Fantastic Mr. Fox: o trailer

Texto de Lucas Scaliza

Foi lançado o trailer do novo filme de Wes Anderson, Fantastic Mr. Fox, que virou Rapozas e Fazendeiros no Brasil. É a primeira vez que o diretor se aventura pelo terreno da animação stop-motion (mesma técnica de Coraline).

Na história, Mr. Fox rouba os animais e os produtos de três fazendeiros: Boque, criador de galinhas, Bunco, criador de patos e gansos, e Bino, que cria perus e planta maçãs. Cansados das investidas do Sr. Raposo, os fazendeiros resolvem se vingar.

No trailer, vários nomes de atores conhecidos aparecem, como George Clooney e Meryl Streep. Outros colaboradores de Anderson também estão lá: Owen Wilson, Jason Schwartzman e Bill Murray. Não sei como o nome de Angelica Houston não apareceu, antiga colaboradora do cineasta.

Wes Anderson dirigiu Viagem a Darjeeling, Os Excêntricos Tenenbaums, e A Vida Marinha com Steve Zissou. O filme estréia nos EUA em 13 de novembro e em 14 de dezembro nos Brasil.


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Adeus, Yolanda

Texto e fotos de Lucas Scaliza

 

“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer
“É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas”, disse Yolanda Jacomini, um dia antes de falecer

 

A entrevista abaixo foi publicada no jornal Expresso Tietê do dia 17 de julho deste ano. Entrevistei Yolanda Jacomini na manhã de uma terça-feira. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, menos de 24 horas após nossa conversa. Essa ficará marcada em minha história.

Comer, dormir e trabalhar. São os três elementos que Yolanda Maniero Jacomini considerava as melhores coisas da vida. “Tudo é bom, mas essas três coisas são essenciais”, ela disse animada. Todos os dias ela acordava ainda de madrugada (3:00 AM!) para dar início a seu trabalho. Yolanda era proprietária do Hotel e Restaurante Cristal, localizado no centro da cidade. O telefone do local, quando entrou em atividade, era o número 40.

Lá atrás, em 1955, o hotel era apenas um bar comprado por seu marido, José Antonio Jacomini, que vislumbrou o grande mercado que poderia abocanhar quando a barragem e eclusa barra-bonitenses começaram a ser construídas. De seus 74 anos de idade, Yolanda passou 54 dedicando-se ao hotel e disse que não pretendia deixar o ofício. “Enquanto minha cabeça estiver boa, continuarei trabalhando”, declara.

Os hotéis estão no sangue da família. Os três filhos de Yolanda – José Luiz, Roseli e Rilton Rogério – foram criados à sombra do trabalho dos pais no hotel e hoje cada um deles comanda um novo estabelecimento. Rilton tem o Hotel Príncipe, Roseli tem o Hotel Vitória e José Luiz montou o Stillus Motel. Além disso, Yolanda fora sócia-proprietária anos atrás do hotel Beira Rio, que hoje pertence ao seu irmão, Moacir Maniero.

Yolanda concedeu esta entrevista a mim na manhã de terça-feira. Estava alegre, com brilho nos olhos. Ninguém esperava que este fosse seu último registro em vida. Na quarta-feira, dia 15, Rilton veio me contar sobre o falecimento de sua mãe. Ela acordou e desceu para trabalhar como sempre fez. Algumas horas depois foi acometida por uma parada cardíaca fulminante. Yolanda errou. A cabeça estava boa, o coração é que precisava de atenção.

A senhora passa o dia todo no hotel? – Agora eu tenho um apartamento no hotel e moro aqui mesmo. Todos os dias eu acordo às 3 horas da madrugada, tomo café e desço para trabalhar. Acordo cedo faz muitos anos, desde quando precisava preparar o almoço para os funcionários da companhia de força e luz antigamente. Aí acostumei. Eu gosto de acordar cedo.

A senhora dorme cedo também? – Quando é 21 horas já estou na cama.

Nem vê a novela? – Só as que passam antes desse horário. [risos] Trabalho até o meio dia e depois fico de folga o resto do dia.

“Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar”

O que a senhora faz nessas horas de folga? – Descanso um pouco, vejo uma novelinha e alguma outra coisa na televisão e depois durmo. Gosto de ler revistas, jornais e a Bíblia também. Leio o que eu tiver na mão. Sempre gostei de ler, mas nunca tive muito tempo para isso. Agora que só cuido do hotel, e não mais do restaurante, tenho tempo.

A senhora já se aposentou? – Aposentei-me faz um ano. Era para eu ter me aposentado há muito mais tempo, mas achava que as pessoas só faziam isso porque precisavam do dinheiro. Como eu tinha dinheiro para viver, demorei em me aposentar.

Ainda hoje a senhora é uma mulher animada que mostra disposição. Sempre foi assim? – Sempre, sempre. Tem clientes que dizem que sou a mãezona deles, porque procuro dar atenção a eles e não fico nervosa facilmente com qualquer coisa. Não estou nem aí, se acontecer alguma coisa logo entramos num acordo. [risos]

Muita gente diferente passa pelo hotel. É fácil lidar com todas elas? – É fácil lidar com as pessoas, é só ter paciência para ajeitar as coisas. Gosto de ver gente e gosto de trabalhar com hotéis, por isso estou aqui até hoje. E vou trabalhar até o dia em que minha cabeça parar de funcionar!

Quando a senhora gostaria de parar de trabalhar? – Na verdade, nem penso nisso. Enquanto minha cabeça estiver boa, vou seguir trabalhando. O trabalho faz parte da vida, quem não quer trabalhar está perdendo um pedacinho da vida. Nesta vida eu já fiz um pouquinho de tudo.

Depois de passar 54 anos comandando um hotel, o que é mais difícil fazer aqui dentro? – Não tem nada muito difícil no hotel. A parte que exige mais cuidado é o restaurante mesmo, ali vai muito de gosto. Sempre precisamos ajeitar uma coisinha ou outra.

A senhora não é barra-bonitense. Como chegou aqui? – Nasci em Piracicaba e lá morei e estudei até os 12 anos. Depois minha família se mudou para o Barreirinho e foi lá que comecei a cortar cana. Também morei por dois anos em Igaraçu do Tietê, onde trabalhei como padeira e doceira. Aos 20 anos me casei e desde então estou em Barra Bonita e no hotel.

Como a senhora conheceu seu marido? – Conheci o José Antonio na fazenda do Barreirinho. Enquanto eu cortava, ele puxava a cana. [risos] Naquela época, não dava para namorar no serviço, então a gente só se encontrava nos finais de semana e em algum bailinho de que participávamos, daqueles que começavam às 20h e acabavam a meia-noite. Meu irmão também era amigo do Zé Antonio e colocava lenha na fogueira. [risos]

E quem foi que pediu o outro em namoro? – Ele me pediu em namoro, e pediu permissão ao meu pai também. Não era tão fácil começar a namorar uma moça. Naquele tempo as mulheres não corriam atrás dos homens.

O que o homem tinha que ser para conquistar as moças daquela época? – Primeiramente, observávamos se ele era trabalhador, depois víamos se era honesto, se não era mulherengo. Essas são as coisas que importavam mais na época.

Que lugares a cidade tinha para namorar? – A gente não podia namorar por aí, tínhamos que namorar em casa. Nada podia ser feito escondido ou no escurinho. Há 54 anos, a coisa era assim. [risos]

O humorista Mazzaropi já ficou hospedado no hotel de Yolanda. “Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na ‘vida real’: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem”

De quem foi a idéia de comprar o bar que virou hotel? – Três meses antes de casarmos, o Zé Antonio comprou o bar. Eu comecei a trabalhar no bar também, porque a mulher devia ajudar o marido, não é? Nunca me esqueço de uma vez que fui arrumar uma cama e achei um lote de dinheiro embaixo da cama. Perguntei: “Mas para quê é esse dinheiro, Zé?”, e ele respondeu: “É o dinheiro para pagar o bar, oras”. Ele tinha comprado o bar fiado, [risos] pensando na barragem que estava sendo construída. Depois de um tempo ele comprou um terreno – fiado também.

Se o turismo da cidade fosse ainda mais desenvolvido seria melhor para o hotel? – Nossa, e como seria! O pessoal teria mais novidades para ver e precisaria ficar mais tempo aqui. Do jeito que a Barra está hoje não é ruim, mas podia ser muito melhor.

O que a senhora e os demais hoteleiros da Barra acham que podia ser feito para melhorar o negócio de vocês? – Hum, não sei. Talvez se a cidade tivesse mais atrações os turistas ficariam mais dias aqui. Ao invés de ficarem apenas um dia, ficariam dois ou três. Os turistas que vêm ao meu hotel dizem que vão embora logo porque já viram tudo o que a cidade tem.

E o que os turistas dizem da cidade? – Acham que a Barra é simpática, que o rio é muito bonito, mas que não tem outras coisas para se ver.

Também dizem que a senhora chegou a trabalhar direto por 20 horas. – Em alguns dias eu acordava às 6h e só parava à meia-noite. Era tanto serviço – fazer almoço, servir, limpar, fazer a janta, servir, limpar – que não tinha como parar. Mas o restaurante daqui é mais para o dia-a-dia: com arroz, feijão, carne e verdura, sem muita variação.

O Mazzaropi se hospedou aqui? – Sim, e ficou uma semana por aqui. Os circos vinham para a cidade e vários artistas acabavam passando por aqui. Numa dessas, veio o Mazzaropi. Todo mundo ficava aqui conversando com ele. Do mesmo jeito que ele se apresentava no palco ele era na “vida real”: bem simplório, brincalhão e tinha aquele mesmo jeito de andar do personagem.

A senhora já tirou férias do hotel? – Já saí em férias, mas não muitas. Não gosto de sair muito. Viajei por vários lugares do Brasil e conheci a Argentina e a Itália. Gostei dos outros países, mas acho que o Brasil é único, não o trocaria por nada. Na Itália, por exemplo, a terra parece ser muito fraca e tudo custa muito caro.

A senhora reparou nos hotéis argentinos e italianos? – Ah, a gente olha, aprende alguma coisa e aplica, dependendo do que for. Achei muito seco o atendimento nos hotéis italianos. Eles não dão atenção ao cliente como nós. Para qualquer coisa que perguntamos, logo dizem “não sei, não sei, não sei”. A gente ainda vai até a porta com a pessoa e explica o caminho para ela, se ela pediu alguma localização. Prefiro o Brasil, sem dúvidas.

Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo
Yolanda ficou a frente do Hotel Cristal por 54 anos e não esperava parar tão cedo

Faces de Buenos Aires

Texto de Lucas Scaliza e Fotos de Gisela Bobato

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O olhar estrangeiro pode revelar detalhes e belezas de nossa terra natal que não tínhamos notado antes. Talvez seja isso que um hermano sinta ao ver as fotos que Gisela Zaffalon Bobato fez em 2008 da Argentina.

A fotógrafa registrou no ensaio Buenos Aires um pequeno pedaço da vida portenha. Estão lá os personagens da capital, o tango, o gentleman, o cancioneiro, o ambiente, as cores da cidade, o futebol, os protestos, os prédios, os objetos e até os animais. Gisela disponibilizou em seu Flickr o ensaio completo em tamanho generoso para aqueles que quiserem ver cada ruga no rosto dos idosos e cada marca do tempo nos objetos que encontrou em Buenos Aires.

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As cores da Björk ao vivo

Texto de Lucas Scaliza

Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)
Björk no palco do show da turnê de Volta. Foto de Paola (nott1op9)

Depois de lançar com enorme alarde seu último álbum de estúdio, Volta, Björk retorna com um registro ao vivo da turnê. Voltaic foi lançado em julho e contém dois sets de shows. O maior deles registra a apresentação da cantora islandesa em Paris quase no fim da turnê. O segundo, bem enxuto, foi gravado em Reykjavík e nos brinda com canções soturnas novas e antigas.

Depois da introdução com uma marcha nórdica, Björk logo faz o show em Paris explodir com a percussão étnica de “Earth Intruders”. Daí para frente segue-se uma seleção de grandes músicas de Volta e de álbuns anteriores, principalmente Homogenic, Vespertine e Medulla. Estão lá “Hunter”, “Hyperballad”, “Pluto”, “Army of Me”, “Bacherolette”, “Who Is It” e “Jóga”, como destaques entre as antigas. E “Declare Independence”, “Vertebrae by Vertebrae” e “Wanderlust”, entre as criações da última safra.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções

A cada turnê, Björk muda a composição de seu palco, isto é, as cores do show, os instrumentos que serão usados por sua “banda” e por seu coral. Muda também a sua atitude. Uma das belezas de ouvir – e de ver, pois Voltaic é um DVD duplo também – a islandesa de 43 anos ao vivo é reparar em como ela rearranja e quase recria suas músicas para novas configurações de instrumentos.

Como sempre, as cores fazem a diferença e ajudam a despertar no público uma aquarela de emoções. Desde os raios laser verdes até a roupa bufante rosada da artista central, e do macacão amarelo com riscas coloridas dos músicos do coral até as bandeiras com símbolos antigos no alto do palco, tudo tem sua força na produção. Em contraste com tudo isso está o clima às vezes depressivo das canções executadas.

Entretanto, a versão ao vivo do DVD é diferente da versão ao vivo do CD. Embora belo, o DVD com o show de Paris e Reykjavík não tem as superconhecidas (e exigidas pelo público, em certa medida) “Pagan Poetry” e “All is Full of Love”, o que o deixa com um certo vazio. Já o CD, gravado no Olympic Studios, traz uma apresentação menor, mas que contém essas duas faixas. Não tem jeito, para se satisfazer com o novo lançamento de Björk o consumidor terá que possuir tanto CD quanto DVD.

Veja abaixo um vídeo de Voltaic das músicas “Hyperballad” e “Pluto” e observe como o show vira uma balada pessoal de Björk.

Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m
Olympic Music Hall, em Paris, anuncia show de Björk. Foto de Vincent.m

 

“Covering” Michael Jackson

Texto e fotos de Lucas Scaliza

“Eu só queria que ele soubesse que eu existia”, diz Rodrigo Teaser, considerado o melhor cover da América Latina do Rei do Pop mundial

Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão
Rodrigo Teaser começou a imitar Michael Jackson aos 4 anos de idade. A brincadeira virou sua profissão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rodrigo Matos chegou a Barra Bonita às 19h45. Desembarcou no restaurante El Puerto acompanhado pela noiva, Priscila Freitas, e por Marcelo Nardo, organizador do evento que o trouxe a cidade. Chegou vestindo boné e roupas de cores neutras e escuras, não fez alarde, agiu discretamente. Seu codinome é Rodrigo Teaser e sob esse pseudônimo o jovem de 29 anos se transforma em um cover de Michael Jackson que, sobre o palco, é uma figura expansiva, dançante e luminosa que quase em nada lembra o Rodrigo que poucas horas antes passava desapercebido na multidão.

Em meados de 1990 veio a onda do ICQ e todo o grupo de amigos de Rodrigo, que também gostavam de Michael Jackson, correu para se inscrever no programa usando seus nomes junto de alguma música do cantor. “Eles foram mais rápidos e pegaram as músicas mais conhecidas, como ‘Bad’, ‘Dangerous’, ‘Beat It’, etc. Para mim sobrou a música nova dele na época, que estava sendo chamada de ‘Teaser'”. Assim nasceu Rodrigo Teaser, que adotou o nickname como nome artístico.

Michael Jackson (o original) começou a mostrar que era um artista quando tinha cinco anos e cantava e dançava. Aos 11, o mundo o conheceu como o carismático vocalista do Jackson Five. Não tardaria a se lançar em carreira solo, longe dos irmãos. Com Teaser a história foi parecida. Ele é fã do Rei do Pop desde os cinco anos e aos nove sua mãe começou a inscrevê-lo em concursos de imitações mirins de Michael Jackson. Alguns desses concursos foram veiculados nos programas da Mara Maravilha e da Angélica. “Fui crescendo e a coisa se profissionalizou, mas continua sendo uma brincadeira, é um faz de contas”, ele diz.

“O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”

Passava da meia-noite e meia quando Rodrigo Matos virou Rodrigo Teaser e apareceu no palco do El Puerto. Depois de uma introdução operística, Michael surgiu do fundo negro cantando “Bad”, com cabelos longos e encaracolados, camiseta branca sob uma jaqueta preta de couro, calça social e sapatos de dança pretos e meias brancas com adereços bufantes na canela. Igualzinho ao Michael que cantava “Bad” na década de 1990. Durante o show ele interpretaria ainda os maiores sucessos do astro como “Beat It”, “Thriller”, “Billie Jean” e “Black or White”, com direito a pirotecnias. As jaquetas vermelhas usadas nos clipes de “Thriller” e “Beat It” estavam lá, assim como o chapéu preto e a luva de cristais e paetê de “Billie Jean”. Todas as danças características do Michael original o Michael cover executou com perfeição, da famosa Moonwalk à dança com zumbis.

Rodrigo Teaser nunca fez aula de dança, mas desde pequeno observava os passos de Michael. “O Michael tem um jeito muito intuitivo de dançar. Em duas horas de show, tenha certeza de que pelo menos 1h20 são de improvisações dele”, explica Teaser. “Quando você começa a sacar o jeito dele de se comportar você percebe que ele tem um modo de improvisar para cada música. Isso nos faz criar e aprender um leque de passos diferentes”. Teaser diz que sempre estuda o local onde vai se apresentar para não ter surpresas e poder adaptar bem o espaço e a iluminação às suas necessidades.

“Tenho que estudar muito, porque o show do Michael é muito bem montado e feito para tirar emoções diferentes ao longo dele. E tudo ajuda para extrair as emoções, a música, a dança, a iluminação…”, conta Teaser. “Quando faço um show grande, com bailarinos de apoio e tudo mais, tentamos fazer a mesma coisa – salvo as devidas proporções, é claro”.

Teaser geralmente não canta ao vivo, ele dubla a voz de Michael Jackson de faixas extraídas de apresentações ao vivo. “Tem gente que no final do show diz que meu inglês é perfeito”, conta rindo. Completa dizendo que o próprio Michael às vezes dubla suas próprias músicas para não comprometer nem a voz e nem a dança. “Isso acontece em músicas como ‘Thriller’, que requerem um cuidado maior com a coreografia”. Quem o vê dançando o tempo todo logo imagina que ele termina a noite esgotado, mas Teaser explica que com o tempo aprendeu a segurar mais a energia em alguns momentos para liberá-la apenas em momentos específicos. Entretanto, confessa que não consegue se segurar muito. “Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era. Saio morto do palco”.

“Quando o pessoal grita e canta junto você se solta e já era”

Mantendo a máxima fidelidade possível ao original, Teaser faz diversas trocas de roupa durante seu show. Embora tenham um sentido estritamente estético e de identificação, o figurino é importante para o artista sentir que está no clima e no “humor” certo para interpretar determinada canção. “Eu não consigo interpretar uma música sem a roupa própria para. Fico louco com isso! Tem gente que quer que eu troque a ordem das músicas, mas digo que não tem como porque elas estão listadas numa sequência lógica. Eles acham que não tem problema, mas tem, sim. O show de um artista é uma obra fechada, nada é por acaso”, inquieta-se Teaser.

Sua noiva, Priscila Freitas, é atriz e tabém faz eventos como cover da atriz norte-americana e eterna pin up Marilyn Monroe. Conheceram-se em uma das apresentações que fizeram. Por compartilharem a mesma profissão, eles se apoiam mutuamente. “Quando faço show, ela me ajuda. Quando é a vez dela, eu a acompanho”.

De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"
De todo o repertório de Michael Jackson, diz Teaser, as músicas que não podem faltar no show são "Billie Jean" e "Thriller"

 

Rei do Pop?

A carreira solo do cantor estadunidense começou pra valer em 1979 com o disco Off The Wall, transformando-o em uma promessa da black music. Um ano depois, no meio de uma turnê e de complicações com sua primeira rinoplastia, aceitou o convite do cineasta Steven Spielberg para narrar a história de E.T. – O Extraterrestre em um álbum musical. Em 1983 veio seu maior sucesso que o consolidou como Rei do Pop. O álbum Thriller vendeu 106 milhões de cópias e é o disco mais vendido da história. O vídeoclipe da faixa homônima é, na verdade, um curta-metragem de 14 minutos que custou US$ 600 mil e o fez entrar na história por mais um motivo: foi o primeiro artista que usou o videoclipe como algo que complementava a música, o álbum e o artista, mostrando como aquela linguagem audiovisual poderia ser usada de maneira original.

“Ele não era só música”, observa Rodrigo Teaser. “As pessoas reconheciam seus clipes e vestiam a música dele. Se alguém na rua estivesse com uma jaqueta vermelha, logo todo mundo remeteria aos clipes de Michael Jackson. O mesmo acontecia se alguém usasse uma luva de paetê com cristais”. Foi por tomar essas várias frentes – música, videoclipe, figurino, dança, show, filmes – que o reconheceram como um divisor de águas não só na indústria fonográfica, mas dentro de uma série de outras áreas criativas – como a moda e a cenografia. Britney Spears, Usher e Justin Timberlake, artistas do pop recente, e a própria Madonna, diva do gênero, reconhecem Michael como inspiração que apontou um caminho para todos eles. A MTV também reconheceu, ainda que tardiamente, que se não fosse por Michael o canal não seria o que se tornou. “A carreira dele é tão grande que é difícil encontrar alguém para quem MJ passou despercebido”.

Notícia de uma tragédia

Rodrigo Matos (ou Teaser) estava fora de casa quando um amigo lhe telefonou e contou que “Michael Jackson sofreu uma parada cardíaca”. Ficou estarrecido. Perguntou se era boato e o amigo respondeu que “provavelmente não”, já que várias emissoras de TV estavam fiilmando o hospital onde o astro fora socorrido. “Fui voando para casa e liguei a televisão. Todos os canais falavam da tragédia. Não me passava pela cabeça que uma coisa dessas aconteceria”, declara.

Logo veio a notícia: “MJ pode ter morrido”. Contudo, o site de fofocas de celebridades TMZ já estampava em sua página principal a notícia “Morre Michael Jackson”, furando todos os veículos de comunicação. Teaser não quis acreditar de imediato e ficou esperando a CNN confirmar. “Quando confirmaram a morte a sensação foi estranha, foi como se eu perdesse o chão”, revela. Logo depois os telefones de sua casa começaram a tocar e muita gente queria entrevistá-lo, mas Teaser estava bastante abalado e confusão ainda. “Gravei o programa Mais Você da Ana Maria Braga numa manhã de sexta-feira e não segurei a onda. Depois disso a Priscila ligou para todas as emissoras, pediu desculpas por mim e desmarcou todas as gravações que eu faria”.

“Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Teaser e sua noiva tinham comprado dois ingressos cada um para dois dos últimos 50 shows que Michael apresentaria em Londres, nos dias 8 e 10 de setembro. Estima-se que o lucro desses show chegaria a US$ 50 milhões e todos os ingressos esgotaram-se rapidamente. “Conseguimos preços bons e começamos a correr para trabalhar e pagar a viagem a Londres”, conta. Cada novo detalhe dos shows era acompanhado de perto pelo Twitter de Kenny Ortega, o organziador do megaevento. O ensaio de Michael, recentemente divulgado pela televisão, já havia sido postado na internet por Ortega logo depois de ser gravado. “Foi um dos ensaios mais incríveis até agora. Michael está em ótima forma”, disse o organizador.

Michael passou três vezes pelo Brasil. Em 1974, durante a turnê sul-americana do Jackson Five, em 1993 para dois shows no estádio Morumbi em São Paulo e em 1996 para a gravação do clipe de “They Don’t Care About Us” na favela Santa Maria (RJ) e no Pelourinho (BA). Rodrigo teve a oportunidade de vê-lo ao vivo em São Paulo, mas na época tinha apenas 13 anos. Sua meta nunca foi ganhar nada do ídolo, não era sequer tirar uma foto ao lado dele. “Só queria que ele soubesse que eu existia”, desabafa Teaser, que inclusive preparava uma operação em solo londrino para se fazer notar por Michael. “Eu estava produzindo um livrinho de capa dura com fotos minhas, mostrando meu trabalho. Ia gastar uma grana e fazer 40 desses. Ficaríamos em Londres por 5 dias para entregar os livrinhos a todo mundo que é parte da produção do show. Eu já conhecia o rosto de cada bailarino e o nome deles, conhecia os produtores e os diretores do espetáculo. Um desses livros chegaria às mãos de Michael”.

Embora não seja fácil aceitar uma rasteira dessas do Destino, Teaser parece conformado. “A vida nos apresenta as coisas de formas estranhas”, comenta, e completa, sem deixar claro se a esperança morreu ou não. “Há pessoas que dizem que ele devia saber sobre mim por causa da abrangência do meu trabalho, mas nunca tive prova alguma disso. Por isso prefiro a hipótese de que ele não sabia”.

Michael Jackson não foi o primeiro ídolo mundial que morreu cercado de problemas, seja na vida financeira, pessoal, social e na saúde. No livro História da Música: da Idade da Pedra à Idade do Rock, o musicólogo Valdir Montanari conta que Elvis Presley morreu mais vítima que herói, neurótico e cansado do severo esquema que os empresários montaram para faturar em cima dele. “Ao final da vida”, escreve Montanari, “ele estava desgastado, desiludido e sustentado por remédios”.

Com Michael não foi muito diferente de Elvis. Deixou uma dívida de milhões dólares (ninguém sabe ao certo quanto) e seu acervo pessoal de objetos quase foi a leilão em abril. Estava viciado em remédios, com problemas nas pernas e nas costas. Sua nova turnê começaria nessa segunda-feira, dia 13.

Veja mais fotos de Rodrigo Teaser interpretando Michael Jackson clicando aqui e veja seus vídeos de shows aqui!

Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência
Teaser e sua noiva compraram dois ingressos para ver dois dos últimos shows de Michael em Londres. Lá faria o astro saber de sua existência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Manhattanhenge

Texto de Lucas Scaliza

Manhattanhenge visto da Rua 42, na Big Apple. Foto de Harvey Silikovitz
Manhattanhenge visto da Rua 42, na Big Apple. Foto de Harvey Silikovitz

Essa semana o entardecer de Manhattan foi mais bonito. O sol poente ficou perfeitamente alinhado com um dos principais cruzamentos da mais famosa ilha de Nova York. O efeito tornou-se ainda mais marcante quando o sol se pôs justamente entre os altos prédios de Manhattan.

Esse fenômeno é conhecido como Solstício de Manhattan, ou simplesmente Manhattanhenge. O termo deriva do Stonehenge, o monumento pré-histórico que foi construído de forma que suas estátuas se alinhassem ao sol dos solstícios ingleses. Os Manhattanhenge se dão principalmente entre os dias 12 e 13 de julho, durante o solstício de verão nos Estados Unidos, e voltam a acontecer entre 5 de dezembro e 8 de janeiro, época do solstício de inverno.

“Hoje foi um desses dias”, disse o fotógrafo Harvey Silikovitz no domingo, 12, após apresentar ao mundo suas fotos do fenômeno. “Eu estava sobre a passarela Tudor City, vendo o lado oeste da cidade ao longo da Rua 42 e de frente para o Chrysler Building. Sou um sortudo por ter conseguido capturar aquele momento. Não estava com minha câmera ‘boa’ porque tinha me esquecido completamente que o Manhattanhenge ia acontecer, mas felizmente eu sempre estou minha câmera básica”.

Além de Silikovitz, muitos outros fotógrafos estavam nas Rua 42 ao entardecer esperando o melhor momento para registrarem a cena. As fotos estão na internet e podem ser observadas em vários sites, de amadores a profissionais.

Abaixo segue alguns exemplos de boas imagens do Manhattanhenge feita pelos fotógrafos Sahadeva Hammari, Bernhard Suter, Stuart Johnson, Ludmila Marques, Nanynany, Amazin’ Jane e Diego Merino.

Foto de Sahadeva Hammari
Foto de Sahadeva Hammari
Foto de Stuart Johnson
Foto de Stuart Johnson
Foto de Diego Merino
Foto de Diego Merino
Foto de Amazin' Jane
Foto de Amazin' Jane
Foto de Ludmila Marques
Foto de Ludmila Marques
Foto de Bernhard Suter
Foto de Bernhard Suter
Foto de Nanynany
Foto de Nanynany

55 anos de rock – parte 3

Texto de Lucas Scaliza

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Polifonias roqueiras – final

O rock já foi estudado e retratado de todas as formas imagináveis. Está no cinema, nas artes plásticas, na televisão, na literatura, inspira e embala peças teatrais, fala de si mesmo e faz paródia de si em diversas músicas, num exercício de metalinguagem. Também invadiu o ambiente acadêmico e não é difícil encontrar teses de pós-graduação que abordam o tema.

O poeta, músico e escritor José Miguel Wisnik, que tem várias composições musicais próprias e outras feitas em parceria com grandes nomes da MPB (como Caetano Veloso), também falou sobre o rock em seu livro O som e o sentido: Uma outra história das músicas. Wisnik, que há vários anos é professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), analisou a música contemporânea e concluiu que o cenário é dos mais confusos. Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, diz ele, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”.

Segundo ele, a repetição e a alternância entre ruído e silêncio e as experiências de sincronia e simultaneidade tanto podem atestar o fim do social como podem criar um tempo musical singular para outros, de extrema complexidade e sutileza. “O rock encontra-se no meio desse fogo cruzado, uma hibridização típica da cultura pós-moderna”.

Partindo de uma concepção estética na qual a música constitui uma descarga de afetos, a produção contemporânea pode ser entendida como “uma polifonia de simultaneidades que está perto do ininteligível e insuportável”, diz Wisnik

O rock, escreve Wisnik, é a superfície de um tempo que se torno polirrítmico. “Progresso, regressão, retorno, migração, liquidação, vários mitos do tempo dançam simultaneamente no imaginário e no gestuário contemporâneos, numa sobreposição acelerada de fases e defasagens”. Complicado entender? Um pouco, mas a discussão serve para contextualizar o rock – e a música em geral – dentro do mundo de hoje, em que várias modas e tendências, posicionamentos políticos e mudanças econômicas e culturais acontecem ao mesmo tempo.

Atualmente o rock está em uma fase de múltiplas confluências. Você quer ouvir heavy metal? Pois existem várias bandas deste estilo em atividade. Quer folk rock à la Bob Dylan? Você também encontra. Rock com música eletrônica? Rock com hip hop? Rock comercial? Rock do século 21 com pinta de década de 1970? Tudo isso acontece agora. Pelo jeito, o rock é um senhor de 55 anos que pretende viver por pelo menos mais 50 e continuar influenciando todas as áreas do conhecimento humano, quer você goste da música ou não.