Publicado por: Lucas Scaliza em: 16/12/2009

Caminhã carregado de suprimentos, mercadorias e pessoas cruza o deserto em direção a Agadez. Foto de Shepherd
No norte da África, ao norte da Nigéria, no meio do Sahara fica uma cidade chamada Agadez (ou Agades), capital da província de Air. Em 2005, Agadez tinha 88.569 pessoas vivendo em seu oásis. É a cidade do povo africano conhecido como Tuaregs que, na tradução do idioma local, signifca “esquecidos por Deus”.
Foi fundada no século XIV como parte de uma importante rota comercial no deserto do Sahara. Em 1900 foi tomada pelos franceses e foi palco de duas Revoltas Tuaregs (a primeira nos anos 90 e a segunda permanece sem conclusão).
Atualmente o lugar é um centro comercial e uma área de onde se extrai urânio. Seu comércio de camelos, prata e couro é bastante conhecido dos visitantes. Entretanto, desde 2007, quando um novo surto de violência estourou na região, muitos países e agências (como os Estados Unidos e as linhas aéreas européias) deixaram de incluir a cidade centenária em suas rotas turísticas, o que destruiu a indústria do turismo que surgia ali.
Acredita-se que estradas indo e saindo de Agadez estejam repletas de minas terrestres. Além disso, o governo nigeriano vedou a entrada de jornalistas internacionais e organizações humanitárias na área.
Neste ensaio fotográfico totalmente dedicado a região de Agadez, foram reunidas 10 fotografias de sete fotografos com estilos diferentes e de diferentes nacionalidades. São eles AlexM., archetypes, Alfio Cioffi, Nisa Maier, Shepherd, Swiatoslaw Wojtkowiak e Vicente Méndez.

Cidadãos de Agadez trabalham no curtume, uma das atividades mais conhecidas do lugar. Foto de AlexM.
Publicado por: Lucas Scaliza em: 12/12/2009

Moon, que no Brasil deve se chamar Lunar, infelizmente não vai chegar às salas de cinema nacionais. Duncan Jones, filho do cantor David Bowie, dirigiu e escreveu todo o argumento do filme, que depois foi roteirizado por Nathan Parker. Até agora Moon ganhou resenhas elogiosas da crítica internacional e participou de oito festivais de cinema, arrecadando 10 prêmios. Mesmo assim não foi tão bem nas bilheterias e por aqui ele será lançado diretamente em DVD.
É uma pena. Em sua simplicidade e com modestíssimos US$ 5 milhões de orçamento, Moon é uma ficção científica espacial que te pega de surpresa. Existem apenas dois grandes cenários na produção: as instalações de uma base espacial situada na Lua e o próprio terreno lunar acinzentado, empoeirado, sempre contrastando o enorme breu do espaço com uma luz branca vinda do sol. E existem apenas dois personagens: o robô Gerty (voz de Kevin Spacey), que comanda toda a base, e Sam Bell, o astronauta interpretado por Sam Rockwell.
Na trama, a fusão nuclear é uma fonte limpa e barata de energia para o mundo todo. E Hélio-3, combustível usado na reação nuclear, pode ser encontrado em abundância na superfície da Lua, onde faz três anos que Sam Bell trabalha completamente isolado. Faltam duas semanas para ele se aposentar e a solidão aparentemente está causando danos a sua sanidade mental. Como a comunicação direta com o mundo exterior está com problemas, ele se conforma em assistir a mensagens em vídeo enviadas por sua esposa e sua filha. Quando precisa falar com alguém, conversa com Gerty, máquina dotada de inteligência artificial que é uma referência claríssima a HAL, o computador do célebre 2001 – Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick. HAL é apenas uma luz vermelha misteriosa que tem digressões humanas. Já Gerty é um equipamento que se move pela base e mostra suas “emoções” (isso sim é um simulacro!) por meio de emoticons. Usando uma brecha em sua programação, da qual Gerty tem plena consciência, ele se permite cumprir a missão para a qual foi programado ao mesmo tempo em que ajuda o astronauta solitário.
Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.
Durante um trabalho numa escavação lunar, Sam Bell sofre um acidente. Ele acorda algum tempo depois na enfermaria da base quase totalmente recuperado e sem permissão para sair daquele complexo. Mas ele infringe as regras e volta a cena do acidente onde encontra ele mesmo quase morto.
Logo percebemos que o astronauta era uma peça mantida na completa ignorância do contexto em que estava inserido. Qual dos dois Sam Bells será o Sam Bell original? O outro é realmente um clone? Ou os dois são clones? As gravações recebidas da esposa são verdadeiras?
A partir deste ponto, Sam Rockwell interpreta os dois Sam Bell em busca de conformação e compreensão. Cada um lida com a confusão do seu jeito, e mesmo que isso não fique expresso em palavras, os dois guardam uma profunda dúvida existencial dentro deles. Afinal, não deve ser nada fácil descobrir que você é ou pode ser um clone de outra pessoa fabricado para ser uma peça descartável, com memórias implantadas e, portanto, falsas.
Toda essa porção cerebral do filme é acompanhada por uma trilha sonora caprichada composta por Clint Mansell. Ele encontrou a trilha perfeita para exprimir as principais características estéticas do que se vê: músicas que nos remetem ao futuro e, mais do que isso, ao futuro no espaço. Mas um futuro espacial de desolação, de isolação, de sentimentos guardados que quase nunca podem ser jogados para fora. Falta alguém para compartilhar todas essas emoções com nosso herói. E já que ele não vai fazer isso, a música faz questão de ser mais sombria ou mais sentimental a medida que percebemos o que os Sam Bell gostariam de exprimir.
Até chegar a seu final, a história de Moon vai sofrer mais uma reviravolta. E tudo poderia facilmente confluir para um final megalomaníaco, com os dois Sam Bell tramando grandes planos de vingança e de sobrevivência para darem conta de seus destinos trágicos. Mas Duncan Jones manteve o “pé no chão” e resolveu tudo com engenhosidade e sensibilidade humana. Mesmo estando a 250 milhas de casa, Gerty, Sam Bell e Sam Bell encontram em suas próprias condições humanas uma solução para os problemas, envolvendo questões éticas, existenciais e de identidade.
Moon é uma boa ideia bem executada como produto cinematográfico e que não se perde na falta de gravidade do espaço. Só por isso já valeria a pena ser visto. Mas ele vai além, ele propõe a reflexão de nossa condição humana. Diverte, sensibiliza e humaniza.
Publicado por: Lucas Scaliza em: 27/10/2009
Texto de Lucas Scaliza Fotos Divulgação

Katharina Alrichs e sua banda, Sessão. Eles vêm ao Brasil para uma série de seis shows mostrando composições próprias e clássicos da MPB
A banda alemã Sessão da Noite, comandada pela cantora Katharina Ahlrichs, está fazendo uma mini-turnê pelo Brasil. O grupo deixou a cidade de Dresden, no leste da Alemanha, e a turnê germânica que faziam atualmente para aterrissarem no Brasil para uma série de seis shows que começam em Salvador, na Bahia, e passam pelas cidades de São Paulo e Barra Bonita, seguem para Joinville, em Santa Catarina, e terminam com duas apresentações em Barbacena, Minas Gerais.
Katharina Ahlrichs tocará acompanhada pelos músicos Janco Bystron (bateria), Sina Fehre (baixo), Dirk Haefner (violão e guitarra) e Lars Maeurer (piano). A banda foi formada por Ahlrichs com o intuito de tocar os clássicos da música popular brasileira, além de compor músicas próprias. Essa paixão pela MPB só foi despertar na cantora (que canta e fala muito bem o português) depois de ver um show de música tupiniquim em sua cidade. Na hora de preencher uma ficha de intercâmbio da AFS informando para quais países gostaria de ir, preencheu todos os campos disponíveis com o nome “Brasil”.
No MySpace dela é possível ouvi-la cantar MPB em português, inglês e alemão. Nos shows, será possível comprar o novo CD do grupo, Telescópio.
Entrevistei Ahlrichs por e-mail. Ela fala sobre como era viver na Alemanha dividida em dois lados durante a Guerra Fria, sobre o “jeitinho brasileiro” e música, claro.
Katharina, quando começou a sua relação com o Brasil? Morou aqui por muito tempo?
Quando tinha 16 anos fiz intercâmbio no Brasil por meio da AFS. Quando fui escolhida por esta organização ainda não tinha a mínima ideia para onde queria ir. Mas uma semana antes da decisão final, ouvi por acaso um show de música brasileira na minha cidade. Fiquei tão encantada e impressionada que pus no papel da AFS 10 vezes “Brasil!!”, em vez de 10 alternativas de países para onde gostaria de ir. Tinha que ser Brasil mesmo!
Fiquei um ano com uma família no interior de São Paulo – primeiro em Mococa e depois em Jaú. Isso foi de 1991 a 1992. Nestes últimos 17 anos voltei várias vezes para o Brasil e, contando tudo, morei uns dois anos por aí.
O que você mais gosta no Brasil? Quando chegou aqui, qual foi a característica deste país que mais te surpreendeu?
Foi a música brasileira que chamou a minha atenção primeiro. Adoro bossa nova e MPB. Os meus heróis são Elis Regina, Gal Costa, Marisa Monte, Joice, Gilberto Gil, Chico Buarque, Maria Bethânia, Djavan, Caetano Veloso e João Bosco.
Mas a primeira coisa que aprendi ao chegar ao Brasil é o grande coração e a gentileza que as pessoas daí têm. Eu me senti bem recebida, todo mundo me ajudou a me virar nessa cultura, nessa língua. E o “jeitinho brasileiro” me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for.
A sua infância deve ter passado pela fase em que a Alemanha ficou dividida entre os lados Ocidental e Oriental. Em qual desses lados você morava? Como era a vida de uma criança num país dividido? Quais eram os sentimentos da população quanto a essa divisão?
Muitas famílias e amizades foram divididas pela fronteira. A geração dos meus pais sofreu muita saudade e desespero por causa disso. Eu tinha 14 anos quando o muro caiu. Na época, morava numa aldeia muito pequena na Alemanha Ocidental, mas muito perto da fronteira. Era um tempo muito emocionante para nós, porque nos sentíamos livres de uma grande pressão que existia sobre a Alemanha Oriental. Tínhamos amigos no outro lado da fronteira que sofreram por causa da ditadura e que não tinham a possibilidade de viver a própria vida como queriam, por causa do sistema (socialista implantado).
Ficamos superfelizes quando o muro caiu e fomos para várias aberturas da fronteira afim de cumprimentar o pessoal do lado oriental. Tínhamos a grande esperança de que as coisas boas dos dois lados pudessem se misturar com respeito e sabedoria. No fim, não aconteceu bem assim. Foi mais a sensação de que a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental… Mas mesmo assim estamos felizes demais por termos a liberdade da mente, da palavra e do corpo para todos os alemães!
“O ‘jeitinho brasileiro’ me ajuda a viver até hoje, inclusive na Alemanha! É a confiança de que tudo vai dar certo – seja do jeito que for”
A Alemanha, 20 anos depois da queda do muro de Berlim, ainda guarda resquícios de um país dividido?
Infelizmente, sim. Por causa da infraestrutura, das locações de indústria e economia, até hoje os salários variam entre os dois lados (no lado oriental se ganha menos). No lado oriental também existe mais desemprego e, por causa dessas coisas, há uma certa frustração ali. Mas há exemplos muito positivos também! A nossa banda, por exemplo, é uma mistura de alemães dos dois lados. O baterista e eu somos do lado ocidental, mas moramos – como o resto da banda – em Dresden: uma cidade linda na Alemanha Oriental. A nossa geração não tem muitos preconceitos e temos uma grande amizade entre nós.
Você sempre gostou e estudou música desde pequena ou a música só apareceu para você em um momento especial da sua vida?
Eu nasci numa família muito musical. Sempre cantamos juntos, cada um tocava pelo menos um instrumento. Sempre adorei fazer música e shows. Assim ficou bem claro para mim que escolheria um caminho nesta área (que independentemente de ser dura, é MARAVILHOSA
e agradeço muito aos meus pais, que me ajudaram e me apoiaram ao invés de ficarem preocupados e rígidos.

Você vive de música hoje ou tem outras ocupações?
Eu vivo de música. Tenho dois conjuntos de música inspirados pelo Brasil, o Luamar ( www.myspace.com/luamarduo) e a Sessao. E às vezes eu dou aula de coral e canto e faço shows como palhaço.
Que características da música brasileira você ressaltaria como únicas em comparação com a música europeia e norte-americana?
O fator percussivo em todos os instrumentos – não só na bateria – é típico da música tradicional brasileira. O jeito de tocar e cantar as frases é grudado ao ritmo e ao groove da música. Mesmo na bossa nova, em que o canto parece completamente livre do metrum, é assim: sem a percepção do ritmo por dentro, nunca seria possível cantar tão relaxadamente ao lado do ritmo!
No Brasil, a música me parece ser bem mais natural e parte da vida das pessoas. Todo mundo canta sem vergonha, o povo canta junto com artistas num show, conhece as letras. Muitos sabem tocar violão e percussão.
Além dos compositores brasileiros, quem são seus artistas preferidos no resto do mundo?
Adoro Sting, Peter Gabriel, Lenny Krawitz, Maria João, entre outros. Todos eles mexem com influências do mundo inteiro e tem groove!
Em seu MySpace, vejo músicas cantadas em português, alemão e inglês. É fácil transitar em três (ou mais) idiomas?
É uma questão de exercício, de training. Para mim é muito gostoso viajar entre os mundos dessa forma. O interessante é que a técnica de cantar é diferente e a minha voz tem um som diferente dependendo de qual idioma estou cantando. Essa variedade me atrai.
“O meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca, do de Portugal e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia”
O seu português nas músicas é perfeito. Ouvindo, ninguém diria que se trata de uma estrangeira.
Obrigada!
Foi difícil pegar fluência na língua? Levou muito tempo para aprender?
Lembro que demorou uns dois meses até eu começar a entender (quase) tudo. E mais dois meses para poder dizer (quase) tudo que queria. O resto do tempo eu tentei treinar a ‘elegância’ do meu jeito de falar.
Adoro viajar, conhecer outros lugares, pessoas, culturas e sou muito chegada a línguas. Mas é claro que até hoje sempre me deparo com palavras que faltam ao meu vocabulário e com erros. Imagino também que o meu sotaque deve ser uma mistura engraçada da dicção alemã, do interior de São Paulo, do carioca (que ouço em tantas músicas), o de Portugal (pior que é…) que peguei nas minhas viagens para lá e, quem sabe, talvez até do baiano, pois passei muito tempo na Bahia.
Existe música brasileira tocando nas rádios da Alemanha ou da Europa? Europeus têm acesso fácil ao que é produzido no Brasil ou esse é um mercado de nicho?
A música brasileira é bem conhecida numa certa cena da Alemanha. Pelo menos a bossa nova é conhecida, que é tão grudada ao jazz, e a MPB. Nas rádios de alto nível cultural toca-se muito Bebel Gilberto, Astrud Gilberto, Tom Jobim, Djavan, Marisa Monte, etc. Os alemães também gostam muito de batucada e capoeira e têm muitos e muitos grupos que tocam esta música.
Você cursou Ciências Culturais na faculdade e se especializou em palhaço. Como decidiu fazer este curso e por que se especializou em palhaço?
O curso de Ciências Culturais oferece uma grande variedade de matérias. Ao lado da música, estudei teatro, psicologia e management (gerência) de cultura. Achei importante, porque sabia que ia trabalhar com isso independentemente. Sabia também que todas essas disciplinas poderiam me ajudar na profissão.
Depois da universidade eu fiz o curso de palhaço, porque sou uma pessoa que quer ficar no palco e que é muito interessada em trabalhar com emoções e com “a verdade do momento”. O palhaço é tudo isso e o que aprendi naquele curso, que durou um ano e meio, ajuda na minha presença no palco.
A sua banda tocará em Salvador, São Paulo, Barra Bonita e Barbacena, segundo a agenda de seu MySpace. Que tipo de show você preparou para essas cidades?
É basicamente o mesmo show, mas com diferenças em relação ao tempo que temos e o lugar onde tocaremos. Em Salvador e Barbacena procuramos também convidar outros músicos para tocar no palco, pois tocamos em universidades de música, e – especialmente em Salvador – vai ser um show muito “jazz”.
Em todos os lugares será uma mistura de música original do Brasil e composições próprias da gente que gostaríamos de apresentar ao público. Estou superfeliz de ter a oportunidade de tocar música brasileira no próprio país em que ela nasceu. Como somos alemães, me parece algo bem exótico! J E mais ainda porque apresentamos nossas próprias composições também! Estamos muito ansiosos e esperamos que todos gostem!
Para terminar: a arte salva?
Salva sim! Cada vez que ouço uma música que gosto fico emotiva, começo a sorrir ou a chorar. A razão de eu ser uma pessoa positiva tem a ver com a força da música. E se eu conseguir chegar até as pessoas e tocá-las com o meu canto, recibo tanta energia boa que faz bem viver! Isso é o meu lado. Agora, quanto as pessoas que ouvem a música, minha experiência mostrou que algo da minha alegria e da minha paixão viaja até o público e toca as pessoas. Se é assim, é maravilhoso!

O baterista Janco Bystron
Publicado por: Lucas Scaliza em: 17/10/2009
Texto de Lucas Scaliza

Em Distrito 9, Wikus Van De Merwe sentirá o que é estar do lado dominante e passar a ser caçado.
Há 20 anos, uma nave alienígena estacionou nos céus de Johanesburgo, na África do Sul. Nada saiu de dentro dela e a população do mundo todo voltou seus olhos e seus interesses políticos, econômicos e militares para o fato. Os humanos invadiram o lugar e encontraram milhares de aliens desnutridos, famintos e doentes. Entra em cena a MNU, versão ficcional de uma ONU bastante corrupta, que resolve alojar dignamente todos os novos habitantes da Terra em algum canto da cidade. Assim é criado o Distrito 9.
O lugar não demora a virar mais uma favela em uma grande cidade do mundo, mais um lugar pronto para ser olhado por quem não pertence a ele – mas que de certa forma é responsável pelo descaso – com preconceito, asco, assombro e uma grande dose de desconfiança. Distrito 9 (District 9, no original) monta um cenário bastante contemporâneo para discutir discriminação, segregação e apartheid como elementos alimentados tanto por indivíduos sozinhos quanto por governos e corporações.
O diretor sul-africano e estreante Neill Blomkamp sabia do potencial politizado e humanizador do roteiro que tinha em mãos, e também tinha plena consciência de que seu filme precisava servir como um blockbuster. E ele consegue fazer as duas coisas, embora uma boa porção do conteúdo tenha que se adaptar a fórmulas prontas e acabe comprometendo uma ideia que parecia promissora.

A equipe de Peter Jackson conseguiu fazer dos aliens, criados digitalmente, seres vivos, reais e perfeitamente críveis no cenário do filme
Em sua primeira metade, Distrito 9 conta o que está acontecendo em Johanesburgo como se fosse um documentário sendo filmado conforme algumas decisões são tomadas pela MNU alternando com entrevistas no futuro que lembram e explicam eventos do presente. Assim, acompanhamos a trajetória de Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley) sendo nomeado responsável pela operação de realojamento dos “camarões” (prawns, em inglês) para uma espécie de campo de concentração. Depois que é contaminado por um fluido extraterrestre, Wikus começa a sofrer mutações e vê sua posição de caçador burocrático mudar para caçado e, dessa forma, começa a ver o horror que a humanidade pode causar aos outros. Corpos explodindo, desmembramentos e palavrões fazem parte do show.
Blomkamp não tem medo de mostrar os camarões, criados digitalmente, em plena luz do meio-dia correndo, pulando, matando e morrendo graças ao trabalho competente da equipe de Peter Jackson, premiado cineasta que assina a produção do longa-metragem. Embora o público saiba que os aliens sejam pura ficção, aos olhos eles parecem bem reais.
A tensão na tela cresce até o ponto em que todas as “facções” com algum interesse no Distrito 9 mostrem suas garras – e suas armas, e sua crueldade. Aí o filme descamba para uma sucessão de brutalidades e reviravoltas já testadas e aprovadas anteriormente. Se a jeito de “falar” sobre o assunto é novo, a forma como a narrativa é levada até seu fim deixa a desejar. Contudo, para boa parte do público, o detalhe narrativo pode ser soterrado pela ação e pelo compromisso ético bastante forte da produção.
Para mostrar os rostos da intolerância humana, vemos camarões favelados revoltados com os humanos, e africanos brancos e negros que não os querem por perto. Ainda há os nigerianos, que encontraram uma forma de explorar os visitantes espaciais comercializando comida e armas com eles de uma forma bem parecida com a do crime organizado das favelas brasileiras, por exemplo, disseminando a violência e criando um poder paralelo.
Conforme o filme avança e Wikus Van De Merwe vai tentando se manter humano, tudo que é vivo e vive em sociedade entra em conflito – e aí nem sempre a paridade de genes que um compartilha com o outro vai ser o parâmetro para os personagens decidirem em quem atiram e a quem protegem. É um cão come cão que só pode nos remeter, ainda que rapidamente, a centenária máxima de Hobbes: o homem é o lobo do homem. E dos aliens também.
Publicado por: Lucas Scaliza em: 10/10/2009
Texto de Lucas Scaliza

A vampira Eli e o frágil humano Oskar: uma relação de ternura e assombro
O filme sueco Deixe Ela Entrar (Lat den Rätte Komma In, no original) está arrasando em festivais mundo a fora. Segundo o IMDB, a produção já ganhou 56 prêmios e foi nomeada para outras 11 categorias.
Mesmo sendo um filme de baixo orçamento, feito em um país do norte da Europa de onde poucas produções ganham fama mundial, Deixe ela Entrar conquista pela sensibilidade. Mesmo sendo um filme de vampiros, tema muito em voga atualmente, é na sensibilidade humana que o diretor Tomas Alfredson se concentra, dando soluções estéticas simples ao roteiro, mas conduzindo a narrativa sem apelar para clichês, nem sustos fáceis.
Na história, Oskar é um frágil menino de 12 anos constantemente atormentado por colegas da escola. Ele é incapaz de revidar às provocações, embora treine cotra-ataques e respostas em seu quarto. Um dia, Oskar conhece sua nova e estranha vizinha, Eli, uma menina que também tem 12 anos. Logo ficamos sabendo que ela é a vampira da história. Daí pra frente, Oskar vai deixá-la entrar em sua vida sem ficar assombrado pelo ser sobrenatural que ela é. E, da mesma forma, Eli aprenderá com Oskar que por trás de toda a sua sobrehumanidade está uma garota que pode amar, pode se importar ao mesmo tempo em que é, por natureza, uma assissna fria.
A crítica que fiz do filme, enfatizando mais aspectos artísticos e traçando comparações com outros filmes e diretores, pode ser vista aqui, na resenha publicada pela Revista Projeções.

Trailer do filme.
Publicado por: Lucas Scaliza em: 04/09/2009
Texto e fotos de Lucas Scaliza (lucas.scaliza@gmail.com)

Neste domingo fotografei o XI Concurso Novos Talentos de dança realizado pela academia Primeiro Movimento. Foram três horas de aprensentações de balé, jazz, sapateado, musicais, dança livre e contemporânea. Participaram bailarinos das categorias infantil, juvenil, juvenil II e adulto. A bailarina Tamirys Candido, agora radicada em um conservatório de Viena, também participou do espetáculo, mas não estava competindo.
Seguem abaixo algumas das 390 fotos que fiz do espetáculo.














