continuar fazendo: falar de mim para chegar às pessoas. O amor me desafia fala de mim de 1982 até 2009, mas é claro que existe um Wander antes e depois da Bahia. Agora, não necessariamente o disco contém apenas histórias entre eu e a Lu, mas coisas que aconteceram nesse meio tempo. Então, sim, ele foi feito para uma pessoa, mas teve muita interferência nisso de outras pessoas.

Você agora deixou o rock de lado e apresenta músicas populares, mais ligadas a MPB e alegres. Como foi produzir esse disco tão diferente do primeiro?

Foi difícil! Em 2000, quando comecei a fazer música, não estava exatamente querendo me expressar pelo rock, mas fui abraçado pelo estilo. Em 2004, naquele polêmico show em que fiquei de calcinha no palco, a gente tocava o que? “Dom de iludir”, do Caetano, e muita MPB. Mas a falta de musicalidade minha e da banda nos levou ao [punk] rock, que não exigia tanto isso. Mas sou virginiano e não queria fazer nada mal feito. Na banda, ninguém era bom em nada. Vamos fazer o que então? Punk rock, claro. Vamos meter dois acordes aí e falar o que a gente pensa!

No entanto, este disco novo é algo que queria fazer desde 2002, não é algo 2010. Comecei a tocar e a estudar os sons e as cadências do samba, da bossa nova e do pop. Fui à Bahia beber daquilo que havia lá, descer as vielas do Pelourinho para sentir como eram as coisas. E uma coisa importante: a escolha do produtor do disco, o Guilherme Mucare. Para um disco popular, tinha que escolher alguém que entendesse disso. E o Gui é um cara que entende de pop, que por 20 anos tocou axé, sertanejo, rock, Djavan, Ivan Lins, Gilberto Gil, tocou piano, violão…

E dentro do estúdio para gravar essas músicas?

Também foi difícil. Cantar uma bossa nova é bem diferente de cantar Iggy Pop. O processo de composição foi bem menos complicado. Não tivemos que rever muita coisa do que eu havia escrito, foi tudo natural pra caralho! O difícil foi o ato físico de cantar, controlar a respiração, ajeitar as finalizações de notas. O Gui a todo momento me avisava que as coisas não estavam soando bem ou não estavam certas.

Lucas Scaliza, na entrevista no boteco. Foto de Matters Grava

No primeiro disco, sua voz estava mais rasgada. Já este álbum apresenta um Wander que melhorou muito como cantor, imprimindo beleza ao som da voz.

Houve uma evolução, mas ainda preciso melhorar muito! O Rockstar eu gravava de madrugada, depois de passar horas no bar. Já O amor me desafia eu chegava cedinho no estúdio, totalmente são. A primeira faixa, “Nosso filme sem fim”, é a mais difícil de cantar do álbum, mas precisei apenas de dois takes (sessões) para chegar ao resultado final. Gravei várias vezes todas as outras, inclusive tendo que voltar no dia seguinte para retomar algumas que não estavam rolando. No entanto, “Nosso filme…” foi a última que gravei.

A artista plástica Débora Nakano participa do CD cantando em duas faixas. Por que resolveu incluí-la no projeto?

Ela foi um presente que recebemos. Ela é formada em artes – embora não seja o diploma que valide sua veia artística – e foi responsável, por indicação minha, pelos cenários do show do Vanildo Machado no ano passado. Ela canta muito bem e eu queria uma voz feminina que não fosse muito grave. E a voz dela é bem doce, foi bem fácil de trabalhar e deu certo.

O disco novo fala muito de amor e é muito alegre, diferente do primeiro trabalho com várias histórias mais tristes e “marginais”. Como foi entrar e cantar neste mundo mais “leve”?

Não deixo de lado os temas do primeiro disco, mas foi um desafio fazer essa mudança de clima. O coração pedia para eu ser honesto com minha música, e o que eu sentia quando escrevi as músicas se resume nessa nova obra.

Mas a atmosfera muda?

Muda. No Gritos & Sussurros a coisa era densa, extremamente densa. A gente terminava o show e eu ficava acabado. Quando cantava as músicas de Rockstar??? o clima também pesava, mas era satírico ao mesmo tempo. Além disso, a vida já tinha me apresentado algumas piadas. Agora, quando toco as músicas novas, sinto a emoção e o clima e a alegria delas. Além de um desafio pessoal, esse novo álbum tinha o desafio de propor um sorriso.

"'O amor me desafia' é a primeira coisa que faço que fala de sexo. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes"

O sexo está muito presente em O amor me desafia. De forma muito sutil até, mas está em todo lugar. Essa carga de sensualidade foi planejada ou foi aparecendo conforme você escrevia as letras?

Faz parte do amor que está em todo o álbum, e o sexo é parte fundamental desse amor. Mas teve a sacanagem também. O Wander sempre foi taxado como uma figura muito sexual, por causa das roupas que usava, ou pela calcinha que usou certa vez ou pela questão cênica. Mas isso era para falar de uma solidão pungente. Mas, se for ver, nunca falei de sexo realmente. Agora, O amor me desafia é a primeira coisa que faço que fala disso. Queria um disco que a sexualidade e a sensualidade estivessem presentes. O resultado é algo que talvez seja mais sensual do que vivi, mas que tem uma boa chance de as pessoas acharem muito menos sexual do que a imagem que eu tinha no Gritos.

Não existe Wander mais nu que um Wander com um violão na mão. Tem gente que pode dizer que me viu pelado em 2003, mas não viu tanto quanto eu ficaria se tocasse no violão a música que fiz para o meu pai, “O mais verdadeiro (bolero para o meu pai)”.

Você já ficou de calcinha no Gritos & Sussurros e também ficou com pouca roupa durante a divulgação de Rockstar. Essas opções cênicas dariam certo com o Wander de agora?

Tudo depende da ocasião. Eu conheço meu lugar. Se eu for fazer um show voz e violão, você concorda que não tem muito a ver tirar a roupa? Agora, se estivesse com uma banda maravilhosa e rolando um clima legal, talvez coubessem mais artifícios como esse. Não sei se coisas tão extremas como as que fiz no Gritos, mas cabe alguma sensualidade. Gosto da sedução que rola entre eu, mesmo que só na voz e violão, e a plateia.

A calcinha estaria presente?

Acho que nesse contexto não seria uma calcinha. Seriam outras formas, com as “cores” do álbum novo. Tem que estar de acordo com o que eu estou falando.

O disco parece bastante propício para agregar um novo público aos ouvintes do Wander.

Cerca de 71% [dados que o cantor retirou de seu Facebook] das pessoas que ouvem minha música são do sexo feminino. E é algo que acontece desde sempre. Meus shows nunca reuniram headbangers, aquela rapaziada que fica jogando o cabelo e abtendo a cabeça. E eu gosto disso, gosto de falar uma linguagem que a mulher entenda. Até porque o tipo machão não me interessa. Interesso-me por pessoas que já deixaram de viver no século 20, por gente que não ache legal bater na mulher e que não pense que o lugar delas é no fogão.

Em uma entrevista para Jornal ET em 2008, você disse que a música “Blues da Covardia” poderia agradar tanto ao punk como a mãe dele. Acha que seu novo trabalho deve agradar bastante às mães em geral?

Se o cara punk não encarar esse trabalho como uma traição ou coisa do tipo, acho que é um disco que pode agradar muita gente. As estatísticas do meu Facebook também mostram que meu público é formado de pessoas mais maduras, mas acredito que o disco agrada também quem está na faixa dos 13 aos 20 anos, ele só não chegou aos ouvidos desse público. A mídia está numa fase de empurrar o hardcore e o emocore para essa faixa etária – e não vejo problema nenhum nisso –, por isso existe um apelo mais maduro para o trabalho. No entanto, meu primeiro disco foi feito exclusivamente para o público adolescente, e este novo não foi feito exclusivamente para as mães dos adolescentes. É um disco popular feito para o Brasil.

"Acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido"

Como as pessoas estão reagindo com essa transição do rock para a MPB, para a música popular?

Veja, no meu perfil do Facebook não estou omitindo o meu passado e pagando de cantor popular desde que nasci. Meu passado como Gritos & Sussurros e como roqueiro está lá, assim como tem eu com o Vanildo, com meu pai, com minha mãe. Quem me conhece e ouve O amor me desafia sem preconceitos do tipo, acha tudo lindo e maravilhoso. Agora, quem vivenciou minhas outras fases de alguma forma, O amor… é o projeto mais polêmico em que já estive. Mais polêmico até que a calcinha. O conteúdo dele não é nada radical, mas a ruptura com o que eu vinha fazendo foi enorme, maior até do que aquela que me transformou de um estudante de jornalismo para algo difícil de entender. E parece que o preconceito que encontro agora é maior do que antes. Quando disse que estava fazendo um disco de MPB, houve pré-julgamentos. Gosto de pensar que quem me acompanhou de perto sabe que essa virada foi bem natural.

Já deram uma de João Gordo e disseram que você “traiu o rock”. Algumas pessoas continuam dizendo isso?

Lembro que depois do primeiro show que fiz no Bar do Maurélio, o próprio Maurélio (que é roqueiro) veio dizer que tinha gostado do som, mas percebera que o Gritos não era uma banda de rock. Então, é meio complicado dizer que eu “traí” o rock. Recebo e-mails de vários lugares diariamente. A primeira cidade que mais se corresponde comigo é São Paulo; a segunda é o Rio; a terceira é Lisboa e a quarta é Belo Horizonte. Aí vem Salvador e depois Roma. Barra Bonita e região não estão no páreo. Sendo assim, acho que meus amigos não conhecem a minha música. Quem conhece são meus “amigos”.

As músicas de Rockstar??? voltam para seus shows agora?

Pretendo fazer um show do Wander, não do O amor me desafia somente. E as músicas do primeiro álbum voltam, adaptadas ao formato das novas canções. O show de lançamento era para ter acontecido em dezembro passado, mas o Gui Mucare ficou doente e a entrega do CD atrasou. Mas pretendia tocar, além das faixas do novo álbum, coisas do Gritos, algumas faixas de Rockstar, músicas que surgiram depois de concluir O amor…, e algum material inédito.

Qual é o propósito maior do novo disco? Vender e divulgar shows do Wander artista ou te lançar como compositor?

Acho que é a segunda opção. Estourar como artista pode não depender de mim. Vai que o CD cai na mão do cara certo e ele resolve que eu sou o cantor/compositor certo para a banda tal que resolve fazer um trabalho em cima desse grupo com direito até música na novela. Não sei se isso vai acontecer, mas olhando de fora acho que é um trabalho para que cantores que já estão por aí podem ouvir, gostar e me procurar. E é o que tem acontecido, tanto os menos conhecidos quanto o Chiclete com Banana. Porém, eu gosto da estrada e gostaria de ter uma banda maravilhosa com a qual pudesse fazer shows por aí. Sou mais visto como showman do que como compositor, e estou curtindo mais ser compositor – e as pessoas parecem que não sabem disso.

Vídeo da faixa “Saudade é sede, saudade é fome”

*Matéria reeditada e ampliada, mas originalmente publicada no Jornal Expresso Tietê.

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Alice, de Burton

Nada parece tão enfadonho que o final não possa piorar

Johnny Depp, mais uma vez hipermaquiado, faz o Chapeleiro Maluco

Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 2010) era uma das maiores apostas do ano. Dentro dos estúdios da Disney, um orçamento de 200 milhões de dólares daria nova vida à história original escrita pelo inglês Lewis Carroll. Quem ficou responsável pelo projeto foi o competente diretor Tim Burton, responsável por bons filmes como Edward Mãos de Tesoura, Sweeney Todd, Noiva Cadáver, a nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate, entre muitos outros.

Para começar, deve ficar claro que o filme não é – e nem tinha a pretensão de ser – uma adaptação do livro original. É, na verdade, uma apropriação dos seus personagens e do universo surreal criado por Carroll para contar uma história paralela que se passa alguns anos mais tarde, quando Alice está com 19 anos. Para a garota, a primeira aventura que vivera no País das Maravilhas é apenas um sonho.

Na trama, Alice (Mia Wasikowska) vai a um baile da aristocracia inglesa e descobre que será pedida em casamento por um homem com quem não gostaria de se casar. Acontece que um certo coelho branco com um relógio dourado chama a atenção da garota. Quando o pedido de casamento acontece, na frente de lordes e ladys, Alice não sabe o que fazer e foge, indo atrás do coelho. E então cai por um buraco escuro direto para o psicodélico mundo subterrâneo, que não lembra ter visitado no passado.

Quando chega, descobre que o Glorian Day se aproxima e todo mundo que é contra a ditadura da cabeçuda Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) quer saber se a menina é a mesma Alice que os salvou anos atrás. Afinal, segundo o “oráculo”, só a Alice pode empunhar a espada Vorpal, única arma capaz de matar o dragão Jaguadarte, maior arma do exército de Copas. Mas nem Alice sabe se ela é realmente a “escolhida”.

A Alice e seu figurino de copas. A personagem veste desde camisola até uma armadura no filme

Sempre que se fala em Tim Burton, palavras como “bizarro, excêntrico, exótico e sombrio” são imediatamente associadas às suas produções, mesmo quando direcionadas ao público infantil. Desde sempre essa associação é feita na obra do diretor, mas em Alice a fórmula dá sinais de cansaço. Parece que Burton está se repetindo, afinal até o seu ator principal é sempre o mesmo hipermaquiado Johnny Depp (que interpreta o Chapeleiro Maluco).

O visual do filme é esplêndido. O cuidado com a criação do País das Maravilhas aliado aos figurinos extremamente bem elaborados – e que estão sempre mudando – fazem o deleite visual valer a pena ver o filme na tela grande. Os contrastes entre azul e laranja, muito usados atualmente no cinema, ajudam a dar uma cara ainda mais psicodélica ao mundo descrito por Carroll e traduzido em imagens por Burton e sua equipe de arte. As criaturas e cenários construídos por animação (que não são poucas) fazem um bom trabalho, mas não chegam a impressionar.

Em compensação, o roteiro é um dos maiores problemas do filme. Embora a história esteja bem amarrada, Alice sofre com suas saídas fáceis para cada problema que encontra. Cada vez que se vê em um aparente beco sem saída, há uma criatura ou animal falante por perto para levá-la ao lugar certo. Isso dá uma leve impressão de que tudo em sua aventura acontece na hora certa. Quando o Valete vai caçá-la, lá está o Chapeleiro para escondê-la. Quando o Chapeleiro é preso, lá está um cão farejador para ajudá-la. Quando sua farsa dentro do Castelo de Copas é descoberta e alguns soldados a cercam, eis que uma fera que acabou de tornar-se amigável surge para salvá-la.

Anne Hathaway no papel de Mirana, a Rainha Branca

Na pele de Alice, às vezes falta à atriz Mia Wasikowska um pouco mais de dramaticidade. No castelo da Rainha Branca Mirana (interpretada por Anne Hathaway) Alice é chamada a assumir seu posto de “predestinada” que vai enfrentar e matar o Jaguadarte, destronando assim a Rainha de Copas. Na primeira vez que é confrontada com a situação ela foge, como fugiu do pedido de casamento, mas sem expressar convincentemente suas dúvidas, medos e angústias. Johnny Depp, de longe com o personagem mais interessante do filme nas mãos, também fica limitado pelo roteiro. Seu personagem oscila entre alguém que se finge de louco para que seu lado subversivo passe despercebido e um herói que luta usando suas ferramentas de costura.

Quando chega o Glorian Day, o filme vira uma espécie de O Senhor dos Anéis. Os soldados de cartas de copas enfrentarão as peças de xadrez do exército da Rainha Branca num tabuleiro de damas. Depois de conseguir a lendária espada Vorpal (como faz Aragorn antes de partir para a batalha final), Alice enfrenta o monstro Jaguadarte, que lembra muito o Nazgûl da trilogia do anel. Uma luta épica se inicia, e cabe perguntar se era mesmo necessário levar a história de Alice para um campo de batalha. É a velha fórmula de resolver tudo num grande confronto entre o bem e o mal. (Só para constar, a história original de Alice no País das Maravilhas não cai nesse maniqueísmo).

Quando tudo parece lindo aos olhos, mas enfadonho para a mente, Burton e Linda Wolverton, a roteirista, pisam na bola mais uma vez e estragam o final. Primeiro, com uma dança dispensável do Chapeleiro. Depois, quando Alice retorna ao mundo real, começa a despejar de uma só vez lições de moral: não espere por um príncipe encantado, o importante é ser você mesma, respeite quem você ama, e por aí vai.

Em 2008, durante a premiação do Oscar exibida pela Rede Globo, o ator e comentarista dos prêmios José Wilker se espantou quando Piratas do Caribe: No Fim do Mundo não levou a estatueta de “melhor figurino”. Disse ele: “O filme é sobre isso, figurinos e efeitos especiais, é por isso que foi feito. Não é sobre piratas, sobre uma história”. O mesmo pode ser dito sobre Alice, de Tim Burton. É um filme de efeitos, cenários e figurinos, não de grandes ideias.

Hotel de ritmos e ruídos

Cibelle lança disco sofisticado e exótico colocando sua voz como protagonista suprema da obra

Capa de Las Venus Resort Palace Hotel, terceiro álbum de Cibelle lançado este mês

A cantora brasileira Cibelle, radicada na Inglaterra, lançou este mês seu terceiro álbum, Las Venus Resort Palace Hotel, uma mistura de ritmos combinada com ruídos e efeitos sonoros interessantes e muito bem produzidos. Não dá pra rotular o som que Cibelle faz, mas há rock, psicodelia, batidas latinas, eletro, swing brasileiro, climas espaciais, um pouco daquela atitude transgressora tropicalista da década de 1970 e, como estão dizendo, sabores e odores do movimento Abravanation.

Em 52 minutos de música, a artista colocou seu vocal como protagonista supremo da obra, destacando-o com excelentes melodias e com acompanhamentos criativos. É um álbum mais sofisticado e mais ambicioso esteticamente do que seu antecessor, The Shine of Dried Electric Leaves. Foi produzido por ela mesma, co-produzido por Damian Taylor (diretor musical de Björk) e gravado em Londres, Berlim, Vancouver e São Paulo.

O álbum é conceitual. Cibelle entra na pele de Sonja Khalecallon (trocadilho com os nomes de Frida Kahlo e Sophie Calle), que nos leva para um passeio pelo único lugar que restou do planeta terra: o Venus Resort Palace Hotel do título do disco. Neste lugar, acompanhamos o show de uma banda concebido como uma apresentação de cabaré. Paralelamente, uma história de amor acontece. Acompanhe o faixa a faixa.

1. Welcome – Ao som de animais numa floresta com sons psicodélicos, Sonja Khalecallon nos introduz ao planeta Terra devastado. Apenas o Las Venus Resort Palace Hotel restou. E é noite de show.

2. Underneath The Mango Tree – A voz doce de Cibelle em ritmo tropical. Versos e refrão facilmente assobiáveis. Já demonstrando que o álbum – de um ponto de vista sinestésico – será tão recheado de cores quanto sua capa. Originalmente, a música fora interpretada por Ursula Andress no filme Dr. No, da série James Bond.

3. Man From Mars – No início, é como se Cibelle cantasse na superfície da Lua. Efeitos sonoros variados vão aparecendo durante a música, lembrando um pouco as experimentações sonoras de Björk, mas de uma forma tropical e psicodélica.

4. Melting The Ice – Uma valsa, algo burlesco.

5. Lighworks – Primeira música a ganhar clipe, também é um cover de Raymond Scott. Ela tem balanço, mas um balanço um pouco quadrado. Vozes, mudanças rítmicas e efeitos sonoros dão um tom excêntrico ao clima que, agora já é possível prever, perpassará todo o álbum. Mas o trunfo de Cibelle é não ser óbvia na utilização dos artifícios sonoros de que lança mão.

6. Sad Piano – Um vocal lindo e limpo acompanhado por um piano tocado nas notas graves. Sem interferência de efeitos, valoriza os acordes e a voz. Curiosamente, essa balada triste é a música mais longa e mais “limpa” do álbum. Fechando os olhos, dá para se sentir como o astronauta de 2001: Uma Odisséia no Espaço, viajando perdido pelo espaço rumo ao desconhecido.

No som dela cabe tudo: tropicália, rock, psicodelismo, brasilidade, universalidade e Abravanation!

7. Frankstein – Latinidade latente. Balançado? Claro, mas do jeito dela.

8. Escute bem – Conversas em espanhol introduzem a primeira faixa em português do disco. Até aqui deu pra sentir que as melodias do disco vieram todas muito bem construídas. Em nenhum momento há melodias fáceis. Essa música ganha força conforme se desenvolve. Continua usando efeitos, mas de um modo muito próprio.

9. Mr and Mrs Grey – Um trabalho muito bem feito e muito interessante com a guitarra sobre um baixo e uma bateria limitando-se a tocarem o básico. Mudança de compasso lá pela metade, para entrar uma melodia de teclado que não ficaria mal num álbum do MGMT. Na terceira parte, vira um rock-tropicalista aniamdo com volta para o compasso 4/4. Para a finalização, uma nova valsa.

10. The Gun and The Knife – Aqui Cibelle “reinventa” – ou reinterpreta, abravanando, quem sabe – o estilo western. Participação de Tunng’s Sam Genders fazendo um dueto com a brasileira. Um violão muito competente dialoga e marca o ritmo com poucos efeitos sonoros. Uma guitarra faz vários detalhes. Um dueto muito bonito que lembra o de Nick Cave com PJ Harvey no álbum Murder’s Ballads.

11. Sapato Azul – Também em português, levada toda pela linha de baixo. Efeitos na voz e delay na guitarra. Muito mais que os ritmos, este álbum merece atenção aos detalhes sonoros. São muitos.

12. Braid My Hair – Cantando notas bem altas, Cibelle faz uma interpretação digna de reconhecimento. Não há como negar que ela tem estilo, identificável durante todo o disco.

13. It’s Not Easy Being Green – Vozes acompanham o violão na base harmônica. Mesmo a canção sendo basicamente voz(es), violão, e algum instrumento de sopro, Cibelle não soa tradicional de forma alguma.

14. Bye Bye – Na saída do Las Venus Resort Palace Hotel, Sonja Khalecallon se despede reprisando o tema viajante de “Welcome”, mas agora ele é executado ruidosamente, dando a estranha impressão de ser uma ironia.

Clipe de “Lightworks”

Mary & Max – Solidão

Filme fala de Asperger e da amizade, mas trata principalmente da solidão de um homem e de uma garota

Mary & Max é uma animação feita em stop-motion

A grande maioria das animações que chegam aos cinemas ou às locadoras acabam logo fazendo parte da sessão “Infantil”. Os filmes da Pixar e da DreamWorks, os dois maiores estúdios americanos do segmento, realmente visam as crianças, mas garantem que seus filmes tenham apelo (estético e de conteúdo) tanto para adolescentes quanto para adultos. Mary & Max (Mary and Max, 2009), que estreou neste final de semana no Brasil, pode até emocionar crianças, mas é um tipo de animação feita para adultos.

Na história, Mary Daisy Dinkle é uma garotinha australiana de oito anos de idade que não tem amigos e sofre de bullying na escola. Seu pai passa mais tempo empalhando aves do que dando alguma atenção à família, e sua mãe vive alta, encontrando em certas substâncias a fuga perfeita da realidade. Sem nada a perder, Mary resolve escrever para o endereço de um desconhecido M. J. Horowitz, que encontra por acaso numa lista telefônica de Nova York.

A carta chega às mãos de Max, um homem de 44 anos, obeso, chocólatra, judeu (mas agora ateu) e igualmente solitário. Suas únicas companhias são peixes chamados Henry, uma vizinha doente e um amigo imaginário que fica o tempo todo lendo num canto de seu apartamento. Ao receber a correspondência de Mary, Max tem um ataque de pânico e não sabe lidar com a situação. Mas escreve de volta. Surge, então, um caso de amizade por correspondência entre os solitários Mary e Max.

Mary Daisy Dinkle, menina australiana de 8 anos

Parece inerente às animações que situações cômicas aconteçam, e o filme está cheio delas. É possível se divertir com as pequenas trapalhadas dos dois personagens, suas trajetórias de vida absurdas – e dolorosas –, ou com suas excentricidades. Entretanto, para cada cena de humor e imagem fofinha, há um tom de melancolia que, de tão acachapante, às vezes chega a ser desesperador. E isso reflete-se no visual do filme. A Austrália de Mary ainda tem cores, predominantemente marrom. Já a Nova York de Max é inteirinha preta e branca de alto contraste. As cores na vida dele aparecem apenas depois que começa a escrever para a garotinha, mas não chegam nunca a inundar a tela.

As cartas trocadas pela dupla solitária tratam com alguma sensibilidade questões como a amizade, o amor e o desafio de encarar as pessoas e o mundo. A inocência dos dois permeia suas cartas e a forma como tratam de assuntos complexos que nenhum deles entende bem. E é depois de mais um surto de pânico que ficamos sabendo que Max sofre da síndrome de Asperger e, por isso, é tão recluso e tem tanta dificuldade em se relacionar e entender outras pessoas. A síndrome é tratada no filme como uma condição de Max, sem torná-lo uma espécie de vítima de si próprio.

Max Horowitz sofre de Asperger e vive em uma Nova York preta e branca

Mary & Max foi escrito, dirigido, produzido e desenhado por Adam Elliot, que ganhou um Oscar na categoria melhor curta de animação e um prêmio no Anima Mundi por Harvie Krumpet. As duas produções foram feitas com a técnica stop-motion, usando personagens feitos de massinha fotografados quadro a quadro, são tristes e possuem um design de personagens bastante similar, indicando talvez um modo próprio de Elliot retratar o ser humano. Entretanto, quando comparadas, fica evidente como suas técnicas de animação, elaboração de cenários e iluminação são superiores em Mary & Max.

O filme todo usa o artifício da narração para que informações sejam passadas ao espectador, ao invés de apostar em diálogos e ações que fizessem esse trabalho sozinhos. E este é o ponto fraco do filme, porque essa estratégia pode cansar e tira um pouco do brilho especial dos personagens.

Conforme a história segue, momentos de felicidade para Mary e Max alternam-se com momentos extremamente depressivos que os levam a medidas que por pouco não acabam em tragédia. Ainda que muito bonito, é um filme triste. Embora fale de Asperger e da amizade, trata principalmente da solidão de um homem e de uma criança para atingir todas as pessoas. No final das contas, seja em Nova York ou na Austrália, todos os personagens eram solitários. Cada um ao seu modo sem ter alguém para lhes acompanhar.