Publicado por: Lucas Scaliza em: 05/07/2009
Texto de Lucas Scaliza/Foto divulgação

Russel e Carl. Dois valentes solitários, cada um a seu modo
Idosos e balões coloridos. Uma selva da América do Sul e um escoteiro determinado que quer uma relação paterna. Uma ave que come chocolate e cães falantes. Esses são alguns dos principais elementos que compõem Up – Altas Aventuras, nova animação da Pixar em parceria com a Disney.
Depois do belo Wall-E, cujos 40 minutos iniciais ganharam facilmente o público e a crítica (e um Oscar), a expectativa com a próxima animação da Pixar tornou-se grande. O que eles iriam inventar agora? Que dilema humano mostrariam na tela? Conseguiriam superar Wall-E?
Quando os primeiros trailers chegaram à web o público ficou extasiado pelas cores e pela idéia de seus realizadores. Carl Fredricksen, um idoso de mais de 70 anos tem sua casa içada por milhares de balões. Faltavam o contexto em que isso aconteceria e qual seria o desenvolvimento dessa aventura.
Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir.
Desde criança, Carl era fascinado pelo aventureiro Charles Muntz e sonhava em ser como ele. Saindo do cinema e no caminho para casa encontra Ellie, uma garota ruiva que compartilha com nosso protagonista a admiração por Muntz e o sonho em viver uma aventura. O tempo passa, os dois se casam e envelhecem. É incrível como essa passagem de tempo e a relação entre os dois é passada ao público – infantil, em sua maioria – de forma tão singela e sutil, sem diálogos, aproveitando bem a trilha sonora e o poder narrativo das imagens, das situações, da ação e da reação dos personagens.
Quando a história chega ao tempo presente, Carl segue convivendo com a morte de sua esposa. A vizinhança já não é a mesma e sua casa está cercada de obras, mas ele teima em ficar. Teima até ser obrigado a se retirar. Aqui já temos todo o contexto que nos faz entender – sem que isso seja expresso em palavras por Carl – suas motivações em amarrar balões coloridos em sua casa para que saia voando em direção às florestas da América do Sul, onde espera encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e não pôde em vida.
Acidentalmente, junto com o velhinho vai o escoteiro Russel. Ele já tem várias insígnias em seu uniforme de explorador, menos uma: a insígnia por ajudar idosos. No meio de todos os problemas que a aventura apresenta, os roteiristas conseguiram incluir um dilema em Russel que acaba tornando o personagem mais real e mais empático com o público. Como não gostar de um gordinho simpático e valente que mora com a madrasta e sente falta do pai? O trunfo da produção é mostrar tudo isso de uma forma sutil e crível, sem em momento nenhum descambar para o melodrama.
Up não é uma animação japonesa e o diretor Pete Docter não é Hayao Miyazaki. Enquanto o mestre nipônico consegue fazer seus vilões tornarem-se apenas mais personagens complexos na história, e assim eliminando a rotulação dura de vilões que carregavam, Up faz o contrário. Charles Muntz assume o papel do vilão. Quando ele surge, já velho mas ainda obcecado em se reafirmar como aventureiro de credibilidade, temos a impressão que uma nova história seguirá dali. Mas Muntz acaba encarnando o vilão, e assim segue até o final do filme, como personagem raso e com o desfecho que cabe a um vilão.
Contudo, temos que dar crédito a Pixar. Não é fácil adequar temas tão complicados como a carência da figura paterna e a dor da perda de uma esposa em uma animação para crianças, que geralmente aposta mais nas piadas do que nos sentimentos que seus modelos 3D são capazes de transmitir. Além disso, Carl não busca superação nenhuma quando tenta encontrar o lugar que Ellie sempre quis visitar e o filme não força um encontro entre pai e filho só para dizer que o dilema de Russel teve final feliz. Assim como tinha feito em Ratatouille (em menor escala) e em Wall-E (em maior dose), a Pixar conseguiu não deixar que soluções fáceis esmagassem uma história bonita e bem mais sofisticada que a maioria das animações americanas.
[...] o holográfico By Lucas Scaliza http://oholografico.wordpress.com/2009/07/05/idosos-e-baloes-coloridos/ http://oholografico.wordpress.com/2009/07/05/idosos-e-baloes-coloridos/ [...]