Carregado por nossos sentimentos

Max e Carol: amizade, destrutividade e amadurecimento

Sobre monstros, infância e autoconhecimento

Logo na primeira cena de Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009) vemos uma perseguição: o protagonista Max, de 9 anos, vestido em uma roupa de lobo persegue seu próprio cachorro. Quando o título do filme aparece na tela, vemos um still (imagem congelada) de um Max selvagem numa furiosa briga com seu bichinho de estimação. Ali, o cão é menos selvagem que seu dono, mesmo que ele esteja apenas brincando.

Dirigido por Spike Jonze, o mesmo que dirigiu os ótimos Quero Ser John Malkovich e Adaptação, a partir do livro infantil homônimo de Maurice Sendak publicado em 1963, o resultado final é um filme que olha a infância a partir do caso específico de Max, mas é pesado demais para crianças. Como já era esperado – e como já virou praxe nesse tipo de produção – o filme mira mesmo é no público adulto.

Depois de ter atitudes bastante impulsivas e mesquinhas com sua mãe, Max acaba mordendo-a. Sabendo que aquilo foi um erro, e sentindo que havia criado uma situação realmente difícil de lidar, resolve fugir ao invés de encarar o problema. O garoto acaba indo parar numa ilha cheia de monstros grandes e peludos, com personalidades bastante diferentes: a impulsividade e ingenuidade de Carol, a avareza e a carência do bode Alexander, o companheirismo de Douglas, a agressividade e inveja de Judith, o bem intencionado Ira e a calma do Touro. Todas essas personalidades são um reflexo da própria identidade de Max. Apenas a monstra KW representa um sentimento externo a ele, a proteção e o discernimento maternos.

Quando Max os encontra, o grandalhão Carol está destruindo todas as casas (espécies de ocas feitas de gravetos) dos monstros. Max é aceito como o rei daquele grupo depois de falar sobre seus supostos poderes e consegue reunir o grupo de novo. Mas novos problemas virão e antigos conflitos mal solucionados continuarão assombrando todos eles. Max tentará ajudar como pode, mas nem sempre seus métodos são maduros o suficiente para encarar a personalidade de cada bicho felpudo que vive na ilha.

Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens

Onde Vivem os Monstros não é um road movie como Diários de Motocicleta, mas Max está numa pequena e singela jornada que vai terminar levando-o ao autoconhecimento a partir do enfrentamento de sua própria personalidade, fragmentada em cada monstro.

O monstro com quem Max mais se identifica é com Carol, não por acaso o monstro que mais guarda semelhanças com o garoto. A energia, a destrutividade, a facilidade para se decepcionar e se magoar com os outros e a impulsividade para lidar com isso sem antes tentar compreender são traços de (falta de) maturidade que vemos em ambos. Na cena em que Carol leva Max nas costas podemos facilmente dizer que o menino está sendo carregado por seus sentimentos.

Embora seja um filme de Spike Jonze, o roteiro não apresenta nenhuma maluquice habitual dos projetos do diretor (exceto, é claro, a própria estranheza da história sobre um menino que conhece alguns monstros numa ilha). Dessa vez ele optou por uma história linear, sem grandes relativizações do ponto de vista narrativo. Mas não se engane: ele não se preocupa em explicar tudo ao espectador. Muita coisa está sugerida ali, como o atrito romântico/sentimental existente entre Carol e KW, como todos pareciam saber da farsa sobre Max ser rei, exceto Carol, e vários detalhes de objetos e insinuações corporais dos personagens.

Todos os monstros foram feitos com bonecos reais, interpretados por atores profissionais, mas suas vozes não correspondem aos atores que os interpretaram em cena. Aliás, as suas grandes bocas mexem-se com perfeição durante a fala, cortesia de um belo trabalho de efeitos visuais que quase passa desapercebido tamanha a naturalidade dos movimentos.

O filme é uma história bonita e um pouco triste, é verdade, sobre coisas tão complicadas quanto nosso convívio familiar, nossa personalidade, nossos sentimentos e a maturidade que não temos para certos tipos de situações. Mas Jonze acerta ao não tentar interpretar isso tudo para quem assiste ao filme, deixando para nós a situação no estado puro de sua arte, sem interferências da ciência – seja ela a psicologia de boteco ou a sociologia das universidades.

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