O homem que entende as máquinas – parte 3

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O homem persegue seus sonhos

Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto
Aristides Lanfredi e seu torno mecânico. Antes dele, muitas máquinas ficaram sem conserto

Apesar de todo esse talento, Aristides cobra uma mixaria por seu serviço. Fica mais feliz em fazer o serviço do que em cobrar por ele. O dinheiro que lhe permite pagar os impostos, se alimentar e manter sua pequena oficina de paredes de madeira vem de sua aposentadoria e da renda que o sítio lhe proporciona.

Na verdade, como conta seu sobrinho, o eletricista de autos Pedro Stangherlin, Aristides trabalha na roça, plantando, carpindo e vez ou outra consertando algum motor. Ele é solteiro, não tem filhos e mora com irmãos, com quem divide a propriedade rural. A oficina, as máquinas, as engrenagens são seus passatempos, hobbys aos quais se dedica durante a noite e aos domingos. E, ao que parece, desde sempre foi assim. “Já tentaram levá-lo ao Rio de Janeiro para estudar”, conta Pedro, “mas seus pais não deixaram, ele tinha que ajudar na roça e, nas horas sem serviço, mexer com seus inventos”.

Ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece

O senhor mecânico autodidata sabe de seu potencial e sabe que ele foi subaproveitado. Lamenta que em sua juventude a corrente elétrica não chegava a sua casa, senão “teria feito muito mais”. Talvez muito mais bielas e pistões e pequenos motores do que já fez. Lamenta também por não ter ganho dinheiro com seu dom. “Sabe onde perdi muito dinheiro? Se eu tivesse um outro colega que soubesse negociar, a história seria diferente. Já me apareceu cada coisa aqui, já inventei tanta coisa nessa Terra…”.

Dinheiro – dizem mecânicos e eletricistas da cidade, seu sobrinho Pedro e seu amigo Bi – nunca foi a preocupação de Aristides. Para eles, o que vale de verdade é a satisfação que ele sente em pôr em prática sua arte de consertar. “Diria que dinheiro tem significado zero para ele. Ele cobrava Cr$ 10 por um conserto e acabavam lhe pagando Cr$ 20, 80 ou 100. Ele guardava esse dinheiro em uma lata. Então a moeda corrente mudou e, quando ele descobriu isso, o que ele tinha guardado já não valia mais nada. Aliás, algo valia, sim: o que ele tinha feito pelos outros”, afirma Bi.

Durante a entrevista, Aristides comentou várias vezes que não tem mais vontade de criar. Seria o cansaço ou a idade? Quem o conhece há algum tempo aposta em outro motivo: ele não teve filhos e gostaria que pessoas da família dessem continuidade as suas invenções, mas notou que eles não são muito simpáticos à idéia e isso o entristece. Algo como “vou inventar para quê se ninguém toca meus inventos?”. Nas palavras do professor Bi, que também é contista e poeta, esse senhor, Aristides Lanfredi, não persegue dinheiro, apenas seu sonho. E o homem deve perseguir seus sonhos, porque assim ele se realiza. E Aristides é uma pessoa realizada, mesmo sem o reconhecimento que talvez lhe seja merecido, cercado por um mar de cana, naquela estrada IGT-416, além do Igaraçu Park, seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi. Lá está o homem que entende as máquinas.

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