Arthur entre o prodígio e o talento

Texto e fotos de Lucas Scaliza

Mais consciente de sua capacidade, Arthur Massucato executará um “repertório clássico mais transparente”. Pianista se apresenta dia 16 em Jaú

Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas
Arthur Massucato, 18 anos, pianista e estudante de direito. Acorda todos os dias entra 6h e 7h30 para estudar piano e as disciplinas acadêmicas

Embora esteja completando dois anos de estudo de piano erudito, Arthur Massucato estava tocando uma peça de piano popular poucos minutos antes da entrevista. Era Tom Jobim. Quando percebeu que eu tinha entrado na sala do piano interrompeu a bela canção, virou-se sorridente e cumprimentou-me com um enfático “Como vai?”.

Há alguns meses Arthur começou a ensaiar um novo repertório para se apresentar novamente no Julho Cultural, mês que a cidade de Jaú reserva para mostrar os talentos artísticos da região e de fora dela. Arthur se apresentará no dia 16 [quinta-feira] às 20 horas no Teatro Municipal de Jaú como pianista solo de obras da música clássica.

Em 2008, Gláucio Munduruca, professor de piano de Arthur, fez o que hoje eles chamam de loucura: pôs o então iniciante Arthur para tocar sozinho no Julho Cultural com apenas 11 meses de aula, coisa que Gláucio nunca tinha feito. Para complicar, era a primeira vez que o jovem igaraçuense de 18 anos se apresentaria para o público. Isso o projetou como um “prodígio” na época.

– Antes do meu primeiro concerto todo mundo me via como um talento para o piano, como um prodígio – diz Arthur –, mas o que eu tenho é facilidade no estudo do instrumento. Minha mão não sai voando pelo piano, por exemplo.

Eu nunca tinha visto ninguém tocar com tão pouco tempo de estudo. Ele funciona como um relógio, tem disciplina para estudar – enfatiza Gláucio.

Antes de eu subir ao palco, o diretor do teatro municipal de Jaú me apresentou para o público como um “pianista prodígio”. Achei um pouco forçado, mas já era tarde demais.

A vida toda tive muitos alunos e o Arthur é um caso particular que conseguiu administrar tudo isso. Com poucos meses ele se apresentou sozinho como um profissional. Isso eu nunca tinha visto. Quem tem um talento e uma facilidade muito grande para tocar geralmente não estuda. E quem estuda, como é o caso dele, vira um fenômeno.

“Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”

Arthur conta que alguma semanas antes de sua primeira apresentação sentiu-se aparado por todos os lados, pela família e pelo professor. Mesmo assim ele estava uma pilha de nervos. Um dia antes do concerto ele estava calmo como nunca, o que levou Gláucio a se preocupar: “Não acho isso bom”, disse.

Contudo, a apresentação foi ótima. Arthur fez valer as cerca de 60 simulações de recital que fez ao lado de seu professor e não apresentou queda de rendimento. Gláucio diz que todas as falhas que o aluno teve foram imperceptíveis e que já eram esperadas. Para Arthur, a experiência do palco foi marcante. “Quando subi no palco e as pessoas me aplaudiram, senti uma solidão extraordinária. Mas não foi algo ruim, porque era o máximo onde poderia estar naquele momento. Parecia que eu estava realizando algo sozinho pela primeira vez na minha vida”, conta. Dali até hoje, sentiu que teria que arcar com tudo até o final.

Ao colocar a mão no instrumento para executar a primeira peça ainda não estava de todo concentrado. “Parecia que eu me via da platéia. Confesso que estava um pouco perdido no início. Acredito que neste ano isso não acontecerá”.

O único problema da apresentação foi a correspondência de empatia entre o músico e o público. “Ele não correspondia às palmas da platéia”, Gláucio lembra entre risos. “O pessoal ficava aplaudindo em pé e ele saia rápido do palco”.

No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.
No repertório deste ano tem Bach, Haydn, Schumann, Shchedrin, Guarnieri e Brahms.

Mais experiente e mais consciente

 Os 11 primeiros meses de aula que culminaram com a apresentação foram de trabalho intenso. Gláucio Munduruca precisou dispor de mais tempo para preparar seu aluno. Chegaram a passar oito horas seguidas juntos. No dia seguinte a apresentação, Arthur Massucato desabou e ficou uma semana sem tocar piano, como se o estresse de 11 meses lhe caísse de uma vez nos ombros.

Agora o pianista diz que está mais consciente do que fez – e não voltaria a se “sacrificar” tanto para preparar um repertório em tão pouco tempo – e mais experiente para tocar. Arthur agora é um aluno normal e não precisou do professor para fazer sua parte. “Eu pude me dirigir muito mais”, vibra Arthur, “o Gláucio só me mostrava onde estavam os problemas e eu os resolvia. Antes eu não sabia como resolver problema algum, não me virava sozinho! Na verdade, acho que o primeiro concerto foi mais dele que meu”, completa rindo.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”

No ano passado, ele fez o piano soar peças de compositores românticos como Chopin, Scriabin, Schumann e Liszt. Gláucio explica que esses compositores são mais livres e soltos, o que colocaria em xeque a capacidade de uma execução mais técnica e regrada de Arthur. Para que não restem dúvidas quanto a capacidade do pianista, professor e aluno montaram um programa que vai da era barroca da música erudita até os modernos. No dia 16 ele executará peças barrocas de Bach, uma sonata clássica de Haydn, duas rapsódias de Brahms e dois ponteios do compositor brasileiro Guarnieri, além de duas peças de Schumann e uma de Shchedrin.

Para Arthur, o repertório deste ano é mais transparente tecnicamente. Isso quer dizer que “é mais difícil errar sem que alguém perceba”. Com peças mais livres era mais fácil enganar o ouvinte caso uma nota atrasasse ou adiantasse. “Não dá para enganar ninguém tocando barroco e clássico. Ou você toca, ou não toca”, afirma Gláucio.

E a dificuldade técnica que Arthur teve nos últimos meses foi juntamente com as obras de Bach – que ele considera um compositor até didático, mas muito preocupante na hora de tocar em público – e de Haydn, que é onde “abaixar as teclas é mais difícil”. De qualquer forma, ele está confiante e revela que seu modo de abordar o piano e de se comportar enquanto toca mudou, tomou ares de alguém que entende melhor o que faz.

Mesmo com tão pouco tempo de estudo e com praticamente duas apresentações solo no currículo, Arthur não se acha prodígio e nem um talento extraordinário. No entanto, logo após o Julho Cultural de 2008, recebeu um convite para integrar a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto. Ele recusou o convite. Se tivessem perguntado 10 meses antes, quando ele tinha febre em tocar, teria aceitado.

Com a cabeça no lugar, achou melhor continuar estudando piano regularmente seis horas por dia em sua casa. Esse tempo ele divide com a faculdade de direito que cursa a noite e o estudo das disciplinas acadêmicas. Para dar conta do recado, acorda todos os dias entre 6h30 e 7 horas da manhã. “Por enquanto eu tenho gostado do meu dia a dia, tem dado certo”. De fato, Gláucio tinha razão. Arthur tem disciplina para o estudo.

Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.
Depois da entrevisa, Arthur tocou um ponteio de Guarnieri.

2 comentários em “Arthur entre o prodígio e o talento”

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