MPB pra alemão ver

Texto de Lucas Scaliza Fotos Divulgação

Katharina Ahlrichs (6)-2
Katharina Alrichs e sua banda, Sessão. Eles vêm ao Brasil para uma série de seis shows mostrando composições próprias e clássicos da MPB

A cantora alemã Katharina Ahlrichs é apaixonada pela MPB e volta com a banda Sessão da Noite para shows no Brasil

A banda alemã Sessão da Noite, comandada pela cantora Katharina Ahlrichs, está fazendo uma mini-turnê pelo Brasil. O grupo deixou a cidade de Dresden, no leste da Alemanha, e a turnê germânica que faziam atualmente para aterrissarem no Brasil para uma série de seis shows que começam em Salvador, na Bahia, e passam pelas cidades de São Paulo e Barra Bonita, seguem para Joinville, em Santa Catarina, e terminam com duas apresentações em Barbacena, Minas Gerais.

Katharina Ahlrichs tocará acompanhada pelos músicos Janco Bystron (bateria), Sina Fehre (baixo), Dirk Haefner (violão e guitarra) e Lars Maeurer (piano). A banda foi formada por Ahlrichs com o intuito de tocar os clássicos da música popular brasileira, além de compor músicas próprias. Essa paixão pela MPB só foi despertar na cantora (que canta e fala muito bem o português) depois de ver um show de música tupiniquim em sua cidade. Na hora de preencher uma ficha de intercâmbio da AFS informando para quais países gostaria de ir, preencheu todos os campos disponíveis com o nome “Brasil”.

No MySpace dela é possível ouvi-la cantar MPB em português, inglês e alemão. Nos shows, será possível comprar o novo CD do grupo, Telescópio.

Entrevistei Ahlrichs por e-mail. Ela fala sobre como era viver na Alemanha dividida em dois lados durante a Guerra Fria, sobre o “jeitinho brasileiro” e música, claro.

 

Katharina, quando começou a sua relação com o Brasil? Morou aqui por muito tempo?

Quando tinha 16 anos fiz intercâmbio no Brasil por meio da AFS. Quando fui escolhida por esta organização ainda não tinha a mínima ideia para onde queria ir. Mas uma semana antes da decisão final, ouvi por acaso um show de música brasileira na minha cidade. Fiquei tão encantada e impressionada que pus no papel da AFS 10 vezes “Brasil!!”, em vez de 10 alternativas de países para onde gostaria de ir. Tinha que ser Brasil mesmo!

Fiquei um ano com uma família no interior de São Paulo – primeiro em Mococa e depois em Jaú. Isso foi de 1991 a 1992. Nestes últimos 17 anos voltei várias vezes para o Brasil e, contando tudo, morei uns dois anos por aí.

O que você mais gosta no Brasil? Quando chegou aqui, qual foi a característica deste país que mais te surpreendeu?

Foi a música brasileira que chamou a minha atenção primeiro. Adoro bossa nova e MPB. Os meus heróis são Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Joice, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan, Caetano Veloso e João Bosco.

Mas a primeira coisa que aprendi ao chegar ao Brasil é o grande coração e a gentileza que as pessoas daí têm. Eu me senti bem recebida, todo mundo me ajudou a me virar nessa cultura, nessa língua. E o “jeitinho brasileiro” me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for.

A sua infância deve ter passado pela fase em que a Alemanha ficou dividida entre os lados Ocidental e Oriental. Em qual desses lados você morava? Como era a vida de uma criança num país dividido? Quais eram os sentimentos da população quanto a essa divisão?

Muitas famílias e amizades foram divididas pela fronteira. A geração dos meus pais sofreu muita saudade e desespero por causa disso. Eu tinha 14 anos quando o muro caiu. Na época, morava numa aldeia muito pequena na Alemanha Ocidental, mas muito perto da fronteira. Era um tempo muito emocionante para nós, porque nos sentíamos livres de uma grande pressão que existia sobre a Alemanha Oriental. Tínhamos amigos no outro lado da fronteira que sofreram por causa da ditadura e que não tinham a possibilidade de viver a própria vida como queriam, por causa do sistema (socialista implantado).

Ficamos superfelizes quando o muro caiu e fomos para várias aberturas da fronteira afim de cumprimentar o pessoal do lado oriental. Tínhamos a grande esperança de que as coisas boas dos dois lados pudessem se misturar com respeito e sabedoria. No fim, não aconteceu bem assim. Foi mais a sensação de que a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental… Mas mesmo assim estamos felizes demais por termos a liberdade da mente, da palavra e do corpo para todos os alemães!

“O ‘jeitinho brasileiro’ me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for”

A Alemanha, 20 anos depois da queda do muro de Berlim, ainda guarda resquícios de um país dividido?

Infelizmente, sim. Por causa da infraestrutura, das locações de indústria e economia, até hoje os salários variam entre os dois lados (no lado oriental se ganha menos). No lado oriental também existe mais desemprego e, por causa dessas coisas, há uma certa frustração ali. Mas há exemplos muito positivos também! A nossa banda, por exemplo, é uma mistura de alemães dos dois lados. O baterista e eu somos do lado ocidental, mas moramos – como o resto da banda – em Dresden: uma cidade linda na Alemanha Oriental. A nossa geração não tem muitos preconceitos e temos uma grande amizade entre nós.

Você sempre gostou e estudou música desde pequena ou a música só apareceu para você em um momento especial da sua vida?

Eu nasci numa família muito musical. Sempre cantamos juntos, cada um tocava pelo menos um instrumento. Sempre adorei fazer música e shows. Assim ficou bem claro para mim que escolheria um caminho nesta área (que independentemente de ser dura, é MARAVILHOSA 😉 e agradeço muito aos meus pais, que me ajudaram e me apoiaram ao invés de ficarem preocupados e rígidos.

“No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha”, diz a cantora alemã Katharina Ahlrichs

Você vive de música hoje ou tem outras ocupações?

Eu vivo de música. Tenho dois conjuntos de música inspirados pelo Brasil, o Luamar ( http://www.myspace.com/luamarduo) e a Sessao. E às vezes eu dou aula de coral e canto e faço shows como palhaço.

 
Que características da música brasileira você ressaltaria como únicas em comparação com a música europeia e norte-americana?

O fator percussivo em todos os instrumentos – não só na bateria – é típico da música tradicional brasileira. O jeito de tocar e cantar as frases é grudado ao ritmo e ao groove da música. Mesmo na bossa nova, em que o canto parece completamente livre do metrum, é assim: sem a percepção do ritmo por dentro, nunca seria possível cantar tão relaxadamente ao lado do ritmo!

No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha, o povo canta junto com artistas num show, conhece as letras. Muitos sabem tocar violão e percussão.

Além dos compositores brasileiros, quem são seus artistas preferidos no resto do mundo?

Adoro Sting, Peter Gabriel, Lenny Krawitz, Maria João, entre outros. Todos eles mexem com influências do mundo inteiro e tem groove!

Em seu MySpace, vejo músicas cantadas em português, alemão e inglês. É fácil transitar em três (ou mais) idiomas?

É uma questão de exercício, de training. Para mim é muito gostoso viajar entre os mundos dessa forma. O interessante é que a técnica de cantar é diferente e a minha voz tem um som diferente dependendo de qual idioma estou cantando. Essa variedade me atrai.

“O meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca, do de Portugal e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia”

O seu português nas músicas é perfeito. Ouvindo, ninguém diria que se trata de uma estrangeira.

Obrigada! 😉

 Foi difícil pegar fluência na língua? Levou muito tempo para aprender?

Lembro que demorou uns dois meses até eu começar a entender (quase) tudo. E mais dois meses para poder dizer (quase) tudo que queria. O resto do tempo eu tentei treinar a ‘elegância’ do meu jeito de falar.

Adoro viajar, conhecer outros lugares, pessoas, culturas e sou muito chegada a línguas. Mas é claro que até hoje sempre me deparo com palavras que faltam ao meu vocabulário e com erros. Imagino também que o meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca (que ouço em tantas músicas), o de Portugal (pior que é…) que peguei nas minhas viagens para lá e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia.

Existe música brasileira tocando nas rádios da Alemanha ou da Europa? Europeus têm acesso fácil ao que é produzido no Brasil ou esse é um mercado de nicho?

A música brasileira é bem conhecida numa certa cena da Alemanha. Pelo menos a bossa nova é conhecida, que é tão grudada ao jazz, e a MPB. Nas rádios de alto nível cultural toca-se muito Bebel Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Djavan, Marisa Monte, etc. Os alemães também gostam muito de batucada e capoeira e têm muitos e muitos grupos que tocam esta música.

Você cursou Ciências Culturais na faculdade e se especializou em palhaço. Como decidiu fazer este curso e por que se especializou em palhaço?

O curso de Ciências Culturais oferece uma grande variedade de matérias. Ao lado da música, estudei teatro, psicologia e management (gerência) de cultura. Achei importante, porque sabia que ia trabalhar com isso independentemente. Sabia também que todas essas disciplinas poderiam me ajudar na profissão.

Depois da universidade eu fiz o curso de palhaço, porque sou uma pessoa que quer ficar no palco e que é muito interessada em trabalhar com emoções e com “a verdade do momento”. O palhaço é tudo isso e o que aprendi naquele curso, que durou um ano e meio, ajuda na minha presença no palco.

A sua banda tocará em Salvador, São Paulo, Barra Bonita e Barbacena, segundo a agenda de seu MySpace. Que tipo de show você preparou para essas cidades?

É basicamente o mesmo show, mas com diferenças em relação ao tempo que temos e o lugar onde tocaremos. Em Salvador e Barbacena procuramos também convidar outros músicos para tocar no palco, pois tocamos em universidades de música, e – especialmente em Salvador – vai ser um show muito “jazz”.

Em todos os lugares será uma mistura de música original do Brasil e composições próprias da gente que gostaríamos de apresentar ao público. Estou superfeliz de ter a oportunidade de tocar música brasileira no próprio país em que ela nasceu. Como somos alemães, me parece algo bem exótico! J E mais ainda porque apresentamos nossas próprias composições também! Estamos muito ansiosos e esperamos que todos gostem! 🙂

Para terminar: a arte salva?

Salva sim! Cada vez que ouço uma música que gosto fico emotiva, começo a sorrir ou a chorar. A razão de eu ser uma pessoa positiva tem a ver com a força da música. E se eu conseguir chegar até as pessoas e tocá-las com o meu canto, recibo tanta energia boa que faz bem viver! Isso é o meu lado. Agora, quanto as pessoas que ouvem a música, minha experiência mostrou que algo da minha alegria e da minha paixão viaja até o público e toca as pessoas. Se é assim, é maravilhoso!

Katharina Ahlrichs (7)-2
O baterista Janco Bystron
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Cão come cão no Distrito 9

Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.

Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.

O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.

O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme

Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.

Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.

A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.

Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.

Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.

Deixe ela entrar

Texto de Lucas Scaliza

A vampira Eli e o frágil humano Oskar: uma relação de ternura e assombro
A vampira Eli e o frágil humano Oskar: uma relação de ternura e assombro

 

O filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original) está arrasando em festivais mundo a fora. Segundo o IMDB, a produção já ganhou 56 prêmios e foi nomeada para outras 11 categorias.

Mesmo sendo um filme de baixo orçamento, feito em um país do norte da Europa de onde poucas produções ganham fama mundial, Deixe ela Entrar conquista pela sensibilidade. Mesmo sendo um filme de vampiros, tema muito em voga atualmente, é na sensibilidade humana que o diretor Tomas Alfredson se concentra, dando soluções estéticas simples ao roteiro, mas conduzindo a narrativa sem apelar para clichês, nem sustos fáceis.

Na história, Oskar é um frágil menino de 12 anos constantemente atormentado por colegas da escola. Ele é incapaz de revidar às provocações, embora treine cotra-ataques e respostas em seu quarto. Um dia, Oskar conhece sua nova e estranha vizinha, Eli, uma menina que também tem 12 anos. Logo ficamos sabendo que ela é a vampira da história. Daí pra frente, Oskar vai deixá-la entrar em sua vida sem ficar assombrado pelo ser sobrenatural que ela é. E, da mesma forma, Eli aprenderá com Oskar que por trás de toda a sua sobrehumanidade está uma garota que pode amar, pode se importar ao mesmo tempo em que é, por natureza, uma assissna fria.

A crítica que fiz do filme, enfatizando mais aspectos artísticos e traçando comparações com outros filmes e diretores, pode ser vista aqui, na resenha publicada pela Revista Projeções, ou pode ser lida baixo.

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Ternura com assombro

 

Percebe-se, logo que começa a ser executado, que Deixe Ela Entrar (Låt den Rätte Komma In, no original) é um filme que aposta na – ou precisou prezar pela – economia. Não há grandes efeitos especiais, nem figurinos caros, locações famosas e até mesmo os créditos iniciais são sóbrios, limitando-se a exibir nomes em letras brancas sobre um fundo negro. É um pequeno filme sueco sobre vampiros, um tema da moda, feito com baixo orçamento, mas que não deixa a limitação financeira estragar seu brilho artístico e narrativo.

Na trama, o frágil Oskar (Kåre Hedebrant) é um garoto de 12 anos que sofre bullying de colegas de escola. Ele treina sozinho em casa, como quem fantasia uma cena, contra-ataques e respostas a seus algozes, mas nunca tem coragem para reagir. Paralelamente, a pequena cidade em que vive está preocupada com repentinos sumiços e mortes misteriosas na neve. Não demora muito para que ele conheça Eli (Lina Leandersson), garota que há muito tempo também tem 12 anos e acabara de se mudar para o apartamento ao lado do seu.

A partir daí, uma amizade e uma singela história de amor se inicia permeada de paradoxos: Oskar é frágil, Eli é uma vampira, com todas as habilidades que um ser desses possui; ele não revida, enquanto ela é capaz de matar sem demonstrar qualquer pesar; mas Oskar tem o coração aberto e Eli vai aprender a deixar que alguém invada o seu.

A direção de Tomas Alfredson não aposta em sustos fáceis e nem põe sua vampira para mostrar os caninos até o limite da banalização do ato, como já se cansou de ver em produções do gênero. Sempre acompanhada ou antecipada pela trilha sonora, Alfredson constrói cenas de suspense na mesma medida em que a ternura toma conta da tela.

Deixe Ela Entrar não é um desbunde visual. Não tem as cores de um Almodóvar, nem os enquadramentos espertos de um Wes Anderson e muito menos a produção de um blockbuster. Em compensação, usa muito bem os closes e os movimentos de câmera para criarem significados e darem intensidade ao texto. Chama à atenção as cenas em que Eli faz uma vítima e a câmera “corre” para focalizá-la bem de perto e nos fazer notar cada gota de sangue em seu rosto.

Nenhum dos atores no filme tem uma performance digna de nota. Embora os jovens que interpretem Oskar e Eli funcionem muito bem juntos, há uma economia de interpretação que poderia deixar a relação de seus personagens mais fria que a abundante neve da Suécia. Felizmente, o roteiro e a condução narrativa minimizam essa lacuna cênica.

O filme sueco acerta com simplicidade onde Crepúsculo patina. A franquia que teve origem nos livros de Stephenie Meyer teme ir longe demais e ameniza todas as atitudes de um vampiro, mesmo dos “malvados”. Deixe Ela Entrar já sai na frente por não tocar na moralidade de Eli. Se ela é boa ou má, não importa. O que interessa é que tipo de aproximação ela terá de Oskar e de outros humanos, cedendo ou não a sua natureza que se alimenta de sangue.

Crepúsculo também não consegue mostrar na tela a sexualidade juvenil de seus personagens com maturidade, fazendo a relação “morder e se tornar uma vampira” com a “perda da inocência” soar oca. Alfredson também conta uma história que possui esse teor, essa metáfora para a adolescência, mas está menos preocupado com a relação física e mais com o despertar do amor.

Sensibilidade é a palavra que define e diferencia Deixe Ela Entrar de outros “filmes de vampiro” recentes. Não há momentos de redenção e nem cenas de ação frenética. Tudo está em seu devido lugar e acontece em seu devido tempo, sem exageros. E, por mais complicado que possa parecer explicar, é com sensibilidade que a brutal cena final se desenha, causando não espanto no espectador, mas algum êxtase que esperávamos sentir desde o começo.

 

Deixe ela entrar 2

Trailer do filme.