O homem que entende as máquinas – parte 1

Texto e fotos por Lucas Scaliza

O que ninguém consegue consertar, o inventor Aristides Lanfredi conserta. Não é dinheiro que ele quer com isso, mas que continuem sua obra
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.
Arisitides Lanfredi, 82 anos. Lavrador, mecânico e inventor autodidata, curioso.

Interior de São Paulo. Saindo de Igaraçu do Tietê e seguindo pela Avenida Profª Zita De Marchi, para além do Igaraçu Park, e entrando na estrada IGT-416 que leva para Macatuba, siga até avistar a entrada do Rancho Floresta, a sua direita, mas não entre. Olhe o caminho misterioso a esquerda, estreito e emparedado por centenas de pés de cana-de-açúcar. No final deste caminho está um homem magro e franzino, geralmente usando chapéu de palha, chamado Aristides Lanfredi. Aos 82 anos de idade, ele vive recluso em sua propriedade rural, mas é de uma lucidez e de um brilhantismo fora de série.

Ele estudou apenas até quarta série, mas foi o suficiente para mostrar todo o potencial que tinha e que, como logo veremos, não foi todo aproveitado. Na escola, Aristides ganhou diversos prêmios por ser um inventor muito superior a qualquer outro de sua sala. Tudo que ele inventava tinha relação com a mecânica, sua grande paixão até hoje.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores

Aos 12 anos, fora da escola e morando num sítio onde a energia elétrica ainda não chegara, gostava de observar as embarcações desfilando pelo Tietê e de brincar no rio. Então sua primeira máquina nasceu: uma barquinha com motor a vapor! “Era uma farra no rio”, diz. Para que fique claro, todo o motor foi montado por Aristides a partir do zero e funcionava.

Sozinho aprendeu a mexer em motores, como fazer rodas motoras, como funciona a eletricidade e como funcionavam as bobinas desmontando motores de popa. Até hoje ele inventa motores e esnoba descobertas modernas: “Faz pouco tempo que inventaram a ignição sem platinado, mas eu já a tinha feito há 50 anos”. Ainda moleque fez sua primeira caldeira, em 1940. Pegou latas de óleo de cozinha e as colocou no fogo. Como não tinha torno naquela época, torneou tudo na mão. E como se torneia na mão? “É simples. Pega dois paus bem compridos, os cruza e fica atritando-os. Furar era tudo na força bruta, eu não tinha furadeira”. Um tempo depois, ele fez para si uma furadeira. Não elétrica, manual.

Atualmente, Aristides está empenhado em fazer telhas de cerâmica a partir de um modelo de 60 anos atrás. “Naquele tempo quase não tinha antimônio [um semi-metal]”, explica ele, “então eu fiz antimônio misturando zinco com chumbo e deu certo, a telha saiu perfeita”. A forma de telha que usa é esculpida por ele mesmo primeiro em saibro e depois feita de antimônio derretida. Se der defeito, ele funde outra. Aristides conta que há alguns anos, vários ceramistas foram atrás dele querendo que fizesse a prensa de telhas para eles, mas não aceitou. Por que não? “Ah, não. Capaz de sair algum defeitinho e acharem ruim”.  Em outra época, uma empresa que exigia um nível de escolaridade de seus empregados ficou sabendo de nosso protagonista e quis contratá-lo mesmo assim. De novo, não foi. E por que não? “É amor na família. Não queria ficar longe dela. Mas se fosse hoje, pelo amor de Deus!”, ele vibra levantando os braços para o céu.

Continua nos posts abaixo.

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